Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 438 | página 12-13
| A DENÚNCIA DO EM DEFESA DA AÇÃO CATÓLICA |(continuação)

despertaram a JUC para a ideia da revolução brasileira. A JUC, pelo seu 'engajamento' no movimento estudantil, vê-se diante da necessidade de definir objetivos políticos mais gerais para o cristão. Por essa razão, no `Congresso dos 10 anos' realizado em 1960, no Rio de Janeiro, a JUC aprova um documento intitulado 'Diretrizes Mínimas Para o Ideal Histórico do Povo Brasileiro' onde faz a opção por um socialismo democrático e pelo seu drama de 'revolução brasileira'. O Congresso foi altamente representativo, contando aproximadamente com 500 representantes de quase todos os estados do país" (5).

As ideias da JUC marchavam...

"Logo após o Congresso dos 10 anos realiza-se o XXIII Congresso Nacional dos Estudantes, onde a JUC aparece — pela primeira vez — como força política organizada, e faz aliança política com grupos do PC do Brasil defensores de posições reformistas. Esta aliança provocou críticas entre os setores mais reacionários do clero (..) (6).

"A seguir a influência da JUC cresce em quase todos os estados. Também começa a aparecer dentro dela uma tendência de esquerda, que em alguns locais chega a tomar certa forma organizada, no que se chamava 'setor político' da JUC.

"Em três estados a JUC ampliou mais sua influência e, de maneira especial, cresceu a importância da esquerda da JUC: Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia" (7).

Em 1961, pela primeira vez, um membro da JUC, Aldo Arantes, é eleito para a presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE) em aliança com um grupo comunista de linha reformista que pouco depois se integraria ao PCB.

Um agrupamento político nascido da JUC transpunha seus próprios limites, visando uma atuação mais ampla. Foi chamado "Grupão" que, por ocasião de uma maratona estudantil conhecida com o nome de UNE-Volante — em meio a uma greve estudantil, a greve de 1/3 — transformou-se na chamada Ação Popular (AP).

"A Ação Popular — reconhecem Haroldo Lima e Aldo Arantes — originou-se de um setor da JUC" (8).

Uma corrente de homens em marcha atrás de uma ideia..."!

A AP abraça marxismo-leninismo...se incorpora ao PC do B

Em 1962, em São Paulo, realizou-se a primeira de uma série de três reuniões que definiram os rumos e posições ideológicas da AP. Foi então aprovado um documento intitulado "Estatuto Ideológico" que defendia a "revolução brasileira" e o "socialismo".

"Nela se radicando cada vez mais, e de seu espírito cada vez mais se intoxicando"!

Ao fim da greve do 1/3, a AP já se propunha a transpor os limites da política estudantil e lançar-se num âmbito mais vasto: o trabalho com camponeses e operários.

Em fevereiro de 1963, a AP realizou, na Bahia, o chamado congresso de fundação. "Foi aprovado, nesta ocasião, o 'Documento Base' que se definia pelo socialismo, pela socialização dos meios de produção. Declara-se ao lado da 'corrente socialista que está transformando a História moderna, destaca o 'papel de vanguarda da revolução soviética' e a 'importância extrema, decisiva mesmo, do marxismo tanto na teoria quanto na prática revolucionária' " (9).

O congresso elegeu também uma nova Coordenação Nacional. Entre os principais fundadores, presentes ao encontro, estavam Herbert José de Souza, Aldo Arantes, Luís Alberto Gomes de Souza, Haroldo Lima e outros, todos provenientes da JUC.

A Revolução de 1964, no Brasil, ocasionou um novo passo na trajetória da AP. Sua "Revolução Política de 1965" define a etapa da revolução brasileira como "socialista" e de "libertação nacional".

"Por essa época — dizem Haroldo Lima e Aldo Arantes — a AP ainda era uma organização idealista com elementar e disperso conhecimento do marxismo" (10).

Diversas correntes se introduziram na AP, dentre elas a chamada "Corrente 1" que propugnava uma clara tomada de posição em favor do marxismo-leninismo. Em 1968 tem lugar a "I Reunião Ampliada da Direção Nacional" que representou a vitória da "Corrente 1".

"Pela primeira vez todos os participantes de um Congresso da AP se consideravam marxista-leninistas" (11).

É o "aplauso" e o "entusiasmo" pelos que "chegaram às posições ideológicas mais radicais"!

Na III Reunião Ampliada de Direção Nacional a AP dá mais um passo na sua "marcha" e se declara oficialmente marxista-leninista. Assim o descrevem Haroldo Lima e Aldo Arantes: "Os acordes da Internacional, entoados em voz baixa para não provocar problema de segurança, saudaram, com o final da reunião, o surgimento da 'Ação Popular Marxista-leninista do Brasil' como a partir de então, passou a se chamar a antiga AP" (12). Corria o ano de 1971...

A partir de 1972 as relações entre as direções da AP e do PC do B tornaram-se diretas e frequentes.

Sempre o "aplauso" e o "entusiasmo" para com aqueles "que chegaram às posições ideológicas mais radicais"...!

Tal processo de aproximação culminou com a última circular expedida pelo Bureau político do Comitê Central da APML do B. A circular intitulava-se simplesmente: "Incorporemo-nos ao PC do B".

Eis, vista como que em laboratório, a marcha de um setor da AC universitária, desde as primeiras contestações em matéria de liturgia, à integração no PC do B.

Amplitude da manobra

Mas a manobra iniciada na Ação Católica não se limitou a levar um punhado de cabeças-quentes até sua deglutição pelo PC do B. Ela foi muito além em seus resultados, infeccionando os ambientes católicos do País como um todo, inoculando neles os germes do neomodernismo europeu. A profunda crise em que se debatem atualmente tais ambientes, a teologia da libertação marxista etc., nada mais são do que estágios adiantados da doença que inicialmente se pronunciou na AC.

Pablo Richard, sacerdote chileno, "teólogo da libertação", autor de vários livros, afirma: na JUC de 1960 "o Brasil vivia antecipadamente a efervescência do cristianismo revolucionário" (13).

O sacerdote chileno acena, pois, para uma realidade bem ampla: é todo o quadro político-religioso de nossos dias que se ressente da "marcha" ideológica iniciada na JUC.

Ainda mais significativo é o depoimento do sacerdote peruano Gustavo Gutierrez, considerado o "pai" da teologia da libertação: "Foi no Brasil e mais precisamente na JUC, no início dos anos 60, que muitas das intuições do que constituiria mais tarde a Teologia da Libertação latino-americana começaram a concretizar-se, num lento processo ligado a uma prática e, sobretudo, a uma prática política" (14).

Cabe-nos por fim uma última constatação: se tais foram a lucidez de visão e o amor à Igreja contidos no brado de alerta dado por Plinio Corrêa de Oliveira em 1943, e depois confirmados por uma longa trajetória de lutas em favor da civilização cristã, como não reconhecer hoje que sua palavra e seu exemplo continuam a ser um farol a iluminar a senda tenebrosa dos dias caóticos, carregados de terríveis ameaças, em que vivemos?

(1) Plinio Corrêa de Oliveira, "Em Defesa da Ação Católica", Editora Ave Maria, São Paulo, 1943, pp. 337-338. (2) São eles: Luiz Alberto Gomes de Souza, membro da JUC em Porto Alegre, nos anos de 1954 e 1955. Viera da JEC de Bagé e de Porto Alegre. Foi membro da equipe nacional em 1956 e 1957, encarregando-se em 1958 do trabalho latino-americano da Juventude Estudantil Católica Internacional JECI, da qual a JUC era membro. Eleito secretário geral da JECI, exerceu suas funções em Paris nos anos 1959 a 1961. Voltou ao Brasil em 1962, exercendo suas funções no Ministério da Educação. Haroldo Lima, também ex-membro da JUC, figurou entre os dirigentes que promoveram a união da AP com o PC do B em 1972. Foi um dos fundadores do PMDB baiano. Em 1982 foi eleito deputado federal e exerceu a função de vice-líder do PMDB na Câmara. Aldo Mentes, membro da JUC, foi, em 1962, eleito para a direção da UNE. Foi, juntamente com Haroldo Lima, um dos dirigentes da AP que levaram a organização a se incorporar no PC do B. Em 1982, foi eleito deputado federal pelo PMDB goiano. (3) Luís Alberto Gomes de Souza, "A JUC: os estudantes católicos e a política", Vozes, Petrópolis, 1984, pp. 95-96. (4) Haroldo Lima e Aldo Arantes, "História da Ação Popular, da JUC ao PC do B", Editora AlfaOmega, São Paulo, 1984, p. 27. (5) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., pp. 27-28. (6) Em face da marcha ideológica da JUC, o clero nacional se dividiu. Houve inicialmente — pequeno número — os que lhe procuraram cortar o passo; mas também os que se diziam apenas preocupados com o que consideravam os excessos dela, e tratavam de evitar tão somente as conseqüências mais radicais de cada passo. E houve aqueles que a ela emprestaram seu decidido e caloroso apoio. Eram os mais bem organizados. Essa história comportaria um trabalho muito mais amplo do que o presente. Registramo-la apenas, sem dela nos ocupar. (7) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., p. 28. (8) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., p. 29. (9) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., p. 37. (10) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., p. 62. (11) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., p. 72. (12) Haroldo Lima e Aldo Arantes, op. cit., p. 135. (13) Apud, Luís Alberto Gomes de Souza, op. cit., p. 10. (14) Apud, Luís Alberto Gomes de Souza, op. cit., P.9

Perlo Richard, "teólogo da Ihertação" (o qual aparece na foto participando da famosa "Noite Sandinista", no teatro da PUC de São Paulo, em 1980), afirma que, na JUC de 1960, "o Brasil vivia antecipadamente a efervescência do cristianismo revolucionário.

Haroldo Lima e Aldo Arantes asseveram que a JUC "procurava embeber-se nos pensadores católicos mais "avançados" — Emanuel Mounier, (o padre Jesuíta) Teillard de Chardin (foto), Lebret e outros".


| INTERNACIONAL |

Perigosa ação soviética no Atlântico Sul

R. Mansur Guérios

Logo após a II Guerra Mundial, e com o fim de proteger-se contra o expansionismo comunista russo, os países do Atlântico Norte assinaram um tratado político-militar. Embora apresentando cada vez mais sintomas de deterioração, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) tem de fato cumprido a missão essencial para a qual fora criada, ou seja, evitar a invasão da Europa Ocidental pela Rússia, e com ela a III Guerra Mundial. Se o mundo gozou de quatro décadas de paz relativa, deve-se, em grande medida, ao poder dissuasório da OTAN.

Nos anos 70, com a entrega do império colonial português, e a crescente expansão da influência russa na Ásia e na África, a ameaça militar comunista, antes restringida sobretudo ao norte, fez-se sentir no sul. Os soviéticos obtiveram acesso a diversos portos de águas profundas no sul da África. O porto de Beira, em Moçambique, é tido como o melhor da região. Os portos angolanos fornecem aos vasos de guerra russos uma presença no Atlântico Sul que antes não tinham.

A África do Sul, premida por razões econômicas e pelo bloqueio de vendas militares a ela imposta pelos Estados Unidos, teve que reduzir sua marinha de guerra, ficando apenas com algumas lanchas guarda-costas. A única presença militar capaz de contra restar os soviéticos é a base naval norte-americana de Diego Garcia, mas esta fica localizada a quase dois mil quilômetros, em pleno Oceano indico.

Diante da crescente ameaça militar russa no Atlântico Sul, várias vozes clarividentes propuseram, nos anos 70, a formação de um tratado parecido à OTAN, a OTAS (Organização do Tratado do Atlântico Sul), que compreenderia os países pró-ocidentais da região, especialmente Brasil, Argentina e África do Sul. Diversas circunstâncias impediram que tal acordo se concretizasse, o que representou claro triunfo da diplomacia comunista.

Hoje, essa diplomacia acaba de obter mais um êxito. No dia 21 de outubro passado, a Assembleia Geral da ONU aprovou urna resolução instituindo o Atlântico Sul como "zona de paz e cooperação". Tal resolução, infelizmente, foi apoiada pelo Brasil.

Fazendo tábula rasa da maciça presença militar cubana e russa em Angola e Moçambique, a resolução determina que "o território de um Estado não deve ser objeto de uma ocupação militar". Como se 40.000 soldados cubanos não constituíssem de fato uma ocupação! No documento não figura qualquer menção à presença naval soviética nos portos angolanos e moçambicanos, nem às grandes frotas de barcos "pesqueiros" russos na região. Embarcações estas que diversos governos, entre os quais o do Chile, têm repetidas vezes denunciado como executantes de tarefas de espionagem. Durante a guerra das Malvinas, foram esses barcos "pesqueiros" soviéticos que forneceram valiosas informações sobre a posição dos navios ingleses aos argentinos. Informações estas obtidas pela Rússia, via satélite.

Num de seus considerados iniciais e no item 5 de suas declarações, o documento, propugnando a "independência da Namíbia", nas circunstâncias atuais, concede apoio total à guerrilha promovida pela SWAPO (Organização do Povo do Sudoeste Africano). O terrorismo praticado por esse movimento comunista, que pleiteia ascender ao governo da Namíbia, foi denunciado num substancioso e documentado opúsculo — "Toda a verdade sobre a SWAPO" — lançado pela TFP norte-americana, em 1984.

A ex-embaixatriz dos Estados Unidos na ONU, Sra. Jeanne Kirkpatrick, em inúmeros pronunciamentos, denunciou a ONU como tendo se convertido num joguete nas mãos do bloco comunista liderado pela Rússia. Considerando resoluções como a citada, não é difícil admitir tal afirmação.

Apesar da posição assumida por nossa delegação na ONU, quando se efetuou a votação de 21 de outubro último, naquele organismo internacional, há brasileiros que esperam vir ainda o governo de nossa Pátria a alterar sua orientação no referente a essa grave e delicada problemática do Atlântico Sul.

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