Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 438 | página 10-11
| A DENÚNCIA DO EM DEFESA DA AÇÃO CATÓLICA |

Um brado de alerta! A dolorosa previsão que se realiza

Arnóbio Glavam

Corria o ano de 1943. O Brasil católico vinha de presenciar um acontecimento marcante de sua história: o IV Congresso Eucarístico Nacional, realizado em São Paulo. Impossível é descrever a possante influência da Igreja, o esplendor de suas cerimônias, sua magnífica unidade e a pujança de seus movimentos leigos que, na ocasião, se patentearam aos olhos de toda a Nação.

Entretanto, quais cupins introduzidos no madeiro sagrado, desenvolviam-se em certos meios católicos — quase imperceptivelmente de início — elementos de divisão e discórdia. Por aqui, lá ou acolá, tendências neomodernistas entre nós aportavam, provindas de círculos ditos "avançados" do catolicismo europeu, e procuravam reeditar a envelhecida heresia modernista tão corajosa e esplendidamente condenada pelo pontífice santo de nosso século, o grande São Pio X. Tratava-se ora de práticas de piedade e apostolado que destoavam da milenar tradição da Igreja, ora de novidades litúrgicas que punham em voga procedimentos e ritos até então proscritos pela autoridade eclesiástica.

Ambas essas tendências provinham de uma visualização nova da Religião — um neomodernismo — que se alimentava em autores católicos muito em voga na época: Emanuel Mounier, o jesuíta Teillard de Chardin, Pe. Lebret, Jacques Maritain e outros.

Em 1935, o Episcopado brasileiro fundara entre nós a "Ação Católica", organismo criado pelo Papa Pio XI para promover o apostolado leigo na Europa, após a I Guerra Mundial. Aqui estabelecida, a AC crescia como uma árvore envolvida por certa parasita que tende a estrangulá-la. Com efeito, os neomodernistas do dito "apostolado social" e do chamado "movimento litúrgico" estabeleceram-se na AC como em seu terreno próprio, e nela difundiam os desvios morais e doutrinários que contribuíram, de modo decisivo, para a imensa crise religiosa que se observa em nossos dias, no Brasil.

Naqueles longínquos idos de 1943, tal realidade gravíssima, mas sutil e difusa, quase não era percebida nos meios católicos. Notou-a, entretanto, com acuidade de visão, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e com vigor de lógica explicitou as consequências que dela decorreriam. E no ambiente ainda marcado pelos últimos ecos do pontificado de São Pio X e que mantinha as aparências de normalidade da vida católica, a voz do Prof. Plinio levantou-se num brado de alerta: "Em defesa da Ação Católica", livro-denúncia que comoveu então os meios católicos do Brasil.

A denúncia

Em sua obra, Plinio Corrêa de Oliveira advertia os católicos dos perigosos erros que se desenvolviam nos círculos da Ação Católica e os desmascarava como sendo a penetração do espírito de nosso século — nascido da Revolução Francesa de 1789 — naqueles ambientes. Por exemplo, o igualitarismo revolucionário que já então desdenhava a constituição hierárquica com que Nosso Senhor Jesus Cristo dotou a Sua Igreja, tendendo a nivelar clero e fiéis; o liberalismo — uma abusiva interpretação da liberdade humana, importando praticamente na independência de crítica e de conduta face à doutrina, à moral e à disciplina da Igreja — que levava certos ambientes da Ação Católica desprezar ritos litúrgicos aprovados e incentivados pela Santa Sé, e práticas tradicionais de piedade como contrárias a uma espiritualidade "esclarecida" e "cristocêntrica". Assim eram repudiados ou sabotados a devoção a Nossa Senhora, o Rosário, a Via Sacra, os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, por exemplo.

Não faltava também uma falsa aplicação da expressão "fraternidade", que importava na negação de tudo quanto separa e divide os homens mesmo legitimamente: as fronteiras entre as nações, como também entre as correntes filosóficas, entre a verdadeira e as falsas religiões etc. Daí a presença de uma nítida tendência para o interconfessionalismo nos referidos setores da Ação Católica: não se procurava mais esclarecer os não católicos com vistas à sua conversão — nos casos em que a prudência e o zelo o recomendassem — mas sim manter em relação a eles uma política de concessões, silêncios e omissões que só servia para confundir e desedificar os fiéis e a ninguém convertia. Eram, no apostolado "aggiornato" da Ação Católica, a chamada "tática do terreno comum" ou as demasias do apostolado dito "de infiltração", que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira meticulosamente descreve, analisa e refuta em seu livro.

Fermentando setores da Ação Católica, o mencionado espírito e os princípios com ele correlatos não poderiam deixar de produzir consequências revolucionárias sempre mais amplas e extremadas. Tal foi o histórico brado de alerta de Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro verdadeiramente profético.

Dizia o autor naquela ocasião: "É evidente que muitas pessoas não percebem as consequências profundas que estão implícitas nas ideias que professam, e outras nem sequer professam tais ideias na sua totalidade, aceitando, pelo contrário, apenas uma ou outra. A história da filosofia nos demonstra, porém, que sendo o homem naturalmente lógico, ele jamais aceita uma ideia sem experimentar a necessidade de aceitar as consequências que dela decorrem(...).

"Assim, as pessoas que aceitaram algumas ideias costumam apoiar, aplaudir as que caminharam mais avante no mesmo terreno, revelando singular entusiasmo pelos que chegaram às posições ideológicas mais radicais, e uma real desprevenção de espírito para perceber os erros flagrantes que nestas pessoas se notam. Em outros termos, estamos em presença de uma ideia em marcha, ou melhor, de uma corrente de homens em marcha atrás de uma ideia, nela se radicando cada vez mais e de seu espírito cada vez mais se intoxicando" (1).

Chegamos a 1987. Quase meio século se passou. As ideias que então germinavam, "marcharam"! atrás delas marchou "uma corrente de homens", "nela se radicando cada vez mais e de seu espírito cada vez mais se intoxicando".

Fazendo a história dessa "marcha", embora de um quadrante ideológico oposto ao do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, antigos militantes e dirigentes da Ação Católica Universitária, a JUC (Juventude Universitária Católica) testemunha a espetacular realização da dolorosa previsão feita pelo insigne pensador católico há 44 anos (2).

A tendência igualitária e liberal em matéria de doutrina e liturgia católicas, presente nos aludidos setores da Ação Católica — como o denunciou Plinio Corrêa de Oliveira — se corporificou e radicalizou, segundo depoimento daqueles antigos próceres da JUC. Os homens que assim deixaram influenciar, transpuseram os limites do campo especificamente religioso e se abriram para o político-social, percorrendo neste os diversos matizes da esquerda: do ideal reformista ao revolucionário; deste a prática revolucionária, na AP (Ação Popular); da AP para a Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil, e daí para a integração no Partido Comunista do Brasil (PC do B).

São as consequências que desta ideia inicial decorreram.

Vejamos as linhas essenciais desse triste processo, conforme atestam os aludidos ex-dirigentes jucistas.

A JUC abeberava-se nos pensadores católicos mais "avançados"

No dia 9 de julho de 1935 foram promulgados os estatutos da Ação Católica brasileira aprovados pela Santa Sé. Compunham seus organismos "fundamentais" homens e mulheres, juventude masculina e juventude feminina. Nestas duas últimas aparecem a JEC e a JECF para estudantes secundários e a JUC e a JUCF para os universitários; a JAC e a JACF para os trabalhadores agrícolas, e a JOC e a JOCF para a juventude operária.

O desvio inicial da JUC (Juventude Universitária Católica) deu-se a propósito das inovações litúrgicas. Eis como se exprime Luís Alberto Gomes de Souza:

"Produziu-se então um grande debate em torno das reformas litúrgicas e das ideias de Jacques Maritain. A JUC, e especialmente a JUCF, deram especial importância, em muitas cidades, à participação ativa no culto através das novas exigências litúrgicas que escandalizavam os setores eclesiais tradicionais (...).

"Um dos dirigentes da Ação Católica de São Paulo daquela época, Plinio Corrêa de Oliveira, discordando da orientação nacional de Amoroso Lima, escreveu um livro `Em Defesa da Ação Católica' para denunciar o que ele considerava os erros liberais modernistas" (3).

Entretanto, os setores "liturgicistas" (como eram então conhecidos) da JUC extraíam consequências de suas ideias já para campo social. Atestam-nos dois outros destacados dirigentes da JUC de então, Haroldo Lima e Aldo Arantes: "A problemática social penetrava cada vez mais nos círculos católicos. Houve setores que formularam o dilema do que fazer, nos seguintes termos: matar a fome para depois ensinar a religião, ou ensinar a religião para depois matar a fome?" (4).

Continuam os mesmos autores: a JUC procurava embeber-se nos pensadores católicos mais 'avançados' — Emanuel Mounier, Teillard de Chardin, Lebret e outros".

Da JUC nasce a "Ação Popular"

"Uma melhor compreensão dos problemas estruturais brasileiros, o desenvolvimento da luta de massas no país e o êxito da Revolução cubana, em 1959,

Na época da foto, na qual os vários setores da Ação Católica de São Paulo cumprimentam o Arcebispo metropolitano, D. José Gaspar de Affonseca e Silva (no centro), o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (o primeiro à esquerda) detectou os primeiros sintomas do vírus progressista nessa organização de apostolado leigo, os quais iriam acarretar trágicas consequências.

O autor de "Em Defesa da Ação Católica" recebeu carta de louvor, em fevereiro de 1949 (ver fac-símile) ...

... escrita em nome do Santo Padre Pio XII, então reinante, por Mons. João Batista Montini, futuro Paulo VI, e na época Substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé.

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