de que o nascimento do menino seria motivo de alegria para todos. No dia 24 de junho, apenas os últimos raios do sol deixavam de iluminar a terra, do Oriente ao Ocidente imensas fogueiras começavam a arder nas cidades, aldeias e mesmo simples cabanas, em sinal de regozijo pelo nasci mento do Batista. Eram as chamadas "fogueiras de São João. Por que fogueiras? Para segundo D. Guéranger, simbolizar o que dele disse o Apóstolo Virgem: "Ele era uma luz ardente e luminosa" (Jo.5, 35).
Nos tempos de fé, acender as fogueiras nesse dia era um privilégio reservado às pessoas mais gradas da ordem civil. Assim, em 1648, foi o próprio Rei Luís XIV quem fez arder a grande fogueira montada na Place de Grève, em Paris, como o haviam feito seus antepassados. Aliás, eram as municipalidades que arcavam com a organização e despesas dessas comemorações, cabendo ao clero, em muitos lugares, benzer a pilha de lenha antes que a esta fosse ateado o fogo.
Na parte especificamente religiosa, um período penitência! precedia a festividade do nascimento de São João Batista, a exemplo do que precedia ao do popularmente conhecido por "Quaresma do Advento". E eram três também, como por ocasião da vigília do Natal, as Missas que se celebravam na vigília dessa festa: a primeira, noturna como a do Galo, lembrava seu título de precursor; a segunda, ao nascer do dia, honrava seu batismo; e a terceira exaltava sua santidade. E assim, solenes, eram também todos os ofícios litúrgicos do dia 24 de junho.
Tanto respeito tinham nossos maiores pela santidade dessa festa que, no ano de 841, a batalha de Fontenoy — na qual Lotário foi derrotado por seus irmãos, Carlos, o Calvo e Luís, o Germânico — foi adiada de comum acordo pelos dois exércitos por coincidir com a vigília da festa de São João Batista, para o dia 25 de junho.
"João é o seu nome"
Dos evangelistas é São Lucas quem nos dá, no capítulo 1? de seu Evangelho, mais detalhes a respeito do nascimento de João Batista. Entrando o sacerdote Zacarias no templo, no seu dia de turno, para oferecer o incenso, viu do lado direito do altar o Arcanjo Gabriel, enviado pelo Altíssimo para comunicar-lhe que suas preces haviam sido ouvidas. Sua mulher daria finalmente à luz um filho que seria grande diante do Senhor e pleno do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe. Ora, Zacarias era casado com Isabel, sendo ela estéril. Ambos já caminhavam para a velhice. Por isso teve ele um momento de dúvida, razão pela qual foi castigado pelo Arcanjo com a mudez até que se realizasse o predito.
Assim Isabel concebeu, permanecendo cinco meses oculta, em ação de graças. No sexto mês de gravidez recebeu a visita de sua prima, Maria Santíssima, que já trazia em seu seio, como num tabernáculo, o Filho de Deus. Apenas está a saudou, sentiu Isabel o menino exultar de alegria em seu seio. Nesse momento, à voz de Maria, recebeu ele o Espírito Santo, segundo D. Guéranger. Aos louvores que então recebeu de Isabel, Maria Santíssima respondeu proclamando as grandezas que o Criador tinha feito nela, e, por meio dela, a todo o gênero humano. Permaneceu a Virgem Santíssima com Isabel até o nascimento do menino.
Maravilhados, os parentes e vizinhos de Isabel em grande alvoroço congratularam-se com ela, que até então tinha vivido o opróbrio da esterilidade, considerado então pelos israelitas como um castigo. E, aos oito dias, quando se tratava de circuncidar o menino e dar-lhe um nome, todos o chamavam Zacarias, nome do pai. "De nenhum modo, respondia a mãe, mas chamar-se-á João". Os parentes não se deixavam convencer, pois nenhum dos antepassados do recém-nascido tinha esse nome. Recorreram então ao pai para uma palavra definitiva. "Por acenos", diz o Evangelho, fizeram-lhe compreender do que se tratava — o que faz supor que, além de mudo, Zacarias ficara também surdo. Ele então, pedindo uma tabuinha, nela escreveu: "João é o seu nome". No mesmo instante se lhe desatou a língua e começou, cheio do Espírito Santo, a louvar o Senhor e a profetizar. O Evangelho registra suas palavras como sendo o "Cântico de Zacarias".
"E divulgaram-se todas estas maravilhas por todas as montanhas da Judéia; e todos os que as ouviam as ponderavam em seu coração dizendo: quem julgas que virá a ser este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele". E, finaliza o evangelista, "o menino crescia e se fortificava no espírito; habitava os desertos até o dia de sua manifestação" (Lc. 1, 1 a 80). São Mateus, por sua vez, esclarece que, no deserto, "João Batista vestia-se com peles de camelo atadas por um cinto de couro aos rins, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre" (Mt. 3,4).
O maior elogio
Adulto, o Precursor recebeu dos lábios divinos de Jesus o maior elogio que se pode fazer de um homem. Depois de ter perguntado por três vezes à multidão — "O que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento?", "Um homem vestido de seda?", "Um profeta?" — respondeu a Sabedoria Encarnada: "Sim, vos digo Eu, e ainda mais do que um profeta. Porque dele está escrito: eis que envio o meu anjo diante de ti, o qual preparará o teu caminho". E acrescentou: "Na verdade vos digo que entre os nascidos das mulheres, não veio a este mundo outro maior que João Batista" (Mt. 11, 7 a 12).
Essa afirmação é tanto mais significativa quanto o Precursor fora precedido por toda uma plêiade de santos do Antigo Testamento como Abraão, Isaac, Moisés, Elias, e pelo próprio São José, a quem foi dada a graça insigne de ser o pai adotivo do Filho de Deus e o casto esposo da Virgem das virgens.
São Pedro Damião, ao comentar que a primeira e mãe de todas as basílicas da Cristandade, a de São João de Latrão, em Roma, lhe é dedicada, comenta: "Escolha marcante certamente essa, que dá a João tal primazia na própria cidade consagrada pela morte gloriosa dos dois luzeiros do mundo. Pedro, de sua cruz, e Paulo, sob o gládio, vêem o primeiro lugar pertencer a um outro. Roma torna-se purpura com o sangue de inumeráveis mártires, mas suas honras vão todas ao bem-aventurado Precursor. João, por toda parte, é o maior".
A basílica patriarcal dos Pontífices romanos, a de São João de Latrão, em Roma, é dedicada ao Precursor do Messias.
Festa de São João numa fazenda fluminense, durante o II Império
DESDE a época da colonização, a festa de Sio João Batista foi intensamente festejada no Brasil, com esmagas, pratos típicos e a tradicional fogueira.
A professora alemã, Ina Von Binzer, que chegou ao Brasil em 1881 e aqui permaneceu por três anos, cuidando da educação de jovens pertencentes a famílias de destaque na sociedade da época, assim descreve uma festa de ~João — oferecida aos pretos — , que pretendeu na fazenda do Dr. Rameiro, situada no Estado do Rio de Janeiro, no dia 24 de junho daquele ano (*):
"O Dr. Rameiro organiza essa festa todos os anos, nesse dia, também onomástico de um filho, atualmente na Europa (com certeza em Paris).
Para os escravos, é uma espécie de festa da colheita, porque ao mesmo tempo termina a colheita de café (...).
Da. Gabriela já me contara com orgulho, que no dia de São João matam um boi e dois porcos para distribuí-los aos pretos, no dia da festa. (...).
Quando escureceu começou a festa.
No pátio, fechado pela casa em três lados e por uma fila de palmeiras no quarto, colocaram uma grande mesa em forma de ferradura.
Sobre a mesa, grandes assados já cortados, montes de arroz (naturalmente cor de tijolo, por causa dos tomates), travessas gigantes de feijão preto acompanhadas pelo seu "inseparável complemento, o bolo de fubá, o "angu"; como sobremesa, havia compota de batata doce, milho novo cozido em leite (canjica) seguida pelo melado, goiabada, que é um doce maravilhoso preparado com a fruta da goiabeira e até vinho a "discrétion".
E como os pretos se apresentaram cuidadosamente arrumados!
No começo vagarosos e acanhados, depois confiantes e finalmente aparecendo segundo suas categorias, colocando-se em primeiro lugar os velhos e os adultos.
A mocidade teve de esperar, não se podendo sentar senão cem pessoas de cada vez.
Era muito engraçado apreciar como essa gente boa e simplória se tinha enfeitado.
Os homens demonstravam visível predileção pelos paletós que haviam recebido de presente, ou tinham comprado por pouco preço de um mascate ambulante. Um deles envergava uma casaca velha! Os que não tinham conseguido obter um paletó usavam ao menos chapéu e de preferência cartolas!
As mulheres mostravam-se mais graciosas nos seus vestidos multicolores. Algumas, orgulhosamente ostentavam todas as cores do arco-íris: turbante vermelho, o vestido azul e o cinto verde, nenhum constrangimento lhes causavam.
espetáculo tornou-se particularmente belo e pitoresco, quando uma infinidade de lamparinas de cores diversas começaram a brilhar, iluminando a cena, sob o Cruzeiro do Sul que faiscava no límpido céu de inverno.
Assistimos a tudo de uma das janelas da casa e você bem pode calcular o interesse que despertam essas coisas, ainda mais entre nós europeus. (...).
Nunca mais me esquecerei do pequeno fato dessa noite que desejaria saber fixar com pincel e tintas para poder mostrar-lhe todo seu encanto.
Acompanhada pelo constante bater dos tambores e matracas, uma graciosa mulata com os olhos fechados, o rosto voltado para as estrelas, e o braço direito estendido, caminhava descalça sobre as brasas ardentes do fogo extinto, enquanto recaiam sobre elas as bolas multicolores dos fogos de artifícios, riscando de luzes a escuridão.
Parecia caminhar com a segurança dos sonâmbulos.
Não podia acreditar no que meus olhos viam e com uma espécie de temor, observava-a com a respiração suspensa.
Mas, depois de fazer isso, ela calçou os sapatos calmamente; dizem os pretos que no dia de São João o fogo não queima ninguém".
Resistir aos assaltos dos próprios filhos da Igreja
AS PRERROGATIVAS de piedade, de zelo e de doutrina que Vos distinguem, e sobretudo a devoção que professais por esta Santa Sé apostólica, são uma garantia de que Vós me sereis de uma ajuda real para manter intato o depósito da Fé, para guardar a disciplina eclesiástica e para resistir aos assaltos disfarçados aos quais a Igreja está exposta, não tanto da parte de seus inimigos declarados, mas sobretudo, da parte de seus próprios filhos.
Não é extraordinário encontrar pessoas que lançam dúvidas e incertezas sobre a verdade, e também afirmações obstinadas sobre erros manifestos, cem vezes condenados, que, não obstante, se persuadem de que não se afastaram da Igreja, por que elas têm às vezes seguido as práticas cristãs. Oh! quantos navegadores, quantos pilotos, e — que Deus não permita! — quantos capitães confiaram nas novidades profanas, e com a ciência mentirosa de nossa época, naufragaram antes de chegar ao porto!
No meio de tantos perigos, em todas as ocasiões, eu não faltei em fazer ouvir minha voz para chamar os transviados, para apontar os erros e para traçar aos católicos a rota a seguir. Mas minhas palavras não foram sempre compreendidas e interpretadas como deviam, apesar de terem sido claras e precisas. Assim muitos, seguindo o exemplo funesto de nossos adversários que espalham a cizânia no campo do Senhor, para chegar à confusão e à desordem, não se envergonharam de dar-lhes interpretações arbitrárias, atribuindo-lhes um significado, na realidade, contrário ao desejado pelo Papa, e guardando como sanção um prudente silêncio.
E, nestas duras condições, eu tenho uma urgente necessidade do concurso válido e eficaz de vossa ação, oh! meus filhos bem-amados, tanto nas vossas diversas dioceses, para as quais, com a dispensa papal, Vós retomareis, como na Cúria e nas Congregações Romanas, porque, pela dignidade a que fostes elevados, unidos de espírito e de coração ao Papá, Vós estais entre os primeiros defensores da sã doutrina, entre os primeiros mestres da verdade e os proclamadores das exatas vontades do Papa. Vós pregareis a todos, mas especialmente aos eclesiásticos e aos outros religiosos, que nada desagrada tanto Nosso Senhor Jesus Cristo e ao seu vigário, do que discórdia em matéria de doutrina, porque na desunião e na contestação, Satanás triunfa sempre e domina os que ele seduziu" (in "Critique du Libéralisme", n? 137, p. 360, 15-6-1914, discurso de São Pio X aos novos Cardeais, no Consistório de 27-5-1914).