Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 421 | página 10-11

Pelos caminhos de Fátima, ao encontro de Francisco

José Francisco Gouveia

Francisco Morto, um dos três pastorezinhos a quem Nossa Senhora apareceu em Fátima, no ano de 1917

"FRANCISCO! Tu, do que gostas mais: de consolar a Nosso Senhor, ou de converter os pecadores, para não irem mais almas para o Inferno?

- Gosto mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no último mês, se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido? Eu quereria consolar a Nosso Senhor, e depois, converter os pecadores, para que não O ofendessem mais".

Assim respondeu Francisco Marto à sua prima Lúcia dos Santos, dois dos três pastorezinhos a quem Nossa Senhora apareceu em Fátima, no ano de 1917.

*

FRANCISCO nascera em 11 de julho de 1908. Parecia-se muito com seu pai. Era um menino robusto, corajoso, de fisionomia serena e feições regulares, amável, respeitoso e obediente. Era pacífico e condescendente por natureza. Se lhe negavam seus direitos quando ganhava nas brincadeiras, cedia sem resistência, respondendo apenas: "Pensas que ganhaste tu?! Pois sim! A mim, isso não me importa!"

Segundo sua prima Lúcia, "nos jogos, era bastante animado; mas poucos gostavam de jogar com ele, porque perdia quase sempre. Eu mesma confesso que simpatizava pouco com ele, porque o seu natural pacífico excitava por vezes os nervos de minha demasiada vivacidade. Às vezes, pegava-o por um braço, obrigava-o a sentar-se no chão ou nalguma pedra, mandava-lhe que estivesse quieto, e ele obedecia-me como se eu tivesse uma grande autoridade. Depois, sentia pena, ia buscá-lo pela mão, e ele vinha com o mesmo bom humor, como se nada tivesse acontecido. Se alguma das outras crianças empenhava-se em tirar-lhe alguma coisa que lhe pertencesse, dizia: 'Deixa lá! A mim, que me importa?!' Sempre a sorrir, sempre amável e condescendente, brincava com todas as crianças indistintamente. Não repreendia ninguém. Apenas às vezes se retirava, quando via alguma coisa que não estava bem. Se se lhe perguntava por que se ia embora, respondia: 'Porque vocês não são bons'; ou 'Porque não quero brincar mais'".

O fato de Francisco ter boa índole não significava que fosse um menino sem energia e fraco de vontade. Seu pai - "ti Marto", como era chamado - dizia que ele "era mais bravo, mais irrequieto que a irmãzinha. Por qualquer coisa não estava com tanta paciência, por qualquer coisa era uma mexida, que até parecia um bezerro".

E continua: "Não era nada medroso. Ia de noite sozinho a qualquer lugar escuro, sem mostrar receio ou sequer contrariedade. Brincava com os lagartos e as cobras que encontrava; fazia-as enrolar-se em volta de sua vara e dava-lhes de beber, nos buracos das pedras, o leite das ovelhas. Andava à cata das lebres, raposas e toupeiras".

O pequeno tinha uma alma particularmente aberta às belezas espalhadas por Deus no universo criado. Admirava-se da imensidade do céu e da beleza das estrelas - "lâmpadas que Nossa Senhora e os anjos acendiam" para iluminar as trevas da noite. Mas, o de que ele mais gostava era do sol que via surgir por trás dos montes, que para ele era "a lâmpada de Nosso Senhor", mais bonita que todas as outras. Os raios do sol filtrando através das vidraças encantavam-no. As gotinhas de orvalho irisadas pelo sol eram para ele de uma beleza toda especial.

*

QUANDO da aparição da Santíssima Virgem, na Cova da Iria, Lúcia, Francisco e sua irmã Jacinta tinham respectivamente dez, nove e sete anos de idade. Somente sua prima conversava com Nossa Senhora. Ele tinha que se conformar em ouvir o que as pequenas pastoras lhe contavam daquilo que a Mãe de Deus lhes havia comunicado, pois somente via a aparição. Mas, manifestando todo seu contentamento na promessa de ir para o Céu, cruzando as mãos sobre o peito, dizia: "Ó minha Nossa Senhora! Terços, rezo todos quantos Vós quiserdes!"

Um dia, disse à sua prima: "O de que mais gostei foi ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos colocou no peito. Gosto tanto de Deus! Mas Ele está tão triste por causa de tantos pecados! Nós nunca havemos de fazer nenhum".

Em outra ocasião, quando levaram o rebanho de ovelhas a pastar, Jacinta ficou pensativa, sentada numa pedra. Lúcia a interpelou:

- "Jacinta! Vem brincar.

- Hoje não quero brincar.

- Por que não queres brincar?

- Porque estou pensando. Aquela Senhora disse-nos para rezarmos o terço e fazermos sacrifícios pela conversão dos pecadores. Agora, quando rezarmos o terço, temos que rezar a Ave-Maria e o Padre-Nosso inteiros! E os sacrifícios, como os havemos de fazer?

- Demos a nossa merenda às ovelhas - disse Francisco - e fazemos o sacrifício de não merendar!"

Dito e feito. As crianças ficaram sem a refeição, e passaram o dia - como dizia Lúcia - "que nem o do mais austero cartuxo!"

O ideal de Francisco, após as aparições de Maria Santíssima, foi o de consolar a Nosso Senhor Jesus Cristo. Dizia com frequência: "Estou pensando em Deus, que está tão triste por causa de tantos pecados! Se eu fosse capaz de lhe dar alegria!" Ou então: "Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!..."

Lúcia - hoje religiosa carmelita em Coimbra - conta-nos em suas memórias um fato pitoresco e edificante, ocorrido com seu primo:

"Um dia, passávamos pela minha casa, em frente da casa de minha madrinha de batismo. Ela acabava de fazer a água-mel e chamou-nos para nos dar um copo dela. Entramos, e o Francisco foi o primeiro a quem ela deu o copo, para que bebesse. Ele o pega e, sem beber, passa-o à Jacinta, para que beba primeiro, comigo; e, entretanto, numa meia volta, desapareceu.

- Onde está o Francisco? - pergunta a minha madrinha.

- Não sei; não sei! Ainda agora aqui estava!

- Não apareceu, e a Jacinta comigo, agradecendo a dádiva, fomos ao encontro dele, onde não duvidamos um instante de que estaria sentado na beira do poço, já tantas vezes mencionado.

- Francisco! Tu não bebeste a água-mel! A madrinha chamou tantas vezes por ti, mas não apareceste!

- Quando peguei no copo, lembrei-me de repente de fazer aquele sacrifício para consolar a Nosso Senhor, e enquanto vocês bebiam, fugi para aqui".

Em certa ocasião, tendo encontrado uma corda no caminho por onde conduziam suas ovelhinhas, resolveram dividi-la em três para atá-la à cintura, e oferecer a Deus aquele sacrifício, pois a corda magoava-os muito. As vezes a Jacinta deixava até correr algumas lágrimas, por causa do incômodo que lhe causava aquela penitência.

Na aparição do dia 13 de setembro, Nossa Senhora disse aos três pastorezinhos: "Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda. Trazei-a só durante o dia".

*

FRANCISCO preferia fazer suas orações e sacrifícios sozinho, ocultando-se inclusive de Lúcia e Jacinta. Estava sempre rezando de joelhos, ou "pensando", como dizia, "em Nosso Senhor, triste por causa de tantos pecados".

Sua prima perguntava-lhe:

- "Francisco! Por que não me dizes para rezar contigo, e mais a Jacinta?

- Gosto mais de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor, que está tão triste!"

Quando ia à escola com Lúcia, muitas vezes, chegando perto da igreja de Fátima, dizia: "Olha! Vai tu à escola. Eu fico aqui, na igreja, junto de Jesus escondido. Não me vale a pena aprender a ler; daqui a pouco vou para o Céu. Quando voltares, vem aqui chamar-me".

Depois que adoeceu, pedia à sua prima que, quando passasse pela igreja, fosse dar muitas saudades suas a Jesus escondido. E acrescentava: "O que me dá mais pena é já não poder estar algum tempo com Jesus escondido ".

Um fato que mostra bem uma característica marcante de sua personalidade é o seguinte diálogo, que com ele estabeleceram duas senhoras que o foram visitar. Elas lhe perguntavam sobre a carreira que ele desejaria abraçar quando crescesse.

"- Queres ser carpinteiro?

- Não, senhora - respondia o pequeno. E logo a outra:

- Queres ser militar?

- Não, senhora.

- E doutor, não gostarias de ser?

- Também não.

- Eu já sei o que tu gostarias de ser... Ser Padre! Dizer a Missa.., confessar a gente... pregar na Igreja... Não é?

- Não, senhora. Também não quero ser Padre.

- Então, que queres tu ser?

- Não quero ser nada. Quero morrer e ir para o Céu"...

*

"NA DOENÇA, o Francisco mostrou-se sempre alegre contente", diz-nos a Irmã Lúcia. E às vezes lhe perguntava:

- "Sofres muito, Francisco?!"

- Bastante; mas não importa. Sofro para consolar a Nosso Senhor; e depois, daqui a pouco, vou para o Céu!"

A religiosa carmelita comenta em suas memórias alguns episódios impressionantes dos últimos dias do pequeno Francisco. Eis alguns deles:

"Diante de pessoas grandes que o visitavam, mantinha-se em silêncio, e respondia, ao que lhe perguntavam, em poucas palavras. As pessoas que o visitavam, tanto da terra como de fora, sentavam-se junto da cama dele, às vezes longo tempo, e diziam: 'Não sei que tem o Francisco! A gente sente-se aqui bem!'. Algumas vizinhas comentavam, um dia, com minha tia e minha mãe, depois de haverem estado um bom espaço de tempo no quarto de Francisco: 'É um mistério que a gente não entende! São crianças como as outras, não nos dizem nada, e junto delas sente-se um não sei que diferente das demais!' - 'Parece que se sente, ao entrar no quarto de Francisco, o que sentimos ao entrar na igreja' - dizia uma mulher vizinha de minha tia".

E acrescentava: "Materialmente, são, como dizem, crianças como as outras. Mas se essa boa gente, tão habituada ao material da vida, soubesse elevar um pouco o espírito, veria, sem dificuldade, que nelas havia algo que bastante as distinguia".

Na véspera da morte de Francisco, Lúcia e Jacinta passaram todo o dia aos pés de sua cama. À noite, ao se despedir dele, disse-lhe sua prima:

"- Francisco! Adeus. Se fores para o Céu esta noite, não te esqueças lá de mim, ouviste?!

- Não te esqueço, não; fica descansada. E, agarrando-me a mão direita, apertou-ma com força por um bom tempo, olhando para mim com as lágrimas nos olhos.

- Queres mais alguma coisa? - perguntei-lhe com as lágrimas correndo-me também já pelas faces.

- Não! respondeu-me com voz sumida.

Como a cena estava se tornando demasiado comovedora, minha tia mandou-me sair do quarto.

- Então adeus, Francisco! Até ao Céu. Adeus até ao Céu!"...

No dia seguinte, 4 de abril de 1919, o pequeno pastor entregou brandamente sua alma a Deus, por meio dAquela que lhe havia prometido vir buscá-lo e levá-lo para o Céu!

Residência da família Marto, onde viveu e morreu o pequeno Francisco.


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