Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 421 | página 06-07

| A REALIDADE CONCISAMENTE |


Para apaziguar os guerrilheiros do M-19, o governo colombiano dispendeu, nos últimos três anos, soma equivalente a 42,3 bilhões de cruzeiros, segundo o Procurador-Geral do Estado, Rodolfo Gonzales Garcia. Graças a esse programa de reabilitação, 1217 guerrilheiros anistiados receberam terras, créditos para agricultura, táxis, empréstimos para abrir pequenas indústrias, e até bolsas de estudo no Exterior. No total, o montante de despesas correspondeu ao orçamento da Justiça colombiana em 1984.

Conforme denúncia da Sociedade de Agricultores da Colômbia ("O Globo", de 30-11-85), ao invés de deporem as armas, os guerrilheiros continuam a perpetrar atentados pelo país afora, valendo-se agora da anistia. Sua mais espetacular ação nos últimos meses, como se sabe, consistiu na tomada do Palácio da Justiça, resultando daí cem mortes.

"Catolicismo" já comentou em sua edição de novembro p.p. (n° 419) os resultados dessa nefasta política, que se obstina em ver boas intenções nos guerrilheiros, deixando à mercê destes vítimas infelizes.


Na África negra, de volta à neo-barbárie socialista, cometem-se atrocidades inauditas.

Assim, Uganda - descrita outrora por Churchill como a "pérola da África" - vive hoje em plena anarquia, dilacerada por conflitos tribais.

Assassínios de prisioneiros deste ou daquele bando rival, com requintes de crueldade e violências sexuais, tornaram-se ali rotina, conforme relatam os correspondentes internacionais. Segundo o diário católico "Munno", referido pelo "Jornal do Brasil" de 3-11-85, soldados do governo baleiam e esfaqueiam civis, sequestram mulheres e meninas, violando-as em fila. Militares patrulham a capital com rifles soviéticos.

Encontram-se esqueletos humanos pelas ruas, ou enterrados em fossas comuns. Por outro lado, é tal a miséria que os hospitais vão desaparecendo por falta de sabonete, água, atadura, algodão e toalha de papel.

Frutos amargos do "socialismo com características africanas", exaltado por certas tubas da propaganda ocidental...


Curso para sindicalitas brasileiros na Rússia. É a proposta do vice-presidente do Departamento de Relações Internacionais do Conselho Central dos Sindicatos Soviéticos, Leonid Visseloviski, ao desembarcar em Recife para uma conferência na sede local do Sindicato dos Tecelões. Segundo o representante comunista, o sindicalismo brasileiro "necessita de muito apoio, pois está integrado por jovens sem a devida experiência" ("Diário de Pernambuco", de 12-12-85).

Certamente a fim de transmitir know-how soviético na matéria, Visseloviski foi convidado para visitar sindicatos, associações de classe e comunidades de base em Recife.

O visitante considera natural que não haja greves na Rússia. Eis a explicação: "lá os sindicatos são fortes e solucionam os problemas"...

Entre nós, se os sindicatos não são tão fortes como quereria o visitante russo, temos um prêmio de consolação: as ditaduras dos piquetes encarregam-se de perseguir e espancar os que não aderem às greves, como temos visto recentemente. Não parece, pois, necessário aprender na Rússia o que a esquerda "católica", inspirada na Teologia da Libertação, já pratica aqui.


Na lixeira do sanitário de um Boeing da VASP havia um bebê recém-nascido, encontrado pela equipe de limpeza do avião, no aeroporto de Belém, segundo notícia amplamente divulgada por órgãos da imprensa nacional, nas primeiras semanas de dezembro último.

A própria mãe – uma professora – confessou ter jogado o filho no lixo assim que o deu à luz.

Fatos horrendos como este já deixaram de ser excepcionais em nosso País. Recentemente, uma menor de idade deu à luz em Salvador e jogou a filha recém-nascida do quarto andar de um prédio. O embrulho contendo o corpo foi encontrado pela zeladora. Em Rio Branco, no depósito de lixo municipal, achou-se o cadáver de uma recém-nascida. O corpo apresentava sinais de violência, e presume-se que tenha sido esganada após o parto, pois apresentava marcas roxas na garganta, além de ter vertido sangue pelos ouvidos.


Os comunistas chineses só permitem que haja um filho por família. Talvez em algumas áreas o governo passe a autorizar o nascimento de um segundo filho, se o primeiro for menina – veicula o "China Daily", reproduzido pelo "Jornal do Brasil" de 7-12-85. É muito comum o infanticídio de meninas quando o primeiro filho não é varão, pois a mulher é desprezada na China.

Em 1984, cerca de um terço de todas as gestações foram abortadas: houve quase 18 milhões de nascimentos e 8,89 milhões de abortos.

Esse é o país que vai tomando ares "democráticos" aos olhos de certa intelligentsia ocidental, de políticos e de incontáveis órgãos de comunicação, a ponto de estar recebendo maciço apoio econômico e publicitário do macrocapitalismo.

O infeliz casal chinês, com um único filho e as migalhas de propriedade privada concedidas pelo Estado, acreditará nessa propalada "abertura" capitalista da China?


0 uso de saias para homem, além de brincos e maquiagem, começa a ser introduzido no Brasil, numa cópia servil do que se passa em Paris, Londres e Nova York. Pintores, artistas, punks e cantores de rock já transitam à noite por São Paulo da maneira acima descrita, segundo noticia "City News", de 24-11-85.

O delirante igualitarismo moderno tende a eliminar toda e qualquer distinção entre os sexos; enquanto o homem começa a adotar indumentária feminina, a mulher procura ostentar uma masculinidade que não se coaduna com as nobres delicadezas e graças que lhe são próprias. Exemplo frisante é o uso quase generalizado de calças compridas pelas mulheres.

As características peculiares de cada sexo, longe de constituírem razão para contendas, ressentimentos e rivalidades, devem ser sábia e harmonicamente preservadas, segundo os ditames da Providência, que assim ordenou e dispôs a natureza das coisas.

Frei Boff, em pleno período de "silêncio obsequioso" imposto pela Santa Se, lançou em Ipanema, Rio de Janeiro, o livro Francisco de Assis, homem do Paraíso, ilustrado pelo pintor Nelson Porto, segundo informa o "Jornal do Brasil" de 4-12-85. Espécie de antologia poética interpretada conforme a Teologia da Libertação, recebeu o aval de D. Adriano Hipólito Mandarino, Bispo de Nova Iguaçu, franciscano como Frei Boff e da mesma linha ultra-progressista.

A publicação, que defende a chamada "opção preferencial pelos pobres", custa Cr$250.000.

Não deve causar espanto ao leitor o elevado preço do livro, pouco acessível aos pobres, pois os apreciadores da obra encontrar-se-ão preferencialmente nas classes mais favorecidas. É oportuno lembrar a propósito a frase do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: "o esquerdismo entre nós não é um fenômeno de massa, mas de clube rico e de sacristia".


"Considero Jaruzelski um patriota", declarou Walesa ao "Die Welt", da Alemanha Ocidental, conforme veicula o "Jornal do Brasil" de 20-12-85.

Tempos atrás, certa imprensa pretendia ver no líder de "Solidariedade" um cruzado anticomunista. Na verdade - conforme ele mesmo chegou a declarar - Walesa desejava para a Polônia uma espécie de regime socialista autogestionário, meta final do comunismo, e não era um inimigo real deste. Isso explica que, nos momentos decisivos, Walesa se tenha recusado a apoiar a ala dura de "Solidariedade", preferindo, ao contrário, negociar com o governo em condições desfavoráveis.

Agora, após o escandaloso elogio de Walesa ao ditador polonês, muitos incautos e otimistas ingênuos terão oportunidade para indagar a si mesmos: será um patriota o general que reprime os anticomunistas, num país assolado pela fome? Ou será um mero títere de Moscou? E Walesa? Quem é ele, afinal?


O cego que guia outro cego

Plinio Corrêa de Oliveira

(Transcrito da "Folha de S. Paulo", de 6-1-1986)

Janeiro e dezembro de 85 marcaram dois surpreendentes insucessos da perspicácia de nossos meios de comunicação social, no que diz respeito às tendências profundas do pensar e do querer globais do Brasil hodierno.

Com efeito, em janeiro tudo se montou para que o "Rock in Rio" obtivesse um sucesso de marcar época, não só em nível nacional como internacional. Não seria possível fazer, para este efeito, mobilização mais completa dos recursos publicitários existentes no País. E, à uma, as tubas de nossa publicidade prognosticavam, para o ribombante espetáculo, uma participação popular apoteótica, quer do ponto de vista do número dos presentes, quer do entusiasmo delirante do qual se tinha certeza que eles dariam mostras. Ora, tudo isto desfechou em um fracasso exatamente tão grande quanto fora grande o triunfo esperado. Minguado foi o comparecimento, e mais minguado ainda o entusiasmo.

Enquanto as mídias estavam certas de que brasileiros de todas as latitudes afluiriam ao Rio para participar pessoalmente dos momentos de supremo frenesi a que o espetáculo daria lugar, e que, a fortiori, os cariocas, naturalmente prazenteiros e folgazões, deixariam seus apartamentos e suas casas para se apinharem nos locais do "Rock in Rio", o que se passou foi bem diverso. Os brasileiros de todas as latitudes preferiram ficar no conforto de suas cidades e de seus lares. E os cariocas preferiram as macias e tranquilas delícias de seus chinelos ao frenesi "descontraído" e agitado do tão apregoado espetáculo. Qual a razão – ou as razões – desta abstenção tão inesperada?

Se eu fosse otimista, imaginaria que a indignação da grande maioria dos brasileiros contra as imoralidades e as extravagâncias anunciadas para o "Rock in Rio" estava na causa do que não hesito em qualificar de feliz insucesso do espetáculo. Neste caso, entretanto, quanto estaria afastado da realidade o meu juízo!

Com efeito, as grandes multidões estão exaustas de trabalhar, de penar, de ser constantemente excitadas pelas mídias para emoções paroxísticas que lotem suas horas de lazer. Elas estão exaustas de perambular com espanto no caos dos acontecimentos sem nexo do dia-a-dia religioso, cultural, político, social e econômico de nossa existência moderna. Elas querem fugir de tudo isto que as mídias lhes entrouxavam continuamente no espírito, através dos olhos como dos ouvidos. Elas querem sossego, normalidade, despreocupação. E isto as mídias lhes recusam a todo instante. Daí, pelo menos em boa parte, o insucesso.

E as mídias? Pelo menos no Brasil não parecem ter aprendido a lição. Elas procedem como se vivessem num grande mito hoje em dia inteiramente vazio de conteúdo real.

O "Rock in Rio" era calculado para uma multidão sôfrega de prazeres induzidos. Uma multidão efervescente de aspirações sexuais tendentes ao orgíaco. No gênero Las Vegas, digamos. De multidões fartas ad nauseam das "insípidas" alegrias próprias dos serões de outrora, em torno de uma mesa em que se servia chá de hortelã ou de camomila, e se comiam biscoitos caseiros, enquanto corria indolente uma conversinha familiar sem novidades. E as multidões, saturadas, tendiam ao extremo oposto.

Pelo contrário, o que se viu agora foi o triunfo da maciota caseira sobre o "Rock in Rio".

Essa imensa saturação, as mídias, retardadas espantosamente, não a previam.

Transcorreu quase inteiro o ano de 85 e ninguém parece ter refletido sobre a lição. Imaginando desta vez como inteiramente real o mito marxista mais do que secular, da luta de classes, as mídias parecem ter calculado para a entrevista de Roberto D’Avila com Fidel Castro um efeito análogo ao do fósforo aceso num imenso paiol. No caso, o paiol seriam as massas de trabalhadores manuais efervescentes de furor por ainda existirem ricos na face da terra. E por isto supostamente ávidas de ouvir a pregação messiânica do líder de Sierra Maestra.

Na realidade, nossas massas são tranquilas, ordeiras e de boa paz. Elas não têm ojeriza aos ricos nem à polícia. E a indignação que lhes vai na alma contra o Poder público, não é porque este mantém os direitos da grande e média propriedade, mas, pelo contrário, porque não protege a pequena propriedade e a segurança pessoal do homem comum, porque deixa as ruas entregues ao roubo impune, como aliás também à sanha sexual.

Consequência: foi noticiada a exibição de Fidel Castro na TV Manchete como um programa que marcaria época na vida política do Brasil contemporâneo. O resultado? Considere o leitor o quadro abaixo, concernente a São Paulo e ao Rio, construído com dados fornecidos com louvável imparcialidade pelo Ibope, e apresentados com imparcialidade não menos louvável pela "Folha de S. Paulo" (28-12-85) e pelo "Jornal do Brasil" (27-12-85) respectivamente, quanto à audição do barbudo e verboso ditador.

Em outros termos, paulistanos e cariocas desejavam uma pachorrenta noite de domingo. A TV Manchete lhes ofereceu, para essa noite, a "iguaria" revolucionária de duas horas de prosa com o "chefe" cubano. A imensa maioria das duas grandes urbes preferiu a rotina pachorrenta de espetáculos de televisão comum.

Antes de tudo, é claro, porque o comunismo não desperta nelas a apetência agitada e sôfrega que as mídias imaginam.

Mas também, em larga medida, porque o povo – o "povão", como em certa gíria se diz – quer que as coisas continuem em sossego, e não que se abrasem num incêndio trágico.

Como se explica que assim se enganaram as mídias?

A meu ver, porque elas têm os olhares postos prevalentemente num Brasil fictício. Isto é, o Brasil formado por uma imensa panelinha (perdoe o leitor a contradição dos termos, mas a coisa é assim: uma grande quantidade de pessoas que constitui no Brasil uma minoria proporcionadamente pequena): 1) clérigos e católicos progressistas ou "bofistas"; 2) uns tantos miliardários comunistas; 3) certos grã-finos idólatras da extravagância, da pornografia sofisticada e dos imprevistos escandalosos; 4) intelectuais que imaginam soprar sempre para a esquerda a última moda, e 5) publicistas de esquerda ou em vias de se tornarem tais.

Em suma, um Brasil inautêntico, pois o Brasil nem é uma panela nem é esquerdista. Mas o Brasil tanto e tanto é descrito como sendo assim, que acabam acreditando na descrição até mesmo os que, por arroubos ideológicos, acabaram fabricando o mito.

Mito perigoso, na verdade. Pois não são muitos os brasileiros que relacionaram o fracasso do "Rock in Rio" com o fracasso congênere de Fidel Castro. E assim são incontáveis os que vão consentindo mais ou menos resignadamente que o Brasil vá resvalando para a esquerda porque, iludidos pelo mito, imaginam que nosso País tem na alma uma preponderância esquerdista.... que não existe!\

Um povo que se deixa guiar por um mito, máxime tão falso, corre o risco de ter o destino do cego guiado por outro cego, contra o qual advertiu o Divino Salvador (Mt.15,14).

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