(continuação)
CRISTIANISMO POPULISTA
C. A. de Araujo Viana
UM dos maiores flagelos de nossa época vem a ser o espírito igualitário, a obsessão da subversão social, o farisaísmo da transferência da direção da sociedade para a massa, para o proletariado.
E certos católicos não se dão conta desse farisaísmo da ascensão do proletariado entendida neste sentido revolucionário, pondo, pelo contrário, lenha na fogueira da luta de classes. Não resta dúvida de que as camadas menos favorecidas, mais pobres e incultas merecem toda atenção e cuidado por parte das elites dirigentes. Mas se a desigualdade social é de tal ordem que as classes inferiores se vêm reduzidas à condição de massa, aí então é que ressalta o absurdo de se querer proceder à subversão do mando, pois a massa, por definição, é incapaz de dirigir sequer a si mesma. Não nos achamos, assim, diante dessa propalada passagem do poder das elites para as massas, mas da manipulação destas por uma clique revolucionária que lhes explora os instintos elementares. É este o verdadeiro sentido do populismo igualitário de nossos dias que, com o apoio da massa inconsciente, escraviza o verdadeiro povo.
NOTA CARACTERÍSTICA DA SOCIEDADE TOTALITARIA
O que se pretende é criar, não uma sociedade orgânica e hierarquizada, onde o mérito social decorra da liberdade dos filhos de Deus, mas uma sociedade totalitária, onde desaparece o povo para apenas subsistir a massa. O que caracteriza a sociedade totalitária é a ausência de corpos intermediários, é a ausência de organismos que se interponham, em gradação hierarquizada, entre o poder do Estado e o simples indivíduo. A direção social é monopolizada pelo poder político através de seus agentes, em vez de ser compartilhada por toda uma série de ordens, de instituições, que nascem livre e espontaneamente das necessidades sociais. Consequência típica dos regimes totalitários é, assim, o desaparecimento das verdadeiras elites e da classe média. Assim foi na Roma pretoriana, assim foi nos grandes impérios asiáticos, assim foi entre os incas. De um lado o Estado com seus áulicos, sátrapas, pro-cônsules, gauleiters, comissários do povo. Do outro, a massa informe escravizada.
Dentro desta ordem de idéias, muito teríamos que respigar na crônica "Até onde podemos ser revolucionários", de autoria do sr. Duque Vieira e publicada em "O Diário" de Belo Horizonte de 4 de fevereiro do corrente ano.
PRECONCEITO NIVELADOR
Deixemos de lado a ambiguidade com que se refere às expressões revolução e revolucionário. Vamos apenas glosar a seguinte afirmativa: "O Cristianismo é, por natureza, popular; o burguesismo ou o aristocratismo é, por natureza pagão. Esta era a sociedade velha, — feita de preconceitos, de direitos adquiridos, de preponderância de cima e desprezo pelos fracos e pelos pobres; a sociedade que Cristo desenha com a nova doutrina há de ser o contrário disto; — o reino da humildade e da caridade, a elevação humana, estendida a todos os homens sem privilégios de minorias, universalizada a sociedade cristã, aberta a todos, sem os guardas à porta do preconceito ou da fortuna".
Onde foi o autor encontrar base para afirmar que a populaça ou plebe não era elemento, por natureza, do paganismo, e que a burguesia e a aristocracia (que não se confundem necessariamente) são artificiais no Cristianismo? Pelo contrário, podemos afirmar que a inexistência destes dois últimos elementos, em escala orgânica, é que caracteriza a sociedade pagã. O povo na sociedade pagã era a plebe ou o escravo — e o povo livre, na Roma dos Césares, por exemplo, chegou a uma posição inferior à do escravo.
E o que caracteriza a sociedade católica é justamente essa variedade e desigualdade de condições que vem da existência da verdadeira liberdade: "Segue-se daqui que na sociedade humana é conforme à ordenação de Deus que haja príncipes e vassalos, patrões e operários, ricos e pobres, sábios e ignorantes, nobres e plebeus, os quais, todos unidos entre si com vínculos de amor, se ajudem reciprocamente a conseguir seu último fim no Céu, e aqui na terra seu bem-estar material e moral" (Encíclica Quod Apostolici muneris de Leão XIII — trecho transcrito no item 3o do "Motu próprio" de Pio X de 18 de dezembro de 1903 sobre a "Ação popular cristã").
A IGREJA, SOCIEDADE DESIGUAL
O Cristianismo é essencialmente religião. Pois bem. Essa hierarquia é também uma característica da ordem espiritual. Com efeito, ao estabelecer e atribuir os poderes que constituem o regime da Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo não se dirigiu à multidão ou à assembléia universal dos fieis. Entre uma elite de discípulos, Ele escolheu doze Apóstolos aos quais comunicou o Espírito Santo e o poder de ligar e desligar. Entre os doze, escolheu a Pedro, a quem confiou de maneira especial as chaves com o ofício de apascentar e de governar, não na mesma medida que os outros, mas com um direito eminente e particular. A Igreja é, portanto, uma sociedade de desiguais. Governa-a uma minoria com privilégios especiais e subordinada à autoridade suprema de um só.
Do ponto de vista religioso, o protestantismo é que nos tempos modernos vem tentando estabelecer uma sociedade igualitária. Eis porque já houve quem dissesse que é ele como um edifício ao qual se haja retirado a cúpula: os ventos e as chuvas castigam suas muralhas, destruindo-as até aos alicerces. Tentativa retomada, no seio da Igreja, pelos modernistas, para os quais, como denunciou o B. Pio X, "nos tempos que correm o sentimento de liberdade atingiu o seu pleno desenvolvimento. No estado civil a consciência pública quis um regime popular. Mas a consciência do homem, assim como a vida, é uma só. Se, pois, a autoridade da Igreja não quer suscitar e manter uma intestina guerra nas consciências humanas, também a ela é mister curvar-se a formas democráticas; tanto mais que, se o não quiser, a hecatombe se tornará iminente. Seria loucura crer que o vivo sentimento de liberdade, ora dominante, retrocedia" (Encíclica Pascendi Dominiei gregis) .
Repele, portanto, a Igreja ao populismo, entendido como tendência ao nivelamento geral. E os males que assolam a sociedade civil vem justamente desse sopro da revolução igualitária que tenta destruir a cúpula protetora de toda sociedade orgânica, que é a autoridade social compartilhada por toda uma hierarquia de órgãos e de figuras representativas do corpo social.
ESTAGNAÇÃO TOTALITARIA
A corrupção da burguesia não acarreta a necessidade de destruição dessa mesma burguesia, assim como a corrupção da classe operaria não pede o extermínio do operário. E destruir a classe burguesa enquanto tal, é fechar ao operário o acesso a um posto mais alto na escala social, do mesmo modo que destruir a classe aristocrática será condenar o burguês a permanecer eternamente em sua burguesia... E essa interpenetração de classes é justamente uma das características da civilização católica, ao contrário do regime pagão de castas estanques.
Destruída artificialmente pela Revolução francesa a velha aristocracia, e posta a burguesia como classe dirigente, uma nova aristocracia se forma com o correr dos tempos: "Mostramos no ano passado, nesta mesma ocasião, como também nas democracias de recente data e que não têm atrás de si nenhum vestígio do regime feudal, foi se formando, pela força das coisas, uma espécie de nova nobreza e aristocracia. É a comunidade das famílias que por tradição põem todas as suas energias a serviço do Estado, do seu governo, da administração, e com cuja fidelidade ele pode contar a qualquer momento" (Pio XII em alocução ao Patriciado e à Nobreza Romana, em 8 de janeiro de 1947).
O reino da humildade e da caridade que Nosso Senhor Jesus Cristo, trouxe à terra não é, portanto, como quer a crônica publicada em "O Diário". A humildade é a verdade, disse Santa Terezinha. Contentemo-nos com o posto que Deus nos reservou na ordenação que imprimiu à sociedade humana e combatamos a inveja que é o vício capital dos adeptos do igualitarismo — e reservemos nossa pugnacidade para combater as mazelas reais que nos cercam, uma das maiores das quais é essa tentativa de destruir toda e qualquer superioridade social ou desigualdade de condição como uma injustiça ou pelo menos, como dizia o Sillon, uma justiça menor!
QUINZE ANOS
(CONCLUSÃO)
surja. Mas é possível discutir sem brigar. E entre gente civilizada as divergências de pontos de vista não impedem necessariamente uma cooperação.
Todos os países, em todas as latitudes, em todos os tempos, em todos os regimes, só alcançaram sua grandeza pela cooperação de suas forças vivas, bem esclarecidas em suas aspirações, e solidamente articuladas entre si. Exemplo a Europa no grande apogeu do século XIII.
Ora, entre nós dá-se isto? Com exceção da indústria, das forças armadas, e em alguma medida também do comércio, o que temos em matéria de organização e estudo é insignificante. Há por certo algumas associações meritórias, e nessas associações alguns estudiosos de mérito. Mas nem as associações nem os estudiosos empolgam as respectivas classes. Em via de regra, nossas forças vivas estão em profunda dormência. Cada qual acompanha a política como se fosse um esporte, participa das rivalidades esportivas como se o esporte fosse principalmente política... e deixa correr ao leo os assuntos sérios.
Daí vem todo o resto. A política não sendo procurada pelos representantes do Brasil verdadeiro, que trabalha e produz no domínio da cultura ou da economia, é invadida pelos oportunistas. Estes, como não são nada, não representam nada, não significam coisa alguma, têm de montar suas maquinas eleitorais na base das preferências pessoais. Abre-se campo assim para a corrupção, a inconsciência, a incompetência e todo o resto.
* * *
E fica nisto, o presente artigo? Apontar o mal já é muito. Mas seria preciso debelá-lo. Como se vê, a solução consistiria em despertar nossas forças vivas, reais e sadias: tarefa que excede de muito as possibilidades de um jornal.
Mas haveria outra pergunta a fazer. Nesta tarefa, que missão tem a opinião católica, que papel lhe cabe, de que possibilidades de êxito dispõe? Seria uma questão importante, curiosa, delicada. Trataremos dela? É evidente que temos sobre o assunto uma opinião definida. Será útil, oportuno, judicioso expô-la? É sobre o que estamos pensando...
NOTA INTERNACIONAL
A BOMBA DE COBALTO SERÁ O CASTIGO DE DEUS?
Adolpho Lindenberg
Depois de o mundo todo ter ficado profundamente alarmado com as previsões sobre a imensidade do poder destruidor da bomba de hidrogênio, agora plenamente confirmadas pela última experiência no Pacifico, não há dia que se passe sem que sejam noticiados fatos impressionantes relacionados com os engenhos atômicos. Vejamos algumas dessas notícias, as quais, se não fosse a completa atonia da opinião pública européia, já teriam levado a França e a Inglaterra a exigir da ONU uma urgente investigação nos centros atômicos russos e americanos para verificar qual o número de bombas existentes em stock e em vias de fabricação:
1. Os males provocados pelas radiações que atingiram pescadores japoneses por ocasião da recente explosão da bomba de hidrogênio não são superficiais como a princípio se imaginou, mas são gravíssimos e parece que algumas das vítimas estão condenadas a uma morte lenta por falta de renovação dos glóbulos brancos do sangue.
2. Além da bomba de hidrogênio, cujas dimensões máximas ainda não foram atingidas, estuda-se a fabricação de bombas envoltas em cápsulas de cobalto, o qual, depois de volatilizado, conservaria sua radioatividade perniciosa durante cinco anos pelo menos.
3. A revelação de que Oppenheimer, o cientista encarregado de orientar as investigações atômicas nos Estados Unidos, é casado com uma comunista, tem um irmão também fichado no Partido e sempre manteve relações de amizade com elementos vermelhos — é incrível a cegueira, para não falar em má fé do governo democrático de Truman em nomear pessoa tão pouco segura para um cargo de tão grande responsabilidade e importância estratégica — vem indicar que provavelmente os russos já conhecem os principais segredos atômicos norte-americanos. Será verdadeira a recíproca? Vários cientistas dos Estados Unidos, inclusive o presidente da Comissão de Energia Atômica, manifestaram o receio de que os russos estejam na dianteira nos estudos sobre a bomba de hidrogênio. O sr. Vichinsky falando na Comissão de Desarmamento reunida na ONU no dia 19 de abril p. findo, confirmou em expressos termos que a Rússia há já muito tempo tem a bomba termo-nuclear.
4. O Prof. Leo Szilart, cientista atômico da Universidade de Chicago, afirmou que, devido à possibilidade de formar nuvens radioativas, que percorreriam milhares de quilômetros impulsionadas pelo vento, seria suficiente o lançamento de 400 bombas de cobalto ao longo da costa do Pacífico dos Estados Unidos, para que toda a população americana perecesse.
5. A Alfândega norte-americana está tomando precauções especiais para impedir a entrada no país de bombas atômicas desmontadas em pequenas partes e transportadas em simples malas de viagem. A possibilidade de elementos constitutivos de uma quinta coluna montarem com toda a calma dentro de uma casa, no centro de alguma grande cidade, uma poderosa bomba atômica e depois se retirarem com toda a segurança antes que um mecanismo automático deflagrasse o engenho, constitui uma ameaça aterradora.
6. Admite-se hoje em dia que não há defesa possível contra um ataque de foguetes teleguiados portadores de bombas atômicas, voando na estratosfera e caindo sobre as cidades com uma velocidade de vários milhares de quilômetros por hora. Tal como Londres em fins de 1944 ficou á mercê dos ataques das V-2 alemãs, assim também qualquer cidade americana ficará exposta a bombardeios atômicos a partir do momento em que os russos consigam construir foguetes transoceânicos.
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Esse quadro trágico indica perfeitamente o modo pelo qual poderão se realizar as ameaças proféticas de Fátima. O que fazer? Proscrever pura e simplesmente o fabrico de bombas atômicas? Quem não percebe que esta proibição só seria obedecida pelos ocidentais?
Na mensagem de Páscoa Sua Santidade recomendou que as nações só fizessem uso de armas atômicas em caso de legítima defesa. Essa exortação contem no entanto, é obvio, a autorização de se fabricarem esses engenhos com o fito de utilizá-los em tal hipótese. O Santo Padre recomenda também que "por meio de acordos internacionais se consiga a eliminação da guerra atômica, bacteriológica e química". Esses acordos, porém, e aí reside sua principal dificuldade, só poderão ter valor e ser respeitados se um órgão internacional neutro, a ONU por exemplo, tiver ampla liberdade de enviar investigadores para percorrer de alto a baixo os territórios russo e norte-americano, visitando e fiscalizando os centros atômicos. Devemos orar por que se aplainem os obstáculos que atualmente se opõem à realização de uma tal fiscalização. Será o meio de concretizar os nobres e generosos anelos do Sumo Pontífice, e evitar para o gênero humano catástrofes sem nome.
Caso as palavras do Papa não sejam ouvidas e os homens continuem a dedicar seus melhores recursos à fabricação desses medonhos engenhos de destruição e a perder tempo em discussões estéreis, não nos restará outro recurso senão pedir a Deus que seja misericordioso em Seu castigo.
"POR UMA NOVA CRISTANDADE"
Por um lapso de revisão, o título do artigo do sr. François Mauriac que transcrevemos no número passado, saiu com o título acima, quando deveria ser: "Por uma nova Concordata".
OS CATÓLICOS FRANCESES NO SÉCULO XIX
COMEÇA A LUTA CONTRA NAPOLEÃO III
Fernando Furquim de Almeida
A morte de Mons. Sibour e o fracasso de "L’Univers jugé par lui-même" modificaram completamente o caráter da ofensiva contra o jornal de Veuillot. Seus inimigos compreenderam a inutilidade das campanhas no terreno da ortodoxia; e Mons. Morlot, que substituíra Mons. Sibour no sólio de Paris, embora não apoiasse o "Univers", se mantinha numa linha de estrita neutralidade, tendo mesmo declarado a Louis Veuillot, quando tomou posse da Arquidiocese, que podia ficar certo de que nunca o veria entre os adversários do jornal.
O "Univers" tinha atingido, em 1857, uma situação independente e segura. Era o líder incontestado do movimento católico francês, e fazia inveja, mesmo do ponto de vista financeiro. Taconet comprara todas as ações da sociedade anônima a que pertencia o jornal, que assim passava para sua propriedade. Embora comerciante e preocupado com o destino comercial do "Univers", Taconet apoiava incondicionalmente o seu redator-chefe. Mas se economicamente o jornal não inspirava cuidados, e se a luta entre os católicos serenara, cada vez mais nítida se esboçava a perseguição política.
Napoleão III fora apoiado pelos católicos em seu golpe de Estado, e começara seu reinado prestando toda espécie de auxílio material de que necessitava a Igreja na França, e desenvolvendo uma política exterior favorável à Santa Sé, na aparência apoiando o Santo Padre contra os revolucionários italianos que desejavam a unificação da Península a qualquer preço. Porém, antigo carbonário, não podia o Imperador manter por muito tempo essa política. Seus companheiros de outrora não lhe consentiam nem sequer essa relativa boa vontade para com o Papado. Atacavam-no e exigiam o cumprimento das promessas que na mocidade fizera à Carbonária.
Não era possível a Luís Napoleão uma reviravolta brusca. O terreno tinha que ser preparado, pois se era verdade que a maioria dos católicos tinha apoiado sua ascensão ao trono, não se podia dizer que o Imperador não precisasse ter receios quanto à opinião católica, então muito poderosa.
Do ponto de vista exclusivamente político, os católicos se dividiam em três correntes principais. A mais influente era a dos que concediam a Napoleão III um largo crédito de confiança, reservando-se para retirá-la se o Imperador se voltasse contra a Santa Sé. Eram os católicos exclusivamente católicos, cujo líder era Louis Veuillot. Vinham em seguida os chamados católicos governamentais, que consideravam Napoleão III como um salvador nacional. Finalmente o catolicismo liberal, francamente hostil ao regime, e na realidade um conglomerado de liberais de todas as tendências, aos quais Montalembert dava o tom católico. O "Correspondant" era o seu órgão.
O antigo chefe do Partido Católico não constituía um problema sério para o Imperador. Debatendo-se entre o liberalismo e o Catolicismo, transformando-se cada vez mais de filho dos cruzados em liberal intransigente, ele mesmo se desprestigiava, pela contradição de suas virtudes. Não tardou, aliás, o tiro de misericórdia. A propósito de um debate no Parlamento inglês sobre questões da Índia, publicou Montalembert no "Correspondant" um artigo em que o liberal sufocava completamente o católico. Napoleão III, aproveitando a oportunidade, submeteu-o a um processo, do qual ele saiu como um genuíno defensor do liberalismo. Todas as dúvidas estavam dissipadas. Montalembert ficava definitivamente afastado dos meios católicos, e seria desde então o chefe liberal que procurava conciliar o Catolicismo com o liberalismo; e portanto um adversário liberal — e não católico — do governo.
Com o "Univers" as coisas eram bem mais complicadas. Pretender modificar a linha de conduta de Louis Veuillot ou desmoralizá-lo era inútil. O governo tentou comprar o jornal. Diante da recusa de Taconet em vendê-lo, procurou cindir a redação. Um dos redatores, Jules Gondon, se prestou ao papel. Como recompensa, foi encarregado de lançar um diário que atraísse para o governo o público do "Univers".
O novo órgão, além de ser dirigido por um ex-redator do "Univers", deveria no início se manter na mesma linha deste. Depois iria aos poucos se transformando, de modo a auxiliar o governo em sua nova política. O próprio ministro do Interior sugeriu o nome de "L’Universal", bastante parecido com o do jornal de Veuillot, para aumentar a confusão. Foram distribuídos folhetos de propaganda e apareceram os primeiros números. O fracasso foi completo. "L’Universal" não conseguia leitores, e o governo se viu obrigado a fechá-lo.
Essa derrota de Napoleão III deixou bem patente que os católicos franceses apoiavam o "Univers". O governo não tinha dúvidas de que Veuillot seria o grande adversário da política favorável aos carbonários, que decidira adotar. Uma nova fase ia começar para o jornal.
NOVA ET VETERA
UNIDADE OU PLURALIDADE SINDICAL
J. de Azeredo Santos
Ao dedicar nossos dois últimos rodapés à organização profissional (*), tínhamos em vista, como sempre, o desejo de contribuir para o esclarecimento da opinião católica sobre tão importante tema. E é essa mesma preocupação que nos leva a comentar um estudo do Revmo. Padre Francisco Lage Pessoa sob o título de "Unidade ou pluralidade sindical?", publicado em "O Diário" de Belo Horizonte de 4 de março do corrente ano.
Toma S. Revma. partido decidido pela unidade sindical e, para justificar tal ponto de vista, procura em primeiro lugar ressaltar as vantagens da unidade sobre a pluralidade sindical, para depois tentar demonstrar que sua opinião não entra em choque com o que sobre o assunto se contem nos documentos pontifícios.
UMA QUESTÃO RELIGIOSA EM SENTIDO MAIS PROFUNDO
Ora, julgamos tal posição radicalmente utópica e unilateral, por desprezar os dados reais do problema que a pluralidade sindical se propõe resolver em determinadas circunstâncias. Essas circunstâncias são aliás das mais freqüentes pela ação dos elementos de perturbação inseparáveis da questão social e responsáveis principais pelo estado de tensão existente entre as classes no mundo hodierno.
A unidade sindical seria a forma perfeita de organização operária, tendo em vista a união, ajuda, defesa e representação da classe.
A questão operaria, diz S. Revma., "é, antes de tudo, um problema de união da classe trabalhadora", e este é por sua vez "primariamente profano". Ora, o problema operário se acha no âmago da questão social. Com efeito, segundo Cathrein, esta se põe, em sua essência, nos seguintes termos: "Como entre as classes antagônicas da sociedade, especialmente entre os representantes do capital e do trabalho, poderá restabelecer-se e cimentar-se solidamente a paz?" Em seu sentido mais profundo, diz Pio XII, estamos diante de uma questão moral e, por conseguinte, religiosa: "A questão social, queridos filhos, é sem dúvida também urna questão econômica; porém muito mais uma questão que se refere à disposição ordenada da sociedade humana, e, em seu sentido mais profundo, uma questão moral e, por conseguinte, religiosa" (Alocução aos jovens da Ação Católica Italiana, em 12 de setembro de 1948).
UNIÃO GEOMÉTRICA
O problema operário não é, portanto, antes de tudo um problema de união da classe trabalhadora. Há que indagar, preliminarmente, em torno de que ideal, em torno de que princípios, em torno de que causa se promove essa união. E é aí que começa a desunião, é aí que se impõe a separação dos campos. Não se pode considerar como forma perfeita de organização operária aquela que geometricamente reúne em um único sindicato oves, boves et serpentes, — como, por exemplo, católicos que pugnam pela implantação da doutrina social da Igreja e comunistas camuflados ou descobertos que fazem da luta de classes a sua bandeira.
Foi esse o pensamento da primitiva Liga Eleitoral Católica, ao colocar em seu programa, por ocasião da Constituinte de 1934, a seguinte reivindicação: "Liberdade de sindicalização, de modo que os sindicatos católicos, legalmente organizados, tenham as mesmas garantias dos sindicatos neutros". Esse direito de associação foi garantido na Constituição de 1934 do modo seguinte: "Art. 120 — Os sindicatos e as associações profissionais são reconhecidos de conformidade com a lei. Parágrafo único — A lei assegurará a pluralidade sindical e a completa autonomia dos sindicatos".
LAMENTÁVEL DISCORDÂNCIA
Com o Estado Novo veio o sindicato único brandido como arma política através dos chamados "pelegos". Foi, portanto, muito justo que a Liga Eleitoral Católica, na Constituinte de 1946, incluísse entre as suas reivindicações mínimas a "pluralidade sindical, sem monopólio estatal nem restrições de ordem religiosa", entendidas estas últimas palavras no sentido de que seria facultada a criação de sindicatos católicos.
A respeito de tão justa reivindicação comenta o Revmo. Padre Lage: "Julgamos lamentável esta exigência, sobre que, aliás, não têm insistido nossas autoridades".
Vê-se, portanto, que S. Revma. desejaria que a Constituição impusesse a unidade sindical: prova muito tangível de que não a espera como fruto espontâneo dos desejos dos trabalhadores que tenham interesses comuns. Se S. Revma. acha lamentável que os católicos reivindiquem a pluralidade sindical que deriva, logicamente, do direito de associação, é que tal direito deveria, segundo seu desejo, ser negado pela nossa carta magna, para nela imperar o sindicato único.
A questão não é apenas de libertar os sindicatos da tutela do Ministério do Trabalho, como quer S. Revma. É também de libertar os trabalhadores de outras tutelas nefastas, e sobretudo de assegurar o direito de associação. Com efeito, reconhecida por lei a liberdade sindical, ou a pluralidade, nada impede que os sindicalizados se unifiquem, se assim for de sua livre conveniência ou interesse. Mas imposta a unidade sindical, todos terão que se conformar com a mesma fôrma, que engolir o sindicato que porventura cair em mãos de ateus, de agitadores, de "pelegos" a mando de interesses políticos inconfessáveis. Declarada pela lei básica a unidade sindical, como seguir as diretrizes da Sagrada Congregação do Concílio, transcritas pelo próprio Revmo. Padre Lage, no sentido de que "a Igreja quer que as associações sindicais suscitadas por católicos para católicos se constituam entre católicos"? No caso de haver pluralidade sindical, pode a Igreja "agir diferentemente" se assim o exigirem circunstâncias especiais. Mas no caso de ser imposta a unidade, onde a liberdade de "agir diferentemente"?
A MÍSTICA DA INFALIBILIDADE DA MASSA
O mesmo podemos dizer da ajuda prestada a seus membros pelos sindicatos. Mostra a experiência os resultados deletérios da ação de sindicatos esquerdistas nos conselhos de conciliação e de arbitramento destinados a solucionar as dificuldades que possam surgir entre patrões e operários. Como podem ajudar seus companheiros em situações difíceis aqueles que usam a luta de classes como pé-de-cabra para arrombar as portas do poder social e político?
Só quem tem a mística da infalibilidade da massa é que se aventura a sustentar que a unidade sindical dê sempre a solução realista para o problema da defesa da classe operária, pois o comum em nossos dias não é o caso dos sindicatos infiltrados por agitadores aos quais interessam, não soluções eficazes e pacíficas, mas o tumultuar de reivindicações descabidas? Dir-se-á que resta aos elementos sadios o recurso de se infiltrarem em tais organismos para mudar sua orientação, porém a própria necessidade dessa tática da infiltração, de êxito duvidoso na maioria das vezes, não está a indicar que a união de vistas da classe operária, pressuposto da unidade sindical, existe apenas no texto morto da lei?
Quanto à representação, uma sociedade realmente orgânica não tem necessidade dessas muletas legais para unificar seus esforços. "Proteja o Estado estas associações que no uso de seu direito formam os cidadãos; mas não se intrometa em seu íntimo ser e nas operações de sua vida, porque a ação vital procede de um princípio interno, e com um impulso externo facilmente se destrói" (Rerum Novarum). E, "se os cidadãos têm a livre faculdade de associar-se, como em verdade têm, é mister que tenham também o direito de escolher livremente o estatuto e as leis que melhor conduzam ao fim que se propõem", acrescenta Leão XIII (ibidem).
Diante de um texto pontifício tão claro, vem agora o Revmo. Padre Lage e afirma ser lamentável pedirem os católicos que na Constituição se respeite a liberdade de associação, ou a pluralidade sindical. Sinal dos tempos.
(•) "República sindicalista" Catolicismo, no 39, e "Superação da luta de classes", Catolicismo, no. 40.