Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 41 | página 02-03

(continuação)

DOR E ESPERANÇA (Conclusão)

verdadeira, a edificação de um mundo novo no desenvolvimento pessoal de cada homem". Diante desse estado de perturbação indisfarçável, indaga Henriette Charasson: "Teria sido mais grave a situação no século XIV, nas vésperas de se desencadear o protestantismo?" E responde: "Pode-se duvidar. Não se trata de comparar duas situações dessemelhantes, mas duas patologias paralelas. Quando da Reforma, estavam em jogo o dogma e a organização eclesiástica, ao passo que os quadros sociais e políticos puros permaneciam inatacados. Hoje, a sede material da Igreja parece não dever temer nenhum assalto. Por outro lado, as concepções ideológicas do dogma e as bases da sociedade são correntemente postas em dúvida pelos reformadores contemporâneos, dos quais muitos vêm de passar abertamente à heresia. O catolicismo progressista, muito mais largamente difundido do que se afeta crer, faz na maior parte do tempo causa comum com o sovietismo, e certas interpretações do dogma ultrapassam de cem léguas tudo que puderam avançar os protestantes de outrora e os modernistas de ontem" (art. cit.).

Cita a autora o caso do Padre Teilhard de Chardin. E mostra de que é ele acusado: de transformar em seus escritos o Cristianismo em uma religião da evolução do tipo darwinista já completamente ultrapassado. De tratar os textos sagrados com uma desenvoltura irreverente. De colocar como princípio a coletivização fatal da sociedade. De negar pura e simplesmente o problema do mal. De suprimir, assim, as noções de culpabilidade e de pecado original ou pessoal. De ignorar todo apelo divino, ao mesmo tempo que toda presença demoníaca. De tornar incompreensível o papel e mesmo a possibilidade da Revelação. De falsear a noção de vida sacramental. Em resumo, de tentar edificar um Cristianismo a seu modo, privado de elementos sobrenaturais. Todo esse libelo se acha devidamente documentado em livro de autoria do Padre oratoriano Louis Cognet sobre que versa o artigo de Henriette Charasson. E a revista "Pensée Catholique" tem dedicado substanciosos estudos a esses desvarios doutrinários do criador do "sinantropo".

RECURSO MODERNISTA

Dando uma amostra do velho e sadio espírito católico francês, prossegue a mesma articulista: "Em todo o caso, os simples fiéis, como eu, que encaram a obediência à Igreja como seu primeiro dever, se sentem um pouco surpresos de que o P. Teilhard persista em fazer conhecer suas proposições e posições apenas por meio de conferências ou de folhetos, de opúsculos datilografados ou roneotipados: pois, ou bem ele não se crê passível de uma condenação de Roma, e então, se se considera portador da verdade, por que não julga de seu dever fazê-la conhecer ao grande público, expondo suas teorias em um verdadeiro livro editado normalmente, acessível a todos? Ou bem ele sabe que o imprimatur lhe será negado e que uma tal publicação acarretará uma condenação de suas idéias. Neste caso, como esse Sacerdote, esse Religioso, esse Padre encarregado de almas pode assumir a responsabilidade de arrastá-las para o que ele sabe ser um erro aos olhos do Vaticano?"

Estamos diante de um exemplo de tática análoga à dos modernistas descrita na encíclica "Pascendi". Como também faz lembrar o Modernismo a atitude da citada revista "Esprit" no caso dos Padres-operários em face de Roma. Com efeito, dizia Pio X: "Põem (os modernistas) finalmente todo o empenho em diminuir e enfraquecer o Magistério eclesiástico, ora deturpando-lhe sacrilegamente a origem, a natureza, os direitos, ora repetindo livremente contra ele as calunias dos inimigos".

Em artigo sob o título de "Nunciatura e Diplomacia", assim se refere "Esprit" (no de dezembro de 1953, pag. 786), à atuação do Núncio Apostólico em França na questão dos Padres-operários: "Sabe-se que o embaixador do Vaticano junto a Republica percorreu a França e teve reuniões em várias cidades — Toulouse, Lyon, Paris — com um certo número de Bispos, fazendo-os prometer segredo, e recolhendo suas reações. Essas reuniões despertam em França, de um duplo ponto de vista, as mais expressas reservas e ressuscitam um problema que se esperava já estar enterrado. Do ponto de vista francês, de início. Com que direito um embaixador estrangeiro pode reunir cidadãos franceses, presidir essa reunião e lhes transmitir instruções secretas? Não se vê imediatamente em que situação delicada tais procedimentos se arriscam a colocar o Episcopado deste país? Se houvesse um governo em França, o protesto seria imediato". Dir-se-ia um órgão anti-clerical do tempo de Dom Vital a verberar a intervenção da Santa Sé no caso das confrarias maçonizadas... Nem sequer faltou uma citação de tratadista leigo de Direito Internacional para reforçar esta atitude galicana:

"Em suas intervenções oficiais, transcreve “Esprit” do tratado de Direito Internacional Público de A. Rousseau, os agentes diplomáticos não devem se dirigir senão ao governo junto ao qual são acreditados, e não a uma autoridade subordinada, seja ela de ordem política, administrativa, religiosa ou sindical. Esse princípio foi afirmado há mais de um século por Chateaubriand, então ministro dos Negócios Estrangeiros, nas circulares de 9 e 19 de outubro de 1823 e 26 de fevereiro de 1824. O Núncio havia notificado aos Bispos franceses a eleição do Papa Leão XII e lhes havia solicitado preces. Chateaubriand recordou a esse propósito a doutrina constante do governo francês — que seria ainda reafirmada por Drouyn de Lhuys em 1863, por Spiller em 1887 e por Clemenceau em 1906 — a saber: a interdição aos Núncios de toda comunicação direta com o Clero nacional".

"Do ponto de vista católico, acrescenta a revista, a questão é também delicada. Trata-se de saber se os Bispos são Sucessores dos Apóstolos ou simples prefeitos".

UM SEVERO ARTIGO DO "OSSERVATORE ROMANO"

Note-se a insolência com que "Esprit" subordina o Episcopado ao governo civil, e como nega o direito que tem o Papa de exercer jurisdição sobre a Igreja Universal através de seus Representantes que são os Núncios. A diferença entre a campanha contra Dom Vital e a que agora enceta "Esprit" é que em fins do século passado esses ataques à autoridade da Igreja vinham dos arraiais declaradamente maçônicos — e hoje a mesma linguagem é retomada por uma revista das mais conhecidas no movimento católico francês. Mas a transcrição por nós feita foi bastante longa para que os leitores por si mesmos formem um juízo sobre a gravidade da situação que o caso dos Padres-operários veio revelar.

Não é por outra razão que o "Osservatore Romano" de 26 de fevereiro do corrente ano (edição hebdomadária em língua francesa) publica um severo editorial sobre "As deformações da Caridade". Rebatendo tais reações injuriosas contra a atuação da Santa Sé, em relação aos Padres-operários, diz o órgão oficioso do Vaticano: "É sobretudo quando se acham em jogo os próprios princípios do dogma ou da espiritualidade cristã que a Igreja tem a tarefa e o dever de intervir; e ela o faz ordinariamente por meio de seu Dicastério supremo, que tem o encargo de velar pela pureza da Fé e dos costumes, e que age com um processo lento, sério e imparcial, oferecendo, mesmo do ponto de vista humano, todas as garantias de objetividade e de verdade. Contra as calúnias dos maus e as fábulas dos tolos se levanta a realidade de um longo e paciente trabalho destinado a permanecer em grande parte ignorado, realizado com sentimentos de longanimidade e com profundo respeito pela personalidade humana — mesmo quando é necessário corrigir ou punir — para salva-la de erros, talvez inconscientes, resultantes da limitação e da falibilidade dos julgamentos individuais".

DETURPAÇÃO DA CARIDADE

Um ponto em que se produzem hoje em dia muitas quedas perigosas é, diz o citado artigo, aquele que se refere à concepção e à prática da Caridade, "que se deseja encaminhar na direção desse humanitarismo laicista que esvazia a Caridade cristã de todo conteúdo sobrenatural: concepção e prática que, aplicadas à vida da Igreja, desnaturam sua missão e alteram a significação de sua atuação no mundo".

Assim, "falar de honestidade espiritual e doutrinaria enquanto não existe perfeita comunhão da vida e dos bens que lhe são necessários, seria absurdo e farisaico". De onde resulta em muitos a confusão do apostolado com a ação social e sindical e, algumas vezes mesmo, a participação em movimentos e manifestações que se acham em nítido contraste com os valores do Cristianismo e especialmente com o caráter sacerdotal.

É do domínio publico (ver por exemplo a mencionada reportagem do "Samedi-Soir" de 25 de fevereiro do corrente ano) que houve Padres-operários dirigentes de sindicatos esquerdistas, outros que tomavam a palavra em meetings de inspiração vermelha, outros, ainda, que participavam de movimentos grevistas de igual origem. Em 28 de maio de 1952 dois deles foram presos pela policia durante manifestações comunistas organizadas em Paris contra o general Ridgway. Outro incidente: em abril de 1953, em seguida à prisão de líderes sindicais partidários de Moscou, dezesseis Padres-operários, secundando manobra da propaganda soviética, por uma carta publicada pelo órgão comunista "L'Humanité" provocaram a demissão de Gaston Tessier, presidente de honra da Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos. Este os denunciou ao tribunal arquidiocesano de Paris, que lhes dirigiu uma censura.

"A conseqüência dessas posições ideológicas e práticas, diz o Osservatore Romano, é que freqüentemente, fora da linha traçada pela espiritualidade cristã e pela doutrina da Igreja, chega-se à apostasia do estado religioso ou sacerdotal, e mesmo da Fé".

REVOLTA CONTRA A IGREJA

Mais adiante mostra o órgão oficioso da Santa Sé como uma atitude de resistência ou de revolta em relação à Igreja, mesmo proclamando amá-la apaixonadamente e preocupar-se sinceramente com sua sorte, nunca pode ser sinal de caridade. "Na realidade trata-se ora de ressentimentos e azedume, ora de uma tendência mórbida que arrasta certos católicos a atribuir à Igreja toda a responsabilidade pelos males do mundo moderno, especialmente no domínio social". Às vezes não se fala diretamente da Igreja Docente, mas dos "cristãos". Por outro lado, frisa o "Osservatore Romano", "essas mesmas pessoas abrem geralmente os braços aos comunistas, dispostas que se acham a fechar os olhos sobre todos os horríveis crimes cometidos por eles em todas as partes do mundo, particularmente em detrimento da Igreja; e alguns vão mesmo até a falar da coesão e da colaboração dos comunistas, como de uma forma de caridade que daria um testemunho da presença de Cristo neles, a tal ponto que se deveria dizer a seu respeito, como dos antigos cristãos e como se fossem discípulos de Cristo: Vejam como se amam!"

Mais ainda, prossegue o "Osservatore": "A Igreja não tinha razão de excomungar os comunistas e faz ainda mais mal ao procurar convertê-los. De resto sua tarefa não seria converter, mas dar testemunho. A conversão das almas não seria nossa obrigação... Nós não tivemos jamais a pretensão de converter quem quer que seja... mas somente de lançar nas massas a semente da Verdade. A missão da Igreja — chega a escrever um professor de teologia — não é converter, mas dar testemunho e fundar igrejas no mundo inteiro".

Cremos que o resumido documentário acima é suficiente para dar aos nossos leitores uma noção da gravidade do problema religioso em França e para mostrar a oportunidade das medidas em boa hora iniciadas para por cobro a tão deplorável situação.

E, "nesta época de tão grande perigo para as almas, devido aos erros que de toda a parte se infiltram", que nos assista com seu poder Jesus Cristo, autor e consumador da Fé, e que nos assista "com o seu socorro a Virgem Imaculada, destruidora de todas as heresias" (encíclica Pascendi). Esta esperança é particularmente fundada à vista da coincidência de que todas estas tristezas vêm a lume no Ano Mariano. Pois, no decurso dele, todos os fiéis repetem uníssonos a prece comovida do Santo Padre Pio XII a Nossa Senhora da Conceição: "Ó límpida fonte da fé, embebei nossos espíritos com as verdades eternas!" É bem do que precisamos todos: a renovação de nosso espírito nas águas cristalinas da devoção à Virgem Santíssima, concebida sem macula original.

NOSSA 1a PAGINA

O clichê reproduz a "Imaculada Conceição", de pintor desconhecido, da escola flamenga, do sec. XV.


PANORAMA DO BRASIL

QUINZE ANOS DEPOIS

MUITOS amigos têm manifestado o desejo de conhecer nossa opinião a respeito da presente conjuntura da política nacional. Habituados à clareza e coerência de atitudes desta folha, gostariam de saber como se afigura a situação atual aos olhos de quem se coloca em nosso angulo de observação ideológico.

Atendendo a este desejo, organizamos como fundo de quadro para a resposta, uma visão de conjunto das transformações por que passou o Brasil nestes quinze anos.

Aproximando os dois panoramas, de 1939 e 1954, não quisemos fazer um juízo crítico. Foram imensas as transformações operadas nesse período: é o que o quadro põe em evidência. Transformações boas, más, inócuas? É sobre o que — tanto quanto possível — nos abstivemos de falar. "Tanto quanto possível", sim. Pois algumas referencias já trazem em si elogio ou censura: aumento de nosso prestigio internacional, ou divórcio, por exemplo.

Não temos o propósito de insinuar neste quadro alusões partidárias, e menos ainda pessoais. A amplitude dos assuntos considerados transcende sob vários aspectos o âmbito das influências individuais e das cogitações dos partidos: basta pensar nos efeitos diretos e indiretos que a IIa guerra mundial teve entre nós.

Este quadro é pois feito para mostrar que mudamos muito, e fazer sentir toda a envergadura dos problemas que no momento nos assaltam, toda a extensão das mudanças que ainda temos em perspectiva.

1939

ECONOMIA

1 — Agricultura: começa apenas a refazer-se da crise de 1930. — A situação do café continua muito precária: preços baixos, quotas de sacrifício onerosas. As outras culturas prosperam. A produção e transporte de viveres não oferece problemas. Os grandes centros são fartamente abastecidos. A especulação não existe, ou é insignificante. Uma ligeira tendência para a alta no custo da vida se vem fazendo notar nos últimos anos.

Comércio: forte, organizado, em ascensão. Os efeitos da depressão de 1930 desapareceram. Comércio com o exterior florescente, apesar da crescente tendência protecionista.

Indústria: também em ascensão, graças em grande parte à proteção alfandegária contra a concorrência estrangeira e ao financiamento do Banco do Brasil. São Paulo e o Rio crescem acentuadamente, tomando o aspecto de grandes e confortáveis capitais.

Pecuária: a criação continua a se desenvolver. Não falta carne nos grandes centros; porque nossos rebanhos bastam para o consumo interno, e para alguma exportação.

Moeda: o numerário circulante cresce paulatinamente em virtude do aumento das riquezas. Mas não há indícios de inflação.

TRADIÇÃO — PROGRESSO — DECADÊNCIA

2- A testa da vida social do país se encontra uma camada dirigente muito diversificada em seus elementos constitutivos: estirpes da velha aristocracia rural do Império, famílias que adquiriram influência e prestigio na 1a república, figuras mais recentes que se fizeram nas profissões liberais, na indústria e no comércio. Muito diversa da de 1889, a situação apresenta entretanto promessas de perenidade de nossas tradições e possibilidades ilimitadas de aproveitamento de valores novos.

Esta relativa boa ordem é decorrente do fato de estarem em equilíbrio também relativo a agricultura, a indústria, o comércio e as profissões liberais.

As classes mais altas apresentam síntomas inquietantes de invasão da imoralidade de certos grandes países estrangeiros. Os “casamentos no Uruguai”, os escândalos, os trajes imorais, as danças inconvenientes se tornam sempre menos raras.

SOLIDEZ — INQUIETAÇÃO

3 — Abaixo das classes dirigentes, vivem confortavelmente duas camadas de burguesia, uma media e outra pequena. Constituem por sua moralidade e pelo equilíbrio de sua vida um fator precioso de estabilidade social. Apenas, seus elementos se revelam sempre mais propensos a abandonar suas tradições próprias, e a imitar a classe mais alta... Muitas vezes no que tem de pior. É o que cria certa inquietação para os observadores.

CRIADOS — EMPREGADOS

4 — Não é difícil encontrar criados. Pedem ordenados módicos. Moram em geral nas casas dos patrões, ou nas cercanias. Servem mediocremente. O paternalismo antigo desapareceu. Com ele, a dedicação de parte a parte. O doméstico não é mais um como que membro "criado" na família. Suas relações com esta tomaram um caráter exclusivamente econômico: são meros empregados. Os patrões se desinteressam de seus serviçais, limitam-se a pagá-los. Não há ódio, mas frieza.

OPERÁRIOS — PROLETÁRIOS

5 — Há na massa trabalhadora certo número de casos de subnutrição e de falta de assistência médica, o que ocorre parte por negligência ou falta de formação dos interessados, e parte pela insuficiência dos salários. A esta situação, como é obvio, é muito difícil dar solução imediata. O problema existe no campo, e é mais grave na cidade, especialmente entre os operários.

A falta de economias, a desagregação da família, a invasão do espiritismo, a ação funesta do cinema vão transformando o operário em proletário.

COMUNISMO

6 - O "perigo comunista" é um fantasma como outro qualquer, explorado pela política com prodigioso sucesso.

Mas ao lado do risco de um surto comunista imediato, risco esse que, sem ser irreal, não é provável, há o perigo comunista autêntico, que consiste principalmente no deslizar gradual da sociedade burguesa para formas de vida, hábitos, princípios e estruturas sempre mais tendentes ao comunismo.

A tibieza religiosa, os costumes dissolutos, o ambiente das universidades concorre poderosamente para isto.

CULTURA

7 — A arte moderna, com suas extravagâncias, tenta insistentemente infiltrar-se, mas sem grande resultado. A reação instintiva do bom senso ainda é forte.

Os meios especializados se preocupam com sintomas já positivos de decadência no ensino secundário, que ameaça atingir os ambientes universitários.

De um lado a tendência a um afluxo exagerado de alunos nas escolas é manifesto. De outro lado, apregoa-se a necessidade de fundar muitos colégios e estabelecimentos superiores.

Começam a aparecer na literatura infantil certas revistas que deformam.

POLITICA INTERNA

8 - O Brasil anseia por encontrar uma forma de governo que seja expressão autêntica de sua alma e de sua realidade social. A Constituição de 1937 não criou raízes: não foi aplicada integralmente e todos sentem que não o será. É artificial como as anteriores. Há pois uma importante crise institucional que pede solução.

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

9 — O Brasil ocupa situação secundaria no cenário internacional. Está onerado de dividas.

As nações européias começam a interessar-se por ele.

1954

ECONOMIA

1 - Agricultura: há escassez de café. O produto alcança no mercado interno e externo os mais altos preços. No mais, a situação da lavoura é péssima. Há subprodução de víveres, os preços são elevadíssimos, mas a maior parte deles fica em mãos de intermediários. Há falta de braços. Cessada a guerra, não retomou seu antigo vigor o afluxo de imigrantes. Há falta de transportes, de sorte que, quando a produção agrícola aumenta, os viveres apodrecem em seus pontos de origem e o custo de vida nas cidades continua a subir. Muitos produtos se tornaram “gravosos”.

Comércio: continua forte, organizado, em ascensão o comércio interno. A inflação e a subprodução fizeram dele o paraíso dos atravessadores e especuladores. O comércio exterior está fundamente perturbado e cerceado.

Indústria: cresceu vertiginosamente, dobrando a população de São Paulo, aumentando muito a do Rio, e criando outros centros importantes. Mal aparelhadas, nossas cidades entraram em crise: crise de habitação, de energia, de transporte, falta de água, etc. Nos campos tornou-se crítica a carência de braços, atraídos pela indústria.

Pecuária: está em desproporção com nosso consumo. Nos grandes centros urbanos falta carne. O seu preço é alto, sua qualidade má.

Moeda: a inflação cresce desmedidamente, arrasando todas as situações econômicas baseadas em rendas vencimentos fixos. A carestia conseqüente impõe aumentos de salários, sempre insuficientes. Estamos em pleno regime de "escala móvel". A alta de preços determina a alta de salários, que por sua vez ocasiona alta de preços.

TUBARONATO — DECADÊNCIA

2 — A situação econômica das famílias tradicionais, dos proprietários de imóveis rurais e urbanos, aos intelectuais que trabalham nas profissões liberais, estagnou ou retrocedeu. Pelo contrario, nasce do chão como um cogumelo o magnata que se fez nestes poucos anos de economia de guerra com os lucros extraordinários. E na linguagem popular o "tubarão". O valor do dinheiro como fonte de influencia social cresce sempre mais. Míngua o prestigio da tradição, da cultura, das profissões liberais.

A concentração das grandes fortunas não foi evitada pela taxação dos lucros extraordinários.

Esta transformação social é o resultado da ruptura do equilíbrio primitivo. A indústria e o comércio produzem por vezes lucros astronômicos. A cafeicultura da origem a patrimônios razoáveis. O resto vegeta.

A imoralidade penetrou em todas as classes sociais. A pressão a favor do divórcio cresce dia a dia. Os “casamentos no Uruguai” se tornam freqüentes, os trajes se fazem sempre mais imorais, as danças, a viva social entram em decomposição.

O traje masculino é cada vez mais usado pelas mulheres.

INSTABILIDADE — CRISE

3 - A burguesia média e pequena vive de rendas (prédios, apólices, ações) e ordenados. Com a inflação, foi a classe que mais sofreu. De um lado, os alugueis estão congelados em boa parte, com graves danos dos proprietários, em geral da burguesia média. De outro, os ordenados de uma e outra burguesia subiram menos rapidamente do que os dos trabalhadores manuais. Obrigados apesar de tudo a certa representação, os membros dessa classe vivem num estado de penúria e apreensão contínua.

EMPREGADOS, SIM. CRIADOS, NÃO!

4 - É quase impossível encontrar criados. Pedem ordenados de vulto, e por isto não são raros nas casas dos tubarões, mas são cada vez menos numerosos na classe média, e desapareceram completamente dos lares da burguesia pequena.

Ainda aí a modificação esboçada em 1939 chegou a seu termo. As relações entre o "doméstico" e seus empregadores se tornaram frias, anônimas, muitas vezes hostis. O serviço é feito habitualmente com o máximo de displicência. O desinteresse do patrão pela vida religiosa, moral ou familiar do doméstico e dos seus, é total, desde que se trate da vida dos domésticos fora da casa. Há as clássicas exceções. E é só.

PROLETÁRIOS

5 — Em favor dos trabalhadores, a ação particular muito faz de bom. Os Círculos Operários, o SESI, o SENAC, o SESC, o SENAI, por exemplo, têm obtido resultados concretos. Deixa a desejar, por motivos morais e financeiros múltiplos, a formação da economia própria do operário, que deve comportar "pé de meia", a aquisição da casa própria, etc. E com isto o operário se transforma cada vez mais em proletário. A iniciativa oficial fracassou estrondosamente. Os famosos Institutos não realizam seus fins, e caíram em inteiro descrédito, não só junto aos operários como à opinião publica em geral.

COMUNISMO

6 - O comunismo passou a ser um perigo, não imediato talvez, mas que deita raízes imensas entre nós. A iniciativa oficial se revela ineficiente. Só a iniciativa particular, representada principalmente pela Cruzada Brasileira Anti-Comunista, é eficaz. Tem ela à sua testa um patriota denodado, o Almirante Pena Boto, cuja voz ressoa em todo o Brasil,

O deslizar da sociedade burguesa para o comunismo continua. Denuncia-a em suas Pastorais, com clarividência e vigor apostólico, o Exmo. Revmo. Sr. D. José Mauricio da Rocha, Bispo de Bragança: outra grande voz que repercute pelo Brasil.

CULTURA

7 — A arte moderna entrou. Submisso, resignado, o povo a vai estranhando menos. O bom senso perde dia a dia o vigor, no mundo caótico em que vivemos, e já não logra defender-se bem.

A decadência do ensino secundário se tornou manifesta. Receia-se que a aprovação de um projeto de reforma suprimindo do currículo o Latim e a História venha a legalizar o fracasso.

Apesar da baixa de nível do ensino, ou talvez por isto, o afluxo de alunos cresce sempre. O ensino secundário se comercializa sempre mais. Multiplicam-se as Faculdades. Só o que não se multiplica é a cultura.

As revistas infantis deformantes dominam inteira ou quase inteiramente o mercado.

POLITICA INTERNA

8 — A experiência democrática da IIIa República fracassou. O sufrágio universal com voto secreto deu origem a uma demagogia desenfreada. A propaganda política dispendiosíssima dá ao dinheiro um peso eleitoral impar. Uma aluvião de novatos que se estapeiam, esmurram e entre devoram, penetrou um pouco por toda a parte, e mais marcadamente nas assembléias legislativas da União, dos Estados e dos Municípios.

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

9 — Crescemos de importância no cenário americano e mundial. Nossas dívidas diminuem. As nações do mundo inteiro têm por nós um interesse vivo. É que a Europa decaiu, e o Brasil ainda tem por si o porvir. Ademais, estamos longe da Rússia e da bomba de hidrogênio.

* * *

VISTO o quadro, aparece o problema. Todas essas transformações se fizeram sem que nosso grande público ou nossos políticos por elas se interessassem. Na ditadura como na democracia, o público não tomou consciência nítida do que se passava. Foi presenciando au jour le jour as mil pequenas novidades de que se compuseram nossas transformações como em geral as grandes mutações dos povos. Mas sem relacionar conscientemente umas coisas com outras, sem formar um juízo sobre os rumos que tomavam umas e outras, em suma sem formar opinião.

Seja causa, seja efeito disto, o fato é que a imprensa diária nutriu a opinião pública com um noticiário político fofo e escandaloso, de que todos os aspectos sérios estavam ausentes. Vereadores que se esbofeteiam, deputados que se descompõem, inquéritos que se abrem, partidos que se cindem, candidaturas que se alinham, alianças que se esboroam, eis o temário essencial das manchetes políticas. As figuras que aparecem em tudo isto — salvemos ainda uma vez as exceções de estilo — são pequenas, apagadas, efêmeras. Hoje na crista das ondas, amanhã as engolirá algum vagalhão.

E ficarão sepultadas para sempre no esquecimento. A impressão de conjunto que causam é de cortar o coração. Sai-se da análise com a convicção de que estão exiladas da política todas as nossas figuras de escol em todos os campos, e a direção da vida pública está entregue a varias equipes de demagogos que se entredevoram.

Mas o mal não está propriamente nos políticos. Todo lugar que não é ocupado por seu legítimo detentor está exposto a ser usurpado pelo primeiro aventureiro que passar. Onde estão os únicos legítimos detentores da influencia política, isto é, os que na vida social — de alto a baixo — representam as forças vivas do país? Todas as classes, altas, medias, humildes, têm seus lideres naturais. Onde estão eles? O que fazem?

A esta hora, a lavoura, as profissões liberais, as universidades, a indústria, as forças armadas, o comercio, o operariado, deveriam já ter bem estudados, cada qual a seu modo e sob seu ponto de vista, os problemas que lhes importam. Pois a solução para um problema sério não se improvisa: requer leitura, observação, debate, experiência, e tudo isto só é, só pode ser obra do tempo. Estas classes já deveriam ter tomado contacto entre si já deveriam ter posto em harmonia seus interesses e seus direitos, já deveriam enfim ter elaborado uma política de larga envergadura em todos os planos, desde a produção agrícola até o ensino.

Mas, poder-se-á objetar, nada disto é tão simples. No seio das varias classes, pode estalar a discussão, e este trabalho de articulação de forças vivas sofrerá delongas sem fim. É razoável que a discussão

(continua)