Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 350 | página 02-03

CIRCULAR DE ORIENTAÇÃO PASTORAL AO CLERO DE CAMPOS

Reverendíssimo Padre e caríssimo cooperador

Servimo-nos desta circular para fazer a Vossa Revma. algumas comunicações, salientando seu significado, com o fim de auxiliá-lo no pastoreio das almas.

Absolvição comunitária

Com data de 22 de novembro do ano findo, 1979, o Emmo. Sr. Prefeito da Sagrada Congregação dos Sacramentos e do Culto Divino chamou a atenção dos Srs. Bispos do Brasil sobre os abusos introduzidos, a propósito da absolvição comunitária, abusos que devem ser coibidos (Cfr. "Comunicado mensal da Conferência dos Bispos do Brasil", n.° 327, dez. de 1979, p. 1186). Adverte a Santa Sé:

A. "Individualis et integra confessio atque absolutio manet unicus modus ordinarius quo fideles se cum Deo et Ecclesia reconciliant".

B. Em casos extraordinários — perigo de morte, por exemplo — pode dar-se absolvição geral, com prévia exortação ao arrependimento dos pecados, caso haja tempo.

C. Uma necessidade grave não prevista (excluem-se, portanto, festas e romarias, em que se pode e deve providenciar com antecedência), permite-se a absolvição geral, apenas quando os penitentes deveriam, sem culpa própria, passar longo tempo sem receber os Santos Sacramentos. A Sagrada Congregação não determina qual o tempo que deve considerar-se longo. Como o preceito da Comunhão limita-se à Comunhão anual, entendemos que o "longo" da Sagrada Congregação não seja menor. Tais casos não ocorrem na diocese.

D. Sublinha a Sagrada Congregação que, em qualquer caso de absolvição coletiva, permanece nos penitentes a obrigação de submeter à confissão individual os pecados graves perdoados naquela absolvição, e que ninguém pode beneficiar-se de uma segunda absolvição geral, antes de se ter confessado individualmente.

E. Continua o documento da referida Congregação: "Soubemos, além disso, que são muitos os que comungam e poucos os que se confessam [a Sagrada Congregação fala proporcionalmente], e que recebem a comunhão tanto pessoas conhecidas como casadas somente no civil, concubinários, e assim outros pecadores públicos".

F. A Sagrada Congregação espera que os Bispos cumpram seu dever de zelar pela observância do que a Santa Igreja estabelece relativamente ao respeito devido aos Santos Sacramentos. Lembra especialmente o que determina o Concílio de Trento (ses. 13, cap. 7), a saber: que o fiel, cônscio de pecado mortal, não pode aproximar-se da Sagrada Mesa apenas com a contrição perfeita, senão que deve obter o perdão de seu pecado, através da absolvição sacramental.

Ao transmitir essas paternas advertências da Santa Sé, unimo-Nos à Sagrada Congregação quando salienta o enorme benefício que resulta para as almas da confissão auricular e da absolvição pessoal. Pois somente esta faculta ao confessor dar ao penitente os conselhos adequados para sua emenda e seu afervoramento no amor de Deus. Quanto ao Padre, assegurava Tamburini que o confessionário é para o Sacerdote caminho que conduz ao Céu. E realmente é um exímio exercício de caridade para com o próximo que nos assegura o amor de Deus.

Catechesi tradendae

Entre os assuntos de sua 18.a assembleia geral, marcada para este ano, a CNBB destacou o relativo à catequese. Motivou o destaque a importância do assunto, sublinhado pela recente exortação do Santo Padre, "Catechesi tradendae", que, por sua vez, atende a um voto do Sínodo dos Bispos.

Atualmente, é de suma importância uma catequese, a um tempo, ortodoxa e eficaz.

Com efeito, não é preciso mostrar a meticulosa vigilância que pede a catequese nos dias de hoje, para que se mantenha fiel à Revelação transmitida pela Santa Igreja. Pois está presente a todo o mundo o escândalo provocado pelo numeroso grupo de teólogos que tomaram a defesa do Professor Hans Kung, da Universidade de Tubinga, na Alemanha, ao ser ele censurado pela Santa Sé. Porquanto Hans Kung se opõe a dogmas fundamentais do Cristianismo, como a Divindade de Jesus Cristo, seu nascimento virginal, e de modo geral à infalibilidade do Magistério Eclesiástico. Podemos dizer que ele ressuscita o racionalismo modernista da pior espécie.

Não é ocioso recordar a advertência de São Pio X. Condenados e desmascarados, os modernistas refugiaram-se em sociedades secretas, e de seus antros continuaram sua obra de infeccionar a Santa Igreja. Vivemos hoje as consequências dessa obra deletéria. Daí a recomendação de toda vigilância com movimentos de apostolado e conquista que se afastam dos moldes tradicionais, e jamais explicitam claramente seu pensamento. São os que apelam para a vida e a convivência, esquecidos que a Fé, indispensável para a salvação, é uma virtude intelectual que nos leva a aceitar as verdades reveladas. E é esta Fé que tem a primazia. Pois, o importante é viver de acordo com esta Fé.

Recato e virtude cristã

Vai-se tornando alarmante a condescendência com que, mesmo as autoridades, estão encarando o nudismo e a ausência de pudor nas praias, com irradiações por outros logradouros públicos. Há no homem, em consequência do pecado original, uma tendência para a sensualidade, responsável pelos costumes pagãos que enodoam nossa civilização cristã. Infelizmente semelhante tendência tem, mesmo entre os fiéis, uma audiência culposa. Por isso a Santa Igreja, continuamente, desde os primórdios, está a advertir os seus filhos sobre os perigos oriundos da concupiscência carnal. Nós mesmo, no decurso de nosso episcopado, já várias vezes alertamos nossos amados filhos contra semelhante perigo (vejam-se os tópicos no índice de "Por um Cristianismo Autêntico", e especialmente nossa Carta Pastoral sobre "Castidade, Humildade, Penitência, características do cristão, alicerces da Ordem Social", p. 157 e ss.).

Hoje dá-se do pudor uma conceituação falsa. Reputam-no fruto de preconceitos herdados de um passado em que vigoravam outras conveniências sociais. O pudor seria, pois, algo relativo, sem um fundamento na própria natureza humana, como de fato ela existe. Torna-se, pois, necessário esclarecer bem os fiéis, para que vivam de acordo com a Fé que professam.

Assim, jamais esquecerão que o pudor se relaciona com o pecado original. Com efeito, este pecado é que, historicamente, lhe deu origem.

Pois, composta embora de alma e corpo, meio matéria meio espírito, a natureza humana, em si, nada tem de mau ou perverso. Além disso, para prevenir os movimentos desordenados, oriundos da parte inferior, o Senhor, na sua inefável bondade, dotou nossos primeiros pais com o dom da integridade. Com semelhante dom, podiam eles viver tranquilamente nus, sem que tal condição pudesse impedir ou mesmo perturbar a contínua união de suas almas com Deus. Os sentidos estavam totalmente ao serviço da razão. Não tinham a menor comoção que não fosse antes resolvida pela inteligência e orientada para um bem superior.

A desobediência de nossos primeiros pais teve como consequência a perda não somente da Graça santificante, como também do dom da integridade. Eis que, logo após o pecado sentiram a vergonha de sua nudez, e procuraram cobrir, ao menos, a cintura, embora fossem casados e estivessem sozinhos (Gen. 3, 7 e ss.). Aliás, o próprio Deus Nosso Senhor veio-lhes em auxílio tecendo para eles umas vestes de peles de animais com que os vestiu: "Fez o Senhor Deus para Adão e sua mulher umas túnicas de peles e os vestiu" (Gen. 3, 21).

Em consequência, aceitando humildemente sua condição atual, os fiéis agradecem amorosamente a materna advertência da Santa Igreja, e cuidam de vestir seu corpo, para que não venham a ser cúmplices do ambiente sensual e pecaminoso, hoje vigente um pouco por toda parte, como resultado do menosprezo da Revelação.

De outro lado, o pudor é a melhor salvaguarda da pureza da alma. Eis porque reiteradamente adverte a Santa Igreja contra os males advindos à alma com a falta de recato e pudor. Sirva de exemplo o que escrevia aos Ordinários de Lugar a Sagrada Congregação do Concílio, no Ano Mariano de 1954: "A imodéstia e falta de recato nas vestes tornou-se comum não somente nas praias e casas de férias, mas nota-se em toda parte, pelas ruas de cidades e aldeias, em lugares públicos ou privados, e não raro até no recinto das igrejas. Dessa maneira põe-se em risco gravíssimo a inocência da juventude, cujo coração facilmente se inclina ao vício" (Cfr. Carta Pastoral "Castidade, Humildade, Penitência", in "Por um Cristianismo Autêntico", p. 168).

As palavras dessa Sagrada Congregação nos levam a recomendar que, na formação das consciências, insista-se sobre as consequências que se irradiam de nossas atitudes. Pois, a negligência ou certo liberalismo, nesta matéria, é, em grande parte, responsável pelo ambiente sensual que lamentamos na sociedade de hoje. Infelizmente, não costumam os moralistas advertir sobre a responsabilidade que cabe aos fiéis pela sua contribuição, devido á sua maneira de trajar e agir, na constituição e manutenção do ambiente sensual da sociedade de hoje. Semelhante ambiente é fruto em parte do desejo de prazer de uma sociedade paganizada; mas é também um incentivo para os crimes que bradam aos Céus, praticados por essa mesma sociedade, como o aborto, e outros pecados contra a natureza de que não se peja o egoísmo degradante do homem animal.

Inculquemos, enfim, a nossos fiéis a recomendação do Divino Mestre: "Este gênero de demônios só se expulsa com a oração e o jejum". Habitue-se o fiel às mortificações — especialmente às exigidas para o cumprimento exato de seus deveres — , e à oração, invocando particularmente a proteção de Maria Santíssima. Estará dando sua contribuição para o saneamento moral de seu círculo social.

Reforma agrária

Outro assunto a ser focalizado, com destaque, na assembleia geral da CNBB deste ano, é a Pastoral da terra que vem com a conotação de uma Reforma Agrária. Semelhante indicação vem motivada em vários conflitos sobre posse de terra, denunciados por Prelados e missionários.

Seria ingênuo acreditar que o problema não existe, como o seria igualmente desconhecer o perigo de uma solução que termine favorecendo às ideologias socializantes. Pois, trata-se, em última análise, de coibir os abusos no exercício do direito de propriedade privada. E em tais empreendimentos, de si louváveis, não é difícil a infiltração de elementos avançados, contrários ao próprio direito de propriedade.

"Basta — comentávamos Nós em Nossa "Carta Pastoral sobre os ardis da seita comunista" — que [tal movimento] não afirme de maneira enérgica e categórica que o instituto da propriedade privada é legítimo, para que a campanha auxilie a criação de clima hostil aos proprietários, enquanto tais" (Cfr. "Por um Cristianismo Autêntico", p. 138).

Recordemos, pois, brevemente a Doutrina Católica sobre a matéria.

Dois princípios harmônicos estão na base da solução cristã dos problemas econômicos: 1º.) O destino fundamental dos bens terrenos, enquanto foram criados por Deus para beneficiar a todos os homens. Princípio que chega a justificar a apropriação do alheio em caso de extrema necessidade; 2°.) a legitimidade da apropriação exclusiva de bens terrenos por particulares. Neste princípio se baseia o direito de propriedade privada, que é objeto de dois mandamentos da Lei de Deus: "Não furtar" e "Não desejar as coisas alheias". Diz Pio XI na sua célebre Encíclica "Quadragesimo Anno" que "a própria natureza exige a repartição dos bens em domínios particulares precisamente a fim de poderem as coisas criadas servir ao bem comum de modo ordenado e constante".

Como dizíamos, pois, nos desígnios da Providência os dois princípios funcionam em colaboração: a propriedade privada é o meio indicado pela própria natureza que torna possível a realização do destino comum dos bens criados. Descendo a casos particulares, os Papas reivindicam a propriedade privada também dos meios de produção, entre os quais, está, em primeiro lugar, a terra. Aliás, a produção em larga escala só é eficiente quando também no campo há lavradores assalariados. Pio XII, ao recomendar a pequena propriedade rural teve cuidado de advertir: "Disso não resulta que se negue a utilidade, muitas vezes a necessidade, de empresas agrárias mais vastas" (Alocução de 2 de julho de 1951, A.A.S. 43, p. 554 e ss.).

Nesse capítulo, o socialismo e o comunismo são visceralmente anticatólicos; são contra a propriedade privada, porque pleiteiam o nivelamento social. Aliás, este ódio à hierarquia é que levava Lenine ao seu ódio a Deus. Ele é contra qualquer religião, porque toda religião postula uma hierarquia. É igualmente este o capítulo por onde tentam as ideologias socializantes abrir uma brecha na resistência católica. Eis que hoje é indispensável premunir os fiéis contra semelhantes infiltrações. Este assunto já comentamos com Nossos caríssimos cooperadores e amados filhos na Nossa "Carta Pastoral sobre os ardis da seita comunista" (Cfr. "Por um Cristianismo Autêntico", p. 133 e ss.).Lembremos apenas que em prol da Reforma Agrária tem-se aduzido o princípio de que a terra é de quem a trabalha. Semelhante slogan fazia parte da campanha comunista de Lenine, para liquidar todos os proprietários rurais. E em sentido geral é ele falso, porque levaria a negar a legitimidade do direito à propriedade rural por parte de todos aqueles que pessoalmente não trabalham sua terra. O que é falso, absurdo e gerador de miséria social.

Não é somente a Revelação que se opõe ao nivelamento social, ainda que seja apenas econômico. Ele repugna à própria natureza. Tanto é assim que, nos próprios países comunistas, nos quais em tese, todos são iguais, há classes sociais. E ainda agora, por motivo do precário estado de saúde do ditador da Iugoslávia, comentava uma jornalista, escrevendo de Belgrado, que o maior problema para o sistema econômico do país é o "trabalho clandestino", ou seja, o trabalho pessoal realizado fora do horário oficial, que permite aumentar a renda e dar à cidade o aspecto de uma vida com a abundância comum às cidades capitalistas, introduzindo novamente a diversidade de classes. E o governo não consegue eliminar tal anomalia. O que quer dizer que a própria natureza se orienta para uma hierarquia social.

Eis que, como em todos os demais problemas humanos, a solução eficaz deste só se obtém através da prática da virtude. Enquanto a sociedade se mantiver alheia ao santo temor de Deus, nenhum problema social terá solução verdadeira. E novamente somos impelidos a aconselhar o jejum e a penitência.

Documento de Puebla

É do domínio público a divergência entre o 1°. vice-presidente do Celam e a CNBB sobre as publicações oficiais do documento de Puebla. O Sr. D. Luciano Duarte salienta e reprova os comentários do Revdo. Pe. Libânio como contrários ao documento, e, no entanto, publicados em edições oficiais da CNBB.

Ao lado dessa divergência, o "Comunicado mensal da Conferência dos Bispos do Brasil", n.° 326, novembro de 1979, traz (pp. 1167 e 1154) uma troca de correspondência entre o Sr. D. Ivo Lorscheiter e o Emmo. Sr. Cardeal Baggio sobre emendas ao texto de Puebla que lhe teriam mudado o sentido. Através da carta do Emmo. Sr. Cardeal Baggio vê-se que as emendas foram introduzidas após a revisão do texto feita em Roma, por uma comissão especial, emendas aprovadas pelo Papa. Entre elas destacamos: "A Doutrina da Segurança Nacional entendida como ideologia absoluta não se harmoniza com uma visão cristã do homem". Destacamos esta, porque ela indica bem a orientação que a Santa Sé deseja dar ao pastoreio das almas na América Latina. Quanto aos textos de Puebla, de fato os comentários não podem figurar em edições oficiais, a não ser com indicação clara de que não têm a chancela oficial. É o que se deduz de carta do Exmo. Sr. Secretário Geral do Celam a D. Ivo Lorscheiter ("Comunicado mensal", dezembro de 1979, p. 1228).

Visita do Santo Padre João Paulo II ao Brasil

É do domínio público que o Santo Padre João Paulo II virá abençoar as terras brasileiras e afervorar a devoção eucarística de seu povo. Devem os RR. Padres preparar os fiéis para que esta visita, de si tão excelsa, seja realmente frutuosa para a vida católica do povo, das famílias e das pessoas. Ao lado de exercícios piedosos, salientem a Missão do Papado na Santa Igreja, de maneira que fique bem vivo na mente dos fiéis o caráter sobrenatural da Vocegerência de Cristo que o Santo Padre exerce na Terra. O programa da excelsa visita não foi ainda estabelecido. É certo que o Papa presidirá ao encerramento do Congresso Eucarístico Nacional de Fortaleza, no dia 13 de julho.

Grato pela atenção que V.Revma. vai dar a estas Nossas comunicações e comentários, enviamos-lhe a todos os fiéis cordial bênção em Nome do Pa†dre e do Fi†lho e do Espírito † Santo. Amém. Dada e passada na Nossa Cúria Diocesana, em 28 de janeiro de 1980.

† Antonio, Bispo de Campos

Pe. H. C. Fischer, Secretário do Bispado

D. Mayer sobre a Reforma Agrária: "O socialismo e o comunismo são visceralmente anticatólicos: contra a propriedade privada, porque pleiteiam o nivelamento social; contra a religião, porque esta postula uma hierarquia”.


CARIDADE: VIRTUDE CRISTÃ SILENCIADA, MAS SEMPRE ATUAL

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade alcançou pleno êxito em mais uma campanha para o Natal dos pobres. Cerca de três milhões de cruzeiros em dinheiro e em espécie foram coletados por sócios e cooperadores da entidade, em apenas onze dias, em vinte cidades brasileiras. A arrecadação deste ano destinou-se aos pobres do Nordeste.

Os donativos em dinheiro somaram Cr$ 1.424.189,48, enquanto os em espécie (objetos religiosos, brinquedos, gêneros alimentícios, material de limpeza e higiene, peças de vestuário, roupa de cama, mesa e banho, tecidos e calçados) foram estimados em Cr$ 1.522.755,62, perfazendo-se o total de Cr$ 2.946.945,10.

Essa campanha-relâmpago da TFP foi realizada entre os dias 14 e 24 de dezembro último, em São Paulo (incluindo dez municípios da Região Metropolitana), Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Recife, Fortaleza, João Pessoa, Florianópolis, Campos (RJ) e Ribeirão Preto (SP).

* * *

Para os organizadores, na raiz do sucesso alcançado está a consonância que o apelo caritativo da TFP encontrou no mais fundo da alma do povo brasileiro.

Sim, a caridade.

Sobre esta virtude cristã, é notório que desceu um pesado silêncio, nos últimos anos. Dela quase não se fala mais. Nem das tribunas, nem das cátedras e — "hélas" — nem dos púlpitos. Ela foi sendo gradualmente posta de lado, e substituída, no final do processo, por outros temas: justiça social, distribuição de riquezas, libertação dos oprimidos etc.

Não é isto notório, e até mesmo uma banalidade?

Com efeito, artigos tratando dessas últimas questões enchem as páginas dos jornais. Uma ameaça local de greve será, como por encanto, transformada em ameaça nacional. E de norte a sul, certos meios de comunicação social darão por evidente que o País está em chamas. Isto, em geral, é insinuado, e não afirmado com tal clareza. Mas quem disse que, em nossos dias, predomina a lealdade em matéria de informação?

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E assim chegamos ao cerne da questão. Será real que nosso País se encontra a ponto de entrar em ebulição? De sofrer uma comoção social inevitável? A beira de uma revolução social capaz de arrastar para o caos a atual ordem de coisas, da qual não iria sobrar pedra sobre pedra?

Quem ousará negar que semelhantes apreensões não tenham assaltado o espírito de muitos, em horas de serena reflexão?

Pois bem. A recente campanha da TFP em favor dos pobres constituiu um desmentido do mito de que um incêndio social alastra-se pelas classes populares. O Brasil pôde assistir, assim, a uma fraterna demonstração de boa vontade em relação ao próximo, de harmonia entre as classes sociais. Os que possuem mais dando com afeto e estima. E os que têm menos aceitando com gratidão e respeito.

E esse entrelaçamento transbordou dos limites locais, para transformar-se numa ocasião em que se entreajudassem as diversas regiões do País. E os necessitados do Nordeste puderam comprovar a estima que lhes dedicam os seus irmãos do Sul.

Estes fatos falam por si. Mas é preciso acrescentar que a campanha registrou outro aspecto que impressionou vivamente os coletores. Em todas as cidades onde ela teve lugar, nas classes mais modestas notava-se maior generosidade dos doadores. Não é mesmo para impressionar tal largueza de coração? Correspondendo, muitas vezes, a uma privação (e, quem sabe, até a um sacrifício) de quem tem pouco, em favor de quem quase nada tem?

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Mas, então, a campanha só registrou notas harmoniosas?

Não, infelizmente. E o fato despertou perplexidades. Houve quem ousasse proferir insultos e agressões morais. E até surdas ameaças de agressão física. Estes raros casos ocorridos partiram de pessoas notoriamente abastadas e de elevada condição social...

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A que conclusão nos conduzem essas observações?

Estamos colocados diante de uma realidade social que merece ser analisada detidamente. Convidamos a essa análise os espíritos lúcidos e ponderados que aspiram a dias de próspera tranquilidade para nossa querida Pátria.

Em outros termos, o que pode o Brasil — o Brasil autêntico, não o da propaganda — esperar de seu povo? A resposta é simples. O Brasil pode esperar muito do coração bom e simples de seus filhos. Mas também deve temer muito de uma parcela minoritária da população que, aberta a influências deletérias e dotada de poderosos recursos publicitários pode vir a transviar a Nação dos destinos gloriosamente cristãos que a Providência lhe reserva.

Num plano mais universal, se analisarmos a História contemporânea encontraremos nela, entre outras, esta lição. Nações inteiras têm sido levadas para caminhos rejeitados pela imensa maioria de suas populações. Por falta de avisos? Por debilidade? Em muitos casos, não. Apenas porque não souberam discernir e recusar a mentira que lhes fora impingida como verdade.

"Menti, menti, menti, que algo há de ficar" — já dizia o ímpio Voltaire...


Desfazendo o mito de que a luta de classes empolga o País

SÃO PAULO — "A campanha da TFP pelo Natal dos pobres do Nordeste registrou um fato que comoveu seus promotores e participantes: o êxito impressionante da coleta em bairros operários. Nestes, a coleta dos donativos deparou-se com uma grande generosidade e um ambiente de cordial simpatia". — Com estas palavras, o Sr. Eduardo de Barros Brotero, membro do Conselho Nacional da TFP, iniciou suas considerações sobre a mais recente campanha da TFP.

E prosseguiu o entrevistado: "Estando há quase vinte anos na linha de frente da ação ideológica anticomunista no Brasil, a TFP verifica hoje, apreensiva, que a manipulação dos problemas socioeconômicos nacionais, sendo desenvolvida em escala crescente pelos agitadores e propagandistas de doutrinas subversivas, está se tornando cada vez mais categórica em toda a extensão do País".

Depois de explicar que "o objetivo dessa manipulação é fomentar a luta de classes, considerada pelos marxistas como a grande condição para a conquista do poder", declarou o diretor da TFP: "Tal luta de classes assume no Brasil atual dois aspectos. Em primeiro lugar, procura lançar as classes sociais uma contra a outra. Ela procura tornar odiosos os ricos ou os abastados, acusando-os de nada fazerem pelos necessitados. Por outro lado, induz os ricos a verem com maus olhos os pobres, como sendo seus agressores em potencial, os demolidores da prosperidade nacional. O outro aspecto dessa luta de classes consiste em jogar umas contra as outras as diferentes regiões do País".

"Tendo em vista esta situação — concluiu o Sr. Eduardo Brotero — e para tornar patente aos brasileiros quanto essa luta de classes é oposta à índole nacional, modelada por séculos de civilização cristã, a TFP está promovendo uma campanha para que nosso povo não dê crédito ao funesto mito de que a luta de classes estaria empolgando o País".

"Quando chega a kombi da TFP, é dia de festa na favela" — afirmou um cooperador da entidade, ao comentar a visita realizada, no dia 2 de janeiro último, na favela Barra do ltapegica, no cruzamento das Rodovias Dutra e Fernão Dias, com a finalidade de distribuir gêneros alimentícios à população. O material distribuído pela TFP aos pobres foi coletado pela entidade nos bairros de classe média e operária da capital paulista na campanha de Natal pelos Pobres do Nordeste. Não foram destinados aos necessitados do Nordeste, por se tratar de bens perecíveis. Caso fossem transportados para aquela distante região do Brasil, se deteriorariam em virtude do prazo que demandaria a viagem.

Com seus estandartes e capas vermelhas, sócios e cooperadores da Tradição, Família e Propriedade percorreram toda a favela tomando contato pessoal com os moradores, detendo-se por vezes em conversas com eles, enquanto fazia-se farta distribuição de alimentos.

A população favelada recebeu a TFP com alegria, emoção e reconhecimento.

A mais recente campanha da TFP foi uma demonstração de fraterna colaboração entre as classes sociais: os que dão, o fazem com afeto e estima; e os que recebem, com gratidão e respeito.