ESQUERDISMO NÃO-MARXISTA: O RUIR DOS ÍDOLOS
Péricles Capanema
Extensos círculos intelectuais do mundo inteiro prestaram, até há pouco, um culto reverencial ao marxismo-leninismo. Indagará explicavelmente algum leitor: por que o emprego do verbo prestar no passado? Não existe ainda um comunismo expansionista, imperialista, que ameaça deglutir os restos da civilização cristã? Sim. O movimento comunista existe, está em toda parte, leva a cabo ativa política imperialista, como não há paralelo na História e é o grande perigo do presente. Mas o marxismo-leninismo como fenômeno intelectual, principalmente na Europa Ocidental, está virtualmente morto. Muitos dizem em tom de debique: procura-se um intelectual marxista, de preferência vivo...
A quebra do pedestal
Marx, Engels e Lenine foram — e em parte ainda o são — divindades laicas do dessacralizado século XX. Mesmo aqueles que os combatiam, habitualmente manifestavam respeito por suas concepções.
O fracasso estrondoso da aplicação de suas teorias nos países do "socialismo real" (eufemismo para indicar os Estados socialistas) impingiu nas mentes intoxicadas de marxismo um recuo que se efetuou em três fases. A primeira etapa consistiu na demolição do stalinismo, encampada pelo próprio PC russo no seu congresso de 1956, durante o qual Kruchev denunciou os crimes de seu predecessor.
Mas Lenine e Marx permaneciam incólumes. Pouco a pouco, as graves revelações sobre o regime de terror, a fome, as perseguições sob as quais viveu a Rússia durante o relativamente curto governo de Lenine, abriram os olhos até dos mais recalcitrantes.
"Pari passu", a contribuição teórica do déspota vermelho gerava acentuadas dúvidas mesmo entre numerosos de seus seguidores. O burocratismo, o enregelamento e o tamanho ciclópico do aparelho estatal, a asfixia no desdobramento das potencialidades individuais, o totalitarismo onímodo passaram a ser vistos como males congênitos ao leninismo, não mais deformações desenvolvidas sob a implacável férula de Stalin. O otimismo cego da esperança no futuro deixou de existir. O horizonte comunista se toldou de nuvens plúmbeas. E, curioso fenômeno, análises demolidoras das sociedades da Europa Oriental feitas por esquerdistas que até há pouco lhes lançavam entusiasmados ditirambos: um masoquismo crítico passou a ser moda. A terceira etapa surgiu do desenrolar lógico das duas anteriores: a busca em Marx das "sementes geradoras do totalitarismo leninista". E, convenhamos, não foi tão difícil achá-las. O último ídolo trincou-se.
Acusa-se agora o marxismo de ser uma espécie de religião, com seus dogmas e santos, dispondo de um partido que funciona à maneira de ordem religiosa. A "sacralidade ateia" deu origem a um mundo fechado, enregelado, burocratizante. Torna-se necessário dessacralizá-lo, laicizá-lo, relativizá-lo. Ou seja, o pressuposto da filosofia marxista, o relativismo completo, precisa ser também estendido ao próprio marxismo e suas instituições. Em consequência, são discutidos livremente pilares conceituais do marxismo-leninismo, como a luta de classes, o papel central do partido na condução do movimento operário, o fim do Estado.
A sociologia e a análise histórica continuam profundamente impregnadas de princípios e metodologia marxistas. A preponderância do fato econômico sobre os fatores religiosos e ideológicos, a luta de classes como condição normal da sociedade e fator saudável de evolução são ainda considerados realidades incontestes, pelo menos em sua linha geral, em grande número de instituições acadêmicas.
Nos meios do progressismo católico continua atuante a infiltração ideológica marxista. Curiosamente, os elogios calorosos ao "profeta Marx", aos métodos de análise marxista, diminuíram. Atento às oscilações da moda, no momento em que Marx é derrubado do pedestal pelos expoentes da modernidade esquerdista do Velho Mundo, muda de tom também o progressismo católico.
Uma nova moda?
Certamente. Uma volta atrás, uma renúncia à utopia igualitária?
Como adiante se verá, antes uma nova formulação que dissolve um nó colocado na marcha do movimento revolucionário. Os porta-vozes mais qualificados desta reviravolta espetacular formulam, com maior ou menor nitidez, a questão como abaixo se expõe.
O núcleo do revolucionário é sua fidelidade à utopia criadora, desejosa da sociedade onde reine a plena igualdade na completa liberdade. Este sonho precisa de uma ideologia que o torne viável. A ideologia é, portanto, a tentativa de adaptação da utopia à realidade. Os teóricos revolucionários forjam as doutrinas que possibilitam a marcha da humanidade em direção ao sonho igualitário. Marx foi considerado o mais espetacular teórico do mito revolucionário. Apoiados em suas concepções, milhões de homens lançaram o mais potente movimento de destruição da ordem social burguesa. Lenine teria sido o estrategista genial que, com base no pensamento de Marx, completado e interpretado por ele, lançou por terra o milenar trono dos Czares, implantando sobre suas ruínas o primeiro Estado socialista da terra. Nada atinge tanto sucesso quanto o próprio sucesso. A partir de Lenine, o marxismo tornou-se leninista e o revolucionário que desejasse seriamente o triunfo da Revolução, habitualmente seguia o marxismo-leninismo. O triunfo deste colocou na obscuridade os outros teóricos revolucionários que discrepavam de suas ideias.
Passadas já muitas décadas das sangrentas revoltas de outubro de 1917, os frutos aparecem envenenados. O Partido Comunista aboliu a liberdade, produzindo a pior tirania da história humana e não atingiu a igualdade, gerou um petrificado Estado burocrático. Produziu cópia, em preto e branco, das sociedades industriais do Ocidente. A fé nas concepções de Marx e Lenine ruiu. E então? A esquerda realiza, pois, seu pretenso exame de consciência. A dúvida na obsessão antiga torna possível a volta de pensadores banidos ou marginalizados, tanto do socialismo utópico, quanto do socialismo dito científico. Reestuda-se em clima de borbulhante propaganda, os trabalhos do "Marx jovem", de Saint-Simon, de Proudhon, de Rosa Luxemburgo, de Kautsky e Gramsci, para citar apenas alguns. A expressão autorizada do mito revolucionário deixa de ser unívoca; transforma-se, com o perdão do neologismo, em plurívoca.
O eurocomunismo, analisado sob o ponto de vista de movimento ideológico, é, em grande parte, um reflexo deste tremor no seio das esquerdas.
Consequências políticas
Os ex-marxistas continuam sendo comunistas, tomado este vocábulo na acepção de quem deseja a sociedade radicalmente igualitária e liberal. Nas esquerdas, o embaraçoso impasse provocado pelo gritante fracasso da aplicação do marxismo ao longo de seis décadas, que deu origem à sociedade tirânica e empobrecida, em lugar do paraíso prometido, foi parcialmente resolvido. As mentalidades que não se deixaram dominar inteiramente pelo cinismo ou hipocrisia podem, numa cômoda saída, satisfazer sua moribunda lógica. Continuam comunistas, de outro comunismo que não o da versão marxista, e não tem mais pela frente o incômodo pertinaz da realidade discordante, nos países do "socialismo real".
Nas áreas da centro-esquerda, centro e mesmo em alguns círculos da direita diminui o pavor do comunismo em sua versão moscovita. Os novos comunistas, apregoadores da liberdade, não produzem em tão longa escala o temor paralisante, mais próprio ao comunismo clássico, maquiavélico, façanhudo, sangrento. E o lento processo da corrosão das fibras anticomunistas da opinião pública adquire maior velocidade pela retirada de alguns obstáculos. O deslizamento em direção à esquerda fica mais desimpedido.
Sob a luz de “Revolução e Contra-Revolução”
A Revolução, fenômeno universal descrito pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em seu magistral ensaio "Revolução e Contra-Revolução", não é de modo algum negada pela nova onda da esquerda não-marxista. Na realidade — e nisto tem ela razão — Marx não foi senão um dos corifeus deste movimento, que teve, como se sabe, três etapas principais: Revolução Protestante, Revolução Francesa, Revolução Comunista. O insigne pensador católico afirma no citado trabalho: "Duas noções concebidas como valores metafísicos exprimem bem o espírito da Revolução: igualdade absoluta, liberdade completa. E duas são as paixões que mais a servem: o orgulho e a sensualidade".
Portanto, para algum movimento recuar em sentido contrário à neopaganização contemporânea, é imprescindível que defenda valores contrários à metafísica revolucionária e promova a prática de virtudes opostas à explosão de paixões fomentadas pelo processo revolucionário. Assim define o Presidente do Conselho Nacional da TFP um movimento autenticamente contra-revolucionário: "Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da Ordem. E por Ordem entendemos a paz de Cristo no reino de Cristo. Ou seja, a civilização cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e antiliberal".
A parcial demolição de Marx, negada a sua preeminência e reduzido à condição de mero teórico entre tantos outros do movimento revolucionário, para quem se detém a analisar com vagar o atual estágio deste multissecular processo, atende a conveniências inegáveis, seja nos arraiais da extrema esquerda, seja naqueles que ela tenta conquistar, neutralizar ou esmagar.
Os três grandes atores da manobra eurocomunista: Berlinguer, Carrillo e Marchais, chefes dos PCs da Itália, Espanha e França. Adotará o eurocomunismo a nova moda para vencer as dificuldades que vem encontrando no eleitorado?
Escrevem os leitores
Revmo. Pe. José Trombert, Sêrro (MG): "Para se ter uma informação segura sobre a Religião Católica hoje na sociedade são poucos os órgãos de comunicação que têm coragem de referir o que vai por aí. Esse mensário traz certamente a verdade..."
Revmo. Pe. Roberto Lara, Duque de Caxias (RJ): “... pois a degustação dos assuntos em pauta no jornal católico do Brasil é satisfação que — a mim e ao meu colaborador — tem o mérito de deliciar, encorajar e santificar: além de informar".
Exma. Sra. D. Maria Angela Berni, São Paulo (SP): "... jornal de primeira categoria...”.
Ilmo. Sr. Helio Drago Romano, Campinas (SP): "Tem bom nível. Defende as boas causas. Esclarece. Exerce apostolado".
Ilmo. Sr. Henrique G. de Serpa Pinto, Niterói (RJ): "Parabéns pela iniciativa de esclarecer os leitores quanto a essa malsinada propaganda do sexualismo, de que até religiosas não se pejam de participar. Oportuníssima e feliz a reprodução dos textos incisivos do Magistério sobre o assunto".
Ilmo. Sr. Prof. Benedito Antonio Jahnel, Jundiaí (SP): "Venho através desta parabenizá-los pelo excelente artigo de CATOLICISMO do mês de fevereiro, onde trouxe um pouco da história artística do Brasil - o barroco em toda sua pureza e grandeza! Realmente era a expressão de um verdadeiro Brasil - de "brava gente".
A bem da verdade, assevero que todos os artigos reservados a parte cultural, mormente da Santa Igreja, são de uma beleza que faz inveja a todos os jornais e revistas que ousam escrever sobre arte.
É realmente CATOLICISMO um baluarte da cultura!"
E AS PEDRAS FALARAM...
Numa tarde em fim de outono, no seu majestoso declínio o sol doura as torres e telhados da cidade e vai mirar-se nas águas do rio.
É então que a parte antiga de Regensburg começa a imergir nas sombras evocativas de seu passado. As casas de comerciantes, que outrora prosperaram, projetam contra o céu agora róseo a silhueta de suas torres, influenciadas pelo estilo renascentista italiano.
A policromia celeste continua suas mutações. O horizonte reveste-se de púrpura, depois de lilás. E surgem as primeiras estrelas. Quando a noite cobre a cidade com seu manto frio, a vida urbana recolhe-se no interior aconchegado das casas. Um pouco mais de tempo, e os 130 mil habitantes da cidade dormem.
É o momento em que as pedras começam a falar...
* * *
A primeira voz parte de uma pedra que figura no portal de um antigo acampamento de legionários romanos. Nela podia-se distinguir uma antiga inscrição.
— Eu sou a voz da fortaleza Castra Regina. Eu represento a origem desta cidade. E disto dou prova invocando o testemunho da História. Vede o que está impresso em mim: A.D. 179. Nesse ano da era de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu aqui já me encontrava para registrar a conclusão da fortaleza romana e ao mesmo tempo a fundação de Ratisbona. Portanto, comemoro, em 1979, 1800 anos de existência!
— Digno de fé é o teu testemunho — retruca outra voz, grave e solene, surgida de uma grande pedra às margens do rio Danúbio. Se representas a História, eu represento a Tradição. Seiscentos anos antes que fosses aqui colocada, eu já aqui me encontrava, junto à aldeia celta que se erguia neste local. Vi primeiro atravessarem vitoriosas estas águas as legiões romanas e estabelecer-se aqui o poder dos Césares.
— Entretanto — continua a mesma voz — , não é o que testemunhei de mais importante. Porque um dia estremeci de gáudio ao sentir que em algum lugar do Oriente havia nascido o Redentor do mundo! O que logo foi confirmado pela boca dos soldados e peregrinos. Trinta e três anos mais tarde, estremeci novamente. E percebi que o crime mais abominável — o deicídio — fora cometido sobre a terra. Vieram, porém, a Ressurreição e Pentecostes. E os que pisavam estes caminhos e saciavam a sede nas águas que correm aqui, contavam os prodígios dos Apóstolos em Roma, na Grécia, na Ásia.
— Grandes e respeitáveis são vossas histórias — acrescenta outra pedra, também junto ao rio, dirigindo-se às anteriores. Entretanto, se representais o berço da cidade, sou eu a testemunha de seu batismo. Vi nascer a Europa cristã, com a chegada dos primeiros monges de São Bento. Diante deles curvaram-se as cabeças orgulhosas dos representantes dos Césares, como também dos bárbaros sedentos de sangue e despojos. Assisti ao fecundo trabalho apostólico de São Bonifácio, que venceu a dureza pagã dos germanos. Ele sagrou no longínquo ano de 739, o primeiro Bispo desta cidade: Gabauld. Por isso, Regensburg é uma das mais antigas sedes episcopais da Europa.
— Ó! Tua história é bela — exclama outra voz, proveniente do antigo Parlamento Imperial. Mas seria insuficiente conquistar pela Cruz se a vitória não fosse mantida por meio da espada. Eu represento a vocação imperial de Regensburg. A obra evangelizadora não resistiria durante muito tempo, sem o braço forte de Carlos, o Magno Imperador. Seu neto, o Imperador Luís, o Germânico, aqui residiu durante meio século, de 826 a 876. Também neste lugar se estabeleceram, desde o século VIII, os condes e depois duques da Baviera. E eu mesma, que integro este edifício, sede do Congresso Imperial Alemão Permanente de 1633 a 1806, faço parte da mais antiga sala de parlamento do mundo, escrínio do glorioso passado dos povos germânicos. E Regensburg, cidade imperial livre desde 1245, só perdeu sua antiga condição quando a despótica bota de Napoleão esfacelou os Estados alemães.
— No entanto, o que é tua glória diante da minha? (E a voz oriunda das pedras que compõem a ponte medieval, construída em 1146). Em 1147, vimos partir a Cruzada de Conrado III, Imperador do Sacro Império Romano Alemão, e em 1189 a do Imperador Frederico Barbarroxa. Eles foram conquistar o Sepulcro de Cristo. Haverá glória maior?
— Sim, respondem os blocos de pedra da velha Catedral de São Pedro, construída entre 1275 e 1534. Não discutimos idades, embora já estivéssemos colocadas quando se fundavam as primeiras cidades na América recém-descoberta. Também não discutimos estilos, embora nosso puro gótico seja precioso e raro. Nem nos vangloriamos de nosso altar-mor, todo de prata. O que há de mais glorioso em nós é o fato de resguardarmos a Presença Real de Deus Filho no Santíssimo Sacramento, que conservamos e protegemos, há vários séculos, num tabernáculo de 17 metros de altura.
E assim ia prosseguindo a porfia das pedras batidas, pisadas, gastas, talhadas ou esculpidas. Outras ainda poderiam ter entrado na disputa. Porém, o empalidecer das estrelas anunciava o aproximar da aurora. E o despertar dos homens impunha silêncio às pedras...
Mas as pedras, de fato, não eram pedras. Eram Anjos que narravam mais de dois mil anos de história da maravilhosa cidade de Regensburg, ou Ratisbona, na Baviera. Passado que não se faz presente só nos monumentos. Basta ouvir os Regenshurger Domspatzen ("Pardais da Catedral") para sentir o efeito civilizador produzido naquelas vozes cristalinas, harmonicamente dispostas num famoso coral de meninos, que comemorou recentemente mil anos de existência.
Acima, à esquerda, Regensburg ao cair da tarde: a ponte medieval sobre o Danúbio, a torre típica, a Catedral dos séculos XIII-XVI.
Á direita: o bairro antigo com seus pequenos castelos e casas de nobres em estilo renascentista italiano. É esta a parte da cidade que hoje atrai os visitantes, especialmente os jovens.
Encima: Sala do parlamento corporativo do Sacro Império Romano Germánico.
À direita, o coral dos Meninos Cantores de Regensburg, chamados “Os pardais da Catedral”.