Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 331 | página 08

CARTA ABERTA AOS BISPOS ITALIANOS

Arrigo Pintonello

Arcebispo

O Arcebispo Militar Honorário da Itália, D. Arrigo Pintonello, publicou em sua revista "Seminari e Teologia", de Pomezia (Roma), de março-abril p.p., oportuna carta aberta ao Episcopado italiano.

D. Pintonello foi vigário Geral Castrense da Itália e escreveu também uma "Súplica aberta" a Paulo VI sobre questões análogas às do documento dirigido aos Bispos italianos, do qual publicamos abaixo a tradução em português de seus principais tópicos:

Aos Excelentíssimos Senhores Bispos [...] suplicamos queiram dedicar um pouco de tempo e atenção aos seguintes motivos de meditação — além do já habitual tema da promoção social — sobre a dramática situação do momento, a fim de se deduzirem oportunas e inadiáveis opções pastorais.

Gostaríamos que os Excelentíssimos Bispos refletissem antes de tudo sobre:

Pontos

A LIBERDADE entendida como permissivismo moral, justificado em nome dos direitos da pessoa humana; pluralismo doutrinário [...].

O DIÁLOGO reduzido a um expediente de pretexto para toda forma de contestação, perda de própria identidade e especificidade cristã-católica; medrosa e progressiva diminuição confessional; relativização da verdade e de sua posse; concepção democrática da Igreja e de seu governo, com a correlata exaltação do parlamentarismo de assembleias.

• O ECUMENISMO realizado como: superação dos limites entre a Igreja e qualquer outra religião; indiferença prática, senão abertura dos cristãos em relação às ideologias materialistas; mão estendida ao comunismo, no mais cínico e culpável silêncio sobre os horrores da Igreja emudecida e dos campos de trabalhos forçados siberianos.

A IDENTIDADE da religião católica comprometida com a inserção de formas e elementos protestantes ou com sua redução a simples fenômeno de uma religião universal.

A IGREJA degradada ao papel de uma organização política qualquer na medida em que perdeu de vista seu fim sobrenatural ou o pospôs a veleidades de promoção social.

A FIGURA do Romano Pontífice teologicamente redimensionada e, nem sempre pacificamente, assimilada a um chefe de Estado comum, além do que não raramente ridicularizada, devido ao obscurecimento de seu específico serviço eclesial.

O GOVERNO da Igreja, pelo menos na aparência, mais obediente à ânsia espasmódica de marchar ao compasso de formas avançadas de democracia do que aos efetivos interesses das almas, não obstante a propalada democracia ter-se transformado não raras vezes em uma oligarquia que não escapa ao despotismo absolutista.

NO ÂMBITO doutrinário, litúrgico e pastoral da Igreja, bem como a própria vida dos povos, subtraídos à vigilância dogmática moral e às solicitudes apostólicas dos verdadeiros Pastores, pelo choque de uma mal entendida liberdade e pelo efeito de um diálogo inconsiderado, ecumenismo indisciplinado e falso irenismo.

A ASCESE cristã, consagrada por séculos de história e também confirmada pela santidade heroica, agora esvaziada de seu conteúdo evangélico, como a abnegação de si e o sacrifício, os quais foram substituídos pelos direitos da pessoa humana.

OS SEMINÁRIOS e conventos em sua maioria desertos, fechados ou cedidos, enquanto as escolas teológicas, quer a nível de seminário, quer a nível acadêmico, tornaram-se, muito frequentemente, cátedras de heresias e de desvios doutrinários.

OS "NOVOS PADRES", disfarçados e camuflados no meio da multidão, privados do trato sacerdotal que distingue o "homem de Deus" (2 Tm. 3, 17), ostensivamente assimilados ao mundo e a seus critérios.

AS POPULAÇÕES sistematicamente traídas em sua espera de evangelização com uma catequese antididática e não raramente antiteológica.

A ATEIZAÇÃO geral dos povos, por fim, trágico fundo de quadro sobre o qual o silêncio de quem teria a obrigação de falar, mas, pelo contrário, se cala, assume o significado de um aberto desafio à sempre renovada condenação do materialismo ateu de Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII.

Votos

DIGA-SE basta à orgia do pluralismo teológico com o qual se acoberta um lamentável indiferentismo de base, o permissivismo moral, o ecumenismo indiscriminado e o irenismo inconsiderado.

FECHEM-SE drasticamente [as comportas] ao marxismo e renove-se a sua condenação, agora que em ambientes de cultura laica [e portanto insuspeitos] também se afirma a sua incompatibilidade com o Cristianismo.

DESTITUAM-SE os professores e superiores dos seminários, propaladores de erros e heresias.

FORME-SE um Clero sadio e santo, restituído ao modo de vida apostólico.

CATEQUIZEM-SE as populações segundo o catecismo de São Pio X, mesmo com as necessárias adequações às realidades religiosas, morais e sociais hodiernas.

PONHA-SE um dique à espantosa inundação de imoralidade.

SALVE-SE a juventude, presa indefesa dos corruptores sem escrúpulos.

DIGA-SE com firmeza evangélica "sim, sim", "não, não" aos grandes problemas da vida religiosa e social e fuja-se da detestável sinuosidade do fingimento diplomático e do compromisso político.

RESPONDA-SE às instâncias do problema social de modo a não antepô-lo nem contrapô-lo às questões primárias da salvação.

EM SUMA: exercite-se com firmeza e oportunidade (considere-se as leis sobre o divórcio, ontem; sobre o aborto, hoje), o poder das Chaves, como o exerceu Cristo; como o exerceram os Bispos no decurso dos séculos, de forma colegiada, mas também privada, nunca o condicionando à aprovação da assim chamada "base", isto é, dos leigos e dos próprios Padres.

Interrogações

PESSIMISMO nosso? Pelo contrário, nossa visão "negra" das coisas é compartilhada pelo juízo escrito de centenas e centenas de Sacerdotes, Bispos e leigos.

INGERÊNCIA no que é da competência dos Bispos? Melhor diríamos nosso reconhecimento de tais prerrogativas é pleno. [...]

UMA VOZ no deserto, a nossa? Somos tentados a temê-lo. Entretanto, confiamos no senso de responsabilidade apostólica de nossos Pastores e queremos esperar que a muralha de seu silêncio seja afinal e corajosamente abatida.

Destaques

Nunca, como hoje, houve na humanidade tanta sede das verdades divinas e [ao mesmo tempo] tanta escassez delas.

Nunca, como em nossos dias, houve tanta anarquia na Igreja e tanto desnorteamento por parte dos Pastores de almas, em todos os níveis.

Nunca, como em nossa época, o Depósito de Fé sofreu tantas insídias em sua integridade e a Igreja docente foi tão muda e tão avara no cumprimento de seu mandato magisterial e pastoral.

É pueril apelar a [formulações como esta]: Deus, que preside as leis da História, não abandonará seu povo. Isto é fatalismo. [...]

Conclusões

Erros e heresias, caos e anarquia: um verdadeiro flagelo, muito mais vasto e destrutivo que o de Atila, com consequências que deveriam tirar o sono aos responsáveis pela vida e o governo da Igreja, os quais, pelo contrário, inexplicavelmente se calam.

Ignorância teológica? Amor à vida mansa?

IRMÃOS NO EPISCOPADO,

Também em nome de numerosíssimos Sacerdotes e leigos, dos quais cada dia se recolhem os gemidos de desalento e a incontenível angústia pelo atual momento de confusão geral, de debandada e de defecções, ousamos dizer-Vos:

RENOVAI em nós a alegria de ser batizados nesta Igreja que, confiada às vossas mãos, parece hoje irreconhecível, de tal modo está convulsionada e subvertida.

RESTITUI-LHE sua verdadeira fisionomia, suas autênticas diretrizes evangélicas, suas conotações teologais, em plena conformidade com vosso poder e com vossos deveres episcopais, sobre os quais a Igreja mesma se rege como sobre suas próprias colunas: a Vós o povo de Deus olha como o motivo da própria esperança.

D. Arrigo Pintonello


MIL PADRES APOIAM COVADONGA

MADRID — Diretores, sócios e cooperadores da Sociedade Cultural Covadonga, acompanhados de uma comissão de Sacerdotes, entregaram às Cortes espanholas, no dia 18 de maio, uma petição firmada por mais de 1000 Padres de todas as regiões do país.

O documento, intitulado "Como explicar o inexplicável? Eclesiásticos favorecem a implantação do divórcio — Apelo da Sociedade Cultural Covadonga às autoridades e ao público da Espanha", solicita que se elimine da futura constituição espanhola o dispositivo que permite a introdução do divórcio, bem como "qualquer formulação ambígua sobre a indissolubilidade do matrimônio".

Entre os 1009 signatários do abaixo-assinado de "Covadonga" figuram 63 Cônegos, 228 Párocos, 58 Coadjutores e 466 Sacerdotes diocesanos. Entre os religiosos encontram-se 5 Beneditinos, 21 Agostinianos, 4 Escoápios, 11 Carmelitas, 5 Dominicanos, 19 Franciscanos, 8 Capuchinhos, 39 Jesuítas, 18 Claretianos, 6 Salesianos e 20 religiosos de outras Congregações.

A petição ressalta que a atual onda publicitária a favor do divórcio na Espanha, quer dar a impressão de que a implantação do mesmo corresponde a uma aspiração popular irresistível. "No entanto — afirma o documento — esse vendaval anti-família encontra em seu caminho uma muralha, que é a convicção da absoluta maioria de nosso povo, de que o divórcio é um câncer destrutor da sociedade, contrário aos princípios fundamentais da Religião Católica e da Lei Natural".

A Sociedade Cultural Covadonga informou que já distribuiu mais de 250 mil exemplares do referido documento, sobretudo através de campanhas públicas realizadas por seus sócios e cooperadores em todo o território espanhol.

Ao lado: jovens de "Covadonga" distribuem folhetos contra o divórcio, junto à Praça Mayor de Madrid. Embaixo: um grupo de Padres signatários do manifesto de "Covadonga" incorporou-se à comitiva que entregou o documento às Cortes.