Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 259 | página 04-05

Com o exorcismo publicado por ordem do Papa Leão XIII, "Catolicismo" inicia uma nova secção que apresentará Orações menos conhecidas, mas muito úteis e atuais. A oração que estampamos hoje é destinada ao uso tanto dos Clérigos como dos simples fiéis e não deve ser confundida com o Exorcismo do Ritual Romano, cuja recitação é reservada aos Sacerdotes autorizados. Sobre sua oportunidade, lembramos as palavras do Exmo. D. Antonio de Castro Mayer, em sua Instrução Pastoral sobre a Igreja, de 2 de março de 1965: "Talvez mais do que em outros tempos, tem hoje atualidade a reza freqüente do exorcismo de Leão XIII contra Satanás e os anjos apóstatas. Recomendamo-la vivamente aos Nossos amados filhos" ("Catolicismo", n.° 175, de julho de 1965).

EXORCISMO CONTRA SATANÁS E OS ANJOS REBELDES

Publicado por ordem do Papa Leão XIII

Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Oração a São Miguel Arcanjo

Gloriosíssimo Príncipe da Milícia Celeste, São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares. Vinde em socorro dos homens que Deus fez à imagem de sua própria natureza, e resgatou por grande preço da tirania do demônio.

A Santa Igreja vos venera como seu guarda e protetor. Confiou-vos o Senhor a missão de introduzir na felicidade celeste as almas resgatadas. Rogai, pois, ao Deus da paz que esmague satanás sob nossos pés, a fim de que ele não mais possa manter cativos os homens e fazer mal à Igreja. Apresentai ao Altíssimo as nossas preces, a fim de que sem tardar o Senhor nos faça misericórdia, e vós contenhais o dragão, a antiga serpente, que é o demônio e satanás, e o lanceis encadeado no abismo, para que não mais seduza as nações.

Exorcismo

Em nome de Jesus Cristo, Deus e Senhor Nosso, por intercessão da Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus, do Bem-aventurado Miguel Arcanjo, dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e de todos os Santos, empreendemos com segurança, repelir os assaltos da astúcia diabólica.

Salmo 67

Levante-se Deus e sejam dispersados os seus inimigos, e fujam de sua presença aqueles. que O odeiam.

Desvaneçam-se como se desvanece o fumo; como se derrete a cera ao calor do fogo, assim pereçam os pecadores à vista de Deus.

V. Eis a Cruz do Senhor, fugi potências inimigas.

R. Vence o Leão da tribo de Judá, a estirpe de David.

V. Venha a nós, Senhor, a vossa misericórdia.

R. Como esperamos em Vós.

Nós te exorcizamos, quem quer que sejas: espírito imundo, poder satânico, horda do inimigo infernal, legião, assembléia ou seita diabólica. Em nome e pelo poder de Jesus † Cristo Nosso Senhor, sê extirpado e expulso, da Igreja de Deus, das almas criadas à imagem de Deus e resgatadas pelo Sangue Precioso do Cordeiro Divino †. Não ouses mais, pérfida serpente, enganar o gênero humano, perseguir a Igreja de Deus, atormentar e joeirar como o trigo os eleitos de Deus †. Ordena-te o Deus Altíssimo †, a Quem em tua grande soberba pretendes ainda te igualar; e que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.

Ordena-te Deus Padre †; ordena-te Deus Filho †; ordena-te Deus Espírito Santo †. Ordena-te Cristo, Verbo eterno de Deus feito carne †, que para salvar nossa raça perdida por teu ódio Se humilhou a Si mesmo, fazendo-Se obediente até a morte; que edificou sua Igreja sobre a rocha firme, e decretou que as portas do inferno nunca prevalecerão contra Ela, porque permanecerá com Ela todos os dias, até a consumação dos séculos.

Ordena-te a virtude oculta da Cruz † e o poder de todos os mistérios da Fé cristã †. Ordena-te a gloriosa Virgem Maria, Mãe de Deus †, que em sua humildade esmagou, desde o primeiro instante de sua conceição imaculada, tua cabeça cheia de soberba. Ordena-te a fé dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e dos outros Apóstolos †. Ordena-te o sangue dos Mártires e a piedosa intercessão de todos os Santos e Santas.

Assim, pois, dragão maldito e toda legião diabólica, nós te conjuramos pelo Deus † vivo, pelo Deus † verdadeiro, pelo Deus † santo, por Deus que amou o mundo a ponto de entregar seu Filho Unigênito, a fim de quantos creiam nEle não pereçam, mas tenham a vida eterna: cessa de enganar as criaturas humanas e de lhes oferecer o veneno da perdição eterna; cessa de fazer mal à Igreja e de armar laços à sua liberdade.

Vai-te, satanás, inventor e mestre de toda mentira, inimigo da salvação dos homens. Dá lugar a Cristo, em Quem nada encontraste de tuas obras. Dá lugar à Igreja, una, santa, católica e apostólica, que o próprio Cristo adquiriu com seu Sangue. Abaixa-te sob a mão poderosa de Deus, treme, e foge à invocação que fazemos do santo e terrível Nome de Jesus, a Quem os infernos temem, a Quem estão sujeitas as Virtudes dos Céus e as Potestades e as Dominações; a Quem os Querubins e Serafins louvam num concerto sem fim, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos.

V. Senhor, escutai minha oração.

R. E chegue até Vós o meu clamor.

(Os leigos omitem o V. e a R. seguintes).

V. O Senhor seja convosco.

R. E com o vosso espírito.

Oremos.

Deus do Céu, Deus da terra, Deus dos Anjos, Deus dos Arcanjos, Deus dos Patriarcas, Deus dos Profetas, Deus dos Apóstolos, Deus dos Mártires, Deus dos Confessores, Deus das Virgens, Deus que tendes o poder de dar a vida após a morte, o repouso após o trabalho, porque não há outro Deus além de Vós, e não pode haver outro senão Vós, o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, cujo Reino não terá fim; suplicamos humildemente à vossa gloriosa Majestade que Se digne libertar-nos com seu poder e guardar-nos incólumes de todo domínio, laço, ardil e perversidade dos espíritos infernais. Por Cristo Nosso Senhor. R. Amém.

Dos embustes do demônio, livrai-nos, Senhor.

Que vossa Igreja Vos sirva em tranqüila liberdade, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Que Vos digneis confundir os inimigos da Santa Igreja, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

(E asperge-se o lugar com água benta).


ESCREVEM OS LEITORES

Exmo. Revmo. D. Francisco Zayek, Exarca Apostólico Maronita para os Estados Unidos, Grosse Pointe Park, Michigan (EUA): "Com os melhores votos e agradecimentos pelo jornal CATOLICISMO".

Exmo. Revmo. Mons. Antonio S. Sola, Sorocaba (SP): "Acho [CATOLICISMO] ótimo".

Da. Candida Banho Rocha, Itapira (SP): "Minha apreciação com referência a CATOLICISMO: Muito bom".

General Benedicto Cunha, Pindamonhangaba (SP): "Minha apreciação e sugestões com referência a CATOLICISMO: Apreciação ótima e nenhuma sugestão".

Sr. Francisco Witzler Filho, Botucatu (SP): "ótimo [CATOLICISMO] e pedimos a Deus que os ilumine sempre, em defesa do que temos mais sagrado".

Sr. Evandro Campos, Taubaté (SP): "Gosto muito do jornal. Doutrinário, equilibrado, mas enérgico e incisivo quando preciso. É um autêntico defensor da nossa Igreja".

Da. Maria de Lourdes Lins Ataíde, Maceió (AL): "Renovamos a assinatura do CATOLICISMO, jornal digno de todo o nosso respeito e admiração. Nada temos a acrescentar como sugestões, pois a direção do mesmo sempre nos proporcionou o máximo no que se relaciona aos problemas religiosos".

Da. Cornélia A. Carvalho de Oliveira, Guaratinguetá (SP): "Considero CATOLICISMO um jornal cuja difusão é uma necessidade para que os menos esclarecidos tenham a oportunidade de verem abertos os seus olhos às realidades atuais. É corajoso e apresenta as questões de maneira a não deixarem margens a contestações. É claro, como sói ser unicamente o que exprime a verdade. Sou sua leitora assídua e não apresento sugestões por achá-las desnecessárias".

Revmo. Pe. Pedro Avila Megda, C. SS. R., Aparecida (SP): "[...] venho acusar o recebimento de vários exemplares do inigualável jornal, que tanto prezo, CATOLICISMO.

Agradeço os exemplares que falam tão alto das glórias de nossa querida "Nossa Senhora Aparecida", e agradeço também de modo especial ao jovem, que sem me conhecer, e sem sequer nomear o próprio nome, teve a imensa gentileza de atender o pedido de um Sacerdote e admirador de seu jornal e de seu destemor na defesa das sãs tradições, e do Evangelho.

Com os agradecimentos dirijo a Deus o meu mais sincero e cordial "Deus lhes pague"!"

Sr. M. S. P., São Paulo (SP): "Os Srs. gostarão de saber que a "Gazeta Comercial", de Juiz de Fora, publicou uma crônica de Nunes Pires, no Suplemento Literário, começando com estas considerações: "São Paulo, 1917. Damas e cavalheiros, crianças e velhos dirigem-se para a Catedral provisória onde se desenrolarão as solenidades da Semana Santa, com a pompa e o cerimonial que tornam acessíveis a todos a idéia da sublimidade da Paixão. / Este quadro vem à mente, quando se percorre as páginas de CATOLICISMO deste mês, que transcreve parte da pregação do então Arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, profundo conhecedor da Sagrada Escritura e orador sacro realmente notável". Segue-se a transcrição dos primeiros parágrafos do sermão".

Revmo. Pe. José Gumercindo Santos, Salvador (BA): "Gosto imensamente de CATOLICISMO".

Revmo. Pe. Severino Xavier, Casa dos Jesuítas, Russas (CE): "Com os parabéns pela luta indômita da TFP".

Dr. Raimundo da Costa Machado, Oeiras (PI): "[...] esse benemérito mensário".

Dr. Nelson Scantamburlo, Santa Cruz das Palmeiras (SP): "Minha apreciação com referência a CATOLICISMO: bom. Continue".

Da. Lidia de Paula Castro, Campinas (SP): "Consideramos esse jornal perfeito em todos os sentidos. Cumprimentamos o redator".

Sr. Carlos Aguilar, Santos (SP): "CATOLICISMO sempre combatendo o bom combate".

Da. Georgina Soares Menezes, Vaudreuil Hull, Província de Quebec (Canadá): "Escrevo apenas estas duas linhas para vos dizer que este cheque vos mando é para vos pagar o vosso jornal, que muito prazer nos dá ao recebê-lo".

Sr. Manoel Jorge Tavares, Batatais (SP): "A princípio, eu não dava muita atenção a este fabuloso jornal; mas um determinado dia eu me dispus a lê-lo, e pude observar que estava perdendo uma das leituras mais sadias da imprensa, e agora sinto falta desta divulgação; por isso aqui vai a minha assinatura".

Sr. Mario Geraldo Silva, Pirassununga (SP): "Excelente, leal e corajoso [CATOLICISMO]; [...] Aproveitando o presente ensejo, solicito-lhes a fineza de remeterem-me, pelo Reembolso Postal, o livro de D. Antonio de Castro Mayer, referido em um dos últimos números de CATOLICISMO".

■ Providenciamos a remessa do livro do Sr. Bispo Diocesano.

Sr. Felix Gulisard Netto, Taubaté (SP): "O CATOLICISMO é o jornal que nunca deve estar ausente de nenhum lar cristão, por modesto que seja, principalmente nesta hora em que as heresias pretendem minar as bases do reino de Deus na terra, o que jamais conseguirão; as portas do inferno jamais prevalecerão contra ele".

Prof. A. da Silva d'Azevedo, São Paulo (SP): "De vez em quando, o CATOLICISMO versa assuntos marianos, singularmente, os que se ligam a Nossa Senhora de Fátima. Lemo-los sempre com aprazimento, visto como sentimos na Mensagem de Fátima, a mais sensível manifestação dos Céus, para os tempos modernos.

Há anos, recordo que apareceu um artigo, no qual se narravam delicadezas espirituais da menina Jacinta, a qual, apesar de criança não tolerava certas liberdades.

Gostaria que, sendo possível, tornassem a lembrar-nos dos fatos relacionados com esta venturosa Vidente, que Nossa Senhora houve por bem levar para o Céu, ainda na infância.

Tenho umas vagas lembranças de que, quando Jacinta estava no Hospital, disse algo que hoje viria muito a propósito, relativamente a certas liberdades que por aí correm. Como o mês de maio está próximo, suponho que o tema de Fátima, em seus múltiplos aspectos, não será esquecido pelo nosso CATOLICISMO".

■ A sugestão foi atendida com os textos publicados na secção de "Verdades esquecidas" de nosso número de maio.


MODELO "PROFÉTICO" PARA UMA REFORMA DA IGREJA

A IGREJA-SUBTERRÂNEA NOS ESTADOS UNIDOS

Homero Barradas

O apartamento de Mr. X está preparado para receber os convidados. Mr. X tem um posto de influência num jornal norte-americano de grande circulação e conta com muitas amizades nos meios universitários, artísticos e jornalísticos. Seus convidados vão chegando e tomando lugar no vasto living. Entre eles há católicos, protestantes e um budista. Por fim chega o Padre Y.

A conversa gira em torno dos resultados das últimas prévias eleitorais, da guerra no Vietnã e da Presença real na Eucaristia. Um dos presentes, publicitário que fatura boas comissões mensais como agente de importantes organizações industriais, ataca com veemência o governo federal por não conceder maiores créditos ao Presidente Allende. Uma jovem senhora diz que está prestes a abandonar a Igreja Católica porque seu Pároco — um reacionário consumado que ainda usa batina — vem defendendo com insistência a doutrina exposta na Encíclica "Humanae Vitae".

Encerrando a primeira parte da reunião, o Padre Y lembra a todos o dever de se "engajarem" na luta "pelos direitos civis" e adverte aos que tiverem problemas como o da senhora favorável às pílulas, que a atitude de sair de uma "denominação religiosa" para entrar noutra, é coisa ultrapassada em face do ecumenismo "que caracteriza a mentalidade adulta" de nossos dias. "Todos formamos o povo de Deus — diz o reverendo — e a prova disso é que, juntos, vamos celebrar a Eucaristia". . .

O dono da casa e seus convidados acompanham o Padre e sentam-se em torno de uma grande mesa, num canto do living. Sucedem-se as leituras, os cantos (adaptados a melodias de jazz) e a distribuição de pão e vinho. Para "celebrar a paz", todos dançam ao som de uma gravação estereofônica. Depois se despedem e vão cuidar da vida.

Terminara mais uma reunião de uma das paróquias flutuantes da "Igreja-Subterrânea" dos Estados Unidos.

Um movimento subterrâneo luz do dia

Não é só nos Estados Unidos que existe uma Igreja-Subterrânea. Produtos da disseminação dos "grupos proféticos", promovida pelo monstro publicitário chamado IDOC, sobre cuja atuação "Catolicismo" vem alertando seus leitores desde 1969, fenômenos semelhantes são identificados entre os progressistas holandeses, franceses, alemães, espanhóis, italianos, chilenos.

Entretanto é na América do Norte que esta forma de contestação religiosa está mais difundida e, como é compreensível, é também sobre sua atuação entre os norte-americanos que há mais dados publicados.

Ali a Igreja-Subterrânea, ou Underground Church, compõe-se de grupos de quinze a vinte pessoas, geralmente recrutadas entre professores, engenheiros, jornalistas, profissionais do rádio e da televisão, publicitários, advogados, pequenos empresários. Reúnem-se em casas particulares, às vezes alugadas para isso, realizam debates ou colóquios e celebrações eucarísticas. Tais reuniões contam muitas vezes com a presença de Padres católicos ou ministros protestantes, não se dando importância ao fato de alguns desses Padres estarem suspensos de ordens. Segundo uma estimativa autorizada, há cerca de cinqüenta Sacerdotes atuando em funções diretivas no movimento ("Nunc et Semper", caderno n.° 7, apud boletim "CIO", Madrid, de 30-4-69, p. 5).

Apesar de se chamar a si mesmo de subterrâneo, esse movimento goza de ampla publicidade e até do apoio de certos jornais católicos e leigos. Tem merecido boa promoção por parte da revista "Time", e a conhecida "America", dos Jesuítas (cujo editor foi, durante muitos anos, o falecido Pe. Curtney-Murray, membro do Comitê do IDOC dos Estados Unidos), apresentou, em seu número de 18 de maio de 1968, a Underground Church como modelo para uma reforma da Igreja.

O Pe. Rocco Caporale, S. J., professor de sociologia da Saint John University, de Nova York, realizou uma pesquisa sobre a Underground Church e afirma que existem nos Estados Unidos dois a três mil desses grupos subterrâneos, cujos membros têm de 25 a 45 anos de idade. Já o Dominicano Pe. Matthew Fox avalia em 50 mil o número de adeptos (apud "Jornal do Brasil", Rio, 24-5-69). A opinião mais sensata, entretanto, parece ser a de uma articulista da revista "Ligorian", dos PP. Redentoristas de Liguori, Missouri, que em agosto de 1968 afirmava: "Minha impressão a de que, em termos puramente numéricos, a Underground Church é muito pequena [...]. Eu penso que a Underground Church atraiu especialmente um grande número de pessoas interessadas em religião, por exemplo: padres e ministros, freiras de vanguarda, professores de religião ou professores em escolas religiosas e leigos que por uma ou outra via têm alguma experiência no sistema da Igreja institucional".

A composição desses grupos está inteiramente na linha do ativismo preconizado pelo IDOC e explica a influência que exercem.

Resumindo a origem da Igreja-Subterrânea, explica o Pe. René Laurentin (IDOC-França): "os católicos subterrâneos percebem que o cristianismo não pode ser vivido de maneira individualista, diante de sua consciência apenas: que ele é comunhão no Cristo. Eles se reúnem, pois, em grupos mais ou menos comunitários que procuram viver um cristianismo centrado no Evangelho e no mundo atual, à margem das estruturas, que lhes parecem asfixiantes ou antiquadas. Realizam experiências que julgam necessárias para preparar a renovação bloqueada pelas estruturas: têm sua liturgia experimental, seu ecumenismo "de base", pronto para a intercomunhão, seus engajamentos contra o racismo, a guerra no Vietnã e contra todas as formas de opressão" (René Laurentin, "L'Amérique Latine à l'heure de l'enfantement", Ed. du Seuil, Paris, 1968, p. 23).

Teologia profética: a morte da religião

Sofrendo por mais de quatro séculos as investidas de uma conjuração anticristã, cada vez mais ousada e poderosa, a sociedade ocidental foi lentamente se afastando da influência da Igreja, que a modelara desde o início da era cristã e sobretudo na Idade Média. Do livre-exame passou ao filosofismo, do filosofismo ao agnosticismo, deste ao laicismo e, finalmente, ao materialismo. A tal ponto, que hoje se pode chamar nossa sociedade de neopagã.

Diante desse processo frontalmente dirigido contra Ela e contra sua obra, a civilização cristã, a Santa Igreja reagiu sempre à altura, reafirmando os princípios recebidos de seu Divino Fundador e condenando, um após outro, os erros e desvarios da sociedade emancipada. Hoje, pelo contrário, os progressistas querem que a Igreja, a pretexto de aggiornamento, de sôfrega atualização, Se desfaça de sua imagem sobrenatural, calque aos pés sua doutrina divina e adote como modelo o mundo que foi contra Ela forjado.

Não estranha, portanto, que a Igreja-Subterrânea, posição avançada do progressismo, tenha como fundamento de sua teologia a adesão dos católicos, sem restrições, às últimas inovações da sociedade materializada. Foi o que declarou o Pe. Theodor Steeman, sociólogo holandês, ao encerrar uma reunião organizada pelo Departamento de Teologia do Colégio jesuíta de Boston, sobre a Igreja-Subterrânea: “Precisamente aqueles que se sentem "em casa" nesta sociedade norte-americana não vêem já nenhuma necessidade de continuar levando essa existência tipo "ghetto", de manter-se na defensiva contra os valores e "ways of life" norte-americanos, e gostariam de mover-se livremente na sociedade a que pertencem, configurando sua vida cristã em forma adequada e positiva?” (boletim "CIO", p. 8).

Assim como têm sua teologia, os católicos-subterrâneos têm seus teólogos e também suas teólogas, que são as mais radicais. Uma delas, Mary Daly, vê na recusa do sacerdócio às mulheres um inconfessado desprezo pelo sexo feminino. Rosemary Radford Ruether, professora de Teologia na Universidade de Howard, tem uma explicação para a posição teológica da Igreja-Subterrânea. A seu ver, há uma tensão entre os dois aspectos da Igreja Católica: a instituição histórica e a comunidade escatológica. O papel da Underground Church é o de estabelecer o equilíbrio entre esses dois aspectos. A Sra. Ruether deseja que toda a Igreja passe por esta espécie de morte a que chamam "a morte da religião". Assim seriam remediados dois excessos: de um lado, a "esmagadora força reacionária da cristandade institucionalizada" e, de outro, "a ineficiência do espírito profético e apocalíptico, quando este não está encarnado nas estruturas sociais e histórias" (Laurentin, obra cit., p. 25).

Uma Igreja sem fronteiras

Nascida do espírito ecumênico mais extremado, a Igreja-Subterrânea julga o ecumenismo já ultrapassado. De um lado, porque o próprio Catolicismo, segundo ela, não é mais um todo coerente, como o provariam as discussões do Concílio e as reações à "Humanae Vitae". Sustenta Rosemary Ruether que é absurdo falar de uma "fé comum", pois nunca vicejaram em uma comunidade cristã tantas interpretações diferentes sobre o conceito cristão fundamental da fé, como hoje na Igreja Católica. Considerar o Catolicismo romano como uma comunidade não representa mais do que uma concepção jurídica (boletim "CIO", p. 6).

Por outro lado, já não tem sentido a promoção da unidade das religiões, pois o "povo de Deus" formaria uma grande igreja, englobando as diferentes confissões cristãs, para além dos particularismos doutrinários e institucionais. Não estamos mais na época da Reforma protestante ou da Contra-Reforma, nem mesmo no tempo do ecumenismo: os problemas que se põem são, afinal de contas, idênticos em todas as confissões cristãs e nenhuma dentre elas pode pretender razoavelmente que detém sozinha as vias da salvação ("Etudes", julho de 1969, pp. 123-124)!

Para esses profetas da Igreja-Nova, tanto as heresias mais absurdas como as sagradas verdades da doutrina católica são "como a floração de uma multiplicidade de dons e o crescimento transbordante de carismas que testemunham a presença e a ação do Espírito no Povo de Deus" ("Etudes", pp. 123-124).

Nessa igreja sem fronteiras, não haveria razão para alguém dela sair ou nela permanecer. Seria "reacionarismo" — como afirmou á fogosa Mrs. Ruether na reunião da Faculdade dos Jesuítas — pois seria admitir ainda as velhas fronteiras entre "os de dentro" e "os de fora" (boletim "CIO", p. 7).

Liturgia subterrânea

Lugar de destaque nas práticas da Igreja-Subterrânea é ocupado pelas celebrações litúrgicas. Aliás, é sabido que a falsificação da liturgia tem sido importante veículo de propaganda modernista desde antes do Concílio. Seguindo a mesma linha de ação, os contestadores subterrâneos se utilizam da liturgia como meio para transformar a própria estrutura da Igreja. Realizando suas festas eucarísticas em casas particulares, eles frisam a necessidade da substituição da instituição pela comunidade. Como a Presença real está entre os dogmas discutidos por eles, pode-se calcular a que extremos não chegam em suas celebrações. Muitas vezes estas são o produto de uma imaginação e um sentimentalismo exacerbados, com que comemoram fatos da vida de algum dos membros da comunidade, ou quaisquer outros acontecimentos, como, por exemplo, a morte de Martin Luther King. Mais comumente, porém, é um arremedo da Santa Missa que constitui sua liturgia.

Estas festas eucarísticas podem ser presididas por Padres católicos em uso de ordens, ou delas suspensos, por ministros protestantes ou por simples leigos. A todas é atribuído pleno valor eucarístico.

Entre os postulados dessa nova liturgia sobressaem o da dessacralização das solenidades, com o sacerdócio dos leigos, o da substituição das cerimônias da manhã do domingo, a que chamam de ordálio, pela festa do sábado à tarde, e o da substituição da paróquia pelo grupo de amigos e de parentes.

Guerrilha religiosa

Para a Sra. Ruether "a igreja Católica é a última instituição sobrevivente do "Ancien Régime", que foi derrubado pelas revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX". Efetivamente — continua ela — "já há muito tempo não existe explicação para este passado que está de mais na Igreja, diante daquela Revolução. Não que se pense com gosto em assaltar barricadas, mas sem violência tampouco poder-se-á realizar alguma coisa, pois os que estão no poder raramente o deixam, salvo se forem empurrados para uma situação em que já não tenham outra alternativa" (boletim "CIO", p. 7).

Estamos, pois, diante de um caso de verdadeira guerrilha religiosa, de uma ação direta contra a estrutura hierárquica de que Nosso Senhor dotou sua Igreja, quando A fundou.

E é lógico que assim procedam. Partindo da idéia de que a Igreja deve ser uma sociedade democrática, em tudo igual às demais, do mundo de hoje, com facilidade chegam à conclusão de que a Igreja hierárquica, como seu Fundador A concebeu, não Se enquadra no mundo esquerdista a que aspiram.

Justificam-se os teólogos subterrâneos com a doutrina de que o Concílio "deu aos leigos seu verdadeiro lugar e afirmou a necessidade, para a Igreja, de "se deixar modificar pelos desafios que lhe lança o mundo" (Theodor Steeman, artigo no "IDOC-International", n.° 3) [...]. A autoridade religiosa praticamente torna-se uma emanação da base, o que é lógico, não se distinguindo mais a Igreja das outras sociedades humanas [...]" ("Etudes", p. 123).

Assim se abre caminho para a organização de verdadeiros soviets nas fileiras da Igreja, como propôs a trêfega Mrs. Ruether na reunião realizada sob o patrocínio dos Jesuítas de Boston. Seriam conselhos independentes que rivalizariam com os conselhos oficiais e seriam chamados a se afirmar como verdadeira voz do "eleitorado".

Outros, como o Pe. Burton, S. J., prevendo o malogro da via eleitoral, vão mais adiante: "a existência cristã é uma existência revolucionária em face da Igreja institucional"; "a falta de poder para uma renovação interior conduz à guerra de guerrilhas. Unidades guerrilheiras que exercessem subitamente uma pressão, seriam de grande eficácia" (boletim "CIO", p. 7).

O cavalo de Tróia

Seria difícil explicar a expansão dessas idéias se seus adeptos não encontrassem apoio em determinados setores da Igreja. De um lado, eles se sentem encorajados pelo grande e cômodo partido dos moderados, em cujas fileiras não será difícil apontar muitos Sacerdotes e Bispos. Esses amigos da paz e da união, mesmo diante do erro declarado e militante só têm palavras de compreensão e de amor. Não concordam, é claro, com esses excessos progressistas, mas acham que "nem tanto ao mar, nem tanto à terra. . ."

O partido dos moderados só se zanga quando vê alguém denunciar o erro; no que depende deles, os fiéis ficam desarmados para qualquer resistência.

Outros vão mais adiante. Ainda sob a capa de moderação, abrem metade do caminho à heresia e deixam o resto da tarefa aos extremados.

Seria possível à Underground Church pregar a destruição das estruturas da Igreja, se não fosse a pregação daqueles que, nos púlpitos, nas conferências, na imprensa católica, só falam em religião adulta, em emancipação do laicato? Seria possível a consagração feita por leigos nas missas-subterrâneas, se não fosse a idéia, há muito tempo difundida, da participação dos fiéis no Sacerdócio ministerial? Seria possível ensinar que os erros protestantes são uma "floração de dons do Espírito no Povo de Deus", se não se tivessem aberto os templos católicos aos ministros protestantes, para aí pregarem seus erros, se não se tivessem feito coletas entre católicos para obras protestantes? Poderia haver tão grande indiferença pela moral católica, se não se tivesse martelado em tantas reuniões para casais e cursos para noivos, que cabe à consciência dos esposos a decisão sobre o uso de anticoncepcionais?

Não estranhemos, pois, os excessos da Underground Church. Eles nada mais são do que uma conseqüência lógica de tanto progressismo difuso, que anda por aí, em tantos ambientes onde não se ensina nem a verdade nem o erro, mas meias verdades e meios erros, deixando o campo aberto às maiores aberrações do profetismo.