(continuação)
ANÁLISE, DEFESA E PEDIDO DE DIÁLOGO
Recebe, viaja e é subvencionado para isso. Como as esquerdas querem uma "vedette" não de barbas e charuto na mão, mas de batina, usam-no no Exterior para denegrir o Brasil. É o que esse Fidel Castro de batina tem feito na Europa".
Isto posto, analisemos as restrições que Vossa Eminência deixa aparecer quanto à atuação do Prelado. Como são vagas! "Podemos discordar de algumas posições assumidas pelo Arcebispo de Olinda e Recife", e mais adiante: "pode-se desejar novos rumos nos pronunciamentos do Padre Helder aqui e fora do País".
Perguntamo-nos quais as posições de D. Helder a cujo respeito Vossa Eminência julga lícita a discordância, e no que essa discordância consiste. Perguntamo-nos ainda no que os rumos de D. Helder podem ser corrigidos. As palavras de Vossa Eminência nada dizem a respeito.
Em suma, é fácil perceber tudo quanto une Vossa Eminência ao pensamento e à obra de D. Helder. E impossível discernir o que realmente o separa dele.
III — TFP EM LEGÍTIMA DEFESA
Cabe-nos agora, Senhor Cardeal, analisar a mensagem de Vossa Eminência na parte que contém um formal e declarado ataque à TFP.
1 — Um alerta injurioso e arbitrário
Declara Vossa Eminência que os católicos devem estar "alertas [...] com o movimento denominado Tradição, Família e Propriedade". E por quê?
A razão alegada explicitamente — pelo menos segundo o texto impresso que o já aludido estrondo publicitário levou ao conhecimento de todo o País — é só esta: porque tal movimento "não conta com a aprovação e qualquer apoio desta Arquidiocese".
A explicação não poderia ser mais sibilina. Pois de um lado ela faz entender que esta Sociedade não pediu licença a Vossa Eminência para se instalar na Bahia. Mas omite de dizer que, entidade cívica que é, falando sempre em nome próprio e jamais no da Hierarquia, a TFP — segundo a lei canônica — não precisa de tal licença. E que, assim, o simples fato de não termos a licença de Vossa Eminência, não é razão para que alguém se alerte contra nós.
É bem certo que a TFP procura alicerçar suas teses na doutrina católica, e neste ponto está ela sujeita à censura da Autoridade Eclesiástica. Se Vossa Eminência encontrar nos livros e escritos desta Sociedade qualquer erro doutrinário, humildemente nos submeteremos. Mas não é isto que Vossa Eminência alega. Vossa Eminência alega que não temos sua licença. E sabe entretanto que as leis da Igreja nos dão o direito de existir sem ela...
Ou então teria Vossa Eminência querido dizer que tem motivos outros, que nos desabonam em seu conceito? Em tal caso, assiste-nos o direito de pedir-lhe que declare quais são. Pois essa tomada de posição contra a TFP, tão categórica e ademais transformada pelo estrondo publicitário em uma verdadeira — e aliás vã — tentativa de amotinar contra esta Sociedade a opinião nacional, tem todo o ressaibo do despotismo pelo próprio fato de vir desacompanhada de qualquer fundamentação. A atitude de Vossa Eminência não teria sentido diverso se tivesse sido redigida nos seguintes termos: alertamos os fiéis contra a TFP porque tal é nosso bel prazer. Isto, Senhor Cardeal, em plena era pós-conciliar, quando a própria Congregação para a Doutrina da Fé se desvanece em não mais usar os métodos da Congregação do Santo Ofício, tão justos em si mesmos e tão mais benignos que o de Vossa Eminência.
Acresce que, se no papel impresso Vossa Eminência se limitou a alertar os fiéis contra a TFP, na gravação em fita magnética que temos em nosso poder, Vossa Eminência foi bem mais longe e declarou expressamente que "reprovava" esta Sociedade.
Quanto mais pesada a medida, mais dura é a carência de explicação, e mais sagrado é o direito que assiste à parte lesada, de ser informada a respeito.
2 — Censura sem defesa prévia
E se julga ter motivos para tal atitude, por que, antes de difamar a TFP, Vossa Eminência não nos convocou para um diálogo esclarecedor? Por que nos feriu sem nos ouvir, ao passo que aos católicos que infiltram o marxismo na Igreja, Vossa Eminência, que lhes conhece a ação, evita de ferir?
3 — Unilateralidade iníqua
Permita-nos Vossa Eminência que ao comentário sobre a parcialidade dessa atitude acrescentemos uma reflexão sobre o que ela tem de iníquo. Pois é contra toda a equidade que Vossa Eminência, ao alvejar assim a TFP, e mesmo que tivesse justos motivos para tal, haja omitido a menção dos serviços que segundo público e caloroso testemunho de centenas de milhares de brasileiros, inclusive vários Bispos — ela vem prestando à civilização cristã.
4 — Golpear o porta-bandeira é atirar a bandeira por terra
Mais ainda. Vossa Eminência escolheu o momento preciso em que a TFP empreendia um hercúleo esforço no sentido de pôr o povo brasileiro de sobreaviso a respeito do escândalo chileno, para então procurar prostrá-la por terra. E, parecendo não contente com isso, depois de regressar de Roma, e já então tendo em vista a explosão publicitária que sua mensagem havia causado, reafirmou-a para a imprensa no dia 3 de outubro, produzindo alento, gáudio e reconforto para os esquerdistas, comunistoides e comunistas de todo o Brasil. Pois vendo alvejado o porta-bandeira, bem terão compreendido que se criam condições para que a bandeira caia por terra...
IV — REITERANDO O PEDIDO DE DIÁLOGO
Numa época em que contestações revolucionárias mais ou menos impunemente se estendem como vagalhões pelas imensidades do mundo católico, a presente carta aberta parecerá talvez insossa aos que se comprazem em acontecimentos sensacionais e "ardidos". Não nos perturba essa hipótese.
Somos contrários ao espírito contestador, aos métodos contestadores e à contestação. Desejamos ser submissos — em toda a medida exigida pelas leis canônicas — à Autoridade Eclesiástica legítima.
Não julgamos, porém, que por isto nos falte o direito de representar a essa Autoridade, com o devido respeito, sobre o que no ensinamento dela (quando não revestido do caráter de infalibilidade), ou nas suas atitudes, possa causar perplexidade e desconcerto.
Com efeito, uma Autoridade Eclesiástica — mesmo altamente colocada como Vossa Eminência — pode ter ensinamentos e atitudes passíveis de reparo. E não se diminui ao reconhecê-las.
Ao dizê-lo, nos ocorrem as palavras de Paulo VI referentes às lutas passadas, entre a Santa Igreja e as seitas heréticas ou cismáticas: "Se alguma culpa nos cabe por esta separação, pedimos perdão a Deus humildemente, e rogamos também aos irmãos que se sentem ofendidos por nós, que nos desculpem" (Discurso de abertura do segundo período de sessões do II Concílio Ecumênico Vaticano, em 30 de setembro de 1963).
Assim sendo, não é de causar estranheza que nas palavras de Vossa Eminência encontremos filiais reparos a fazer. E que sobre esses reparos, respeitosamente, peçamos um diálogo.
E sobretudo não pode causar estranheza que, alvo de um ataque público que de pronto repercutiu em numerosos órgãos da imprensa brasileira (como ficou dito acima, no item I-1), nos defendamos.
Como é bem de ver, tal diálogo deverá versar sobre três temas:
• 1.° — o traço demarcatório entre o pensamento e as metas concretas de Vossa Eminência em matéria de reformas de estrutura, de um lado, e, de outro, o espírito, as tendências e as metas genéricas que caracterizam o esquerdismo católico, ou seja, a chamada "linha D. Helder";
• 2.° — a legitimidade e a necessidade de organizações especificamente anticomunistas, destinadas a combater os erros e desfazer as tramas comunistas;
• 3.° — a TFP: que há nela segundo Vossa Eminência, para a "reprovar" e "alertar" contra ela os ouvintes de Vossa Eminência?
* * *
Assim formulado nosso pedido de diálogo, resta-nos apenas agradecer antecipadamente a atenção que Vossa Eminência queira dar à presente, solicitando ao mesmo tempo sua valiosa bênção.
De Vossa Eminência Reverendíssima nos subscrevemos com veneração
in Jesu et Maria
São Paulo, 5 de outubro de 1970
O CONSELHO NACIONAL DA TFP
PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA
Presidente
Fernando Furquim de Almeida
Vice-Presidente
Eduardo de Barros Brotero
1.° Secretário
Caio Vidigal Xavier da Silveira
2.° Secretário
Adolpho Lindenberg
Alberto Luiz Du Plessis
Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira
Fabio Vidigal Xavier da Silveira
Giocondo Mario Vita
João Sampaio Neto
José de Azeredo Santos
José Carlos Castilho de Andrade
José Fernando de Camargo
José Gonzaga de Arruda
Luiz Mendonça de Freitas
Luiz Nazareno de Assumpção Filho
Paulo Barros de Ulhôa Cintra
Paulo Corrêa de Brito Filho
Plinio Vidigal Xavier da Silveira
DOIS DOCUMENTOS
A alocução radiofônica do Sr. Cardeal D. Eugenio Sales que deu lugar à carta aberta da TFP a Sua Eminência, foi pronunciada através da Rádio Cultura da Bahia, de Salvador, no dia 19 de setembro último, no programa "A fala do Cardeal". É este o seu texto — na parte a que se refere a carta aberta — segundo a gravação em fita magnética, existente em poder da TFP:
"[...] Devem estar alertas, os católicos desta Arquidiocese, com o movimento denominado Tradição, Família e Propriedade. Não conta com a aprovação e qualquer apoio da Arquidiocese. Pelo contrário. Tem a reprovação do Cardeal Arcebispo.
Meus prezados radiouvintes. Em sua audiência pública de 15 de julho último, o Papa Paulo VI, referindo-se a este período pós-conciliar, nos admoesta: "É preciso vigiar". E ainda na mesma ocasião, nos afirma: "Esta fidelidade à Igreja, bem o sabeis, hoje é traída por muitas pessoas, discutida, interpretada subversivamente e minimizada". O mesmo se pode dizer em relação à segunda conferência geral do Episcopado Latino-americano, realizada em Medellin. Ora esse magnífico documento "Presença da Igreja na atual transformação da América Latina" é retirado do seu contexto religioso e reduzido a meras dimensões econômicas, sociológicas ou políticas; ora determinadas expressões isoladas são apresentadas como linhas determinantes ou regras de ação, oriundas dessa notável assembleia do Episcopado Latino-Americano; ou ainda, o que é mais grave, esse documento é explicado, divulgado dentro de categorias marxistas, especialmente o que se refere à justiça e paz, com reflexos na própria catequese, que para alguns passa a ser inspirada e elaborada à luz de Marx e não de Jesus Cristo.
Meus prezados radiouvintes, vivemos num período de transição. É realmente louvável a busca de novos caminhos, que levem a massa de nosso continente, e em particular a do Brasil, à pregação evangelizadora e abram perspectivas ao conhecimento e vivência da Boa Nova. Constitui, entretanto, nefando pecado sacrificar a pureza da doutrina a pretexto, aliás falso pretexto, de facilitar a aceitação por parte de quem deve receber a mensagem. É certo, de um lado, que há uma fobia de comunismo, que não é raro constatar-se que êste espantalho é utilizado para fins escusos, inclusive o de impedir as legítimas e necessárias transformações sociais, ou intitular de marxismo o que é o Evangelho autenticamente interpretado. Devemos, entretanto, reconhecer também que existe um esforço inteligente e organizado de difundir a doutrina marxista, utilizando todos os meios, inclusive ilícitos, como a interpretação errônea do documento de Medellin, acima citado.
A teologia da libertação anunciando o Cristo ressuscitado, vencedor da morte, libertando-nos da cadeia do pecado, pode ser amesquinhada e traída quando, a pretexto de salvar os homens das injustiças sociais, fica reduzida a uma mera visão marxista da vida. O mesmo se diga de um esforço de conscientização na base somente de uma visão "oprimido e opressor". É uma traição ao Evangelho tentar divulgá-lo como uma luta de classes e do ódio entre os homens. Não devemos ter medo do comunismo se não formos ingênuos na aceitação de princípios ou métodos que jamais poderão denominar-se de evangélicos.
Meus prezados radiouvintes. O Santo Padre, na Alocução acima referida, nos adverte: "É preciso vigiar". Nesses dias se faz necessário, de uma maneira especial, nossa adesão inabalável a uma autêntica mensagem do Evangelho de Jesus Cristo. Jamais poderemos recorrer ao marxismo para difundir Jesus Cristo. Seria uma aberração inconcebível. Necessário também se faz uma ação corajosa para impedir, custe o que custar, a deturpação de documentos do porte e valor das conclusões de Medellin, caminho aberto à redenção espiritual e social deste continente".
•
O item II-5-d da carta aberta da TFP ao Emmo. Cardeal Sales menciona declarações de Sua Eminência favoráveis a D. Helder Câmara. O texto integral dessas declarações foi publicado por "A Semana", jornal da Arquidiocese de Salvador, na 1.a página de sua edição de 11-12 de outubro p.p., precedido por esta nota da redação:
"Vem sendo levada a efeito, nos últimos tempos, uma profunda campanha contra Dom Helder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, através dos Meios de Comunicação Social.
O Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, tendo refletido sobre o problema como responsável pela Igreja de Salvador, faz a êste respeito o seguinte pronunciamento, através a Rádio Cultura e o Jornal "A Semana", em sua mensagem semanal".
Segue-se o texto da mensagem:
"Estamos presenciando através dos Meios de Comunicação Social os mais diversos, uma profunda e tenaz campanha dirigida contra um dos Bispos brasileiros, Dom Helder Câmara. Podemos discordar de algumas posições assumidas pelo Arcebispo de Olinda e Recife; podemos desejar rumos diversos em seus pronunciamentos aqui e fora do País. Torná-lo entretanto, objeto de uma sistemática campanha, onde se utiliza o ridículo, não é correto. Uma atitude é a do discordar; outra, o desrespeito à dignidade da pessoa humana. Além disso, o que assistimos já transborda do Bispo para atingir a Igreja do Brasil.
O ataque que lhe é dirigido poderá fazer nascer no espírito dos fiéis desta Arquidiocese uma imagem errônea sobre a pessoa de Dom Helder Câmara.
No cumprimento do dever de Pastor da Igreja de São Salvador da Bahia, devo dar sobre esse assunto meu testemunho aos diocesanos. Dom Helder Câmara acha-se integrado no afeto que irmana os Bispos da Igreja do Brasil e do mundo. Creio em sua idoneidade moral. Conheço-o há longos anos e posso afirmar sua adesão a Pedro, na Pessoa do Papa, e sua vocação de serviço aos pobres; sua piedade é sincera.
Em matéria de doutrina e de fé jamais a Igreja poderá aceitar ser tutelada. Compete a ela e somente a ela guardar a integridade do ensino que lhe foi confiado pelo seu Fundador e corrigir os desvios de interpretação do Evangelho que surgem ao longo caminho pela História. Dentro da unidade doutrinária e disciplinar há lugar para divergências em pontos não essenciais quando se trata de métodos pastorais ou da aplicação da doutrina a fatos concretos como decorrência da inserção da Igreja no mundo. Não podemos admitir que, por discordâncias admissíveis nestes pontos se extrapole e se lancem suspeitas e desconfianças sobre a integridade de um homem da Igreja, utilizando os métodos acima referidos. Essa afirmação não é fruto, apenas, de uma antiga amizade pessoal, mas de uma reflexão de Pastor responsável pela orientação de sua Arquidiocese".
Clichê de 3 colunas
Ilustrando essa matéria, "A Semana" estampa, sob o título de "Unidos pela Igreja", um clichê de 3 colunas em que se veem lado a lado o Sr. Cardeal Sales e D. Helder Câmara.
Também D. Sigaud
Na mesma página, o jornal da Arquidiocese de Salvador publica esta nota:
"DOM SIGAUD ROMPEU COM A TRADIÇÃO, FAMÍLIA E PROPRIEDADE. - Em declarações ao Jornal do Brasil o Bispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud, afirmou que rompeu com a organização Tradição, Família e Propriedade (TFP) alegando que "a TFP deixou de cumprir sua missão cristã com sua insistente política de oposição ao Papa Paulo VI. Aliás — afirmou enfático — eles é que tomaram a iniciativa de romper comigo. Isso porque me coloquei a favor da Reforma Agrária, preconizada pelo Governo, que não é do agrado deles. Já fizeram muito pelo Brasil, mas agora estão se tornando prejudiciais". Vale ressaltar que, na Arquidiocese do Salvador, a Autoridade Eclesiástica sempre se manifestou em oposição à TFP, o que reafirmou há poucos dias. "A TFP não conta com a aprovação e o apoio da Arquidiocese do Salvador".
Entre lobos e ovelhas: novo estilo de relações
Plinio Corrêa de Oliveira
Quanto mais caminham os fatos, mais desconcertam um setor — que creio amplamente majoritário — da opinião católica.
Tal desconcerto, é preciso que se diga, não decorre apenas da ação ou das omissões de tantas autoridades pequenas, médias e altas da sagrada hierarquia. Ele sobe ainda mais.
Oxalá alguém me convencesse de que são falsos os fatos meridianamente claros a meu ver, em que me baseio para fazer esta afirmação.
* * *
Refiro-me particularmente ao que acaba de ocorrer no Chile, à vista do mundo inteiro. A tragédia chegou a seu termo final. Já está legalmente decidido que o país será governado por um presidente marxista, o qual iniciará desde logo a marcha rumo à implantação do comunismo.
É o que noticiam todos os jornais. A maioria deles — pelo menos dos que tenho lido — usa, para designar essa caminhada, um eufemismo perfeitamente ambíguo: fala de “marcha para o socialismo”, em lugar de “marcha para o comunismo”. Isto, evidentemente, beneficia Allende, pois pode fazer crer a leitores menos avisados, que não é propriamente para o comunismo, mas para uma forma branda de socialismo, que o novo presidente conduzirá o Chile.
Na realidade, tal insinuação é inconsistente. A admitirmos que o candidato eleito conduzirá seu país para o socialismo, deveríamos supor que o Chile ainda não está em regime socialista. Pois ninguém pode conduzir uma nação para onde ela já está. Ora, segundo é notório — e o brilhante livro “Frei, o Kerensky chileno” de meu amigo Fábio Vidigal Xavier da Silveira o demonstrou irrespondivelmente — o Chile já foi posto pelo presidente Frei em regime socialista. A afirmação de que Allende encetará a marcha de seu país para o socialismo só pode ter, portanto, um sentido. É de que o encaminhará, não para o socialismo cor de rosa da DC, mas para o socialismo rubicundamente marxista do partido ao qual pertence o “camarada” Allende. Ou seja, para o comunismo. É, pois, diretamente rumo a este que o Chile começará sua marcha irreversível. É aliás, o que se contém nas promessas feitas por Allende aos eleitores. Isto se fará por etapas longas? Por etapas curtas? Essencialmente, pouco importa. É importante saber que alguém entrou numa irremediável agonia. Bem menos importante é saber se esta será longa ou breve, desde que ela leve irremissivelmente até a morte.
Tudo quanto acabo de dizer deduz-se de fatos publicados pelos jornais. Quem duvidasse não teria senão o trabalho de os reler com atenção. Só o negará algum raro pedecista fanático, algum comuno-progressista “à outrance”. E mais ninguém.
Não quero colocar em alguma destas categorias a Hierarquia Eclesiástica chilena. E menos ainda Sua Santidade Paulo VI. Pelo que sou obrigado a admitir que, tanto este quanto aquela, veem e sabem o que todo mundo sabe e vê.
* * *
E então, como não ficar desconcertado? Teria bastado uma só palavra do Sumo Pontífice para que o Episcopado chileno dissuadisse os católicos de votar no candidato marxista. Tal palavra teria evitado a vitória de Allende, cuja vantagem sobre o nacionalista Alessandri — de apenas 1,4% — qualquer influência eleitoral poderia ter superado. A História dirá que, esta palavra, o Santo Padre não a pronunciou, e por isto Allende — com o escandaloso “placet” do Cardeal Arcebispo de Santiago — venceu no pleito popular. É doloroso dizê-lo. Mas é evidente.
Para a nação chilena restava, depois do resultado eleitoral, uma só saída. Era que o Santo Padre, agindo por meio do Episcopado, recomendasse aos deputados democratas-cristãos que não dessem seu voto ao candidato marxista, quando da ratificação das eleições pelo Congresso. A História dirá que, ain-da nesta emergência, Paulo VI silenciou. E antes mesmo da renúncia de Alessandri, a DC já pactuara com os comunistas, aos olhos do mundo inteiro, garantindo seu apoio ao candidato marxista.
Vitorioso este último no Congresso, e anunciado oficialmente que, em poucos dias, o Chile iniciará sua “via dolorosa” rumo ao comunismo, o cardeal Silva Henriquez, Arcebispo de Santiago, foi dos primeiros a visitar o futuro presidente, assegurando-lhe o apoio da hierarquia, e lhe transmitindo, da parte do Papa Paulo VI, saudações especiais bem como votos de êxito. De sua parte, o purpurado chileno declarou à imprensa que o dever dos cristãos neste momento é fazer o que estiver ao seu alcance para que o novo governo tenha êxito.
À vista de tudo isto, torna-se inevitável levantar uma pergunta. Dou-lhe a mais comedida das formulações: Paulo VI terá visto, desde o começo, sem apreensão nem repulsa, a vitória de Allende? Quanto se passou leva a responder que, efetivamente, ele a anteviu sem, contudo, dar mostras de apreensão e repulsa.
Os fatos aí estão. Falam por si.
A esta altura, não posso deixar de me pôr diante de outra questão: é só para o Chile que Paulo VI teria esta atitude fatal? Ou também para outras partes da América Latina? Mais precisamente, também para o Brasil? Neste caso, que futuro nos aguarda?
* * *
Os fatos em que fundo minhas perguntas são por demais claros para que possam ser abafados pelo berreiro de protestos vazios, por atos de reparação ressentidos, mas falhos de qualquer base na realidade, por estrondos publicitários ou campanhas de cochicho.
Católico apostólico romano, eu o fui durante toda a minha vida. Sou-o, hoje, com maior convicção, energia e entusiasmo do que nunca. E, espero, pela graça de Deus e pela intercessão de Nossa Senhora, que o serei sempre mais e mais até o último alento. Por isto, tributo do fundo de minha alma, ao Sumo Pontífice e à Santa Sé, toda a veneração, todo o afeto toda a obediência que lhes devo segundo a doutrina e as leis da Igreja.
Mas sei que, posto diante de fatos claríssimos, não os posso negar, nem deixar de perceber suas consequências.
E sei também que, ainda quando admitidos os fatos irrecusáveis que acabo de enumerar e analisar, tudo quanto a Igreja ensina sobre a infalibilidade e a suprema autoridade dos sumos pontífices continua inteiramente intacto. Assim, estou com a consciência à vontade ao tratar, como católico, do triste e delicado assunto.
* * *
Desejará Paulo VI, para a América Latina, um “modus vivendi” com o comunismo? Fico a pensar... e enquanto penso, me vem à mente uma fábula de La Fontaine. Infelizmente, é das mais esquecidas. Mas é também das mais oportunas. Citou-a, aliás, de passagem, o Sr. Brigadeiro Agemar da Rocha Santos quando, em recente discurso, aludiu às ilusões irenísticas de certos setores da opinião nacional.
Dado que o francês é correntemente lido entre nós, cito-a no próprio idioma do poeta:
“Après mille ans et plus de guerre déclarée,
Les Loups firent la paix avecque les Brebis,
C’était apparemment le bien des deux partis:
Car, si les Loups mangeaient mainte bête égarée,
Les Bergers de leur peau se faisaint maints habits.
Jamais de liberté, ni pour les pâturages,
Ni d’autre part pour les carnages:
Ils ne pouvaient jouir qu’en tremblant de leurs biens.
La paix se conclut donc; on donne des ota-ges:
Les Loups, leurs Louveteaux; et les Brebis, leurs Chiens,
L’echange en étant fait aux formes ordinai-res,
Et réglé par des commissaires.
Au bout de quelque temps que messieurs les Louvats
Se virent lous parfaits et friands de tuerie,
Ils vous prennent le temps que dans la ber-gerie
Messieurs les Bergers n’étaint pas,
Étranglent la moitié des Agneaux les plus gras,
Les emportent aux dents, dans les bois se re-tirent.
Ils avaient averti leurs gens secrètement.
Les Chiens, qui, sur leur foi, reposaient su-rement,
Furent étranglés, en dormant,
Cela fut sitôt fait qu’à peine ils le sentirent;
Tout fut mis en morceaux; un seul n’en échappa.
Nous pouvons conclure de là
Qu’il faut faire aux méchants guerre conti-nuelle.
La paix est fort bonne de soi;
J’en conviens: mais de quoi sert-elle
Avec des ennemis sans foi?”
E para proveito de leitores menos versados no lindo idioma de la Fontaine, aqui vai esta tradução sem pretensões poéticas:
Depois de mil anos e mais de guerra declarada,
Os lobos fizeram a paz com as ovelhas.
Era, aparentemente, a felicidade dos dois partidos:
Pois, se os lobos comiam muita rês extraviada,
Os pastores, da pele deles, para si faziam muitos trajes.
Jamais havia liberdade, nem para as pastagens,
Nem, de outro lado, para as carnificinas:
Não podiam usufruir de seus bens senão tremendo.
A paz se concluiu, portanto; trocam-se os reféns:
Os lobos entregam seus lobinhos; e as ovelhas, seus cães.
Sendo a troca feita nas formas habituais,
E ajustada por comissários.
Ao fim de algum tempo, quando os senhores lobinhos
Se viram lobos perfeitos e ávidos de matança,
Valem-se do tempo em que, no redil,
Os senhores pastores não se achavam,
Estrangulam metade dos cordeiros mais gordos
Agarram-nos com os dentes e se retiram para os bosques.
Haviam eles avisado sua gente secretamente.
Os cães, que, sob a palavra deles, repousavam confiadamente,
Foram estrangulados dormindo.
Foi isto feito tão rapidamente, que os cães mal sentiram;
Foram todos feitos em pedaços; nem um só escapou.
Podemos concluir disto
Que é preciso fazer aos maus guerra sem quartel.
A paz é bastante boa em si mesma;
Concordo: mas de que serve ela
Com inimigos sem palavra?
Da luminosa fábula se deduz que qualquer combinação da Igreja com o comunismo não poderá ser um “modus vivendi”, mas — segundo certa vez já escrevi — um “modus moriendi”.
Transcrito da “Folha de São Paulo” de 1º-11-1970