Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 238 | página 14-15

(continuação)

resultado das eleições municipais de 2 de abril, que constituíram uma estrondosa derrota da Democracia-Cristã e de sua política esquerdista e socializante. A imprensa nacional e estrangeira foi unânime nesse julgamento.

Há alguns fatores a considerar, que tornam mais clara e significativa ainda essa derrota. Para essas eleições o governo fez uso de uma propaganda de grande porte e sem precedentes na história do Chile, chegando mesmo o Presidente da República a percorrer as diversas províncias pronunciando discursos e inaugurando obras, durante todo o mês anterior ao pleito, de modo a obter apoio para os candidatos da DC. Rompeu-se assim uma praxe antiga, de abstenção eleitoral do Chefe de Estado. Semelhante atitude tomaram os Ministros, que assistiram a concentrações políticas em numerosas cidades. O Sr. Eduardo Frei comprometeu, nesta eleição, todo o seu prestígio e o de seu governo, tentando pressionar a opinião pública.

Apesar de tudo isso, o PDC sofreu notável retrocesso em sua votação.

A causa principal da derrota demo-cristã foi a reforma agrária. O eleitorado, especialmente os agricultores, compreendeu que ela traria para o Chile não só a ruína econômica, como também a implantação de princípios morais que arrasariam com a justiça, afogando a vida individual e familiar dos cidadãos na tirania coletivista.

As eleições tiveram o caráter de um plebiscito, que lhes foi dado pelo próprio Presidente em sua campanha de apoio aos candidatos do PDC. O Sr. Frei perguntou ao país se queria prosseguir no caminho pelo qual o vinha conduzindo, isto é, o caminho das reformas de estrutura socialistas e confiscatórias. O povo chileno repeliu esse programa socialista e se pronunciou pela defesa dos princípios cristãos que vinham sendo postergados pelas reformas coletivizantes do governo (cf. despacho de 15-30 de abril de 1967, da ABIM).

Seria de se esperar que, tendo o povo dado na eleição-plebiscito um clamoroso não para a política esquerdista, a DC voltasse atrás e mudasse de rumo. Mas, pelo contrário, segundo as notícias procedentes do Chile, para resolver a situação os próceres mais operosos e representativos do PDC estão inclinados a fazer a apertura a sinistra, procurando a coalizão com os partidos da extrema-esquerda. Por que então se fêz o plebiscito?

B — Insatisfação nos meios militares

Comenta-se amplamente no Chile que um profundo descontentamento lavra nos meios militares, e que um golpe estaria em preparação. Elementos das três armas estariam seriamente contrariados com o processo de esquerdização que o governo está promovendo em todos os setores da vida nacional.

Em agosto de 1966, por ter feito uma conferência em Temuco, na província sulina de Cautin, sobre a reforma agrária brasileira — conferência esta considerada, infundadamente, pelas autoridades como intromissão de um estrangeiro em assuntos internos chilenos — recebi uma intimação para abandonar o país em 72 horas.

Obtive então uma audiência do Ministro do Interior, para tentar fazê-lo ver a inteira improcedência da acusação. Logo de início declarou-me o Sr. Bernardo Leighton que militares brasileiros e argentinos andavam pelo território chileno, incitando os militares de lá a destituírem Frei.

Chegando ao Brasil, dei uma entrevista ao "Diário de Notícias", do Rio de Janeiro, entrevista esta que foi transcrita em parte pelo jornal andino "Ultima Hora". Imediatamente após ter tomado conhecimento dela, o Ministro foi para as estações de rádio e desmentiu unicamente o trecho em que eu fazia alusão ao que ele dissera a respeito de oficiais brasileiros e argentinos. E no dia seguinte os jornais de Santiago publicaram uma carta em que o Sr. Leighton reiterava que eu "inventara totalmente" a declaração que lhe atribuía.

O desmentido, além de constituir prova de desonestidade pessoal do Ministro, parece por sua presteza tornar evidente que o governo tem algum problema bem sério na área das Forças Armadas.

Transpiram poucas notícias concretas que mostrem claramente essa oposição militar, da qual se fala mais como de um rumor surdo em todo um setor da oficialidade. O militar chileno é conhecido por sua discrição e pela distância a que se mantém da política.

Em agosto do ano passado, entretanto, houve um banquete oferecido a dois oficiais-generais que se retiravam da ativa: o Vice-Almirante Jacobo Neumann, ex-Comandante-emChefe da Armada, e o Vice-Almirante Hernán Searle. Falou, nessa ocasião, o Contra-Almirante da reserva Donald MacIntyre, que fez um discurso bem significativo — e considerado tal pelos observadores políticos — no sentido de mostrar a insatisfação que reina em largos círculos militares. Entre outras coisas, afirmou: "O fato de que as Forças Armadas sejam apolíticas, essencialmente obedientes e alheias a toda deliberação, não significa que seus componentes, como chilenos, não tenham opinião. Eles a têm, mas, por disciplina, não a manifestam". Depois, comentando a versão oficial da causa do afastamento para a reserva do ex-Comandante-em-Chefe — a de que êste completara 38 anos de serviço — disse que essa versão deixava a impressão, "errônea, por certo", de uma reforma voluntária. Deu então a entender, claramente, que o Almirante se retirara da ativa em virtude de uma discordância com o Ministro da Defesa ("Diário Ilustrado", edição de 28 de agosto de 1966).

C - Insatisfação nos meios políticos

Nos meios políticos existe também uma insatisfação muito acentuada. Mas aqui é mais difícil determiná-la. Como o PDC tem forte maioria no Congresso, as manifestações de descontentamento; não devem ser principalmente procuradas entre os que ocupam cargos eletivos. Estas, embora importantes, não são, aliás, as que mais transtornos causam ao governo.

Nos jornais avessos ao espírito pedecista, nos comentaristas políticos que não têm aspirações eleitorais, nos homens que ocuparam mas que hoje já não ocupam cadeiras parlamentares ou cargos públicos, notam-se os principais sintomas de insatisfação. E, acompanhando isto tudo, verifica-se uma evidente mudança nas bases eleitorais que, inconformadas com o desenrolar dos acontecimentos, voltam olhares simpáticos para um estilo político diferente do estilo PDC.

Dizíamos que não são os ataques dos parlamentares da oposição que mais preocupam o governo. Não há dúvida de que o Partido Nacional, com seus nove deputados e cinco senadores, causa real incômodo ao Executivo. Mas trata-se de uma minoria tão ínfima, que não chega a tirar o sono a Frei. Não parece possível que, na área parlamentar, a oposição venha a ter êxito próximo e apreciável.

Passa-se, entretanto, um fenômeno sutil.

Com a Democracia-Cristã subiu ao poder uma série de administradores, de técnicos, de políticos, que não merecem ser qualificados senão de bossa nova. Esses cidadãos parecem convictos de que seu novo estilo de administrar e fazer política é o único que vinga, o único que tem efeito e penetração na época atual. Completamente desvinculados dos estilos até então vigentes nas esferas públicas chilenas, propagaram a idéia de que os homens do passado estavam completamente aniquilados, e de que nada mais se poderia esperar para eles. Ser da oposição, nos primeiros tempos depois da vitória de Frei, era o cúmulo do desprestígio. Pertencer ao Partido Conservador ou ao Liberal era pertencer a uma agremiação condenada ao desaparecimento.

Agora, entretanto, graças aos desmandos da administração pedecista e ao caos por ela criado, a situação vai-se transformando. Muitas pessoas, até há pouco entusiasmadas com os novos homens que subiram, começam a lançar um olhar interrogativo para o passado: "Será que os governantes de então não eram melhores que os de hoje?"

E, com isto, até eleitores ou simpatizantes da primeira hora de Frei voltam-se para trás, à procura de alguém que possa trazer de novo a ordem ao Chile. E muitos, esperançados, lembram-se de Alessandri.

O ex-Presidente tem um prestígio ainda muito grande. Apesar de ter aprovado — dizem que a contragosto — uma; lei, de reforma agrária que possibilitou alguns dos desmandos de Frei, é tido como um político à antiga, anti-esquerdista, apegado à ordem, avesso à demagogia.

Assim, enquanto cresce o poder aparente de Frei e o descontentamento contra a Demo- cracia-Cristã, cresce também o prestígio de Alessandri. E muitos dizem que em 1970 talvez possa ele voltar à Presidência, para restabelecer a ordem e expulsar os subversivos. No mês de novembro de 1966 os jornais andinos publicaram uma notícia que é reveladora. A Organización Salas Reyes (uma espécie de IBOPE chileno) é muito conceituada no setor de pesquisas da opinião pública. Previu com bastante exatidão, por exemplo, a eleição de Frei. Agora fez um novo inquérito perguntando ao homem da rua em quem votaria para Presidente. Apresentou três candidatos: Alessandri, o democrata-cristão Tomic, e o marxista Allende. Vejamos o resultado: Alessandri, 54%; Allende, 26%; Tomic, 20%.

Em que medida seria viável uma candidatura Alessandri? Até a publicação desta pesquisa, não se tinha meios para julgar. O recente pleito municipal veio, por sua vez, confirmar que a reação contra o partido do Sr. Eduardo Frei aumenta as possibilidades de ascensão da atual oposição nas eleições para o próximo período presidencial e parlamentar. Muitos, no entanto, receiam que até 1970 um governo de força, de coloração vermelha, se instale no país, impedindo uma volta atrás na Revolução. Como se fará isto? Suspendendo as eleições? Não se sabe...

D — A reação dos contribuintes

Conforme vimos mais acima, a pressão tributária tornou-se terrível no Chile. Frei introduziu impostos novos, e aumentou os já existentes, a tal ponto que muitas pessoas ficaram, de um momento para outro, em difícil situação econômica, vendo-se obrigadas por vezes a vender imóveis para pagar débitos fiscais que pesavam sobre esses ou outros bens. Os contribuintes oprimidos se reuniram em torno de uma entidade pugnaz, chamada Comité de Defensa del Contribuyente. O seu presidente-fundador e grande propulsionador é o Sr. Miguel Luis Amunátegui, ex-deputado liberal, homem ativo e avesso à tendência esquerdizante que impera no país.

Todas as segundas-feiras, Dom Miguel reúne mais de 300 pessoas. Há mais de um ano essas reuniões semanais se realizam sem que o número dos participantes tenha diminuído. Cidadãos de prestígio, elementos representativos da oposição, personalidades anti-esquerdistas comparecem para prestigiar essa iniciativa, que causa muito incômodo à Democracia-Cristã. Frei a detesta.

E — O movimento de "Fiducia": a reação dos jovens

Como acentuamos desde o início desta reportagem, a Revolução Chilena é antes de tudo de índole religiosa. Os técnicos pedecistas idealizaram um plano esquerdista de governo, e ampla corrente do Clero o batizou. Sem as bênçãos de certos membros da Hierarquia o povo repeliria desde logo a transformação social que o Chile está sofrendo. A Democracia-Cristã, apoiada pelo Clero progressista, ganhou terreno sorrateira e rapidamente.

Os meios políticos anti-esquerdistas não perceberam a tempo que a luta no setor específico deles era de pouco efeito. A batalha deveria ser encetada em outro campo. A única contra-ofensiva capaz de constituir verdadeiro obstáculo ao avanço demo-cristão era a contra-ofensiva doutrinária de caráter religioso-social.

A Democracia-Cristã dizia que a revolução que propunha era católica; era necessário que alguém a declarasse visceralmente anticatólica. Dizia-se que o Evangelho e a Igreja são indiferentes e quiçá contrários à propriedade privada; era indispensável que alguém proclamasse que a doutrina católica considera sagrado o direito de propriedade. Os agitadores do PDC propunham a luta de classes; era necessário que alguém afirmasse que isto é marxismo e não Catolicismo.

Este trabalho, que estaria à altura de um partido político de primeira plana ou de alguma organização de intelectuais de renome, não teve quem o executasse. Ficou como uma res nullius, e desta se apossaram em boa hora os jovens do grupo de "Fiducia", revista de cultura católica de Santiago.

No calor da ação, tiveram eles oportunidade de demonstrar conhecimentos doutrinários, talento estratégico e senso de organização pouco comuns. É pelo menos o que se ouve entre amigos e inimigos dos fiducianos.

A revista data do período presidencial de Alessandri. Não tem caráter partidário.

Quando Frei subiu ao poder em 1964 e começou a se servir da base teológico-sociológica apresentada por Padres jesuítas, os jovens de "Fiducia" começaram a se preocupar com o assunto político. De início formavam um grupo desconhecido. Hoje, seu nome, elogiado ou combatido, está na boca de todos. É admirado por muitos, detestado pelos democratas-cristãos, pelos socialistas e comunistas. É abominado pelo governo.

Em maio de 1965, quando Frei, seguríssimo de si, ainda não era acusado de esquerdista, "Fiducia" dirigiu-lhe uma carta aberta, interpelando-o sobre sua posição dúbia em face do marxismo. A iniciativa, então insólita, teve funda repercussão. Todas as estações de rádio e jornais dela falaram. Dizia-se que o Episcopado iria condenar os autores da interpelação. Alguns dias depois, o Arcebispo de La Serena, Mons. Alfredo Cifuentes, publica uma carta apoiando-lhes a orientação.

Já dissemos que segundo "Ercilla", periódico de centro-esquerda, a manifestação de "Fiducia" foi o primeiro brado de alarma contra Frei. Logo após, começaram as queixas contra o governo partidas de entidades representativas do comércio, da indústria, da agricultura e dos contribuintes.

A primeira bomba havia sido lançada. A dúvida nascera nos espíritos. Todos, ingênuos ou não ingênuos, cultos ou não, católicos ou não, depois da palavra de "Fiducia" faziam a si mesmos a pergunta: Será que a política de Frei está mesmo de acordo com a doutrina da Igreja? Esta é a pergunta que o PDC preferiria que nunca tivesse sido feita.

De lá para cá vem a revista publicando artigos doutrinários contra a política pedecista e contra os projetos de lei esquerdistas apresentados pelo Executivo. Insurgiu-se contra o divórcio e contra o controle da natalidade.

Recentemente fez nova intervenção pública. A propósito do projeto de reforma agrária havia pouco aprovado no Congresso, dirigiu um "Manifesto à Nação Chilena". Nos primeiros momentos provocou grande impacto, logo abafado pelo governo. Quando parecia a este ter levado a melhor, aparece nos jornais um novo documento no qual mil universitários apoiam o pronunciamento de "Fiducia". Para evitar a acusação de que os nomes são forjados, publicam-se todos eles — do primeiro ao milésimo. E logo em seguida vem a lume outro abaixo-assinado de solidariedade, de quinhentos estudantes secundários.

A esta altura "Fiducia" publica o manifesto intitulado "Ceder para não perder? ou lutar para não perder?" Mostra que a atitude de ceder para não perder levará a nação à derrocada final. Convida a parte não esquerdista da opinião pública a se levantar em luta ideológica contra a política democrata-cristã. Numa ocasião em que ainda poderia parecer a muitos contar o governo com a aceitação geral da população, isto foi mais uma bomba que veio prejudicar a ação subversiva do PDC.

Os moços de "Fiducia" saíram, então, às ruas com seu estandarte — um leão rompante dourado sobre fundo rubro — abordando os transeuntes e pedindo sua assinatura como expressão de apoio. Milhares de elementos de todas as classes sociais vêm aderindo a essa campanha, que continua até hoje. Os fiducianos têm viajado pelo interior, onde recebem também milhares de adesões.

Em Santiago a Municipalidade quis impedi-los de colher assinaturas nas ruas, por ordem expressa do alcaide (que é nomeado diretamente pelo Presidente da República). A polícia proibiu que continuassem a campanha. Esta insólita atitude chocou o povo, porque no Chile os movimentos de extrema-esquerda têm liberdade de fazer o que quiserem na via pública. A interdição do trabalho de "Fiducia" foi apontada por muitos como discricionária.

Frei não respondeu à interpelação a que aludimos. O governo procurou ignorar oficialmente a existência desse movimento. Encarregou, no entanto, o jornal oficioso "La Nación" e os Jesuítas de enfrentarem "Fiducia". No diário e em "Mensaje" aparecem as principais tentativas de refutar as teses da revista. À acusação de que o país está sendo conduzido para o socialismo, os jornalistas demo-cristãos e os Jesuítas respondem em termos de chicana e escamoteação doutrinária.

O governo não esconde sua hostilidade a esse grupo de jovens. São eles acompanhados frequentemente pela polícia política. Aos que se candidataram a trabalhar em organismos governamentais, foi dada a resposta de que nenhum membro de "Fiducia" seria empregado pela administração pública.

Signatários dos manifestos de apoio à revista foram pressionados no sentido de se retratar. Duas pessoas com nomes iguais a outros que apareciam na lista dos mil universitários se apressaram a comunicar aos jornais que não eram elas que haviam assinado.

"Fiducia" é um grande empecilho ao progresso do PDC no Chile. É a oposição que mais preocupação causa ao governo.

V — ÚNICA SAIDA PARA FREI: UMA DITADURA PEDECISTA

A linha política muito avançada do Presidente Frei, como vimos, está causando amplas cristalizações. Seu governo encontra séria dificuldade em fazer caminhar a Revolução, pela resistência com que depara.

Mas, Frei está disposto a chegar às últimas consequências dos princípios pedecistas...

A — A tendência para um partido único

Medida característica de ditadura é a implantação do partido único. E isto parece que se está procurando fazer no Chile.

O Senador Patricio Aylwin, presidente do PDC, declarou, não faz muito, que comissões tripartites — constituídas por representantes do governo, dos parlamentares demo-cristãos e dos dirigentes do Partido — trabalham no plano ministerial, presididas por Ministros de Estado. O mesmo se faz no plano dos intendentes e dos governadores. Observa o Sr. Aylwin: "Se aperfeiçoarmos este instrumento, poderemos chegar ao que queremos: que o Partido faça ouvir sua voz e seja intermediário do povo". E prossegue dizendo que a administração pública está, muitas vezes, nas mãos de funcionários que sabotam o bem comum. Cabe aos "camaradas" (sic!) da DC corrigir essa sabotagem ("El Mercurio", edição de 24 de agosto de 1966).

Dirá o leitor escrupuloso: Mas aqui não se fala em partido único! — Concordo. Mas esta interferência de líderes da agremiação política oficial, levada a efeito na administração, conduz, direta ou indiretamente, ao partido único.

Ademais, como veremos no item I deste capítulo, o protesto do Partido Nacional contra a tendência da DC de formar um partido único é a prova de que muitos chilenos sentem isto que aqui analisamos.

Apesar de o Sr. Frei ter desmentido que quisesse governar subordinado a um partido, comenta-se em largos círculos que a isto tende a mentalidade atual dos democratas-cristãos mais arditi. Poderiam eles permitir, no máximo, a existência de outros dois partidos: o socialista e o comunista. Os outros são reacionários, e devem ser extintos.

B — A pressão exercida sobre os jornais e o rádio

O lema demo-cristão Revolución en libertad parece que se transformou em Revolución sin libertad, desde que o Partido subiu ao poder no Chile. Dizendo-se defensor de todas as liberdades, o governo atual vai tomando atitudes nitidamente ditatoriais no setor da imprensa.

As agências telegráficas internacionais poucas notícias dão a respeito. Talvez com o intuito de transformar o Sr. Eduardo Frei em líder latino-americano, muitos fatos que o comprometem não são divulgados no estrangeiro. Quem vai ao Chile, no entanto, podendo acompanhar ali os acontecimentos, ler os jornais e conversar com muita gente, chega à conclusão fácil de que o governo vem promovendo, de modo público e notório, um estrangulamento — a princípio lento, e agora mais rápido — da imprensa oposicionista.

Não é só o escândalo da SOPESUR — a que faremos referência mais abaixo — que é do conhecimento de todos. Uma sequela de outros fatos é muito comentada.

Quando Frei subiu ao poder, nomeou um certo Sr. Germán Becker como chefe de propaganda. A sobrevivência de diversos jornais chilenos era assegurada em parte pela publicidade governamental. Imediatamente o Sr. Becker cortou a que era concedida aos periódicos de centro-direita: "PEC", "Diário Ilustrado" (de tendência conservadora) , "La Unión", e todos os jornais da SOPESUR (sociedade anônima proprietária de cinco jornais da oposição). O mesmo fez com várias estações de rádio.

A situação ficou tão difícil para esses órgãos, que alguns chegaram quase à falência. O "Diário Ilustrado", por exemplo, jornal de muito prestígio, teria falido se a SOPESUR não tivesse adquirido seu controle acionário.

Havia em Santiago um diário oposicionista chamado "Golpe". Em maio de 1965 deixou de circular por manobras do Ministério do Interior e do jornal oficioso, pois utilizava as oficinas deste. Logo depois o "Clarín", de tendência comunista e fortemente imoral, passou a ser impresso ali. Enquanto um órgão da oposição era fechado, outro, esquerdista, tomava seu lugar nas oficinas do jornal oficioso.

Em março de 1966 a revista "Topaze", depois de suportar muita pressão, acabou caindo nas mãos da Democracia-Cristã.

Um grupo financeiro pedecista comprou, em sociedade com a DILAPSA (editora do Arcebispado de Santiago), 62% das ações da "Zig-Zag", a maior empresa editora de revistas e livros, do Chile ("PEC", n.° 168, de 15 de março de 1966). Esta última edita uma quantidade de publicações de muita influência, que, desde então, passaram a seguir a linha do Partido. Dominam os demo-cristãos, ademais, a importante "Editorial del Pacífico".

Sociedades formadas por elementos do Partido estariam comprando ou tentando comprar um número muito grande de rádio-emissôras. Entre elas citamos a Rádio "Nuevo Mundo" e a "Sago" (esta, de Osorno).

Para se operar uma estação de rádio no Chile é necessária uma concessão dada pelo Ministro do Interior. A concessão é temporária, por poucos anos, podendo ser prorrogada no seu vencimento. As estações novas que se instalam pertencem em geral a amigos do governo: para os outros é difícil obter concessão. No momento da prorrogação das concessões existentes, o Ministro faz todo o possível para recusá-la às atuais concessionárias se estas são da oposição ou há algum elemento do PDC interessado em adquiri-las. Esta preferência dispensada pelo Ministro a amigos do governo se tornou tão escandalosa, que o jornal comunista "El Sigla" (edição de 17 de setembro de 1966) chama o Sr. Bernardo Leighton, ocupante da referida pasta, de "distribuidor de rádios".

O relato sobre a extinção da liberdade de imprensa não ficaria completo se não abríssemos um item especial para o assunto SOPESUR.

C - O escândalo SOPESUR

A Sociedade Periodista del Sur (SOPESUR) é uma poderosa sociedade anônima proprietária de cinco jornais da oposição no sul do pais. Além disso, controla o "Diário Ilustrado", de Santiago. Vem causando muito incômodo e muita irritação ao governo.

Não querendo o Sr. Frei desapropriar-lhe pura e simplesmente as ações, o que poderia suscitar grande reação da opinião pública nacional e estrangeira, querendo ainda menos aparecer ele mesmo em manobras ditatoriais de estrangulamento da imprensa oposicionista, passou a empregar um plano astuto e eficaz.

Um órgão paraestatal, a Sociedad Agrícola Rucamanqui, começou a comprar ações da SOPESUR de pessoas que queriam vendê-las. Quando um acionista da sociedade ia pedir empréstimo ao Banco do Estado, êste lhe era concedido, e até rapidamente, se o interessado se dispusesse a transferir suas ações para a Rucamanqui. Esta conseguiu adquirir uma boa quantidade de ações, até o dia em que o fato se tornou do conhecimento público. Houve protestos, mesmo porque a entidade adquirente não tem senão fins agrícolas. Impugnava-se como absurdo o desvio de verbas governamentais destinadas à agricultura, para serem imobilizadas em empreendimentos jornalísticos que com esta nada têm a ver.

O Banco do Estado, então, mudou de tática. Continuou a fazer a mesma pressão sobre os seus clientes acionistas da SOPESUR, com a diferença de que não mais apresentava como compradora a Rucamanqui, mas democratas-cristãos de comprovada fidelidade.

Conforme os dados que me forneceu pessoalmente, em agosto de 1966, um dos diretores da empresa jornalística, até aquela ocasião o governo já tinha conseguido, com esse método leal, adquirir 34% das ações. Talvez já esteja hoje chegando à desejada maioria.

O episódio teve, como dissemos, larga repercussão. Toda a imprensa do país protestou. A Associação Interamericana de Imprensa enviou telegrama de protesto a Frei. Este respondeu, maliciosamente, que seu governo não estava adquirindo tais ações (de fato, não o estava fazendo diretamente) e acrescentou, com sua arrogância demo-cristã, que o Chile, campeão da liberdade e da democracia, não precisava de lições de ninguém.

Muitos democratas-cristãos se escandalizaram. Um líder do PDC escreveu uma longa carta ao presidente do partido, pedindo fosse investigada a matéria. Frei abriu até um processo de investigação. Mas, investigações deste gênero não costumam caminhar...

O Senador Pedro Ibáñez, do Partido Nacional, asseverou recentemente no Congresso que o Chefe de Estado não ignora os pormenores da questão. Disse o parlamentar que, sobre a mesa de trabalho do Sr. Eduardo Frei fora colocado, fazia mais de seis meses, farto material a respeito, inclusive declarações feitas em cartório por testemunhas oculares ou vítimas das transações impostas pelos funcionários do Banco oficial.

A diretoria da SOPESUR publicou nos jornais listas de compradores de ações e de empregados do Banco do Estado que facilitavam a operação.

A imprudência chegou a tal ponto, que o deputado pedecista Jorge Lavandero não hesitou em declarar que a Assembléia Comunal de Cautín (uma das mais importantes províncias do Sul) recomendara aos membros do Partido a aquisição de ações da SOPESUR. Explicou que a empresa é "oligárquica e direitista" e que é normal que ela passe a servir uma "revolução democrática e popular".

Por aí se vê que meios e que argumentos usam os demo-cristãos chilenos, que fazem praça de grandes defensores das liberdades...

D — A imprensa, rádio e televisão sob controle

É normal que um regime assim empenhado em eliminar a imprensa oposicionista já esteja exercendo pesado controle sobre ela. E é notório que este controle existe, embora não seja total. Ataques ao governo ainda aparecem nos jornais, no rádio e na televisão.

A censura não se exerce, em geral, contra parlamentares, pois isto seria muito grave. Exerce-se principalmente contra outras pessoas. O Sr. Miguel Luis Amunátegui, por exemplo, de quem já falei como dirigente da Asociación de los Contribuyentes, teve que suspender um programa semanal que tinha na Rádio Prat, porque o proprietário desta começou a sofrer pressões das autoridades, devido às críticas que lhes fazia o Sr. Amunátegui. As pressões consistiam em ameaças de cancelar a publicidade oficial que a estação transmite, e que é necessária para sua sobrevivência. O Sr. Amunátegui formulou um protesto pela imprensa.

Um ex-deputado do Partido Conservador me informou que houve em certa época proibição de citar no rádio o nome do Presidente Onganía, mal visto pelo PDC chileno.

Tem acontecido que textos apresentados aos jornais, para publicação como matéria paga, não são publicados na íntegra. Uma carta que enviei ao Ministro Leighton, para protestar contra o fato de ter sido convidado a me retirar do país, não foi estampada na íntegra pelo "Diário Ilustrado". Embora redigidas em termos de perfeita cortesia, as partes mais enérgicas, especialmente aquelas que comprometiam o Ministro, foram cortadas pela direção.

Os diretores de jornais têm receio de serem presos — tout court — se estamparem determinadas coisas. Há uma chamada Ley de abusos de publicidad, por meio da qual o governo os ameaça até mesmo com a prisão se forem imprudentes.

Até as tipografias se sentem controladas. Muitas vezes se negam a imprimir livros ou outros textos que de algum modo atrapalhem a ação dos detentores do poder. Uma tipografia católica que imprimiu o ensaio doutrinário "Revolución y Contra-Revolución", do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, foi incomodada por isto. E, para evitar que fosse prejudicado o encaminhamento de um crédito que a administração lhe estava concedendo, negou-se a imprimir outros trabalhos da mesma linha ideológica do livro.

E — A "fichaje política" dos cidadãos e a polícia política

Um dos usos mais característicos dos regimes de força é o cadastramento político dos cidadãos. Isto tem duas vantagens: em primeiro lugar, tem-se o fichário dos inimigos do governo; em segundo lugar, cria-se o pânico entre a população, que receia ser incluída em tal fichário.

Há algum tempo um senador denunciou na Câmara Alta a existência de uma carta secreta em que o Servicio de Investigaciones pedia aos órgãos policiais locais que fizessem confidencialmente, e com toda a rapidez, a ficha política dos agricultores. Deviam pedir a estes que respondessem um inquérito sobre seus planos de produção, tendência política e confiança ou desconfiança em face do momento atual ("Diário Ilustrado", edição de 10 de agosto de 1966).

Recentemente, o presidente nacional da Federação de Estudantes da Universidade Técnica do Estado denunciou publicamente que a polícia entrara na Universidade com o fim de fichar, do ponto de vista político, os alunos. Os policiais inquiridos responderam que cumpriam ordem do comissário, por sua vez instruído pelo Ministro da Educação. Diziam que desejavam fichar apenas os dirigentes da classe. Houve protesto dos estudantes a respeito.

Em seu número de 13 de outubro do ano findo, "El Correo de Valdivia" reproduziu uma circular endereçada aos subdelegados do Serviço de Correios e Telégrafos, da qual transcrevo alguns tópicos:

"Como é necessário, de todos os pontos de vista, efetuar um inquérito dentro de nosso Serviço, com o objetivo de poder estabelecer de forma fidedigna o número exato de funcionários dos Correios e Telégrafos que não pertencem ao nosso Partido, muito agradeceremos que V. Sa. queira tomar na devida consideração a presente, enviando-nos os antecedentes solicitados.

Esses dados devem ser colhidos com a maior discrição possível, para não produzir transtornos.

A informação deverá ser enviada a Rina Fresia Salazar, Subadministradora dos Telégrafos de Valdívia.

Na confraternidade democrata-cristã, despede-se muito cordialmente de V. S"., sua camarada — a) Rina Fresia Salazar".

A funcionária em questão escreveu ao jornal alegando que sua assinatura havia sido falsificada na circular. O desmentido foi publicado com uma nota da direção, na qual se esclarece que as assinaturas das duas cartas coincidem perfeitamente.

Aliás, todos temem a polícia política. Esta é um órgão eficientíssimo, que acompanha os passos de todas as pessoas que, causam certo incômodo ao regime. Quando fui chamado pela Interpol de Santiago para tomar conhecimento da acusação mentirosa de haver tratado de política interna chilena na conferência que fiz em Temuco, foi-me apresentado um relatório completo, elaborado pelos investigadores que me haviam acompanhado. No relatório constava, além da data em que eu entrara no país, o número do meu passaporte, meu itinerário na viagem ao Sul, um resumo da conferência que pronunciara, o número de pessoas presentes, etc...

A polícia política çhilena é uma espécie de Gestapo demo-cristã, que procura esconder a violência de sua ação fria, calculada, e tanto mais eficiente, levada a cabo por detetives competentes e ativos, que funcionam na total dependência do Sr. Bernardo Leighton, Ministro do Interior.

F — Método demagógico e odioso de controle do comércio

Existe no Chile um órgão conhecido pela sigla DIRINCO — Dirección de Industria y Comercio que tem, entre outras, a função de determinar quantos dias por semana se pode comer carne, e de fixar e controlar os preços de grande número de produtos agropecuários e industriais. Coordenado com ele trabalha o CONCI — Comando Nacional contra la Inflación que, embora não tendo entre suas funções próprias a de fiscalizar os preços, na prática o faz por meio de comandos de consumidores.

A DIRINCO é dirigida pelo Sr. Hernán Lavalle, que se tornou famoso no país inteiro pelo grotesco de certas atitudes. Foi êste personagem que declarou que a escassez dos cigarros se deve aos fumantes, e que as donas de casa são responsáveis pela falta de leite em pó porque compram muito este produto... É comentado em largos círculos o significativo episódio de que foi protagonista. Certa vez, pediu carne no restaurante do Club de La Unión — o melhor de Santiago — em dia em que era proibido vender êste produto. O garçom explicou que não podia atendê-lo. Entretanto, após muita insistência, e sabendo que se tratava de alto funcionário do governo, resolveu servir o prato pedido. O Sr. Lavalle tirou então do bolso um talão de multas e autuou o restaurante...

O governo está promovendo uma série de medidas de coação do comércio. Causou grande e geral repulsa a promulgação da lei de 25 de abril de 1966, a qual autoriza o Presidente da República a designar membros de organizações como as Juntas de Vecinos e a Federação de Estudantes para exercerem gratuitamente funções de controle e fiscalização do comércio em geral. Os escolhidos são considerados ministros de fe, ou seja, seu testemunho se reveste de fé pública. A competência que lhes é outorgada não se limita ao âmbito destas ou daquelas obrigações legais, mas diz respeito, indiscriminadamente, ao "cumprimento das leis da República, decretos e regulamentos" ("Verbo", de Buenos Aires, número de agosto de 1966, artigo "La Situación en Chile", de Juan Antonio Widow A.).

É fácil de compreender que essa disposição da lei tenha despertado viva repulsa. Em primeiro lugar, nunca se viu, pelo menos no Chile, fiscais com atribuições tão amplas, para não dizer ilimitadas. Depois, entre as entidades que fornecerão os estranhos ministros de fe algumas — como é, flagrantemente, o caso da Federação de Estudantes — estão totalmente politizadas, havendo todas as razões para recear que seus membros abusem do cargo, no interesse de seu partido e do esquerdismo em geral, promovendo a luta de classes e a agitação social. Acresce que, em outros países as tarefas de fiscalização são conferidas em geral a funcionários especializados, resultando absurdo entregá-las a estudantes, jovens não raras vezes incapazes de se fiscalizarem a si mesmos. E a estes é que se investe de fé pública...

Já se comentou, com muita razão, que a lei em apreço introduzirá no Chile "o sistema da delação e espionagem plenamente legalizada a serviço de um partido político" (Juan Antonio Widow A., art. cit.).

O comércio chileno, que já se sentia desalentado, manifestou acentuado descontentamento diante desta medida nitidamente demagógica e odiosa. Isto vem aumentar a insatisfação geral a que nos referimos anteriormente.

G — Oneroso dispositivo de propaganda do governo

Frei montou toda uma máquina de propaganda governamental, coisa até então desconhecida no Chile. Desde o início do seu mandato, todas as rádios, em todo o país, são obrigadas a formar diariamente uma cadeia. Nela se faz propaganda dos planos da administração. Em tempo de eleições, atacam-se os adversários do Partido. Ademais, são formadas com frequência cadeias extraordinárias, também propagandísticas, sob diferentes pretextos.

Quando, nos primeiros meses do atual período presidencial, o Congresso — no qual o Sr. Eduardo Frei ainda não tinha a maioria — demorava a aprovar uma lei apresentada pelo Executivo, fazia-se uma campanha contra o Congresso. Estava-se nas vésperas das eleições legislativas. Ao mesmo tempo que alguns locutores dos programas oficiais diziam que o

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