(continuação)
critério da consciência de cada uma ("El Mercurio", edição de 28 de novembro de 1965).
Comenta-se em largos círculos que mais de 200 mil mulheres chilenas estão sendo atendidas pelo Serviço e praticam os métodos de limitação — não só os permitidos, como os não permitidos pela Igreja.
• 2 — O DIVÓRCIO
Em matéria de divórcio, já não é tão, arrojado o Sr. Frei. Seu governo, que é promotor do controle da natalidade, não ousou ainda ser promotor do divórcio. Apenas, acompanha passivamente o encaminhamento de uma propositura divorcista em curso no Legislativo, sem intervir negativamente. A Democracia-Cristã evita ser negativista...
A Deputada Ines Enriques, líder divorcista chilena, apresentou um projeto de divórcio à Câmara. O projeto ganhou corpo. Inesperadamente, recebeu a aprovação da Comissão encarregada de examiná-lo. Esta vitória se deveu principalmente à votação dos deputados do Partido Radical (ateu) e dos Partidos Comunista e Socialista. Na Comissão votaram contra o projeto dois deputados conservadores, um liberal e um democrata-cristão. O Deputado Alberto Jerez — um dos homens mais importantes da Democracia-Cristã — se absteve. Esta abstenção, aliás, se compreende: é notório que o Sr. Jerez se apresenta por toda parte com uma divorciada, que mora com ele.
Os Bispos protestaram. O Partido Conservador publicou um documento no qual condenava violentamente o divórcio. Parece que não existe possibilidade próxima de a propositura vir a ser aprovada pelo Legislativo. A opinião pública chilena não está preparada para tal.
É, entretanto, notório que a Democracia-Cristã não combate o divórcio de frente. Muitos líderes pedecistas simpatizam com sua implantação. O Sr. Alvaro Marfan, por exemplo, o já citado generalíssimo da campanha eleitoral do Sr. Frei, declarou à revista "Ercilla" (em sua entrevista há pouco referida) que os países desenvolvidos têm o divórcio, e que nos subdesenvolvidos deve-se ampliar ao máximo a regulamentação legal para proteger as famílias em situação irregular: "Legislar para solucionar um problema social existente não significa atentar contra os altos princípios morais ou religiosos".
O deputado pedecista Julio Silva Solar se manifesta no mesmo sentido. Diz ele que a pressão social é tão forte, que na prática se estabeleceu já o divórcio no Chile, e que essa pressão justifica a lei. Chega ao desvario de afirmar que, se a mesma pressão social exigir a legalização da homossexualidade (que, para ele, é um mal discutível), a legislação também neste caso deverá ser adaptada.
As simpatias democratas-cristãs pelo divórcio são tão patentes, que a líder divorcista Ines Enriques declarou a "El Mercurio" (edição de 27 de agosto último) que lamenta que o PDC não tenha ainda tomado uma atitude clara a respeito do assunto, pois se nega a legislar sobre êste enquanto muitos de seus próceres se mostram favoráveis à dissolubilidade do vínculo. Segundo a entrevistada, os parlamentares da DC aguardam apenas um momento mais oportuno para darem ao projeto divorcista a tramitação correspondente.
Se dúvida houvesse quanto às mal veladas simpatias do PDC chileno pelo divórcio, estas declarações da líder divorcista trariam a respeito um esclarecimento definitivo.
H — A semana de cinco dias e a supressão dos feriados religiosos
Há um paradoxo na política da Democracia-Cristã: de um lado seus próceres procuram o apoio da Igreja, para que ao chileno médio pareça que o atual governo é de inspiração católica; e de outro lado afirmam que o pensamento da DC e o da Igreja Católica não coincidem necessàriamente.
Neste último ponto o pedecista chileno é sincero. Confessa indiretamente que não é um político católico verdadeiro, pois, se o fosse, deveria fazer de sua atividade política em vários assuntos uma como que continuação de sua atividade apostólica, em inteira harmonia com a doutrina da Igreja. Muito pelo contrário, o atual governo e alguns parlamentares do Partido afirmam que o pensamento social da Igreja Católica é apenas um dos elementos da Democracia-Cristã. Esses mesmos parlamentares tomam, em certas intervenções, atitudes inteiramente contrárias à doutrina e disciplina da Igreja. E isto não só em problemas econômico-sociais.
O maior escândalo neste sentido foi a tentativa de abolição dos feriados religiosos. A administração Frei introduziu no país a semana de cinco dias, abolindo, portanto, 52 dias de trabalho no ano. E logo depois, com desfaçatez desconcertante, verificou que o aumento da produtividade e a melhor organização do trabalho exigiam a abolição de quatro feriados religiosos: Ascensão, Corpus Christi, São Pedro e São Paulo, e Imaculada Conceição.
Segundo noticiou a imprensa, o respectivo projeto de lei chegou a ser redigido e esteve a pique de ser encaminhado pelo Executivo ao Parlamento. Isto se passou em 1965, quando houve duas tentativas de envio de tal projeto ao Congresso, uma no início do ano e outra em novembro.
A iniciativa foi sustada por causa da enorme reação popular então surgida. Inicialmente, milhares de senhoras assinaram uma nota de protesto que a imprensa publicou fartamente. E, segundo consta em círculos bem informados, alguns Bispos teriam procurado o Sr. Eduardo Frei para dizer que a população católica não aceitava a supressão daqueles feriados, ao que o Presidente teria respondido que "agora não", porém mais tarde se voltaria a pensar na iniciativa. O sentimento religioso do povo chileno impediu que a medida anticatólica fosse então aprovada.
I - A questão do cobre
A posição da DC andina em relação ao problema do cobre é muito curiosa. Enquanto os companheiros de Frei estavam na oposição, eram promotores arditi de toda espécie de greves e agitações nas minas. Foi público o favorecimento de tais perturbações da ordem, por homens que hoje são destacadas personagens do governo. Entre esses antigos agitadores se salientam o Sr. Presidente e seu Ministro do Interior, Bernardo Leighton.
O favorecimento dos movimentos sediciosos nas minas era feito pelos demo-cristão, não para resolver qualquer problema dos operários, mas unicamente com o intuito político de promover a agitação e a luta de classes, o que lhes traria vantagens eleitorais.
Tendo subido ao poder, a DC teve que mudar de atitude.
Como a economia chilena depende inteiramente do cobre (a maior parte das divisas é proveniente da exportação desse minério), aqueles mesmos que na oposição eram insufladores, passaram a ser, no governo, os inimigos das greves. Quem antes era pedra, hoje é vidraça...
Qualquer crise na produção mineral afeta seriamente a economia nacional; afetando a economia, atrapalha os planos revolucionários do governo. Todo o orçamento chileno é feito com base no preço internacional do cobre. A oscilação deste pode fazer as perspectivas financeiras do país passarem de ótimas a péssimas em 24 horas. A interrupção da produção pode acarretar as consequências mais desastrosas.
Os agentes do atual governo, diante disto, têm a missão constante, imposta pelo Palácio de La Moneda, de evitar qualquer agitação que possa prejudicar o trabalho normal das minas. Muitos movimentos grevistas têm surgido ali, através dos quais os operários pedem aumentos de salário, melhores condições de vida, etc. Mas, a mesma polícia, que é tão inoperante no impedir a subversão entre os camponeses, é eficientíssima quando chega a vez das minas. O Ministério do Interior, que promove a agitação no campo, é ferrenho adversário da agitação nas minas. São dois pesos e duas medidas... No campo a desordem é útil para a promoción popular e para a ascensão do camponês. Por que não se quer fazer promoción popular nas minas? Por que ali não se aplica o mesmo método de ação que nos campos? Porque isto prejudicaria a situação econômica do país, e o prestígio da DC periclitaria...
Ao mesmo tempo o Sr. Frei depara com um problema de âmbito internacional que excita os sentimentos nacionalistas da esquerda e extrema-esquerda: trata-se do capital norte-americano que domina a maior parte das minas, e que deve ser expropriado. Os esquerdistas — e, entre estes, o Sr. Eduardo Frei — procuram a todo custo expulsar os yankees do território andino. Grande campanha demagógica foi desencadeada neste sentido.
A maior mina de cobre do Chile, Chuquicamata (uma das maiores do mundo), continua integralmente nas mãos de norte-americanos, ao passo que, em relação às outras jazidas que estes possuíam, o governo já conseguiu desapropriar 51% das ações. Acontece, porém, que as empresas assim nacionalizadas exigirão nos próximos cinco ou dez anos grandes inversões de capital para o prosseguimento normal da exploração, inversões estas que deverão ser feitas pelo governo que as desapropriou em parte. Quanto a Chuquicamata, a situação é bem melhor. A exploração continuará a se desenvolver normalmente, por muito tempo, sem o investimento astronômico necessário para as outras.
Frei olhou com olhos voluptuosos para Chuquicamata. Mas os norte-americanos fecharam a questão e não cederam, continuando com a propriedade integral da empresa.
De tudo isso adveio uma consequência paradoxal: Frei passou a ser recriminado pela esquerda — inclusive Fidel Castro — por não ter desapropriado Chuquicamata; e é censurado pela oposição direitista por ter desapropriado as minas que exigiam grandes investimentos, o que significará um ônus pesadíssimo para o futuro.
No meio desta situação confusa e paradoxal, duas coisas são certas: 1.°) a DC, que antes patrocinava greves dos mineiros, continuará, enquanto estiver no poder, inimiga à outrance de tais greves; 2.°) mais cedo ou mais tarde, o capital norte-americano de Chuquicamata não resistirá ao apetite confiscatório do demo-cristianismo hostil aos Estados Unidos e enamorado da URSS.
J - O malogro da política econômico-financeira
O que se observa a respeito da atual situação econômico-financeira do Chile é o seguinte: crise de produção, crise de abastecimento e conseqüente falta de gêneros de primeira necessidade, paralização dos negócios, fuga de capitais, além de uma inflação desenfreada.
A política em relação à propriedade formou um clima de insegurança e instabilidade. O risco de desapropriações iminentes torna temerário qualquer investimento.
Os negócios se paralizam. As terras e os imóveis urbanos baixam de preço. As ações sofrem grande depressão na Bolsa. O chileno cauteloso vê-se na contingência de tratar de tirar o seu dinheiro do Chile para aplicá-lo no Exterior.
Há anos entrou-se no sistema de controle de preços. Este é exercido pela DIRINCO — Diretoria de la Industria y Comercio, que está levando o abastecimento a uma crise: frequentemente há falta de carne, manteiga, leite, açúcar, ovos, arroz, batata e outros alimentos.
No mês de setembro de 1966 houve um incidente grave em La Vega, o grande mercado público de Santiago, por causa dos preços baixos fixados pela DIRINCO. Os produtores negaram-se a vender pelo preço estabelecido. Muitos jornais noticiaram o fato em manchetes.
Uma notícia do "Diário Ilustrado" de 16 de dezembro de 1966 deixa patente o cinismo com que certos homens do PDC falam da escassez de produtos de cuja abstenção o povo mais se ressente. Comentando a atual falta de cigarros no Chile, o diretor da DIRINCO declarou que os fumantes são os responsáveis por ela.
Mas, não são apenas os produtores rurais do mercado de La Vega que estão irritados. A irritação é geral.
A revista "Ercilla" de 21 de julho de 1965 mostra que, depois de os jovens católicos da revista "Fiducia" terem levantado a bandeira oposicionista no campo exclusivamente ideológico em que se situam, diversas organizações de outra natureza iniciaram reações em cadeia. Houve, pouco depois, uma visita de protesto, ao Presidente Frei, dos seguintes órgãos de classe, representativos da agricultura, indústria e comércio: Confederación de la Produción y del Comercio, Sociedad Nacional de Agricultura, Sociedad Nacional de Minerio, Sociedad de Fomento Fabril, Cámara Central de Comercio, Confederación Interamericana del Comercio y de la Produción (CICYP) , Unión Social de Empresarios Católicos (USEC), Instituto Chileno de Administración Racional de Empresas (ICARE). Protestaram principalmente contra a reforma constitucional, que enfraquecia as garantias do direito de propriedade, introduzindo virtualmente um princípio marxista na Carta Magna do Chile.
Entre os órgãos que protestaram perante o governo a esse propósito, encontram-se alguns que sempre tiveram orientação favorável à DC. Citamos, por exemplo, a Cámara Chilena de la Construcción. Isto mostra que mesmo setores democratas-cristãos se encontram insatisfeitos.
Os protestos continuam. Assim, o presidente da Sociedad Nacional de Agricultura, falando na recente inauguração da exposição de animais de Los Cerillos, afirmou-se representante de produtores que querem produzir, e lamentou: "Vivemos diariamente a tragédia dos que, pessoalmente, por escrito ou por mil meios, nos exprimem sua intranquilidade em relação ao futuro"; mostrou em seguida que a reforma agrária representa o "perigo do aniquilamento das capacidades empresariais" ("El Mercurio", edição de 9 de outubro de 1966). Nessa mesma ocasião falou o Ministro da Agricultura, que foi várias vezes interrompido por apupos e assobios ("Diário Ilustrado", da mesma data).
Também recentemente a Confederación de la Producción y del Comercio, representando os órgãos de classe do comércio e da construção e as sociedades de fomento fabril, de mineração e de agricultura, publicou um enérgico manifesto contra a reforma constitucional. Mostra o documento que a iniciativa governamental, deixando sem garantias o direito de propriedade, não poderá evitar consequências danosas. Afirma que o Presidente Frei não tomou em consideração a "quase totalidade das nossas observações". E mostra que, na presente escassez mundial de capitais, estes são levados só para onde existem garantias estáveis.
A política do governo em relação ao capital privado é caracteristicamente demagógica: Frei ouve os operários, ouve os agitadores, ouve os reformistas, ouve os inimigos da propriedade, mas não ouve os representantes das Câmaras, ou órgãos de classe, conforme estes mesmos ressaltam. Desta atitude só podem vir a insegurança e a insatisfação.
É público e notório que há uma grave crise da construção civil no país.
Como nesse setor muitos empresários estão fortemente vinculados ao Partido, o governo arranjou uma fórmula hábil, que, segundo se comenta, é a seguinte: Frei teria feito um acordo com o Peru, para onde se transfeririam várias firmas de construção chilenas. Consta que muitos bons amigos da administração pedecista andina já estão com escritórios montados em Lima.
A DC subiu ao poder no Chile apresentando a inflação como um dos mais urgentes problemas nacionais a solucionar. Era o que chamava de "flagelo nacional". Agora, ao cabo de trinta meses, verifica-se que o processo inflacionário não se deteve, antes pelo contrário, agravou-se. Segundo dados oficiais, a taxa da inflação chegará em 1967 a 41% — tanto como nos piores anos de governos passados.
Em 1964, último ano da administração Alessandri, calcula-se que mais de 50% das inversões eram feitas pelo Estado. Em 1966 a inversão estatal foi estimada em perto de 80%. Como observou um conceituado economista estrangeiro que vive no Chile, professor universitário e técnico em integração econômica, isto não passa de "socialismo profundo" ou "sistema dirigido".
Esse é o resultado do estrangulamento tributário que deixou o povo em péssima situação financeira. Muitas pessoas não tinham meios para pagar seus impostos, o número de cheques e títulos cambiais protestados elevou-se assustadoramente. Segundo informação de um assessor de Frei, somente uma minoria dos contribuintes (31% ) havia tido meios para recolher, até julho de 1966, a segunda quota do imposto da renda, exorbitantemente aumentado pela administração pedecista ("PEC", n.° 190, de 16 de agosto de 1966).
As ações caíram vertiginosamente na Bolsa, devido à insegurança geral e ao fato de os particulares terem tido que se desfazer de suas economias em face da elevação do custo de vida e da necessidade de pagar os impostos desmedidos do Sr. Frei. Comenta-se que o valor médio das ações em outubro de 1966 era igual a 45% do apurado em outubro de 1964. A situação na Bolsa é quase de bancarrota.
Para se ter ideia do aumento dos protestos de letras e cheques e da baixa das ações — o que vem confirmar o descalabro da atual política financeira — reproduzimos aqui um quadro demonstrativo publicado pela revista especializada "PEC".
O desemprego começa a tornar-se crítico em todo o Chile. Nas zonas urbanas, até agosto de 1966, aumentou ele em 75% com relação ao índice de fins de 1965 ("PEC", n.° 190, de agosto de 1966).
É difícil saber-se qual a exata situação financeira do Estado. Notícias várias correm a respeito. No segundo semestre de 1966 afirmava-se que um erro de previsão da cotação internacional do cobre havia desequilibrado o orçamento, colocando o governo em sérias dificuldades. Posteriormente, pelo contrário, informou-se que a ascensão do preço do minério viera proporcionar grandes sobras de divisas.
O fato incontestável, entretanto, é que o Estado vem passando por sucessivos períodos críticos, sob o ângulo financeiro. E ninguém nega, tampouco, que o governo Frei enfrenta uma gravíssima crise econômica.
A situação em determinados setores chegou a ficar dramática. As obras públicas foram reduzidas, segundo alguns, em 50%. É voz corrente que a CORA, muitas vezes, não tem tido dinheiro para pagar os que trabalham nos asentamientos dos imóveis atingidos pela reforma agrária. Referem-se até vários casos de funcionários da CORA que foram procurar, com antigos donos das terras desapropriadas, empréstimos para pagar os asentados. Os empreiteiros de obras públicas vêm encontrando grandes dificuldades para receber as prestações a que têm direito. Comenta-se com insistência que há muitas firmas em perigo de falência por não receberem os pagamentos a que fazem jus.
Ao lado de tudo isto, conforme já ficou dito, os gastos com a burocracia aumentaram brutalmente. As verbas mais assustadoramente altas são as empregadas nos organismos demagógicos e de agitação social, como a CORA, o INDAP e a Promoción Popular. As despesas de propaganda governamental são também despropositadamente vultosas.
Os créditos concedidos pelo Banco Central nos primeiros dez meses de 1966 se distribuíram de tal forma que seu total no setor público aumentou em 35%, e no setor privado diminuiu em 57% , em relação a igual período do ano anterior ("PEC", n.° 204, de 25 de novembro de 1966).
De todos estes fatos, qualquer cidadão, capaz ou não capaz, técnico ou não técnico, só pode tirar a seguinte conclusão: é lógico, compreensível e normal que tenha baixado e que continue a baixar a produção agropecuária e industrial no país.
K — A política de Partido
O governo deve servir ao Partido Democrata-Cristão? Ou é o Partido que deve servir ao governo? Eis a pergunta incômoda e comprometedora que os democratas-cristãos arditi querem ver respondida, e que os moderados evitam responder. Só o fato de a questão ser levantada já faz suspeitar que o governo esteja subordinado ao Partido. E esta é a realidade.
A ala mais avançada levantou essa problemática no último congresso do PDC, realizado em agosto de 1966 em Santiago. Um bom número de congressistas defendia a tese da subordinação. Frei — o moderado — compareceu ao conclave e sustentou a posição contrária. A reação da opinião pública não democrata-cristã é que fez com que o Presidente, perspicaz em sentir os fenômenos de opinião que lhe são inconvenientes, julgasse prudente afirmar que o governo não depende do Partido.
Mas, quem observa imparcialmente a política chilena verifica que é evidentemente o inverso que ocorre.
São muito elucidativas neste sentido as declarações do presidente do PDC, Senador Patrício Aylwin. Em recente reunião das mulheres democratas-cristãs, afirmou ele: "Nosso governo é um instrumento para realizar os princípios do Partido" ("El Mercurio", edição de 24 de agosto de 1966).
Talvez tenha sido esta a primeira vez que algum dos dirigentes pedecistas teve a coragem de afirmar isso tão claramente. Nenhum deles dúvida de que esta seja a verdade, mas poucos chegam a dizê-la. Tal subordinação ainda seria admissível se os princípios do Partido fossem tendentes a resolver os problemas do país. Na realidade, entretanto, o que se quer é fazer triunfar os preconceitos partidários, o espírito socialista, confiscatório e anticristão que não pode senão conduzir o Chile a uma situação semelhante à de Cuba.
A Democracia-Cristã é uma ideologia, um estado de espírito, um modo de ser (comenta-se até jocosamente que é fácil distinguir um democrata-cristão dos pobres mortais: o pedecista arquetípico é um homem casado com uma mulher gorda, mal vestida e mal penteada. O estilo DC penetrou em todos os meandros do complexo organismo governamental).
O governo Frei não pensa em primeiro lugar em resolver os problemas chilenos, mas em fazer triunfar tudo aquilo que a DC representa. Todos os esforços oficiais vão neste sentido. Tudo se faz em nome da Democracia-Cristã. Os homens do governo se declaram favoráveis à ideologia dela. Os empregos públicos são dados de preferência aos seus membros. Qualquer cidadão que ocupe cargo no Partido é uma autoridade, e tem a vivência disto.
Quem não é do Partido tem receio de não conseguir colocação, tem medo de ser demitido se for funcionário público.
Evidentemente, os esquerdistas de outros partidos se sentem mais tranquilos, pois são simpatizantes da política do governo. E, por isto, não são perseguidos. Mas, os anti-esquerdistas vivem em pânico. São muitas vezes ameaçados e pressionados no sentido de deixarem de fazer oposição ou de aderirem. Um democrata-cristão sente todas as portas abertas diante de si; os esquerdistas de outras denominações sentem as portas entreabertas; para os anti-esquerdistas, elas estão totalmente fechadas.
Até há bem pouco, militar no Partido Conservador era uma honra. Pertenciam a esta agremiação as pessoas mais ciosas das tradições chilenas, aqueles que, como seus antepassados, ajudavam a conduzir o país no caminho da ordem e do trabalho. Hoje, dizer-se conservador é expor-se ao opróbrio. O democrata-cristão da linha avançada ostenta, em relação a quem se diz tal, um desprezo que logo se transforma em ódio.
O PDC é, para o atual governo chileno, o que o nazismo era para Hitler ou o que o fascismo era para Mussolini.
Estou informado de que um senador oposicionista declarou recentemente em Valparaíso que, no Sul, elementos da situação ameaçaram cortar o crédito no Banco oficial às pessoas que entrassem para o Partido Nacional (partido da oposição, resultante da união dos antigos Partidos Conservador e Liberal). Na Escola de Agronomia da Universidade Católica do Chile, em Santiago, onde estudantes do movimente de "Fiducia", formado por jovens católicos antidemocratas-cristãos, pediam assinaturas a seus colegas para um manifesto — de índole doutrinária — contra o governo, o Pe. Oscar Domínguez, professor de Sociologia Rural, advertiu da cátedra que os alunos que assinassem o documento não seriam, no futuro, aceitos como funcionários do Estado.
Estava eu uma tarde no aeroporto de Los Cerrillos, em Santiago, à espera de um avião. Um cidadão magro, frio de temperamento, de aparência vulgar, mas com ares de dono do mundo, faz menção de entrar na alfândega para receber um amigo. É barrado por um policial. Furioso, diz: "Deixe-me passar, porque eu sou do Partido Democrata-Cristão". E entra. Fatos como este são muito frequentes.
Conforme veremos ao tratar da ditadura em gestação no Chile, conhecem-se várias cartas sigilosas (caídas nas mãos de adversários do governo, e, por isto, publicadas em jornais), dirigidas pela polícia a diversas repartições públicas, nas quais se pede informação "rápida e confidencial" sobre quais os funcionários que pertencem e quais os que não pertencem ao Partido. Organiza-se, assim, um levantamento completo dos elementos da DC e dos seus opositores que ocupam cargos públicos.
Aliás, muitos democratas-cristãos da primeira hora já se sentem chocados com esse estado de coisas. Muitos dizem que o Frei no qual votaram não é o Frei de hoje. E os conservadores que apoiaram o atual Presidente estavam certos de ter votado em um homem; hoje veem que votaram em um partido, em uma ideologia que, com aparências de liberdade ou sem elas, quer-se impor e dominar o Chile.
IV - A REAÇÃO CONTRA O SR. EDUARDO FREI
Nos primeiros dias em que se está no Chile não se percebe o profundo descontentamento e a generalizada insatisfação que dominam o povo. Como a Democracia-Cristã é poderosíssima e esse poder se sente e se intui no ambiente das ruas — como o governo tem nas mãos o Congresso, onde é representado por uma maioria esmagadora e disciplinada, a primeira sensação que se tem ao chegar ao país é de aceitação, satisfeita ou indiferente, da situação.
O chileno é calmo, pouco inclinado a manifestar suas queixas, acostumado a sofrer os cataclismos da natureza. Isto faz com que receba um desgosto político com a quase frieza com que assiste a um terremoto. Este vem e passa. E o chileno parece pensar que os males atuais também não durarão, e logo tudo voltará à normalidade.
A - Insatisfação geral
Mas, quando se começa a acompanhar os jornais, a conversar com elementos de diversas orientações, quando se vai, auscultando a opinião pública mais detidamente, aquela primeira impressão desaparece. E surge então a realidade: o povo está profundamente insatisfeito, profundamente desgostoso com o desenvolver dos acontecimentos.
Torna-se então visível, para o visitante que a ordem está dando lugar à desordem, que a revolta está crescendo, que o operariado urbano e rural que se incitou à luta de classes está se levantando com ímpetos de destruir os que estão em cima. É notório o clima de revolução e bancarrota próximos. É notório que o Poder Público e o Partido não procuram dominar, mas antes incentivar a demagogia, a agitação, a animosidade entre as classes. É evidente o endeusamento do indivíduo até aqui marginalizado, ao passo que os líderes que até ontem tinham algum poder, hoje quase, não têm nenhum, e amanhã ocuparão o lugar dos marginais de ontem.
A difusão das ideias do PDC é artificial. Como sua doutrina é antinatural, não penetra de maneira orgânica e autêntica. As camadas marginais de hoje, às quais se promete tudo, aderem por interesse próprio. Mas os elementos mais preservados dessas camadas se chocam com o espírito de revolta que se lhes quer incutir.
Nas classes cultas muitos aderem, por oportunismo político ou por já serem esquerdistas — ou são aderidos pela força. Algumas dissensões, porém, já se notam na Democracia-Cristã, e mesmo já se tem conhecimento de muitas apostasias de entusiastas da primeira hora.
Perplexidades se criam na mente de muitos chilenos ao verem que a polícia não intervém como deveria, nas agitações populares. Eu tive notícia, por exemplo, de que carabineros se queixam com frequência de não poderem intervir em agitações camponesas ou operárias, porque têm ordens superiores para se absterem.
Quando camponeses ocuparam pela força uma propriedade do Vale do Curacavi, o tenente que comandava os carabineros procurou o proprietário, passada a agitação, e pediu desculpas por não ter feito seus homens dominarem a situação: O governo apoia os agitadores, disse, e nós estamos impedidos de ser enérgicos.
A polícia, que não intervém nas agitações de trabalhadores, é violenta contra quem faz oposição ao regime pedecista. E isto choca o homem da rua. Quando quarenta carabineros, com carro de choque, dispensaram colaboradores da revista "Fiducia" que coletavam assinaturas na Calle Ahumada, no centro de Santiago, para um manifesto de natureza ideológica, contra o governo, o povo se revoltou. Muitos diziam: Abaixo a ditadura! Um cidadão bradou: Eu sou democrata-cristão, mas não posso permitir que a polícia dissolva uma manifestação contrária ao governo. Eles têm o direito de se fazer ouvir.
Em Temuco, enquanto elementos de "Fiducia" eram agredidos por democratas-cristãos e socialistas (expressivo conluio!), a polícia assistia sem intervir. Houve protestos de populares que gritavam: Ditadura!
A paralisação dos negócios, a dificuldade de crédito (que em geral é facilitado aos demo-cristãos) e a crise econômico-financeira criam uma instabilidade geral. Comenta-se em largos círculos que há muita fuga de capitais, apenas atenuada pelo fato de ser difícil comprar dólares. É crime comprá-los no câmbio negro.
A falta de produtos básicos como o leite, a manteiga e a carne, a crise da construção civil, a queda dos títulos na Bolsa, tudo isto aumenta a insatisfação.
Com as desapropriações, muita gente viu-se empobrecida do dia para a noite. Consta que muitos casos de crises cardíacas e de mortes de infelizes expropriados foram ocasionados por isto. Com a pressão tributária, muitas pessoas, especialmente viúvas, viram-se em repentino aperto financeiro.
Com as agitações camponesas, com a ameaça de desapropriação, com as greves e reclamações salariais imprevistas, o produtor rural fica sem incentivo para produzir, fica sem coragem para investir.
Tive notícia, de boa fonte, de proprietários de terra que, desesperados com a situação, venderam os animais e as máquinas, retiraram os móveis e abandonaram simplesmente suas propriedades, com enorme surpresa dos empregados que lá ficaram.
Com a instabilidade comercial e industrial, com as questões trabalhistas que sempre recomeçam, o homem de empresa e o comerciante se sentem desanimados. Conforme já assinalamos, órgãos de classe da indústria, do comércio (de atacado e varejo) e da agricultura apresentaram sucessivas queixas oficiais ao governo, mostrando a enorme dificuldade de trabalhar nas circunstâncias presentes.
O receio de represálias por pertencer à oposição, ou simplesmente por não ser do PDC, a dificuldade em conseguir emprego se não se apoia o governo, são outros fatores que aumentam o mal-estar.
Um fato recente, entre outros, indica essa insatisfação geral. No dia 18 de dezembro de 1966 o Presidente Frei compareceu ao Estádio Playa Ancha, em Valparaíso, para assistir a uma importante partida de futebol. No intervalo, o locutor anunciou a presença do Chefe de Estado. Imediatamente os torcedores irromperam numa enorme vaia coletiva, acompanhada de gritos e assobios, que se prolongou por alguns minutos. O Presidente foi obrigado a abandonar o recinto.
Tem-se a impressão de véspera de bancarrota. A sensação de que tudo pode acontecer é universal, e paira no ar. Um democrata-cristão fanático certamente dirá que isto é mentira, que isto não existe, que é invenção do autor deste trabalho. Mas, quem não se deixa dominar pelo fanatismo próprio do Partido, quem observa os acontecimentos com cabeça fria, sente, vê, confirma, considera indiscutível a existência dessa impressão geral na população, fruto da insatisfação e do receio de um desastre.
A prova incontestável e mais recente deste estado de espírito imperante no Chile foi o

Este gráfico dispensa comentários: desde que o Sr. Eduardo Frei ascendeu à Presidência da República, vem baixando no Chile a cotação das ações na Bolsa, do mesmo modo que vai aumentando o montante dos cheques e títulos cambiais protestados.