(continuação)
Congresso não apoiava o Presidente, prejudicando seu trabalho, outros locutores aproveitavam para acrescentar: Vote nos deputados da DC para dar apoio a Frei.
Era um insólito dispositivo de propaganda do governo, servindo aos planos deste e promovendo o desenvolvimento do Partido.
Recentemente, causou estranheza o fato de aparecer um carimbo postal que imprime em letras grandes, em toda a correspondência que passa pelo Correio a seguinte frase: "Com a reforma agrária começa nossa independência econômica". A propaganda oficial agro-reformista é frequentíssima. Em um anúncio publicado nos jornais de 1.° de julho de 1964, e repetido em novembro, empregam-se frases como as seguintes: "O nobre camponês chileno também tem direito a ser proprietário" — "Faremos uma autêntica reforma agrária" — "Este é o governo do Povo, este é o governo de Frei".
O dispositivo de propaganda é caríssimo. Especialmente onerosa é a publicidade feita em torno de Promoción Popular. Por todo o Chile, nas ruas, em jornais, em algumas estações de estrada de ferro, aparecem frases ou fotos publicitárias alusivas aos planos governamentais. E sempre, repito, exaltando o governo, Frei, o Partido.
H — A abstenção da Polícia e os processos-crime por injúria ao Presidente
O Código Penal chileno pune as ofensas ao Presidente da República. Mas, poucos casos se conhecem de pessoas condenadas por esse crime antes de Frei subir ao poder.
Agora, entretanto, a polícia se tornou especialmente zelosa em defender o pobre Chefe de Estado contra os ataques que se lhe fazem. Evidentemente, os ânimos irritados com a política oficial se voltam às vezes contra a pessoa do Presidente, expressando-se com adjetivos menos respeitosos. Cidadãos perseguidos pelo dispositivo governamental de intimidação, proprietários ameaçados de perder suas terras, produtores a quem se tira todo estímulo para produzir, são pessoas das quais nem sempre se pode exigir que estejam perdidas de amores pelo Sr. Frei. E vez por outra elas deixam escapar críticas em tom violento, às vezes até mais violento do que seria merecido.
Mas a honra do Sr. Presidente não pode ser abandonada à sanha de um mortal enfurecido. Constatada a injúria, o vil mortal é imediatamente preso, permanecendo na cadeia até pagar uma fiança. E em seguida abre-se contra ele um processo-crime.
Note-se que os casos mais conhecidos se deram, não com energúmenos que tivessem arremetido contra o Presidente em termos de baixo calão e em público, mas sim com pessoas que proferiram palavras de crítica diante de meia dúzia de cidadãos.
Característico foi o que se passou com o Sr. Carlos Podlech, agricultor de Lautaro, no sul do Chile. Ouvia ele um discurso presidencial em praça pública, a 26 de março de 1966, na cidade de Temuco. O Sr. Frei criticava os triticultores com expressões violentas. Dizia que eram "tontos" os que afirmavam que o preço do trigo havia baixado. O Sr. Podlech comentou que "tonto" era o Presidente, porque de fato o preço baixara. A frase foi ouvida por cinco ou seis pessoas. Dois dias depois, foi ele preso e libertado sob fiança. Seguiu-se um processo por injúria ao Chefe de Estado, do qual resultou recentemente uma condenação a residência forçada por sessenta dias.
Esta polícia tão atenta e tão zelosa em defender a honra do Presidente é a mesma polícia que intervém para desfazer movimentos contrários à orientação ideológica do governo, e se abstém de proteger os direitos dos adversários do Partido.
A polícia de Temuco, que agiu rapidamente prendendo o Sr. Podlech, é a mesma polícia que se absteve de defender os jovens de "Fiducia" quando, em início de outubro, foram eles agredidos brutalmente por democratas-cristãos e socialistas em praça pública. Os carabineros assistiram à agressão impávidos, sem intervir. E a queixa feita à autoridade policial foi arquivada.
A propósito deste incidente o ex-deputado do Partido Liberal, Sr. Miguel Luis Amunátegui, declarou ao "Diário Ilustrado" (edição de 5 de outubro de 1966): "Considero vergonhoso que, enquanto agentes do marxismo internacional circulam livremente por nosso território, os jovens católicos que expõem seus ideais sejam perseguidos e silenciados mediante violência".
I — Consequências de uma ditadura que já vai adiantada
A tendência para o regime de partido único, a pressão sobre os jornais e o rádio, a censura, o cadastramento político, o sistema odioso de controle dos preços, a escandalosa propaganda do governo feita com dinheiro do Estado, tudo isto dá ao chileno médio, não iniciado no PDC, uma sensação de insegurança e de medo.
Os riscos a que se expõe quem não é do Partido, e mais ainda quem pertence à oposição, fazem com que, apesar de seus dislates, a DC (que tem como lema "Revolución en libertad") vá aumentando os seus contingentes — ao mesmo tempo que diminui seu eleitorado.
Muitas pessoas têm declarado aos jovens de "Fiducia" que são favoráveis à posição da revista, mas não os apoiam devido ao medo de represálias.
Por esta forma, através de um método limpo e honesto, o PDC vai-se firmando no poder. Mas, assim como aumenta o número de seus membros, cresce significativamente o número de seus inimigos.
Nos últimos meses os protestos surgidos no Chile contra a ditadura, cada vez mais clara, tornaram-se muito frequentes. A título de exemplificação, citaremos aqui duas notícias características:
■ 1 — "El Mercurio", em seu número de 3 de março de 1967, informa que, em assembleia do Partido Radical — o qual muitas vezes tem apoiado os demo-cristãos — o presidente da agremiação, Senador Humberto Henríquez, acusou o PDC de estar fazendo "uma revolução que entrega a totalidade do poder à Democracia Cristã" e quer perpetuá-la no governo. "Nosso dever primordial — concluiu o parlamentar — é atar a máquina totalitária em marcha". A reunião foi fechada por carabineros, com bombas lacrimogêneas.
■ 2 — O "Diário Ilustrado" de 20 de fevereiro último apresenta um "A Pedidos" do Partido Nacional, intitulado "Porque se persegue a classe média". Afirma a direção do partido oposicionista que o governo deixou patente seu propósito político de destruir progressiva e irremediavelmente a classe média. Para isto concorrem: o manejo discriminatório das decisões administrativas e do crédito estatal; a perseguição a funcionários públicos que resistem a ingressar no partido dominante; a destruição do direito de propriedade. "Por que — pergunta o documento — se persegue a classe média? Porque ao empobrecê-la e amedrontá-la se debilita sua inteireza e independência, e se restringe assim o exercício de sua liberdade política".
Se dúvidas ainda restassem sobre as intenções da atual administração de conduzir o Chile para um regime forte e ditatorial, as notícias distribuídas pelas agências internacionais, de que Frei tentou conseguir uma alteração constitucional para dissolver o Congresso e convocar novas eleições, seriam suficientes para desfazê-las. Informações idôneas que me chegam do Chile confirmam esta conclusão: são freqüentes os comentários, feitos até por pessoas do povo, no sentido de que a tentativa de extinção dos atuais mandatos legislativos é o sintoma mais próximo e mais grave de uma ditadura a se instalar talvez não muito remotamente.
VI — O PEDECISTA NO CHILE É UM HOMEM "BOM"? HONESTO? DE BOA DOUTRINA?
Nos países onde existe o PDC, seus membros são tidos, na maioria dos casos, como honestos, idealistas, trabalhadores.
Em geral o democrata-cristão médio é considerado homem de bons costumes e correto em matéria financeira.
No Chile, entretanto, no que se refere aos elementos mais influentes ou exacerbados do Partido, isto é, muitas vezes, diferente. Esses democratas-cristãos são, antes de tudo, fanáticos pelo seu Partido. São os homens da situação e têm muitos privilégios que lhes advêm de suas ligações políticas.
São portadores de uma mensagem nova. Sentem-se, por isso, superiores aos outros. Sentem-se salvadores da pátria, homens quase carismáticos que compreendem a única e verdadeira doutrina atualizada de Cristo. São homens providenciais.
Este aspecto por assim dizer religioso do Partido atraiu de início a seu seio não poucas pessoas bem intencionadas. Mas, a ascensão ao poder trouxe depois para ele uma plêiade de interesseiros, de políticos pragmáticos que queriam unicamente estar com a situação. Segundo se comenta, passaram a integrar as fileiras democratas-cristãs homens de má vida, de maus costumes, indivíduos habituados a fazer negociatas. E, como é público e notório, também marxistas ou esquerdistas extremados.
Parece-me útil relatar aqui o que se conta a respeito em largos círculos. Claro está que não pude, como estrangeiro de passagem pelo Chile, inteirar-me pessoalmente da inteira objetividade dos constas que passarei a reproduzir. Eles servem, pelo menos, para se conhecer o estado de espírito de amplas áreas da opinião pública chilena.
A - Homens de maus costumes
Conforme já referi acima, muitos membros importantes do PDC são divorcistas. É normal que, nestas condições, estejam pouco dispostos a suportar os ônus da indissolubilidade conjugal, com a qual não concordam.
Segundo a voz corrente, o exemplo mais característico de pedecista de vida irregular é o do Sr. Alberto Jerez. É um dos deputados de mais prestígio no Partido e líder de sua corrente mais esquerdista. Em 1965 quase foi eleito presidente do PDC. Já falamos das suas relações com uma divorciada, Sra. Mireya Kulczewski, com quem reside. Esta pessoa foi miss Chile, e atualmente se dedica ao teatro, atuando no TV 13, de propriedade da Universidade Católica do Chile.
Comenta-se com muita insistência que dois representantes da DC no Parlamento, um dos quais é uma senhora, são ou foram proprietários de casas de tolerância. Registro o fato, porém, na falta de provas categóricas, prefiro não lhes citar os nomes.
É notório que muitos membros destacados do PDC têm vida irregular e uma ideia sui generis de moralidade. O Sr. Silva Solar, por exemplo, um dos mais conhecidos deputados demo-cristãos, diz o seguinte sobre a homossexualidade, numa entrevista à imprensa: "O mal da homossexualidade pode ser discutível. Talvez seja contraproducente qualificá-lo de delito. É muito possível que, com o correr dos tempos, as leis não o condenem" (declarações à revista "Algo Nuevo"). Conhecendo esta opinião do Sr. Silva Solar, não me espantei muito quando um chileno fidedigno me asseverou que, na mesma ocasião, ele declarara acreditar que, no futuro, não existiria mais a instituição da família. Logo em seguida teria solicitado à jornalista que o entrevistava, que esta passagem não fosse publicada.
B — As negociatas da Democracia-Cristã
No dia 14 de setembro último, o Senador Ibáñez, do Partido Nacional, pronunciou da tribuna um discurso muito curioso. Dirigindo-se a um líder democrata-cristão que fizera profissão de fé anticapitalista, advertiu: "Peço ao colega que observe com a maior atenção o que se passa em torno de sua pessoa. Junto a seu anti-capitalismo furibundo, consolidam-se economicamente — e o fazem com extraordinária rapidez — grandes setores de democratas-cristãos dominados por legítimas ânsias burguesas" ("El Mercurio", edição de 15 de setembro de 1966).
Quem são estes homens que se enriquecem "com extraordinária rapidez", conforme palavras de um senador, ditas no Congresso, e publicadas em todos os jornais? São democratas-cristãos idealistas, pertencentes a uma corrente que se julga carismática e incumbida de salvar o Chile pela Revolução social. E, nos intervalos de sua luta pelo ideal, enriquecem-se rapidamente...
Há uma lei muito drástica no Chile, Ley de Abusos de Publicidad, que pode levar ao cárcere os autores de acusações injuriosas. O chileno em geral, e todo jornalista em particular, vive temeroso de ser considerado criminoso com base nessa lei. Apesar disto, a revista "PEC" estampa freqüentemente referências a negociatas de democratas-cristãos. Citaremos alguns exemplos de casos mais ou menos escandalosos publicados nessa revista ou muito comentados por pessoas idôneas.
■ 1 - AGÊNCIA DE PUBLICIDADE CONDOR
Este caso é de notoriedade pública.
O Sr. Germán Becker, assessor de propaganda do governo (cargo análogo ao de Goebbels na Alemanha nazista), está intimamente ligado à agência de publicidade Condor. Desde o início do período Frei, coube ao Sr. Becker fazer a propaganda oficial do novo regime. As empresas públicas, os Bancos estatais, as caixas econômicas, as municipalidades, todos se utilizam dos serviços do Sr. Becker. Isto significa uma receita fabulosa para o dedicado democrata-cristão.
A necessidade de reformas exige uma propaganda vigorosa, e, portanto, centralizada. Esta centralização resulta muito rendosa para o Sr. Becker.
Mas, o Sr. Germán Becker não se satisfaz com a publicidade oficial. Seus agentes procuram as grandes empresas particulares e oferecem os serviços profissionais da Condor. E as grandes empresas, sabendo que o Sr. Becker é íntimo amigo do Presidente, se sentem pouco inclinadas a recusar. Daí o número enorme de novos clientes que a Condor conseguiu tão rápida e — dir-se-ia — milagrosamente.
■ 2 — DESPESAS VULTOSAS E INDEVIDAS, DE ÓRGÃOS GOVERNAMENTAIS
É sabido que certos organismos oficiais, além de remunerar exageradamente os funcionários, têm outros gastos nababescos. Isto se nota especialmente nos organismos mais politizados, com os quais a administração pedecista faz sua política nitidamente avançada. É o caso da já citada Promoción Popular, menina dos olhos do Presidente Frei.
Comenta-se largamente, no que diz respeito aos dois órgãos principais da reforma agrária — a CORA e o INDAP — que suas despesas são altíssimas, e nem sempre feitas com observância das necessárias formalidades. O INDAP, mais especialmente, teria feito aquisições vultosas sem que estas passassem pelo departamento de compras ou houvesse concorrência pública.
A Contraloría General de la República, órgão que entre outras funções tem a de Tribunal de Contas, tem dado frequentemente parecer contrário a gastos indevidos feitos por membros da atual administração. Um dos casos mais frisantes foi o referente ao diretor da Empresa Portuária do Chile (EMPORCH), que gastou somas elevadas com representação (almoços e jantares). Glosadas essas despesas pela Contraloría, o governo deu mão forte ao seu agente, mantendo-o no cargo.
• 3 — O CURIOSO EPISÓDIO DAS "CITRONETAS"
Este é um caso até jocoso.
É comum, quando passa pelas ruas de Santiago uma citroneta — automóvel popular, da Citroën — ouvir-se o comentário: lá vai um democrata-cristão. Perguntei o porquê disto. Informaram-me que, quando Frei se candidatou à presidência, pediu a numerosas firmas que lhe fornecessem citronetas para sua campanha eleitoral. As firmas as forneceram, certas de que depois da eleição as mesmas seriam devolvidas. Em vez disto, entretanto, foram distribuídas entre os democratas-cristãos interessados.
Outras pessoas com quem estive dizem que isto é maldade dos adversários da Democracia-Cristã. Parece que esse desmentido não convence ao público. Pois o fato é que, entre citroneta e democrata-cristão existe uma correlação na mente do homem da rua.
• 4 — O ANÚNCIO GRATUITO NA REVISTA "TOPAZE"
A revista político-humorística "Topaze" atacava o governo. Era pois necessário fechá-la ou apoderar-se dela. Para tanto, os órgãos competentes lhe tiraram toda propaganda oficial, o que devia levá-la à falência.
A revista, vendo-se em apuros, e querendo atrair a publicidade particular, estampou gratuitamente, e por sua própria iniciativa, o anúncio de certa marca de whisky. No dia seguinte, o importador da bebida passou pela redação para agradecer a atenção. Pouco depois, porém, procurou de novo a revista para pedir que, por favor, não se publicasse mais o anúncio. Este havia atraído sobre sua firma uma série de problemas com o fisco, a previdência social, etc. O número seguinte de "Topaze" já era dirigido pela Democracia-Cristã ("PEC", 12 de abril de 1966).
• 5 — O ESTRANHO PERSONAGEM CHAMADO DARIO SAINTE-MARIE
Existe em Santiago um indivíduo chamado Dario Sainte-Marie. Possui ele um jornal intitulado "Clarín" que, além de sua tendência esquerdista, é baixamente imoral. É mesmo tão escandaloso o pasquim, que uma estação de rádio costuma transmitir avisos aos pais de família, no sentido de que, para o bem de seus filhos e da nação, não o comprem.
O Sr. Eduardo Frei mostra-se muito indulgente para com "Clarín". O diretor deste, segundo a revista "PEC", foi recentemente condenado, pela segunda vez, por atacar falsamente a honra de terceiros. O Presidente indultou o diretor.
Ademais, o Sr. Frei se declara, apesar de tudo, amigo do Sr. Sainte-Marie. Recentemente, tendo este sido operado, foi visitá-lo no hospital. Uma revista de Santiago noticiou que o personagem tem passaporte oficial quando faz suas viagens ao estrangeiro.
Como se tudo isto já não fosse bastante, assegura-se de fonte idônea, que este indivíduo recebeu, há pouco tempo, um empréstimo governamental de 1.400.000 escudos (aproximadamente 230 mil dólares) para a compra de máquinas para imprimir o seu pasquim esquerdista, e pornográfico. Por enquanto, este é impresso nas oficinas de "La Nación", órgão oficioso.
• 6 — FALA-SE DE UMA NEGOCIATA DOS FRANGOS DE CORTE
Em meados de 1965, um decreto determinou que só se poderia vender carne de vaca em dois dias da semana. Estabeleceram-se pesadas multas para os infratores.
Os Srs. Salvador Pubill e Luis Pubill terminavam então de instalar uma granja onde fariam a maior criação de frangos da América do Sul. Esses cavalheiros abriram também casas de venda de frangos em todos os bairros de Santiago e de outras cidades do país. Só na Avenida Providência, em Santiago, inauguraram quatro casas.
Tudo isto, segundo é voz corrente, havia sido planejado para que o Sr. Salvador Pubill, com sua família, tivesse compensação das dívidas que, como tesoureiro da campanha presidencial, tivera que contrair em favor de Frei.
O que é certo é que o Presidente é amigo íntimo de Salvador Pubill. Na chácara que este possui nas proximidades de Santiago costuma o Sr. Frei passar o week end.
Além disto, o Sr. Salvador Pubill foi nomeado membro da diretoria do Banco do Estado do Chile. Ora, o Sr. Luis Pubill, seu sócio e parente, deve ao estabelecimento aproximadamente 750 mil dólares ("PEC, n.° 233, de 17 de abril de 1967). Comenta-se largamente que lhe faltam meios para pagar esta dívida e que as garantias reais que deu não são suficientes.
No meio desta situação o Sr. Luis Pubill se transferia para a Espanha. Alguns receiam que definitivamente. Os democratas-cristãos afirmam que ele voltará em breve para se defender das acusações publicadas contra sua pessoa. Estranha-se que, numa conjuntura tão melindrosa, o Sr. Frei não tenha ainda exigido que Salvador Pubill se demita do Banco do Estado ("PEC", n.° 255, de 21 de abril de 1967).
• 7 — O ESTRANHO RETORNO DO IRMÃO DO PRESIDENTE FREI
Durante o governo anterior, em 1960, Arturo Frei Montalva, irmão do Presidente, teve que deixar o país, como corre insistentemente, por não pagamento de dívidas. Era comerciante de gado. Não tendo meios de saldar seus débitos, saiu do Chile, deixando numerosos títulos não pagos, muitos deles avalizados — ao que se diz — por seu irmão, então senador. Quando Frei subiu ao governo, Arturo voltou ao país, por onde hoje anda livremente, como pessoa de influência econômica e política.
• 8 — RUMOR SOBRE NEGOCIATA DO FILHO DO PRESIDENTE
Comenta-se que Eduardo Frei Jr. fez recentemente uma viagem ao Japão. Regressando com uma carteira de representações de diversas firmas japonesas, teria constituído uma sociedade para explorá-las. Desde então, o governo estaria mostrando grande preferência por artigos de fabricação japonesa. Nada, entretanto, vi publicado a respeito.
Quase todos os fatos aqui anotados foram extraídos da revista "PEC" ("Política, Economia e Cultura"), que tem o lema "Cuidado, no me desmienta". Disseram-me pessoas idôneas que nenhuma das acusações aparecidas em "PEC" foi objeto de desmentido estampado na própria revista, conforme podem exigir, com base na Ley de Abusos de Publicidad, os interessados (salvo um desmentido, geralmente considerado improcedente, do Sr. Germán Becker, da agência Condor, a cujo caso fiz referência acima). Mostrei, aliás, apenas um pequeno número de casos escandalosos que circulam por todo o Chile. Vários outros poderiam ser igualmente citados.
O que peço a algum democrata-cristão chileno, que me queira refutar, é que não se limite a impugnar este ou aquele episódio. Peço que procure enfrentar a tese inteira deste capítulo, que é a seguinte: o prócer democrata-cristão já não é tido ipso facto, no Chile, como elemento honesto e de bons costumes. Pelo contrário, generalizou-se a opinião de que expoentes do pedecismo são, muitas vezes, bem diferentes do que antes se presumia que fossem.
Ao leitor imparcial lembro o ditado que diz onde há fumaça há fogo. E pergunto: é de se duvidar que por detrás de tanta fumaça haja fogo? Não me parece. Deve haver algo podre no reino da Dinamarca...
C — Democratas-cristãos marxistas ou esquerdistas extremados
O PDC chileno é o que se chama vulgarmente um saco de gatos. Há de tudo em seus quadros. Pertencem a estes até mesmo elementos que foram nazistas. O exemplo mais notório é o do Sr. Enrique Zorrilla, hoje deputado pela Província de Linares, que foi, não faz muito tempo, nazista. Participou da intentona de 1938, cujo esmagamento custou a vida a muitos seguidores andinos de Hitler.
Como vimos, o Partido Democrata-Cristão é de esquerda. Mas, entre os seus militantes, há alguns que tomam posição mais extremada, mais arrojada. É a estes que desejo fazer referência aqui.
A respeito do próprio Presidente Frei existem numerosos fatos que mostram ser ele muito avançado. É conhecida no Chile sua significativa frase: "Hay algo peor que el comunismo: es el anticomunismo". Os líderes do Partido foram hábeis em escolhê-lo como candidato, por ter ele, apesar de tudo, a fama de moderado.
Entretanto, sua trajetória política foi das mais estranhas, e contém muitos episódios extremamente comprometedores para ele.
O diário comunista "El Siglo", em 10 de fevereiro de 1945, noticiava na página 4 o pacto eleitoral firmado pela Falange Nacional com os partidos da FRAP (coligação das esquerdas), entre eles o Comunista e o Socialista. Assinou, como presidente da Falange Nacional, Eduardo Frei. Em 1946 Frei renunciou ao Ministério de Obras Públicas, porque o governo apoiava a atitude de carabineros que, em legítima defesa, tinham repelido os ataques, feitos com armas de fogo, de participantes de uma concentração comunista, dirigidos por deputados do Partido Comunista.
Frei, além de seus contatos com o Partido Comunista, teve outros, mais surpreendentes ainda, com a Maçonaria. Por ocasião de sua última campanha eleitoral, visitou a Loja Maçônica de Santiago para pedir o apoio desta à sua candidatura, chegando mesmo a declarar a um jornalista que os maçons constituem uma das mais prestigiosas instituições internacionais.
Nas referências que a seguir faremos a diversos políticos pedecistas atrevidamente esquerdistas, Frei aparece muitas vezes favorecendo greves e luta de classes, comprometendo-se com o Partido Comunista:
• 1 - JUAN GOMEZ MILLAS
Atual Ministro da Educação. Professor, ex-Reitor da Universidade do Chile. Ninguém desconhece a ampla acolhida que deu a todas as iniciativas pró-comunistas dentro da Universidade, desde a nomeação de professores até a promoção de conferências marxistas.
• 2 — JUAN DE DIOS CARMONA
Ministro da Defesa. Ex-deputado. Quando caiu na Guatemala o regime marxista de Arbenz, o Partido Comunista Chileno organizou uma marcha de protesto. À frente desta viam-se o então Senador Frei, o poeta comunista Pablo Neruda e o então Deputado Juan de Dios Carmona. O diário comunista "El Siglo" publicou, em primeira página, um grande clichê dos três encabeçando o desfile.
• 3 — BERNARDO LEIGHTON
Ministro do Interior. Ex-deputado e ex-presidente do PDC. Em 1947, juntamente com Frei, batalhou a favor de uma greve do carvão, que o governo Videla tentava dominar e o Partido Comunista se empenhava em desenvolver. Não é um ideólogo. É um maquiavélico homem de ação, com enorme habilidade para ocupar a pasta política. Promove a agitação camponesa por todo o Chile. É falso. Hoje diz algo, e amanhã se desmente a si próprio sem o menor escrúpulo.
• 4 — RADOMIRO TOMIC
Embaixador nos Estados Unidos. Ex-senador. Depois de Frei é o elemento de maior importância no PDC chileno. Em 1944 e 1955, Tomic foi o grande propugnador do restabelecimento das relações com a Rússia e demais países socialistas. Em 1948 atacou a Ley de Defensa de la Democracia, que colocava o Partido Comunista fora da lei. Em "El Mercurio", de 14 de julho de 1954, falando sobre a Iugoslávia, tentou demonstrar que a Igreja Católica não foi tão perseguida ali como se diz. Sustentou que o Cardeal Stepinac não sofreu torturas como outros Prelados de países comunistas, afirmação, esta, ambígua, que parece desmentir também que o grande Purpurado tenha passado pelas torturas morais e maus tratos a que notoriamente esteve sujeito. Acrescentou que a aproximação da Iugoslávia com o Ocidente é manifesta. Citou o Marechal Tito, que lhe teria afirmado: "Pode o Sr. estar seguro de que sem nós não haveria hoje Iugoslávia". Ao que Tomic respondeu: "Estou convencido disto". É o democrata-cristão de cúpula, mais esquerdista (Sergio Fernández Larraín, "Falange Nacional, Democracia Cristiana y Comunismo", 1958, p. 66).
• 5 — RAFAEL AUGUSTÍN GUMUCIO
Senador. Líder pedecista. Em agosto de 1966 foi candidato à presidência do Partido. Depois da vitória de Frei nas eleições de 1964, procurou o candidato derrotado, Allende, que fora apoiado pelos marxistas. Segundo Allende, Gumucio o teria visitado para dizer que Frei considerava que a "suprema e magnífica" possibilidade do Chile é "um governo entre socialistas e democratas-cristãos". Gumucio, em "El Mercurio" de 6 de setembro último, desmentiu essa versão de Allende. Mas esclareceu que, pessoalmente, era partidário de tal colaboração. E acreditava que o Presidente também o era.
Foi favorável ao restabelecimento de relações com a Rússia em 1956. Em 1955 assinou o "Apelo de Viena", promovido pelo comunismo internacional contra as armas atômicas (op. cit,, p. 71).
• 6 — RENÁN FUENTEALBA
Embaixador na ONU. Senador. Quando presidente do PDC, declarou em uma entrevista que seu Partido "é socialista, laico e anticlerical" (entendendo por isto a não intromissão de qualquer credo religioso na ideologia do Partido) ("Diário Ilustrado", edição de 23 de junho de 1965).
• 7 — ALBERTO JEREZ
Deputado. Líder da corrente mais esquerdista do PDC. Em 1965 quase foi eleito presidente do Partido. Já o citamos como homem de vida conhecidamente irregular. Ao jornal "Marcha", de Montevidéu, declarou em 19 de fevereiro de 1965 que, se Frei necessitasse de ampliar as bases de seu governo, seria preferível que o fizesse com a FRAP (aliança dos Partidos Comunista, Socialista e outros menores); que o exemplo de Cuba "alentará nossos países para alcançar sua total libertação". Ao mesmo tempo, manifestou-se favorável ao restabelecimento de relações com Cuba, e "abertamente partidário da luta de classes", afirmando que nessa luta o governo não pode ser neutro (entrevista transcrita em "PEC", n.° 115).
• 8 — JULIO SILVA SOLAR
Deputado. Líder esquerdista do PDC. Ex-redator do diário marxista chileno "Ultima Hora". Em "Algo Nuevo", número de 22 de julho de 1966, declarou-se favorável ao divórcio.
Analisemos algumas passagens do livro "El desarrollo de la Nueva Sociedad en América Latina" (Editora Universitária S.A., Santiago, 1965), escrito conjuntamente por Silva Solar e Jacques Chonchol. Os autores sustentam que "não há propriamente uma particular solução "católica" ou "cristã" para os problemas políticos e econômicos" (p. 17). Quanto ao marxismo, só objetam que ele não esgota a matéria, afirmando textualmente; "fazemos bom juízo do Marxismo" (p. 24), para em seguida declarar que entenderá muito pouco do mundo moderno quem não assimilar os ensinamentos marxistas. Em diversos lugares mostram-se simpatizantes de uma sociedade sem classes. No capítulo referente à propriedade privada (pp. 42 ss.) deturpam ensinamentos da Escritura, dos Padres da Igreja, de diversos Santos e de Encíclicas, para fazer crer que a propriedade comunitária é mais conforme com a doutrina católica. Explicam (pp. 71 ss.) o sistema comunitário — panacéia para os problemas políticos, econômicos e sociais — que nada mais é do que um comunismo disfarçado: sociedade igualitária, sem classes, na qual a propriedade privada é dispensável, surgindo em substituição a ela a propriedade comunitária. E, no fim do livro (pp. 129 e ss.), defendem todas as reformas de estrutura esquerdistas já tão do nosso conhecimento, sendo, nesta matéria, extremamente radicais.
9 — JACQUES CHONCHOL
É um dos homens de maior prestígio e importância política no Chile. Tudo o que se atribui no item anterior a Julio Silva Solar pode-se atribuir também a Chonchol, porque o livro citado ali foi escrito pelos dois. É o vice-presidente do INDAP. Nascido no Chile, de origem judaica, recebeu em seguida o batismo na Igreja Católica. Foi o principal elaborador da reforma agrária chilena: "La Nación", o jornal oficioso, o chama de "artífice" dela, Como técnico da FAO, trabalhou na elaboração da reforma agrária de Fidel Castro. Ninguém desconhece que o INDAP, dirigido por Chonchol, tem funcionários pagos para fazer agitação nos campos, levantando camponeses contra patrões. Quando Frei foi lançado como candidato cio PDC, Chonchol e Tomic lutaram para conseguir aliança com os comunistas e socialistas, e levar assim um mesmo candidato à presidência do Chile.
VII — É REAL A OPOSIÇÃO APARENTE ENTRE PARTIDO COMUNISTA E O PDC?
Frei subiu à Presidência da República como um inimigo do marxismo. Tanto isto é verdade, que lutou violentamente, em uma difícil campanha eleitoral, contra seu opositor marxista, Allende.
Entretanto, em certos meios chilenos se assevera que o próprio Partido Comunista mandou uma parte de suas bases votar em Frei, pois o comunismo internacional preferiria que no Chile vencesse um candidato moderado. O fato é que Frei não escondeu sua cordialidade para com o inimigo ao mandar o Senador Gumucio, logo depois das eleições, visitar Allende.
Também o Partido Comunista não ocultava suas simpatias pelo candidato pedecista. Demonstrava preferência por Allende, mas aceitaria alegremente o outro. Prova disto foram as declarações do secretário-geral da agremiação vermelha, Sr. Luis Corvalan, aparecidas em um diário estrangeiro em 9 de agosto de 1964 (antes das eleições), e reproduzidas em "El Mercurio" de 22 de agosto do mesmo ano: "A FRAP [união dos partidos de esquerda que apoiavam Allende] vencerá nas próximas eleições, mas ainda que isto não sucedesse, o processo revolucionário continuará; apoiaremos nossa alavanca sobre os contrastes sociais e nos bateremos para que a DC respeite seu próprio programa". Isto quer dizer que o programa da DC satisfazia aos comunistas empenhados no processo revolucionário, o que equivale a afirmar que, com a vitória do PC ou com a vitória do PDC, a revolução marxista caminharia.
Entretanto, os eleitores (mesmo