Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 233 | página 04-05

EM JUIZ DE FORA, 200 CONTRA 27

No dia 9 de abril p.p., em Juiz de Fora, um grupo de 27 colaboradores da TFP foi estupidamente agredido por cerca de duzentos progressistas e baderneiros de vário gênero. Por iniciativa do Núcleo local de Militantes da Tradição, Família e Propriedade, realizava-se uma venda pública de "Catolicismo", com distribuição gratuita de cópias mimeografadas de artigos escritos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para a "Folha de São Paulo". Os trabalhos decorriam tranquilamente, com muito boa receptividade por parte do público, quando os mazorqueiros começaram a vaiar os jovens propagandistas, passando logo depois à agressão física, com murros, pontapés e pedradas. Apesar de se acharem em acentuada inferioridade numérica — 27 contra duas centenas — os militantes da Tradição, Família e Propriedade enfrentaram desassombradamente o adversário e fizeram-no recuar. A população aplaudiu os agredidos, os quais se retiraram em boa ordem, voltando para a sede do Núcleo de Militantes. Aos 30 minutos do dia 11, esta foi apedrejada por elementos não identificados, que lhe quebraram vários vidros.

Dois jornais de Belo Horizonte estamparam a respeito desses fatos um noticiário estranhamente deturpado. A Secção de Minas Gerais da TFP escreveu ao diretor desses diários uma carta de retificação, solicitando que a mesma fosse publicada. Como a publicação foi feita com omissão de quase metade do texto, a Secção mineira da TFP distribuiu de casa em casa, na cidade de Belo Horizonte, 20 mil exemplares da carta, para o devido esclarecimento da opinião pública.

É o seguinte o texto integral do documento, datado de 15 de abril e subscrito pelo Sr. Antonio Rodrigues Ferreira, Presidente do Diretório Seccional de Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade:

"Exmo. Sr. Dr. Pedro Aguinaldo Fulgencio, DD. Diretor dos Diários Associados. / Belo Horizonte.

Senhor Diretor,

Tendo o "Estado de Minas" em 14 p.p. publicado uma extensa notícia concernente a incidente ocorrido em Juiz de Fora entre baderneiros e subversivos de um lado, e jovens da TFP do outro lado, e ademais uma nota intitulada "Os rapazes de terno", também sobre os jovens da TFP — e havendo além disto o "Diário da Tarde" do mesmo dia publicado uma reportagem sobre o aludido episódio de Juiz de Fora, peço a V. Sa. que, segundo os ditames da ética jornalística, dê a público também, e com igual destaque, o texto integral da presente retificação.

Quero crer que toda aquela matéria, relativa à TFP, tenha sido publicada pelos dois órgãos dos Diários Associados, de Belo Horizonte, sem prévio exame da respectiva Diretoria. Pois ela transborda o ódio característico dos progressistas e seus congêneres contra a TFP, e apresenta os fatos com pontos inventados e pormenores de chanchada burlesca, que não ficam bem a jornais sérios.

Quanto aos fatos ocorridos — cingindo-nos tão somente a alguns pontos essenciais — temos a esclarecer e afirmar:

• 1 — Os jovens da TFP faziam em Juiz de Fora a venda do mensário de cultura "Catolicismo", editado em Campos sob a responsabilidade do Bispo daquela Diocese, o grande teólogo D. Antonio de Castro Mayer. "Catolicismo" é uma das folhas religiosas mais importantes do País, e goza merecido renome em círculos culturais católicos das Américas e da Europa. A esse órgão, as publicações dos Diários classificam de "jornalzinho".

Ao mesmo tempo que vendiam "Catolicismo" os jovens da TFP distribuíam gratuitamente cópias mimeografadas de artigos publicados pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em um dos jornais de maior circulação no País, a "Fôlha de São Paulo". Para aquilatar a importância desses artigos, basta tomar em consideração que são eles reproduzidos habitualmente por muitos jornais de vários pontos do País. Tais artigos, os jornalistas dos Associados os qualificam de "panfletos".

• 2 — Em nenhum momento os jovens da TFP fizeram qualquer pressão sobre o público para que comprasse "Catolicismo" ou aceitasse os artigos do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. O escoamento do jornal e o dos artigos se fizeram com toda a normalidade, e rapidamente. A média das vendas era de 80 exemplares por hora. O episódio burlesco de um jovem da TFP a meter o jornal na bolsa de uma velha, a qual teria reagido com guarda-chuvadas, é inteiramente imaginário. Não passa de ficção de teatrinho de crianças.

• 3 — Não é verdade que a caminhada feita por nossos jovens tenha tido como razão o mau escoamento do jornal. Ela não foi senão um meio de propaganda para atingir uma mais extensa área do público. Tanto é, que a venda foi precedida por uma caminhada.

• 4 — Causa estranheza a segurança com que os redatores dos Diários afirmam que os adversários da TFP eram apenas "curiosos" inocentemente postados no trajeto, afirmando implicitamente que os comunistas e progressistas — agressores sempre presentes às manifestações da TFP — nem de longe participavam do magote de provocadores que vaiavam a TFP.

Não compreendemos porque tanto empenho em atacar a TFP, e ao mesmo tempo tanta cautela em isentar de culpa os progressistas, comunistas, etc.

• 5 — Sobretudo nos parece inexplicável que os jornalistas em questão tenham noticiado com verdadeiras delícias os insultos insolentes praticados contra os jovens da TFP. Estavam estes em praça pública, no exercício pacífico de um direito assegurado pela lei, isto é, difundindo um órgão católico e artigos de jornal publicados no Brasil inteiro. A quem cabia o direito de lhes turbar a liberdade de ação? Que direito tocava aos opositores de os vaiar, e de os agredir?

Ainda que fosse verdadeira a balela de que os jovens insistiam demasiado junto ao público, o remédio legal era a vaia e a pancadaria? Porque os descontentes não se limitaram a chamar a polícia?

• 6 — Passo sem mais comentários sobre outras inverdades das referidas publicações. Em nenhum momento foram os estandartes rasgados e nem arrancados das mãos dos jovens da TFP. Em nenhum momento lhes foi arrancada parte dos vestuários, ficando eles a correr seminus (outra chanchada) pelas ruas. Em nenhum momento também, usaram eles pedras e paus. Os nossos jovens, em número de 27, enfrentaram as investidas de cerca de duzentos progressistas baderneiros de várias espécies que, estes sim, usavam pedras.

Com a sua coragem característica, nossos jovens se defenderam galhardamente, fazendo recuar os adversários, e arrancando aplausos da população, cuja atitude era simpática.

Quanto ao procedimento das autoridades policiais de Juiz de Fora, não é verdade que elas tenham encerrado a venda, a qual terminou naturalmente quando os jovens da TFP voltavam em boa ordem à sede local. Carece igualmente de fundamento a assertiva de que as autoridades policiais de Belo Horizonte tenham proibido as atividades públicas da TFP em nossa Capital. Um pormenor importante — que os jornalistas cujo noticiário aqui refutamos esqueceram de noticiar é que por volta de 0,30 h. de sábado, desconhecidos apedrejaram a sede dos militantes, então vazia, quebrando-lhe vários vidros.

Agradecendo antecipadamente a V. Sa. a gentileza da publicação, subscrevo-me cordial e atenciosamente".


ESCREVEM OS LEITORES

Sr. Arthur do Valle Bastos, Rio de Janeiro (GB): "CATOLICISMO é o jornal que esclarece e orienta com precisão cristã. Indispensável ao mundo católico".

Da. Angélica Scudeller, Penápolis (SP): "Enquanto eu viver quero continuar a assinar o CATOLICISMO. _

Que Deus inspire e proteja a todos que escrevem e trabalham para esse jornal".

Sr. Eduardo Figueiredo Salazar, Juiz de Fora (MG): "Sou daqueles que sempre se entusiasmam com as destemidas atitudes de V. Sas., batalhando em prol da Religião, da família e da propriedade".

Revda. Irmã Maria dos Anjos, pela Superiora das Servas do Santíssimo Sacramento, Taubaté (SP): "CATOLICISMO é o farol que nos indica o caminho certo, seguro, neste mar tempestuoso de ideias paradoxais que caracterizam a época em que vivemos".

Revmo. Pe. José Hermano Torres Portugal, S. S. S., Monte Santo de Minas (MG): "Conheço CATOLICISMO desde o seu primeiro número, e continuo comungando os mesmos ideais. Para mim sempre foi um precioso órgão de orientação".

Prof. José Kormann, Rio Negrinho (SC): "Leio e estudo com avidez os sábios, santos e corajosos artigos deste jornal. Sinto pena ser ele mensal. Assim recebemos estes nobres ensinamentos só uma vez por mês. Quando, no mundo em que vivemos, precisaríamos destas purificantes leituras diariamente".

Revda. Madre Maria Imaculada, Priora do Carmelo da Sagrada Família, Pouso Alegre (MG): "Agradecendo a caridosa remessa de CATOLICISMO, pedimos a Deus que continue iluminando e protegendo os responsáveis pela publicação, a fim de que tenham a coragem de militar, sempre, com dinamismo, nas fileiras dAquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida".

Sr. Antonio Francisco Amaral Vilela, São Caetano do Sul (SP): "Achamos CATOLICISMO excelente, o melhor em seu gênero. Realmente êste mensário tem sabido honrar seu sublime nome. Neste mundo caótico em que vivemos, CATOLICISMO pode ser tido como a Estrela que nos guia ao Presépio".

Da. Isabel Quintino Slama, Itajaí (SC): "Tenho acompanhado com interesse os artigos do CATOLICISMO. Aproveito esta oportunidade para externar minha admiração e cumprimentá-los pelos esforços gigantescos que a equipe deste jornal tem envidado em prol da grande causa da Tradição, Família e Propriedade. Espero que minhas palavras e muitas outras que irão receber servirão de incentivo para continuarem lutando.

CATOLICISMO é um farol a nos guiar em meio do vendaval. Nossa Igreja está passando por fase difícil, unidos ultrapassaremos. A batalha tem que prosseguir enquanto há resistência".

Revmo. Pe. Frei Raul Suzin, O. F. M. Cap., Seminário Seráfico, Veranópolis (RS): "Na hora atual necessitamos realmente de um órgão que defenda o pensar da Igreja.

Os Padres que trabalham no Seminário leem o jornal com gosto e estima".

"O jornal é lido pelos Sacerdotes e pelos seminaristas que estudam neste educandário e através dele acompanham os assuntos mais palpitantes.

Desejo que o jornal continue lutando pela boa causa. Espero que seja mais difundido entre os católicos. Parabéns pela luta em prol do bem e da verdade".

Sr. Jaymier José Rocha Cairo, Presidente da Secção da Bahia da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, Salvador (BA): "Há dois dias recebemos o envelope anexo com um recorte, que é quase certo que seja do jornal "Correio de São Félix", pois ele é o único em São Félix (BA), cidade-gêmea de Cachoeira, que é a localidade indicada no carimbo do Correio.

As duas pessoas a que se refere o recorte são dois militantes da Tradição, Família e Propriedade, que percorreram aquela zona. Pelo teor e aspecto do recorte, parece tratar-se de matéria paga. Não sabemos quem enviou o envelope e recorte".

■ O TEXTO do recorte é o seguinte:

"Aviso aos Católicos. — Vendendo um jornal e pedindo assinaturas em favor duma campanha de T.F.P. duas pessoas se encontram esta semana na cidade.

Os católicos desta paróquia não prestarão a mínima atenção pois é um movimento que calunia bispos e clero, tenta dividir a Igreja e recusa qualquer renovação conciliar.

P. João, Vigário de São Félix (5/3/70)".

Exmo. Revmo. Mons. Pedro Rocha de Oliveira, Crato (CE): "Leio com sumo agrado o CATOLICISMO, considerando-o excelente jornal, tanto pelo fundo, como pela forma, bem como pela apresentação técnica e impressão".

Revda. Irmã Maria Lucinda, N. D. S., Colégio de Sion, Campanha (MG); "envia sinceros agradecimentos pela remessa do jornal e pede a Nosso Senhor que o recompense por tão grande caridade. De coração e com orações, acompanha a grande Cruzada".

Sr. Jesulindo Gomes de Castro, Presidente da Congregação Mariana da Paróquia de São João Bosco, Brasília (D. F.): "Sendo o primeiro exemplar que leio, achei-o muito bom, bastante instrutivo, com ótimos esclarecimentos religiosos. Principalmente assuntos ligados à fé".

Revmo. Pe. Elói Morawietz, Abatiá (PR): "CATOLICISMO é a voz clara da verdadeira Igreja de Cristo, orientando os católicos no meio da confusão reinante dentro da própria Igreja. CATOLICISMO está firme da lado do Papa. "Ubi Petrus ibi Ecclesia".

Que Deus fortaleça sempre mais a coragem dos destemidos colaboradores deste abençoado jornal".

Revdo. Irmão Daniel, Ginásio La Salle, Xanxerê (SC): "Admiro as atitudes de destemor, serenidade, e mesmo, ufania com que a juventude da TFP conduz suas campanhas. Encontrei estes tempos uma turma em Porto Alegre, em plena Salgado Filho, e fiquei impressionado, curioso em saber fonte de tamanho brio. Apóio plenamente os brados de alerta contra a comunização, do jornal CATOLICISMO.

Gostaria mais, se houvesse maior número de artigos, mais curtos, ilustrados por fatos e acontecimentos ocorridos no Brasil na atualidade".

Sr. Antonio de Assis Nogueira, Belo Horizonte (MG): "Leio com grande interesse o CATOLICISMO, principalmente quando trata da Eucaristia e do Celibato clerical, que infelizmente, é considerado mais como imposição indispensável do que como ideal sacerdotal. Acho que não só leigos, mas até Sacerdotes, precisam de mais esclarecimentos sobre o Celibato, argumentos claros e historicamente comprovados, talvez citados pelo Pe. Henri Deen [em seu livro sobre o celibato nos primeiros séculos da Igreja, comentado por D. A. C. em CATOLICISMO, n.° 230]. Pedir-lhes-ia, pelo CATOLICISMO, esclarecimentos sobre: a) qual o Papa que, antes do Concílio de Elvira, tenha imposto o celibato, que Nosso Senhor não exigira e São Paulo, apenas, aconselhava; b) quais os motivos que levaram a Igreja a impô-lo, apesar do todas as oposições e só depois de mil anos, a todos os clérigos maiores; c) se o celibato tem concorrido mesmo para facilitar a santificação dos Sacerdotes, pois o contrário é que parece, pois que muitos deixavam fama de maus, só pelo fato de não quererem ou poderem observá-lo; d) se o celibato não tem sido causa de humilhação para a Igreja e vergonha para o Clero, pela sua generalizada inobservância; e) se eram verdadeiras as vocações sacerdotais antes da exigência dele; f) enfim, se apesar de sua dispensa acarretar muitos e graves problemas, não seria [preferível], assim mesmo, ser à escolha de cada Sacerdote, do que continuar a ser considerado mais como testemunho de fraqueza e miséria humanas do que do espírito evangélico de Cristo.

Espero que, por zelo espiritual e benefício de seus numerosos leitores, nos dê estes e outros esclarecimentos que julgar oportunos. Com profundos e antecipados agradecimentos, subscrevo-me, respeitosamente.

P.S. — Queira desculpar-me os defeitos ortográficos por deficiência visual pós-operatória".

■ O LEITOR que assina esta carta excusa-se dos defeitos ortográficos, oriundos de deficiência visual pós-operatória.

Foi certamente a deficiência visual que o impediu de ler no artigo de D. A. C. que a continência perfeita para os Sacerdotes vigorou desde os tempos apostólicos, o que motivou a consideração do Apóstolo, "o solteiro cuida das coisas que são do Senhor, procurando agradar a Deus; mas o casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa" (1 Cor. 7, 32-33). Teria, outrossim, visto que corolário natural da continência perfeita é o celibato sacerdotal, que não precisou, como diz o missivista, de mais de mil anos para ser imposto contra todas as oposições, porquanto o inverso é que se deu, ou seja, a tolerância da vida conjugal para os ordenados já casados é que foi introduzida na Igreja, e meio sub-repticiamente.

Estamos, portanto, certos de que logo se restabeleça sua visão, o Sr. Antonio de Assis Nogueira terá facilidade de ler melhor o artigo de nosso colaborador, e de, assim, dissipar seus escrúpulos espirituais.


Madona Bruna, Flor do Carmelo

Giovan Tinelli di Olivano

Neste mês das flores, prosternando-se mais uma vez aos pés dAquela que é invocada como a Flos Carmeli, “Catolicismo” anseia por celebrar-Lhe a glória, manifestar-Lhe acendrado enlevo, veneração e ternura, e agradecer seus dons maternais. Quer ainda renovar seu preito de incondicional fidelidade à divina Senhora e suplicar-Lhe que envie hoje sobre seus filhos a mesma chuva celeste e profética que confortou outrora o Profeta Elias — e Eliseu, seu herdeiro espiritual — na luta contra essa Serpente cuja posteridade, em nome do novo Baal, investe em nossos dias contra o Monte Santo, a Igreja Católica Apostólica Romana: Ipsa conteret!

Do Monte Carmelo Cova da Iria

Olhando para aquilo que se poderia chamar de Gesta carmelitana, desde Santo Elias e seus primeiros discípulos até o presente, poderemos constatar que a história do Carmelo foi misteriosamente traçada pela Providência Divina como uma arcana e ininterrupta corrente marial. De elo em elo, essa corrente foi sobrenaturalmente vivificada ao longo dos séculos, desde aquela nuvem simbólica enviada ao santo Profeta e que se desfez numa chuva de bênçãos, antes mesmo que germinasse a Flor do Carmelo. A fidelidade eliática refulgiu sob incontáveis prismas em cada elo da misteriosa corrente. Assim, nós vemos os filhos espirituais de Santo Elias se multiplicarem pelas encostas do Monte Carmelo, recolhidos no silêncio, na oração, e na contemplação expectante dAquela que viria a ser a Mãe do Messias. Depois de conhecê-La nesta terra, uniram-se à pessoa da Medianeira para melhor glorificar e servir a Nosso Senhor e, quando Ela também Se separou deles ao ser assunta ao Céu, apressaram-se em obter uma reprodução pictórica de seus traços, fixados através de recursos ainda primitivos, para guardarem melhor sua memória inefável.

Quando a malícia dos judeus obrigou os elianos a se retirarem da cidade deicida, o Monte Carmelo tornou-se o grande abrigo, o novo Cenáculo para todos os fiéis que queriam cultuar essa que era uma das primeiras efígies da Mãe da Igreja, pintada, segundo a tradição, pelo Evangelista São Lucas.

Seguiram-se depois as lutas dos heróis cenobíticos contra as primeiras heresias que tentavam macular a Igreja, e contra as insídias do paganismo já declinante; mas nem pagãos nem hereges, nem mais tarde a mão armada dos bárbaros abalaram a fidelidade dos que há séculos já, punham toda a sua confiança na Virgem do Carmelo. A fama das virtudes desses varões chegou até o Ocidente, que desejou tê-los em suas plagas, mas de fato sua transladação não se deu em tempos de paz, senão ocasionada pelo declínio das Cruzadas e o vertiginoso avanço dos maometanos. Foi, portanto, por amor à Fé que os discípulos do Profeta iniciaram o grande e penoso êxodo, o abandono de seu amado Monte.

Sua partida para o Ocidente dá-se no século XI ou XII e desde então começam a brilhar novos elos da corrente carmelitana. Da Idade Média para cá, gerados à imagem de seu Pai que foi arrebatado aos céus num carro de fogo e que voltará para lutar contra o Anticristo, sucedem-se numa imponente galeria as figuras (para não citar senão as mais conhecidas) de São Pedro Tomás, ínclito Doutor da Igreja, São Simão Stock, embaixador do Santo Escapulário, São João da Cruz e Santa Madalena de Pazzi, águias de voo místico, e Santa Teresa a Grande, Matriarca da reforma carmelitana.

No século XVI o Carmelo apresentou mais uma vergôntea, que atualmente por poucos é conhecida: a Ordem dos Cavaleiros de Nossa Senhora do Carmo, na França. Posteriormente correu abundante o sangue da herança de Santo Elias nos anos tenebrosos da Revolução Francesa, mas a tempestade fortaleceu a videira e fez brotar no século seguinte um rebento que trouxe ao mundo um novo alento, uma nova espiritualidade para as almas depauperadas pela ação desagregadora da Revolução. Foi providencial a missão da pequena Teresa de Lisieux, portadora da "pequena via", a via do "canticum novum", do superlativo amor de Deus.

Por fim poderia ficar a interrogação: viu o século XX surgir um novo elo da milenar cadeia carmelitana, como sinal da aliança feita no Monte Santo? No meio da procela em que se encontra a Santa Madre Igreja não bastavam sinais; por isso a Stella Maris quis refulgir Ela mesma nos firmamentos apocalípticos deste século, pairando nos céus da Cova da Iria, em Fátima, revestida com seu manto profeticamente régios: o hábito do Carmo.

A Imagem morena da "chiesetta del mercato"

A Igreja, em que pese ao progressismo e a seus falsos profetas que querem minar-Lhe o brilho e a grandeza, sempre marcou seus fastos de maior importância com uma nota de glória e esplendor que os "desalienados" costumam apelidar, por espírito igualitário e vulgar, de "triunfalismo". Nada mais faz a Igreja com isso do que imitar a própria Providência Divina que costuma assinalar a realização de seus desígnios mais altos com manifestações que lhes atestem indiscutivelmente o valor: "Porventura se traz a lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire ou do leito?" (Marc. 4, 21-25). Exemplo disto foi o realce sobrenatural que a Virgem do Carmelo quis dar ao êxodo de seus filhos cuja ortodoxia estava oprimida no Oriente.

Como vimos há pouco, ao declinarem as Cruzadas e ao dar-se o avanço dos turcos, impunha-se aos fiéis elianos o abandono da Palestina e o fazer vela para a Europa. As primeiras cidades da Cristandade em que aportavam os refugiados eram as do sul da Itália: Bari, Nápoles, Messina, Trápani, etc.

Dentre elas, Nápoles foi escolhida pela Providência como novo trono para a Peregrina do Carmelo e como porta da Europa para seus fiéis discípulos. Nessa ocasião, Deus quis nimbar o acontecimento com excelsos prodígios na ordem da natureza e da graça, manifestando de modo marcante a grandeza deste seu insondável desígnio.

Com efeito, ao se transferirem para o Ocidente, os zelosos seguidores de Santo Elias não quiseram abandonar uma Imagem de Maria Santíssima que desde tempos imemoriais veneravam no Monte Carmelo, quiçá de autoria do próprio Evangelista São Lucas. Trouxeram-na com desvelo filial a bordo da nau que aportou no golfo de Nápoles em fins do século XI ou no princípio do século XII, e ali chegando depositaram-na numa pequena igreja próxima ao mercado, a qual lhes foi confiada como um primeiro ponto de reagrupamento para eles e para os outros carmelitas que haveriam de chegar.

Nesse quadro pintado a têmpera sobre uma prancheta de madeira de 80 cm. por 1 metro, a Virgem está representada com rosto moreno, o que lhe valeu ser chamada La Bruna, ou seja, a Morena. Ela estreita ao peito com particular ternura o Menino Jesus. Este acaricia-lhe com a mão direita o rosto delicadamente oblongo e com a esquerda procura segurar-Se no manto azul de sua Mãe, marcado sobre o ombro direito com duas estrelas. A veste com a qual Maria envolve seu Divino Filho tende para o vermelho. Sobre um fundo todo dourado, as duas figuras aureoladas olham contemplativamente através de pupilas negras que conferem à cena uma nota de incomparável ternura e serenidade. Não se sabe ao certo se esta efígie é aquela pintada pelo Evangelista São Lucas que se venerava no oratório do Monte Carmelo, ou uma cópia muito fiel e antiquíssima. De qualquer modo, os historiadores nos atestam que nenhum convento italiano possuiu jamais uma imagem marial tão antiga. Diversas pinturas veneradas em toda a Europa foram copiadas da Bruna, o que, segundo o decreto de um Capítulo Provincial dos Carmelitas da Flandres, se explica "hac consideratione quod illud prototypon ex Siria, ac verosimiliter e Carmelo in Europam perlatum peculiariter nuncupatur Beata Virgo Maria de Monte Carmelo" ("Fiori Cattolici", fasc. 151 — Nápoles, 1875 — p. 8). Assim, pois em várias cidades do Reino de Nápoles como em outras da França, da Flandres, etc. são ainda hoje objeto de culto símiles deste piedoso ícone.

Instalados na "chiesetta del mercato", os nossos cenobitas vindos do Oriente viram-na crescer em fama celeremente e transformar-se num santuário célebre em todo o Reino. Os napolitanos, e os forasteiros que eles atraíam com rumorosas notícias, acorriam em número cada vez maior para junto da Imagem ainda ungida pelo misterioso orvalho do Monte Carmelo, e aí enlevavam-se com os dons crescentes que esta Mãe de Misericórdia lhes prodigalizava. Assim, a soberana Peregrina dava o primeiro passo para a sua manifestação no Ocidente, começando por tornar excessivamente exígua a pequena igreja próxima ao mercado

Para acolher os despojos do derradeiro Hohenstaufen

No ano de 1269 chegava a Nápoles a Mãe de Conrado da Suábia (Conradino como o chamavam na Itália, por ser muito jovem), da Casa de Hohenstaufen e o último de sua linhagem. Ela vinha em socorro de seu filho, aprisionado por Carlos de Anjou após ter sido vencido por este na batalha de Tagliacozzo, na qual os dois Príncipes haviam disputado o discutido trono de Nápoles e da Sicília. Trazia a infeliz mãe uma enorme soma para o resgate de Conradino, mas chegou somente para chorar-lhe a trágica decapitação. Nessa circunstância, ela não achou melhor aplicação para o dinheiro destinado ao resgate do que utilizá-lo para a ampliação da pequena igreja dos Carmelitas e do mosteiro anexo, pedindo que no santuário da Flor do Carmelo fossem sepultados

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