Madona Bruna, Flor do Carmelo
(continuação)
os despojos de seu pranteado filho. O próprio Rei Carlos de Anjou, movido pelo exemplo, quis concorrer para o mesmo empreendimento e terminou a igreja com muita magnificência.
Este duplo ato de generosidade foi como um marca providencial a partir do qual a Virgem do Carmelo atraiu para junto de Si os Príncipes das diversas dinastias que se sucederam no trono real de Nápoles. A História nos mostra entre os primeiros o Príncipe de Taranto, Filipe de Anjou, que em meados do século XIV foi aprisionado e conduzido para a Hungria, cujo Rei descera até Nápoles para vingar a morte de um irmão. Nessa aflição, o piedoso Filipe recomendou-se fervorosamente à Madonna della Bruna, implorando que o libertasse do cativeiro. Pouco tempo depois, de maneira inesperada ele foi posto em liberdade e foram-lhe restituídos todos os seus bens. Ajoelhando-se aos pés da santa Imagem de Nápoles, como testemunho de gratidão mandou que a partir do dia 3 de maio de 1353 aquele santuário percebesse anualmente vinte onças de ouro sobre seu condado de Acerra.
O prodígio provocado pelo brutal Aragonês
Mais tarde, um singular prodígio veio aumentar o renome da Madona napolitana. Afonso I, que mais tarde foi coroado Rei de Nápoles, e seu irmão Pedro de Aragão vieram assediar a capital do reino, ainda sujeita à Casa de Anjou. Enquanto Afonso forçava-a por mar, seu irmão bombardeava-a rudemente por terra. Os napolitanos defendiam-se pelo lado onde se achavam a igreja e o mosteiro do Carmo, pois era esta a parte mais fortificada da cidade. Para desalojá-los dali, o impetuoso Pedro não hesitou em lançar seus projéteis em direção ao santuário, embora avisado de que o danificaria. Sua obstinação custou-lhe um justo castigo, pois no dia seguinte foi atingido por um projétil que ricocheteara no chão, e ali morreu. O acontecimento impressionou vivamente a Afonso I, que ao ver a cidade cercada muito mais pela proteção de Maria Santíssima La Bruna do que pelo seu exército, achou melhor levantar o assédio.
Três anos depois o Aragonês voltou a sitiar Nápoles e tomou-a desta vez, pelo lado do poço de Santa Sofia, no dia 2 de junho de 1442. No domingo seguinte quis visitar o Santuário do Carmo para averiguar pessoalmente um prodígio que a Providência teria operado ali: tinha sido informado de que no bombardeio ordenado por seu irmão, uma das balas lançadas pelo canhão la Messina arrombara a tribuna da igreja, arremetendo contra um Crucifixo que aí era venerado, e que a imagem inclinara miraculosamente a cabeça para evitar o projétil, o qual caíra por terra sem causar danos. Afonso I mandou que um de seus homens subisse por uma escada para examinar de perto o pescoço inclinado da efígie. Ao constatar que não havia fraude, ali mesmo o Rei se ajoelhou e chorou abundantes lágrimas. Antes de se retirar deu ordem para que fosse construído a suas expensas um baldaquim para aquele privilegiado Crucifixo.
Depois desse milagre não houve mais em Nápoles solenidade real que não se iniciasse, prosseguisse ou terminasse no Santuário della Bruna. Entre outras lembra-se a faustosa entrada de Afonso de Aragão, no dia 26 de fevereiro de 1443, para a qual foi erigido o famoso arco de Castelnuovo. O cerimonial previa que o Rei se detivesse na Igreja do Carmo para aí venerar a Imagem da Virgem e armar cinco novos cavaleiros, bem como criar três barões e atribuir seis senhorios em seu reino.
A gloriosa peregrinação da Imagem a Roma
Entretanto, se tudo isso era admirável, maiores ainda eram os benefícios que a Nuvem do Carmelo queria espargir sobre a Igreja no tempestuoso século que se seguiria. Com efeito, enquanto em Lepanto Ela irá manifestar a força de seu braço, em Nápoles alentará e confirmará na confiança em sua onipotência suplicante todos os filhos agregados em torno de sua profética Efígie.
No ano de 1500 reinava o Papa Alexandre VI e Frederico de Aragão ocupava o trono de Nápoles. O incêndio da heresia começava a se atear na Alemanha, a Renascença humanista dessorava por toda a Cristandade o espírito sobrenatural que fora a aura da Idade Média e, enquanto ferviam na Europa as guerras intestinas, os otomanos investiam em duas frentes contra as portas da Cristandade: pelo Cáucaso e pelo Mediterrâneo. Em tão tristes circunstâncias o Papa proclamou o Ano Santo e convidou os fiéis de todo o mundo a virem beneficiar-se com as indulgências do jubileu romano. Os napolitanos, já consagrados pelo seu zelo católico, prepararam-se para partir em direção à Cidade Santa. Nessa ocasião resolveram cercar sua romaria de muita solenidade e foi assim que, no dia 5 de abril de 1500, quarta-feira, com o Crucifixo miraculoso à frente, tomaram o caminho de Roma levando com amor filial a Imagem da Virgem della Bruna, cedida pelos Frades carmelitas.
A solene procissão encontrou logo um pobre paralítico de nome Tommaso Saccone, que ardia em desejos de segui-la. Irremediavelmente impossibilitado de fazê-lo, pôs-se, sentado no chão, a contemplar enlevado o longo cortejo que partia cantando os louvores da Virgem do Carmo. Mas eis que ao passar por ele. La Bruna apieda-Se maternalmente do filho que a olha entre suspiros e súplicas, e fá-lo levantar-se miraculosamente e andar. O cortejo para atônito, todos se aglomeram em torno de Tommaso que mal contém seus transportes de gratidão e irrompe em exclamações de alegria e de entusiasmados louvores à Virgem do Carmelo, aquela Bruna que já havia tantos anos era o afeto, a esperança, a misericórdia do católico Reino de Nápoles. Como se não bastasse, este comovedor prodígio foi glorificado pelo misterioso badalar dos sinos de todas as torres vizinhas, sem que as suas cordas fossem tangidas por mão humana.
A partir daí é fácil imaginar como a "italianità" se expandiu à saída da cidade. O feliz Tommaso terá entrado no cortejo à maneira de feliz arauto do milagre, mas a notícia certamente o terá precedido, voando à velocidade do entusiasmo peninsular, de cidade em cidade. Assim, a Madonna del Carmelo foi calorosamente venerada ao longo de seu trajeto, passando por Traetto na sexta-feira, por Sermoneta na segunda-feira, chegando a Roma na quarta, — e por toda parte foi multiplicando os prodígios. Na Cidade Eterna o Papa Alexandre VI, seguido de seus Cardeais e de sua corte, desceu à Basílica Vaticana para recebê-La, e quis que ela permanecesse por todo um dia em São Pedro.
Depois a Imagem passou outro dia inteiro a visitar as diversas Basílicas romanas e partiu de volta para Nápoles, seguida de um cortejo cada vez maior, pois outros peregrinos somavam-se aos primeiros num só caudal. Novos prodígios assinalaram a viagem de regresso, dos quais foram testemunhas visuais o Bispo de Pozzuoli, Antonio Iaconia, e o Prior dos Carmelitas de San Martino ai Monti.
Enquanto isso a boa nova de tantas graças já chegara à França e um habitante de Orleans, François de la Morte, tendo perdido o filho nas águas revoltas de um rio, recomendou-se à miraculosa Virgem do Carmo de Nápoles. Sua súplica foi atendida e seu filho encontrado vivo três dias depois. — Implantou-se assim naquele reino a devoção à Virgem della Bruna; mais tarde Henrique IV instituiu ali a Ordem Militar dos Cavaleiros do Carmo e quis que seus membros trouxessem ao peito uma cópia da sagrada Efígie.
Curando num instante todos os doentes de Nápoles
Qual não foi a recepção que os napolitanos fizeram à venerada Imagem no seu retorno de Roma! Os Carmelitas mandaram todos os seus noviços esperá-la em Aversa com seus coirmãos do famoso convento que a Ordem ali possuía. O Clero e a nobreza de Nápoles saíram ao encontro da Bruna fora das portas da cidade, e juntamente com os Frades formaram solene cortejo para escoltá-la de volta à sua igreja. Tantos eram os nobres desejosos de carregar-lhe o pálio, que foi necessário confeccionar um especial, com nada menos do que trinta varas, para satisfazer-lhes a piedade. A procissão deu uma volta por toda a cidade e ao entardecer depôs a Imagem no Santuário, de onde ela nunca mais foi retirada.
Mas não terminaram com a viagem a Roma as maravilhas. Nosso Senhor quis comprovar a mediação de sua Mãe de maneira mais portentosa ainda, inspirando ao Rei Frederico de Aragão um desígnio grandiosamente ousado. Cheio de fé no poder de Santa Maria della Bruna, ordenou o Soberano que às vésperas do dia 24 de junho do mesmo ano de 1500 fossem reunidos quantos enfermos e estropiados houvesse na cidade e que fossem todos alojados num hospital a ser improvisado pelos Padres carmelitas em casa de Nicola del Fiore, na Piazza del Mercato. Além disso quis que fossem anotados por escrivães do reino os nomes daqueles infelizes e a enfermidade ou defeito que cada um trazia.
Tendo chegado o dia 24, entraram os enfermos no Santuário — já então chamado del Carmine Maggiore - onde o Rei, a Rainha e a corte desde cedo ocupavam suas tribunas. Quando, após as sacras funções, as preces continuavam uníssonas em louvor da Virgem, um raio celeste de intensa luz atravessou a nave e, lançando seu fulgor sobre a Imagem, refletiu-se sobre aquela massa sofredora: no mesmo instante ficaram todos, absolutamente todos, curados! Desta vez, a Virgem do Carmelo manifestava-Se com um poder extraordinário e de extasiar: não fora uma chuva de graças que Ela prometera a Elias?
Em socorro da Ordem de Malta sitiada pelos turcos
Sob o domínio espanhol, os Vice-Reis que se sucederam no trono de Nápoles timbraram em frequentar o Santuário della Bruna, para pedir principalmente a sabedoria no governar aquele povo. Entre eles distinguiu-se o Marquês del Carpio, que visitava a Imagem toda semana. Tendo dizimado os bandidos que assolavam a região dos Abrúzios e tendo recebido como recompensa cinco mil ducados, não os quis ele para si, mas enviou-os ao Carmo de Nápoles, dizendo que devia todo o êxito à Virgem ali venerada. Com esta soma mandou-se fazer uma luminária de prata que até hoje é apelidada com o nome de del Carpio.
O manto de Santa Maria Bruna parecia alargar-se sempre mais, para beneficiar e proteger a todos os que A invocavam. A ilha de Malta, reduto da gloriosa Ordem Religiosa e Militar dos Hospitalários de São João de Jerusalém, foi sitiada por uma esmagadora frota turca em 1565. O duro cerco prolongava-se já por quatro meses quando afinal apontaram no horizonte sessenta galeras napolitanas que romperam a linha do inimigo e fizeram-no retirar-se derrotado. Quando os ardorosos Monges cavaleiros souberam que as galeras tinham pedido o auxílio da Virgem Bruna antes de zarparem para acudi-los, louvaram-nA enternecidamente e quiseram depor aos pés de sua Imagem um dos pesados projéteis de ferro lançados pelos infiéis contra a cidadela:
Ao longo dos tempos que se seguiram esta mesma Virgem do Carmelo continuou recebendo as homenagens dos grandes e dos pequenos. O Duque de Monterrey inaugurou em 1633 o costume, seguido por seus sucessores, de o Vice-Rei dirigir-se solenemente ao Santuário no dia 16 de julho de cada ano para assistir à Grande Messa del Carmine. Por seu lado o povo continuou sentindo a assistência de sua boa Mãe, como por ocasião da peste do século XVI, e na erupção do Vesúvio em 1631, quando foi miraculosamente poupada a cidade de Nápoles.
Em 1688 o Vice-Rei Conde de Santo Estêvão, que todo sábado visitava a imagem, mandou celebrar Missa solene em ação de graças pela tomada de Alba e de Belgrado pelas armas espanholas, e foi neste santuário que ele quis inaugurar a nova moeda que o Marquês del Carpio mandara cunhar. Em 1669 o general das galeras maltesas enviava à Igreja do Carmo um estandarte conquistado aos turcos, que devia daí por diante jazer ao pés da imagem de Santa Maria della Bruna.
Carlos III de Bourbon também sentiu a proteção da Virgem Morena quando foi cercado pelos imperiais na batalha de Velletri, e invocando-Lhe o socorro viu-se libertado. Era muito devoto da gloriosa Senhora, e Fernando I, seu filho, seguiu lhe o exemplo, visitando semanalmente o Santuário dos Carmelitas. Os Reis que se sucederam depois de Fernando I até a extinção do Reino de Nápoles, não deixaram passar um ano sem fazer uma visita solene à sacratíssima Imagem.
Coroada pelo Papa Pio IX em meio à convulsão revolucionária
Entretanto, o vagalhão revolucionário que investira uma primeira vez contra a Igreja com o protestantismo e a Renascença, não foi sustado — como o sustaria a fé tíbia da grande massa daqueles que deviam ser os defensores da Esposa de Cristo? — e avançou cada vez mais avassalador, cada vez mais paroxístico. A Revolução chegou aos desvarios do Terror sanguinário, igualitário e anticlerical de 1789, na França, e seus erros embriagaram, no século seguinte, os soldados de Garibaldi, lançando-os na guerra que a filáucia revolucionária quis chamar de “Unificação italiana”. Nesta convulsão o culto católico foi praticamente proibido em Nápoles; pela primeira vez se viu penas anticlericais atacarem a devoção a Nossa Senhora naquele católico Reino. Apenas uns poucos Religiosos, banidos de suas celas, continuavam a acercar-se da Virgem Bruna, suplicando-lhe novos e melhores tempos para a Santa Igreja agora traída e abandonada.
E foi então que, 375 anos após sua gloriosa ida a Roma, Nossa Senhora La Bruna foi novamente solicitada a proteger os interesses da Cristandade. Assim é que o Papa Pio IX ordenou que a Imagem de Nápoles fosse cingida com uma suntuosa coroa de ouro, na esperança de que esta Mãe se lembrasse de suas antigas misericórdias. Realmente, algum tempo depois foi dada à Igreja uma certa trégua, antes que se configurasse no limiar deste nosso século uma nova manobra satanicamente concebida pelo Inimigo: o surgimento do modernismo, no próprio seio da Igreja.
A soleníssima coroação do santo ícone teve lugar no dia 18 de julho de 1875, por decreto do Capítulo da Basílica Vaticana, oficiando o Cardeal Dom Sisto Riario Sforza, Arcebispo de Nápoles.
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Do pontificado de São Pio X para os dias que correm, embora não tivessem faltado medidas como a Encíclica "Pascendi", para denunciar e golpear a hidra revolucionária, de fato ela continua procurando por todos os meios humilhar a Santa Igreja e — como se possível fosse — apagar-Lhe até a memória sobre a face da terra. Besta horrendamente bicéfala, a Revolução procura, com sua cabeça chamada progressismo, minar e destruir todas as resistências e todas as forças vivas no seio da Igreja, impondo-lhe uma metamorfose "profética" que A "desaliene", "desmistifique" e ateize por fim, para lançá-La irremediavelmente inerme às fauces da segunda cabeça, que é o comunismo. Toca aos filhos da Virgem, chamados a serem fiéis até o fim, esperando contra toda a esperança, toca a eles imitar o exemplo daqueles primeiros carmelitas que no Monte Carmelo guardaram a fidelidade ao pacto eterno celebrado com Elias, e no Calvário — atendendo ao convite expresso pelo "O vos omnes attendite et videte ..." - souberam perscrutar a imensa dor do Coração Imaculado. Assim também saibamos nós participar do presente sofrimento atroz da Santa Igreja, e dispor nossas almas para servirmos de instrumentos fiéis para a humilhação dos servidores do novo Baal.
Se o fizermos, não tardará a hora da exaltação da Santa Madre Igreja, Católica, Apostólica, Romana, através da vitória misteriosamente prenunciada pela aparição da Virgem do Carmo nos céus de Fátima.
Calicem Domini Biberunt
MENSAGEM A UM IMPERADOR REVOLUCIONÁRIO
Fernando Furquim de Almeida
A Revolução Francesa impediu o pleno desenvolvimento do apostolado promissor que o Padre Brunone Lanteri preparara com tanto cuidado em Turim. Já não era só a Revolução nas idéias que a Amicizia tinha que enfrentar. Era a Revolução nos fatos, com toda a sua brutalidade e a firme determinação de completar a obra da pseudoreforma protestante, levando adiante a destruição da civilização católica. A Amicizia soube combater também nesse terreno. Antes de abordarmos as suas lutas contrarevolucionárias desse período, convém analisar rapidamente o conceito de Revolução que tinham os membros da sociedade.
Existe um documento do Padre Diessbach que resume o seu pensamento sobre a questão. É a "Mensagem de um católico a Sua Majestade Apostólica Leopoldo Segundo, Rei da Hungria e da Boêmia, em sua exaltação ao trono". Uma cópia do original enviado a Leopoldo II encontrase nos arquivos dos Oblatos de Maria Virgem, Congregação religiosa fundada mais tarde pelo Venerável Lanteri em Turim.
É essa "Mensagem" que vamos estudar, a fim de conhecer até que ponto a Amicizia tinha uma ideia clara da Revolução. Não é possível fazêlo num só artigo; e para compreender bem o documento, é necessário explicar antes quem era o seu destinatário. É o que faremos hoje.
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Terceiro filho de Francisco I e Maria Teresa, Leopoldo II governava o GrãoDucado da Toscana quando a morte do Imperador José II, seu irmão, o conduziu ao trono da Áustria, da Hungria e do Sacro Império. Seu governo na Toscana se caracterizara pela insolência com que perseguira a Igreja para construir o primeiro Estado leigo da Europa. Era ele um completo revolucionário. Embora se declarasse católico, todos os seus atos revelavam um inimigo pertinaz da Igreja, na qual via o verdadeiro alicerce da civilização que desejava destruir, para substituíla por outra mais de acordo com as ideias "novas" de seu tempo, que eram também as suas.
Tinha apenas 18 anos quando recebeu o GrãoDucado, como dote de casamento, do Imperador Francisco I, e apenas terminadas as festas das bodas partiu para Florença, capital da Toscana. Por causa de sua pouca idade, Maria Teresa fez com que o Conde de Thurn o acompanhasse para ajudálo a reinar. No entanto, Leopoldo II não permitiu que o enviado de sua mãe cumprisse a missão que recebera. Começou logo a governar pessoalmente, afastando todos os que pretendiam controlálo e contornando todas as medidas tomadas pela grande imperatriz para frearlhe as imprudências.
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Um de seus primeiros atos foi o estabelecimento do "exequatur" para a publicação dos decretos provenientes de autoridades eclesiásticas estrangeiras, o que evidentemente era dirigido contra o Papa, para impedilo de exercer seu poder supremo na Toscana. Essa medida foi logo acompanhada de outras que feriam também rudemente a liberdade da Igreja: aboliu a Inquisição, suprimiu a Companhia de Jesus, proibiu o envio de esmolas ou tributos à Santa Sé, extinguiu o eremitismo, etc. Ao mesmo tempo procurava ganhar as boas graças do episcopado, obrigando os futuros sacerdotes a não estudarem senão em seminários episcopais, e colocando sob a jurisdição dos bispos todas as Ordens e Congregações religiosas estabelecidas no GrãoDucado.
A Toscana era profundamente católica, e não concordou com esses atentados à Igreja. O povo manifestou o seu descontentamento e a aristocracia se afastou da corte. O episcopado reagiu, e só o jansenista Scipione de’ Ricci, Bispo de Prato e de Pistóia, apoiou o GrãoDuque. O clero, numeroso, em sua grande maioria acompanhou os seus pastores.
Apesar dessa oposição, Leopoldo II não se deteve. Como sua situação em Florença se tornara insustentável, residia mais em Pisa do que na capital. Aderindo ao jansenismo de Scipione de’ Ricci, concorreu eficazmente para a realização do famigerado sínodo de Pistóia, organizado por aquele bispo com o auxílio de Pietro Tamburini, professor em Pavia e o mais célebre jansenista italiano. Irmão muito amigo de José II, a exemplo deste o GrãoDuque apoiou o josefismo e o febronianismo, que tanto mal fizeram à Religião durante o reinado daquele imperador.
Paralelamente a essa atuação dura e escandalosa no terreno religioso, Leopoldo dissolveu o exército e a marinha, extinguiu as organizações que na Toscana eram os similares das corporações e promoveu a primeira tentativa européia de reforma agrária.
Era mais do que natural que o Padre Diessbach e seus amigos de Viena se alarmassem vendo um tal revolucionário cingir a coroa imperial durante a Revolução Francesa. A "Mensagem", redigida com muito cuidado, refuta todos os erros esposados por Leopoldo, detendose especialmente em combater o jansenismo. Denuncia a conjuração anticristã que se empenhava em envolver os monarcas para leválos a coadjuvar a obra revolucionária e mostra o perigo que corria o trono imperial se Leopoldo II persistisse na política insensata que seguira na Toscana. Finalmente, define o programa de ação de um imperador verdadeiramente católico.
Não se sabe se o texto do Padre Diessbach foi lido por seu destinatário. Nem é de presumir que a leitura pudesse demover dessa política suicida um príncipe que era revolucionário convicto. No entanto, a "Mensagem" é de grande importância para a História da Igreja.
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Acontece que a parte final do documento põe muita ênfase na necessidade da restauração dos jesuítas, e por isso o funcionário que em Viena o mandou para o arquivo lhe deu o seguinte título: "Memorial de um jesuíta a S. M. para restabelecer os jesuítas e contra os jansenistas". Esse título não dá uma ideia precisa do verdadeiro conteúdo da "Mensagem", o que provavelmente explica o fato de que os pesquisadores não lhe parecem dispensar a devida atenção. É pena, porque, resumindo o pensamento do Padre Diessbach e dos membros da Amicizia sobre a Revolução, esse escrito orientou a ação dos católicos vienenses durante o Congresso de Viena. O seu conhecimento é fundamental para o estudo da própria Santa Aliança, pois as Amicizie tiveram alguma influência no Congresso e não pouparam esforços para que ele realmente restaurasse a ordem católica na Europa.
NOVA ET VETERA
PARA O HOMEM CARNAL NÃO HÁ PAZ
J. de Azeredo Santos
De um certo tempo a esta parte, os mais variados meios de comunicação social vêm martelando o tema da chamada "educação sexual".
Pela longa duração que de modo obsessivo vem tendo tal campanha — pelo menos três décadas — não admira que já esteja dando frutos essa nova atitude em face do sexo inculcada artificial e criminosamente por pessoas maduras nos jovens e até em crianças.
Acontece que esses frutos, naturalmente malsãos, não germinam em Marte ou em Netuno, mas neste nosso mundo no qual simultaneamente vem-se espalhando por todos os meios a mais avassaladora propaganda da imoralidade. As modas, os costumes, as diversões, os lazeres, os jornais, as revistas, os livros, o rádio, a televisão difundem os desmandos do sexo Por todos os lados e por assim dizer pelo próprio ar que se respira. E o resultado é o quadro desolador que se apresenta aos olhos de todos aqueles que querem ver. Neste sentido, chegaram a nossas mãos dois artigos publicados no mesmo número da prestigiosa revista médica "Pediatric Clinics of North America" (vol. 16, n.° 2, de maio de 1969).
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O primeiro, de autoria do Dr. Nicholas J. Fiumara, estampado às páginas 333-345, trata do alarmante aumento da incidência de doenças venéreas entre os adolescentes e os jovens norte-americanos, atingindo índices nunca vistos em toda a história dos EUA. A que se deve tamanha calamidade? Diz o autor que "houve uma revolução sexual em nosso país, como no resto do mundo. Há uma preocupação nacional com o sexo uma mudança no clima social e moral, uma filosofia de liberdade sexual com a exigência do direito de determinar o modo de comportamento individual. [...] Os adolescentes foram apanhados por este clima de transformação social e moral". Daí se entregarem ao uso do álcool (desde os 13 ou 14 anos, muitas vezes) e de entorpecentes, e aos desmandos da impureza, com o consequente aumento da delinquência juvenil, das doenças venéreas, dos abortos e dos nascimentos ilegítimos, além da multiplicação dos desajustamentos e dos distúrbios psíquicos, enquanto a taxa de natalidade declina no país.
Indo mais a fundo nas causas do problema, depois de citar as transformações havidas (para pior) na vida familiar, observa o autor: "Houve uma queda na educação religiosa e nas sanções que são inerentes à crença religiosa. [...] Houve uma queda na autoridade e uma mudança em nossa moral nacional. Há uma falha de comunicação entre os pais e filhos e entre os próprios, pais. [...] As igrejas se acham num processo de reavaliação agonizante de crenças outrora tidas como sagradas".
O segundo artigo constitui depoimento ainda mais impressionante. Intitula-se ele "O adolescente e a anticoncepção", e assina-o o Dr. Frank J. Ayd Jr. (páginas 355-361 da revista citada).
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Logo de início diz o autor: "A sinistra coalizão de uma moral frouxa e da promoção mercantilista das inclinações juvenis para a lascívia produziram uma explosão sexual nos adolescentes. Na última década houve não só uma crescente incidência de relações sexuais entre adolescentes, mas uma queda na idade da primeira experiência, de modo que as relações antes dos 13 anos não são raras. [...] O resultado dessa generalizada promiscuidade juvenil é o pronunciado aumento de gestações ilegítimas, abortos e doenças venéreas. A isso devem ser acrescentados os incalculáveis males psicológicos que são uma consequência inevitável da promiscuidade entre adolescentes"..
À vista dos graves e múltiplos problemas médicos e sociais que tal situação acarreta, continua o artigo, certos médicos consideram que, aos jovens já iniciados ou em vias de se iniciar nessa matéria, se deve oferecer assistência de prevenção da natalidade e anticoncepcionais. Na opinião desses profissionais da medicina, seria esse o meio, moralmente correto, de evitar gestações ilegítimas, filhos não desejados e abortos. Consequentemente, há nos EUA clínicas de planejamento familiar, clínicas hospitalares e serviços de saúde em colégios, que têm por objetivo principal prevenir a gravidez de adolescentes solteiras. Mas, indaga o autor, se essa finalidade for alcançada, a que preço o será?
E esclarece: "Por muitos anos nos chamados países progressistas, como a Suécia e a Dinamarca, os adolescentes tiveram acesso relativamente fácil no serviço de controle da natalidade e aos anticoncepcionais. Dados oficiais dos governos desses países mostram que, apesar de se proporcionar aos jovens educação sexual e o uso de anticoncepcionais, o índice de gestações ilegítimas nessa idade aumentou de modo significativo. Concomitantemente houve um aumento na incidência de doenças venéreas, em proporções quase epidêmicas, nesse mesmo grupo etário. Dados reunidos pelo governo dos Estados Unidos, pela Associação Americana de Saúde Pública, pela Associação Americana de Saúde Social e pela Associação Americana de Doenças Venéreas mostram claramente que, apesar de nossas jovens terem conhecimento de anticoncepcionais e encontrarem pouca ou nenhuma dificuldade em obtê-los, as gestações ilegítimas entre adolescentes estão aumentando em proporção perturbadora". Estatísticas dessas mesmas fontes também documentam que em anos recentes a incidência de determinadas doenças venéreas no grupo etário de 15 a 19 anos foi mais que o dobro da registrada em todos os outros grupos de idade. "Esses dados indiscutíveis provenientes da Europa e da América do Norte falam por si. Sugerem fortemente que a administração de anticoncepcionais às adolescentes teve um significativo impacto no índice de gestações ilegítimas nesse grupo etário".
Mesmo que se admita que o uso de anticoncepcionais venha a diminuir o número de casos de gravidez ilegítima entre as jovens cumpre avaliar os riscos físicos e psicológicos que elas correm, bem como os danos que a sociedade sofre com isso. Enumera o Dr. Ayd esses vários riscos, tais como a esterilidade prolongada ou mesmo permanente, maior incidência de doenças venéreas e de câncer, além de outras sequelas próprias a um organismo ainda em formação, bem como uma série de distúrbios psíquicos. A propósito dos males causados à vida familiar e à sociedade observa o articulista o seguinte: "A História atesta que sociedades e nações têm sido destruídas pela invasão da imoralidade entre o povo, especialmente entre os jovens. Não nos devemos esquecer de que aqueles que desprezam os erros do passado estão condenados a repeti-los".
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Na parte final de seu estudo frisa o Dr. Ayd que "nesta época de Moral-Nova, quando abundam as afeições desordenadas e está sendo fomentada uma mentalidade anticoncepcional na juventude feminina, os médicos devem lembrar-se do que Tomás de Kempis escreveu há séculos atrás: "Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo inquieto. [...] Se, porém, alcança o que desejava sente logo o remorso da consciência porque obedeceu à sua paixão, que nada vale para alcançar a paz que almejava. Em resistir, pois, às paixões se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las. Não há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem no do homem entregue às coisas exteriores, mas somente no daquele que é fervoroso e espiritual". E indaga o autor: "Pode um médico experimentado negar a verdade e sabedoria dessas observações?"
Eis aqui a principal origem deste e de outros males que assolam a humanidade em nossos dias: o deperecimento da fé, o repúdio dos valores do espírito.