NEM SEMPRE SE DEVE FALAR BEM DOS MORTOS
Alberto Luiz Du Plessis
Diz-se comumente que dos mortos só se deve falar bem; todavia, certas repercussões que a recente morte do Dr. J. Robert Oppenheimer teve na imprensa mundial obrigam-nos a analisar de modo objetivo alguns aspectos de sua discutida personalidade.
A capacidade intelectual que fez dele um dos mais eminentes físicos de nossos dias, a erudição espantosa que ele manifestava em nove línguas (aos doze anos já escrevia ensaios sobre luz polarizada, lia Sófloques no original e pertencia à Sociedade Mineralógica de Nova York), a aptidão para organizar e dirigir que levou o governo norte-americano a confiar-lhe a execução do projeto Manhattan, do qual resultou a primeira bomba atômica, nada disto entra em questão neste artigo. Aqui nos interessam apenas determinadas opções políticas que o personagem assumiu, e a atitude da quase totalidade da imprensa internacional perante tais opções e as consequências destas.
Atômica, pois não; de hidrogênio, — nunca
O Dr. Oppenheimer, depois de, como dissemos, ter dirigido a produção da primeira bomba atômica, passou a opor-se frontalmente a que os EUA fabricassem a bomba de hidrogênio. Isso, sob alegação de motivos humanitários.
Sabendo perfeitamente — e Oppenheimer tampouco o ignorava — que a Rússia fazia todos os esforços para possuir essa nova e terrível arma, cuja potência de destruição é incomparavelmente superior à do engenho atômico, as autoridades "yankees" não podiam deixar de se surpreender com a atitude do cientista. Resultou daí uma investigação que forneceu dados muito graves. Desde a sua mocidade Oppenheimer tinha participado de toda espécie de movimentos comunistizantes. Ele mesmo se incumbiu de proclamar que quase não havia grupo político esquerdista declarado ilegal nos EUA, do qual ele não tivesse sido membro. É verdade que afirmou também que, posteriormente, havia rompido com todos eles.
Quando da guerra civil espanhola, suas simpatias confessadas tinham ido todas para os vermelhos. O fato de dezenas de milhares de inocentes, inclusive seis mil Padres, terem sido assassinados pelos carrascos comunistas não parece ter impressionado um homem de sentimentos tão delicados e humanitários. Excessos, ele não os via senão do lado nacionalista. É significativo que mais tarde se tenha casado com a viúva de um combatente comunista.
Encarregado da execução do projeto Manhattan, sabia — evidentemente — que, chegando este a bom termo, a arma que se visava produzir seria utilizada com todas as suas terríveis consequências, e isto não lhe provocou nenhum drama íntimo. Por quê? Seja-nos permitido lembrar que a bomba atômica tinha sido programada contra a Alemanha, e só um atraso em sua fabricação é que impossibilitou os EUA de empregá-la contra o diabólico poderio nazista — o qual representava, no momento, um grave perigo para a União Soviética.
Quando dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, a sorte dos milhares de japoneses queimados vivos não perturbou de maneira alguma o eminente cientista. Tão logo, porém, o governo de Washington decidiu fabricar a bomba de hidrogênio, e fabricá-la antes dos russos, já então seus antagonistas, o protesto de Oppenheimer veio fulminante: como se podia cogitar de produzir um engenho tão terrível? Note-se que ele não podia ignorar que, se os norte-americanos desistissem da bomba H, o mesmo não aconteceria com os soviéticos, os quais em breve estariam em condições de produzi-la, de tal modo que, cedo ou tarde, os EUA, e com eles todo o Ocidente, ver-se-iam colocados, ante o dilema de entregar-se ao comunismo ou serem aniquilados.
Semelhante facciosismo não poderia deixar de chamar a atenção. Submetido a um inquérito e a um processo cujo resultado lhe foi desfavorável, "Oppy", como o chamavam os amigos, não foi fuzilado, nem preso, nem mesmo mandado para uma remota e áspera Sibéria: foi-lhe simplesmente proibido o acesso a tudo o que interessasse à defesa nacional. Continuou, no entanto, a gozar de toda a consideração entre os físicos norte-americanos, a ser um professor requestado e altamente remunerado (até meados do ano findo era diretor do Instituto de Estudos Superiores da famosa Universidade de Princeton), a viajar por todo o mundo, proferindo conferências para auditórios numerosos e prestigiosos.
A nota mais grave do caso
Agora podemos abordar o que nos parece a nota mais grave em todo este caso. Fosse ou não Oppenheimer um comunista convicto, o que é certo é que, dadas as suas atitudes e os seus antecedentes, deixá-lo participar de segredos militares seria uma temeridade equivalente à de um chefe de família que entregasse sua melhor arma à guarda de quem simpatizasse com um rancoroso inimigo, apostado a exterminá-lo e a todos os seus. Ora, as medidas preventivas adotadas contra o perigoso cientista, medidas razoáveis, justas, e brandas até o excesso, foram vituperadas por quase toda a imprensa do Ocidente, inclusive certos jornais que fazem profissão de fé anticomunista. E este clamor, embora mais atenuado, voltou a levantar-se quando da morte de Oppenheimer, em, fins de fevereiro.
Loucura? estultice? cumplicidade? são perguntas perfeitamente cabíveis diante da atitude dessa imprensa. Seja qual for a explicação adequada, o fato que registramos surge como mais um alarmante sintoma de desarmamento dos espíritos em face de um adversário feroz e armado até os dentes. Aonde tal fenômeno pode levar-nos, é fácil de prever.
TFP propugna a
revogação da Lei de Segurança
Plinio Corrêa de Oliveira
O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, afirmou em entrevista divulgada pela ABIM que a TFP apoia resolutamente o movimento que se esboça em vários setores da opinião pública do País, em prol da revogação ou de uma larga refusão do decreto-lei nº 314, de 13 de março p.p., que "define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social e dá outras providências, conhecida como Lei de Segurança Nacional. É o seguinte o texto do importante pronunciamento:
"Nada mais eficaz para persuadir a quem quer que seja da necessidade de tal refusão, do que a análise – ainda que sucinta – de alguns dos dispositivos do referido diploma.
Por exemplo, reza o seu art. 48: "A prisão em flagrante delito ou o recebimento da denúncia, em qualquer dos casos previstos neste decreto-lei, importará, simultaneamente, na suspensão do exercício da profissão, emprego em entidade privada, assim como de cargo ou função na administração pública, autarquia, em empresa pública ou sociedade de economia mista, até a sentença absolutória".
Assim, basta que seja recebida pelo Juiz a denúncia ( o que de nenhum modo quer dizer que o crime e sua autoria estejam cabalmente provados ) e já uma sanção severa se descarrega sobre o acusado. Essa sanção poderá durar por tempo indeterminado, pois, quando uma ação se inicia, é quase impossível prever quanto tempo levará para percorrer todos os seus trâmites, tantas vezes tumultuados por imprevistos de toda ordem.
Sujeitar assim uma pessoa possivelmente inocente a uma punição gravíssima, é contrário aos mais fundamentais princípios da Moral e do Direito, os quais preceituam a iliceidade de qualquer castigo aplicado ao inocente.
Outros reparos, também graves, poderiam ser feitos a mais de um dispositivo do decreto-lei nº 314.
Uma incógnita
Diante de tanta severidade, oposta à nossa formação jurídica e à índole de nosso povo, fica-se a perguntar qual o interesse público que a justifique.
A Lei de Segurança nacional figurará provavelmente, aos olhos dos que a apóiam, como um remédio heroico e amargo, a ser imposto na presente conjuntura do País.
Precisamente aí está, a meu ver, a incógnita. O único mal que me parece proporcionado com a gravidade do remédio, isto é, com o caráter draconiano da lei, é o comunismo. E ainda assim haveria que expungir dela algumas disposições manifestamente injustas.
No Brasil, ninguém há que se oponha ao comunismo com intransigência tão constante e meticulosa quanto a TFP. Somos, pois, inteiramente insuspeitos para dizer que aqui o perigo comunista – considerado enquanto consistente na implantação direta de um regime marxista – é remoto. O Partido Comunista se arrasta entre nós, desprestigiado e impopular, porque não têm faltado vozes que contra ele vêm alertando a opinião nacional, fundamentalmente cristã.
Onde está o perigo
O verdadeiro perigo comunista no Brasil não resulta diretamente da atuação do Partido Comunista, porém da expansão contínua, rápida, e o mais das vezes velada, de certas formas de progressismo, rotulado de socialista ou cristão, de demo-cristianismo esquerdista, etc. Ele tende a derruir o instituto da família por leis e costumes que lhe arruínem a estabilidade, e desprestigiem a autoridade paterna ou materna. Ele vai minando e mutilando gradualmente a propriedade privada por uma série de leis de índole socialista e confiscatória.
Assim, sem o perceber, por um processo semelhante ao da erosão, o País vai perdendo seu húmus cristão, e nossa civilização cristã vai-se transformando em uma civilização socialista. Por sua vez, à medida que o socialismo for-se requintando e extremando, iremos nos aproximando do comunismo.
Ora, não me parece que a lei em apreço tenha sido feita contra esse processo lento e gradual de "socialistização" ( que não confundo com "socialização" ). E nem creio que ela fosse apta para deter tal processo.
Camisa de força
Se, pois, assim é, a Lei de Segurança nacional, proporcionada quiçá a um perigo que entre nós não é próximo, põe o Brasil numa camisa de força.
Desse modo parece-me que sua refusão pelas vias legais competentes, ou sua inteira revogação, corresponde ao verdadeiro interesse nacional".
VERDADES ESQUECIDAS
Deus aborrece igualmente o ímpio e a impiedade
Do Livro da Sabedoria (14, 7-10):
O Madeiro pelo qual se faz justiça é bendito; mas o ídolo, que é feito por indústria das mãos, tão maldito é ele mesmo como quem o fez: este porque de fato o fabricou, e aquele porque, sendo uma coisa frágil, foi chamado deus. E Deus igualmente aborrece ao ímpio e a sua impiedade. Por isso a obra que foi feita, com aquele que a fez, padecerá tormento.