Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 196 | página 06-07

(continuação da página 3)

nascemos com esse pecado porque pertencemos à família de Adão, à progênie do primeiro homem. Adão foi criado por Deus com a graça divina e ainda adornado de outros dons também gratuitos, que tornavam sua natureza de uma excelência superior à que de direito lhe seria devida. Essa graça santificante e esses dons preternaturais, Adão, segundo os desígnios de Deus, os transmitiria à sua posteridade, se obedecesse a um mandado divino. Mas, ele desobedeceu, e como castigo desse pecado perdeu a graça santificante e os demais dons que enalteciam sua natureza. Tornou-se inimigo de Deus, incapaz de entrar na vida eterna do Paraíso; e essa situação do primeiro chefe da família humana tornou-se a situação de toda a sua família, de toda a sua progênie, excetuadas as duas Pessoas que acima lembramos. Deus, no entanto, na sua infinita bondade, não quis que essa situação permanecesse irreparável. Enviou um Redentor, capaz de dar-Lhe uma reparação condigna, mesmo acima do que exigiria a justiça. Esse Redentor é Nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, por obra do Espírito Santo, e nascido da Virgem Maria. Foi Ele, nosso Salvador, que, com sua ignominiosa morte de Cruz, na qual consumou a obediência ao Pai Celeste, reparando a desobediência do primeiro homem, nos remiu, nos resgatou do cativeiro do demônio, nos restituiu a graça santificante, tornou-nos novamente capazes da amizade divina, da vida eterna do Paraíso no seio de Deus.

Tudo isso se encontra sintetizado na frase de São Paulo aos romanos: "Como pelo pecado de um só a condenação se estendeu a todos os homens, assim também por um só ato de justiça recebem todos os homens a justificação que dá a vida. Assim como pela desobediência de um só homem foram todos constituídos pecadores, assim pela obediência de um só todos se tornarão justos" (Rom. 5, 18-19).

E para que não houvesse dúvida sobre o sentido das palavras de São Paulo, e sobre a verdade revelada, o Concílio Tridentino explanou, contra os erros dos protestantes, em um Decreto de sua Sessão V, toda a doutrina católica sobre o pecado original. Esse Decreto consta de uma introdução, cinco cânones e uma consideração final sobre a condição especial de Maria Santíssima nesta matéria. Nos cânones, o Sacrossanto Concílio ensina que Adão, primeiro homem, pessoal e livremente transgrediu um preceito divino e com essa transgressão perdeu a santidade e a justiça em que tinha sido constituído, e incorreu na ira e indignação de Deus, ficando sujeito à morte e ao cativeiro do demônio (cânon 1); que a prevaricação de Adão prejudicou não só a ele, mas a toda a sua descendência, a qual, por isso mesmo, perdeu a santidade e a justiça recebidas de Deus no seu progenitor; e mais ainda, que Adão transmite à sua posteridade não somente a morte mas o mesmo pecado que é a morte da alma (cânon 2). O cânon 3 declara que o pecado original se transmite pela geração e não por imitação, como queriam os protestantes, e que se apaga não por forças naturais, mas pelos merecimentos de Jesus Cristo que a Igreja aplica, quer às crianças como aos adultos, no Sacramento do Batismo; os cânones 4 e 5 afirmam que as crianças recém-nascidas devem ser batizadas para que nelas se apague o reato do pecado original, porquanto o Batismo apaga a própria culpa e não apenas a risca ou faz com que não seja imputada ao fiel.

Como vedes, caríssimos filhos, é a mesma doutrina que aprendestes nos vossos primeiros anos de infância, ou nas aulas de catecismo ou dos lábios de vossas mães. Também compreendeis que se trata de ponto essencial. É o dogma do pecado original que nos faz como que sentir as profundezas do amor com que Deus Nosso Senhor nos amou. Ele que dá a compreensão do que dizemos com inefável esperança na Santa Missa: "Deus qui humanam substantiam mirabiliter condidisti et mirabilius reformastis". Pois realmente, se há um ato maravilhoso da onipotência divina ao criar os seres do nada, de longe o supera em maravilha a caridade com a qual Deus vem ao homem pecador para transformá-lo de inimigo em filho adotivo, em membro de sua família, conviva de sua mesa! Destruí o dogma do pecado original, e esvaziareis as alegrias com que a Igreja canta o "Exsultet" na vigília da Ressurreição.

Tudo isso, amados filhos, é verdade, e antigo como a Igreja, e não precisamos gastar tempo para vos convencer. Não obstante, os mestres do novo cristianismo tentam anular a base de todas essas consolações com seu conceito novo do pecado original. Para eles, pecado original não é a desobediência voluntária de Adão, que acarretou para cada um dos seus descendentes a ausência da graça e o estado de pecado. O trecho de São Paulo aos romanos seria um "gênero literário", ou seja, uma maneira de expressar um pensamento diverso daquele que as palavras literalmente exprimem. O pecado original que nos contamina não seria o pecado de Adão, primeiro homem, mas o pecado do homem em geral, o pecado do mundo, o pecado da humanidade tomada como um todo!

Cremos que não é preciso insistir mais para se ver como tal doutrina interpreta arbitrariamente a Sagrada Escritura, não faz o menor caso do Magistério infalível, anula o caráter moral que há na Redenção, e prepara uma concepção gnóstica do Cristianismo.

A Santíssima Eucaristia

Todos nós, caríssimos filhos, fomos formados no mais entranhado amor e na mais profunda reverência para com a Santíssima Eucaristia, o Sacramento de nossos altares. Na Sagrada Hóstia temos a convicção de que está vivo Nosso Senhor Jesus Cristo, tão real e verdadeiramente como está nos Céus. De pão, como, no cálice, de vinho, só se conservam as aparências, porquanto no momento da consagração toda a substância de pão e toda a substância de vinho se transformaram no Corpo e no Sangue da Santíssima Humanidade de Jesus Cristo, indissoluvelmente unida à Pessoa adorável do Filho de Deus. Essa mudança total, a Igreja definiu no Concílio de Trento (Sess. XIII, cap. IV e cânon 2), chama-se transubstanciação. Por isso, porque na Sagrada Hóstia não há mais nada da substância de pão, mas foi tudo transmudado no Corpo de Cristo, por isso, dizemos, nós rendemos a mesma adoração a qualquer parte, ainda que mínima, da Sagrada Hóstia, e tomamos todo o cuidado com os fragmentos que notamos na patena.

Os construtores do novo cristianismo não pensam assim. Eles não conhecem a doutrina definida infalivelmente pelo Concílio de Trento. Para eles, a Eucaristia não passa de um símbolo. O pão significa a presença de Cristo, passa a indicar o alimento espiritual. Por isso mesmo, não creem eles que se deva ter grande atenção aos fragmentos da Sagrada Hóstia, pois, dizem, segundo o senso comum um fragmento não é pão. Com isso deixam pairar dúvida sobre o que foi sempre o centro da piedade cristã, o Santíssimo Sacramento, a Vítima do Sacrossanto Sacrifício da Missa que permanece nos nossos sacrários para conforto na nossa via dolorosa em demanda da Pátria.

As visões da Mãe de Deus acenderam nos corações dos pastorinhos de Aljustrel um amor ardente ao Deus escondido. Eles, especialmente Francisco, passavam horas em adoração ao Deus velado no sacrário. Eis, caríssimos filhos, como havemos nós também de concorrer para o crescimento do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja. Meditando, visitando e adorando o Santíssimo Sacramento. É Ele o centro da vida da Igreja. Pois ali temos o Deus conosco para nosso conforto, e como penhor de nossa vida eterna.

Nova noção de milagre

Outro ponto fundamental da formação católica que os mestres do novo cristianismo igualmente deturpam refere-se à credibilidade da Religião revelada.

Pois, de fato, contendo embora mistérios que ultrapassam a capacidade intelectual criada, a Religião Católica não se impõe arbitrariamente ao fiel. Está muito longe do "crê ou morre" dos muçulmanos. É ela um "rationabile obsequium" não somente enquanto envolve a humildade da inteligência que se curva diante da Verdade incriada, mas também porque essa submissão não é cega, e sim plenamente justificável. E a justificação, que torna racional nosso assentimento às verdades reveladas, são especialmente os milagres operados pela Onipotência divina em abono da Revelação. O milagre vem a ser uma interferência de Deus Nosso Senhor à margem das leis da natureza, pela qual Ele produz um efeito que é inexplicável pela ordem natural das coisas, e que Ele assume como seu selo divino para comprovar a autenticidade da doutrina revelada por Ele, ou por seu profeta. Jesus Cristo aos judeus incrédulos apresentava como prova da verdade de sua doutrina os milagres que fazia: "Si mihi non vultis credere, operibus credite - Se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras" (Jo. 10, 38), nos meus milagres que dão testemunho de que minha doutrina é realmente de Deus. No decurso da história da Igreja, Deus tem agido da mesma maneira. Ainda em Fátima, para autenticar junto ao povo que os pastorinhos recebiam de fato a visita e a mensagem de Nossa Senhora, fez Ele o milagre do sol, que se desprendeu da abóbada celeste e caminhou em ziguezague sobre a multidão, enchendo-a de pavor.

Por isso mesmo, pela importância que têm os milagres como obra realizada imediatamente pela Onipotência divina, e, pois, como meio para autenticar a mensagem celeste, a Santa Igreja em Concílios e outros documentos de seu Magistério firmou a possibilidade, natureza e valor probativo dos milagres. Veja-se, por exemplo, o Concílio Vaticano, Sess. III, cap. IV, cânones 3 e 4, ou o juramento antimodernista.

Pelo exposto, vedes, amados filhos, como apreciar a tentativa de dar às ações miraculosas uma explicação natural, sob pretexto de que Deus não iria contrariar uma natureza que Ele mesmo fez. Tal explanação não mantém, mas subverte totalmente a Religião Católica. Sem milagres, o Cristianismo não passaria de uma filosofia irracional, porquanto é firmados nos milagres operados por Jesus que nós sabemos que os mistérios por Ele revelados são de fato verdades divinas, e a eles assim aderimos com todas as veras de nossa alma. Aceitar mistérios sem ter a certeza de que realmente Deus os revelou, é agir irracionalmente. Não pretendamos, a título de reverência para com a obra de Deus que é a natureza, coibir o Senhor dessa mesma natureza de superá-la quando Lhe parecer conveniente para os seus inefáveis fins. E tenhamos a certeza de que Deus Nosso Senhor acompanhará sempre sua Igreja aprovando-a com milagres verdadeiros como já fez no início do Cristianismo, quando acompanhou com prodígios a pregação dos Apóstolos (cf. Marc. 16, 20).

Os exemplos propostos são suficientes para perceberdes, amados filhos, como os mestres do novo cristianismo de fato subvertem completamente a Religião Católica. Servem também para que vos mantenhais vigilantes contra tão nefastas inovações.

O Magistério não infalível

Certamente tereis percebido, amados filhos, pelos exemplos aduzidos, uma atitude estranha nesses inovadores. Há neles, de fato, uma ausência completa de atenção para com o Magistério supremo da Igreja, quer ordinário, quer solene, mesmo em Concílios com definições infalíveis.

É certo que o Concílio Vaticano I definiu que o Magistério do Romano Pontífice é infalível em determinadas condições. Não definiu que, faltando tais condições, seja o Soberano Pontífice igualmente infalível. Seria absurdo, no entanto, daí concluir que o Papa erra sempre que não faz uso de sua prerrogativa de infalibilidade. Pelo contrário, ainda quando não se reveste desta prerrogativa, devemos supor que ele acerte, porquanto normalmente age com prudência e não emite sua opinião antes de muito ponderar. Para não falar nas graças especiais com que o assiste o Espírito Santo.

Por isso é de todo inaceitável a atitude leviana daqueles que não fazem caso dos Documentos da Santa Sé que não vêm sigilados com a nota de infalibilidade. Pois esses Documentos obrigam a uma aceitação interna que só poderia ser recusada na hipótese de haver engano patente no que eles trazem, ou porque abertamente contrário a toda a tradição da Igreja, ou porque evidentemente falso. O que é absolutamente inadmissível é considerar, sem mais, peremptos Documentos solenes do Magistério ordinário como as Encíclicas doutrinárias, especialmente as escritas para dirimir questões ou apontar erros relativos à Fé, como por exemplo a "Pascendi Dominici Gregis" de São Pio X, contra o modernismo, ou a "Humani Generis", de Pio XII, contra o neomodernismo. Especial atenção merecem também os Documentos do Magistério ordinário quando Papas sucessivos, por um espaço suficientemente longo, repetem neles os mesmos ensinamentos. Temos nesse fato um sinal de que tal doutrina faz parte do depósito da Fé confiado à Santa Igreja.

Não compreendemos, portanto, como se possa formar católicos, ignorando totalmente a fonte mais próxima da verdade revelada, que é o Magistério vivo. Só por semelhante atitude se tornam suspeitos os fautores de um novo cristianismo. Certamente não é desta maneira que se realizará o "aggiornamento" de que tanto falava João XXIII. Como esse Papa e seu Sucessor gloriosamente reinante, Paulo VI, entendem o "aggiornamento", já vos expusemos em Nossa Carta Pastoral a propósito da aplicação dos Documentos promulgados pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, datada de 19 de março do ano findo. Não há, pois, motivo para que retornemos sobre o mesmo assunto.

• V •

CARÍSSIMOS COOPERADORES E AMADOS FILHOS

As considerações que acabamos de fazer mostram a grande oportunidade das comemorações cinquentenárias das aparições da Virgem Santíssima na Cova da Iria. Nessas ternas visitas que nos fez a Mãe do Céu, Ela nos recomendou a oração e a penitência porque o mundo estava imerso no pecado e Deus era sumamente ofendido. Não é diversa a situação da sociedade nos dias de hoje. E podemos bem debitar os desvios doutrinários sobre os quais chamamos a vossa atenção, podemos debitar esse dessoramento da doutrina e da moral católica ao desejo imoderado do prazer, à falta de espírito de penitência e oração. De onde a necessidade de excitarmos em nós o amor da oração e da penitência, para oferecer reparação aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, para afastar os castigos merecidos pelos pecados do mundo, para conservar a integridade da Fé e para contribuir a que muitos pecadores se convertam.

O terço em família

E em primeiro lugar, fiéis à mensagem de Fátima, recomendamos-vos, caríssimos filhos, a reza do rosário de Maria. Como seria uma bela comemoração deste feliz cinquentenário, um presente agradável à Mãe de Deus e um penhor de salvação, se as famílias de Nossa Diocese retornassem ao costume tradicional das famílias católicas de se reunirem à noitinha para, com todos os membros juntos, pais e filhos, rezarem o terço do santo rosário! O rosário conta na sua história pelo menos quarenta e quatro Sumos Pontífices que o louvaram e recomendaram em mais de duzentos Documentos. Ainda o atual Papa, gloriosamente reinante, na Encíclica "Mense Maio" nos recomendava, a nós Pastores do rebanho de Cristo, "não deixeis de inculcar com todo o cuidado a prática do rosário, a oração tão querida da Virgem e tão recomendada pelos Sumos Pontífices, por meio da qual os fiéis podem cumprir da maneira mais suave e eficaz o mandamento do Divino Mestre: "Pedi e recebereis, procurai e achareis, chamai e abrir-vos-ão (Mat. 7, 7)".

Ouvi, caríssimos filhos, a palavra autorizada do Vigário de Cristo: é o rosário a maneira mais suave, portanto a mais fácil, e ao mesmo tempo a mais eficaz de cumprir o mandamento de pedir; e, pois, igualmente a mais eficaz para obter todas as graças de que havemos mister, e acima de todas a graça de viver e morrer na amizade de Deus.

Já muitas vezes ouvistes falar, caríssimos filhos, sobre a beleza e valor intrínseco do santo rosário. Nele falamos a Deus com as palavras do próprio Jesus Cristo, palavras que nos ensinou o Salvador precisamente para rogar ao Pai Celeste: "Quando orardes, dizei assim" (Luc. 11, 2). E nele nos dirigimos à Virgem Santíssima, à Onipotência suplicante, com a saudação que mais lhe fala ao Coração, porquanto é a saudação que Ela ouviu quando, tornando-se Mãe de Deus, se fez igualmente Mãe nossa. E para completar, o rosário nos habitua à meditação salutar dos mistérios de nossa salvação. É, pois, propriamente a oração do fiel, e uma resolução de recitá-lo sempre será ótimo meio de comemorar o cinquentenário de Fátima.

A devoção dos primeiros sábados

Outra devoção a que estão ligadas as visões de Fátima é a prática da comunhão reparadora dos primeiros sábados. Na Cova da Iria, a Virgem Santíssima anunciou que mais tarde viria pedir a comunhão reparadora nos primeiros sábados e com um fim determinado. Aparecendo à Lúcia a 10 de dezembro de 1925, ao pedido dessa comunhão reparadora Ela anexou a promessa de sua assistência na hora da morte. Eis suas palavras: "Olha, minha filha, meu Coração cercado de espinhos, com que me ferem os homens ingratos com suas blasfêmias e iniquidades. Tu ao menos procura consolar-me e divulga que Eu prometo assistir na hora da morte, com as graças necessárias para a salvação, a todos os que no primeiro sábado de cada mês se confessarem, comungarem, recitarem uma parte do terço e me fizerem companhia durante um quarto de hora, meditando sobre os mistérios com a intenção de me oferecer reparação".

A consagração ao Imaculado Coração de Maria

Mas, a parte principal da mensagem de Fátima refere-se à consagração e devoção ao Imaculado Coração de Maria e à penitência.

Na Cova da Iria aprendemos que Jesus deseja implantar na terra o reinado do Coração Imaculado de sua Mãe. Por isso, condicionou a salvação do mundo à consagração e devoção a esse mesmo Coração. Não há, no entanto, verdadeira consagração à Virgem Santíssima, sem o espírito e a prática da penitência, porquanto a consagração exige que continuamente reprimamos em nós as inclinações de nossa vontade e de nossos sentidos contrárias aos desejos da Virgem Mãe.

A penitência

De onde, a penitência, no sentido próprio da palavra — isto é, enquanto significa o arrependimento pelos pecados cometidos e a emenda de vida — é o meio para se chegar ao reinado do Imaculado Coração de Maria. Nossa Senhora insistia muito sobre a emenda de vida. Nos interrogatórios a que foram os pastorinhos submetidos, volta sempre esta recomendação da Senhora: que nos emendemos.

A emenda pede uma mudança de atitude com relação ao mundo e os prazeres dos sentidos. O cristão é o que não tem aqui na terra morada permanente, é o que vive com o pensamento no Céu. Por isso, tem o coração desapegado dos bens que sabe que são caducos e passageiros. Aspira aos bens eternos. Assim, igualmente, ele se despoja de si mesmo. Ele sabe que não nasceu para satisfazer às inclinações más das paixões. Ele sabe que precisa mortificar os sentidos para não ceder à violência de seus impulsos. Ele sabe que precisa disciplinar a vontade, pela humildade e obediência, não venha a acontecer que, no momento oportuno, ela não saiba dobrar-se quando seria imperioso submeter-se.

Assim, amados filhos, desejamos ardentemente que, por um exercício de todos os dias, vos habitueis à renúncia de vós mesmos. Não satisfazendo aos vossos desejos e gostos a não ser dentro do que é necessário ou conveniente, e sempre procurando ficar aquém do que pediria vossa vontade ou inclinação. Cremos que com esse exercício perseverante vos ireis habituando à renúncia de vós mesmos, e ao exercício da reta intenção em todas as coisas, de maneira que termineis tendo sempre em vista fazer a santíssima vontade de Deus. Sem confiar nas vossas forças, pedi sempre à Virgem Mãe esta graça, e Ela, ao ver vossa boa vontade, não vo-la negará.

A conversão dos pecadores

Fátima nos ensina outrossim a nos sacrificarmos pelos pecadores, pela conversão dos pecadores. É admirável o que fizeram nesta intenção as crianças que viram a Virgem. Como dissemos, pedem elas meças aos Santos do Deserto. Apesar de nossa miséria, não pensemos que não nos será possível atender também neste ponto à exortação da Virgem Santíssima. Temos muito que sofrer, independentemente de nossa vontade. São os sofrimentos que Nosso Senhor nos manda com o frio, o calor, os dissabores inerentes ao nosso estado de vida, e tantas outras coisas que nos mortificam e Nosso Senhor dispõe para nosso bem. São outros tantos meios que estão em nossas mãos e dos quais podemos dispor em benefício dos pobres pecadores. Se não nos aventuramos aos grandes sacrifícios que a si se impuseram os pastorinhos de Fátima, estes pequenos sacrifícios, aos quais podemos juntar alguns outros voluntários, não deixarão de ser aceitos em benefício dos pecadores.

*

DILETOS COOPERADORES E AMADOS FILHOS

Não deixemos passar estas duas datas memoráveis, o 250° aniversário do encontro da milagrosa Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, e o 50° das aparições da Virgem Mãe na Cova da Iria, sem um sério exame de consciência que purifique nosso modo de pensar e agir, que nos faça mais fiéis a Jesus Cristo, que nos afaste de proceder como o mundo hodierno, tão dado à sensualidade, tão distante do espírito do Divino Salvador. Que Nossa Senhora da Conceição que é a mesma Nossa Senhora do Rosário de Fátima vos alcance de seu Divino Filho esta graça.

E que a bênção de Deus Onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça sempre. Amém.

Dada e passada em Nossa episcopal Cidade de Campos, sob o Nosso sinal e o selo de Nossas armas, aos dois dias do mês de fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e sete, festa da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria.

† ANTONIO, Bispo de Campos


Igreja, mundo moderno

e progressismo

J. A. S.

O Revmo. Pe. JULIO MEINVIELLE goza de merecido renome nos meios intelectuais católicos do mundo inteiro. Desenvolvendo temas candentes com raro brilho e espírito polêmico, sua variada bagagem literária foi enriquecida no ano passado com mais uma obra: LA IGLESIA Y EL MUNDO MODERNO - EL PROGRESISMO EM CONGAR Y OTROS TEÓLOGOS RECIENTES (Ediciones Theoria, Buenos Aires, 1966).

Para dar uma amostra da riqueza dos assuntos abordados nesse livro, basta que citemos a distribuição da matéria pelos vários capítulos: O Mistério da Igreja no Vaticano II; O leigo na Igreja segundo o Vaticano II; O Mundo, em seus múltiplos significados, em face da Igreja; Igreja e Mundo em alguns teólogos progressistas; O Mundo Moderno utiliza o homem, previamente degradado, na construção da Tecnocracia; O Poder Oculto, judeu-maçônico, contra a Igreja; A Revolução anticristã dentro da Igreja; A Paixão da Igreja e o Mundo. Dois apêndices levam os títulos de "Perigos de um possível Cristianismo reencarnado" e "Os recentes documentos do Concílio Vaticano II".

Sobremaneira interessante e oportuno é o libelo que o Revmo. Pe. Meinvielle lança dessas páginas contra a atuação dos chamados teólogos progressistas, que ajudam nas próprias fileiras católicas os avanços da Revolução. E é esse grave aspecto da ação revolucionária dentro da Igreja que ocupa a maior parte do livro, dando lugar a passagens incisivas como, por exemplo, a que analisa as atividades do Revmo. Pe. M. D. Chenu, O. P.: "Chenu, O. P., é um dos teólogos mais afamados das novas correntes, e um dos que exercem influência mais decisiva. Formado nas ideias do "Humanismo Integral" de Maritain, nutrido com o personalismo de Emmanuel Mounier, levou primeiro ao campo teológico, e depois também aos amplos ambientes da cultura religiosa, estas ideias, que hoje se tornaram lugares-comuns, da antiga cristandade sacra) e da nova cristandade profana, do fim da era constantiniana e da Igreja em estado de cristandade, da nova pastoral para a Igreja em estado de missão, e do sacerdócio dos Padres-operários. Todas essas ideias são ditas e repetidas de mil maneiras diversas em copiosos artigos e conferências, e tendem a atuar, não tanto no entendimento e por convicção, mas por aproximação e na imaginação, até criar uma imagem de fatos que, analisados detidamente, não correspondem à realidade" (p. 126).

Fazendo um retrospecto da luta da Revolução contra a Santa Igreja e contra a cristandade a partir sobretudo, do século XVIII, páginas adiante mostra o Autor como essa Contra-Igreja "logrou penetrar dentro da inteligência dos católicos" por três caminhos principais: "Com Maritain e Mounier, deformando a mentalidade, especialmente nas aplicações práticas, de católicos que se reconhecem fiéis à especulação filosófico-teológica de São Tomás. Com as filosofias modernas, alterando as bases filosóficas, e com elas a própria teologia, dos pensadores católicos mais influentes na hora atual. Com Teilhard de Chardin, dando-nos uma religião nova, na qual se transpõem perigosamente os dogmas fundamentais da Igreja, em torno do Cristo Cósmico, que cristifica e diviniza o Homem e o Mundo Moderno" (p. 246).

Não escapou ao Revmo. Pe. Julio Meinvielle a mudança de tática dos inimigos da Igreja, que nos últimos tempos vêm passando "da posição de ofensiva para uma outra, de diálogo, de compromisso e mesmo de colaboração" (p. 247). Observa a propósito S. Revma. : "Até agora não se assinalou, que saibamos, o significado e a importância desta tática do inimigo. Entretanto ela se acha evidentemente vinculada ao propósito, manifestado hoje de diversas maneiras, sobretudo pelo comunismo, de contar com a colaboração ativa dos católicos e até da própria Igreja na construção da Cidade terrena que as Forças do mal estão apressadamente edificando" (p. 247).

Pediríamos licença ao Revmo. Autor para ponderar que o significado e a importância dessa nova tática do inimigo se acham devidamente indicados no ensaio "Baldeação ideológica inadvertida e diálogo", do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em "Catolicismo", n.° 178-179, de outubro-novembro de 1965, e do qual há agora uma versão castelhana que veio a lume em Buenos Aires, sob os auspícios de "Cruzada".

É pena, por outro lado, que entre a profusa bibliografia citada em "La Iglesia y el Mundo Moderno" não se encontre referência ao estudo "Revolução e Contra-Revolução", do Presidente do Conselho Nacional da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, obra de repercussão internacional e de consulta obrigatória para quem se proponha tratar com profundeza da crise do mundo moderno e da essência da Revolução que lhe dá origem, bem como do modo por que se há de levar a Contra-Revolução.

Se assinalamos essas duas omissões, não o fazemos para desmerecer o novo livro do Revmo. Pe. Julio Meinvielle, mas por lamentar que fique perdida uma oportunidade de estudar tão importante temática com os subsídios fornecidos por duas obras que, repetimos, julgamos fundamentais para o completo e eficiente desenvolvimento do assunto.


TEXTO DAS NOVAS

"CONVERSAS AVULSAS"

É o seguinte o texto das "Conversas Avulsas" do Exmo. Revmo. Sr. D. José de Medeiros Delgado, Arcebispo Metropolitano de Fortaleza, publicadas no "Correio do Ceará", edição de 28 de fevereiro p.p.:

– I –

Estou hoje, caro Dr. Manoelito sendo docemente obrigado a dirigir-me ao Sr., nestas Conversas Avulsas. Faço-o, movido pela admiração e estima que lhe tenho e instigado pela intromissão do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, lá de S. Paulo, em nossa vida de humildes nordestinos. Felizmente o inverno, neste momento, como o Sr. o sabe festejar em seu último romance "À Véspera do Dilúvio", se de um lado espalha apreensões, de outro reanima tudo. Reanima e leva-nos a vibrar intensamente, ainda quando encontramos pelo caminho uma vítima de traiçoeira emboscada. No seu romance foi o caso do mísero amante de D. Alice. Pobre João Paulo – exclama o leitor de "À Véspera do Dilúvio" – mas logo observa que o morto jaz mergulhado na lama e diz consigo mesmo: "é sempre melhor do que afogado na poeira esvoaçante da seca". Nasci no sertão paraibano e tenho um pouco da sua sensibilidade, embora desacompanhado do seu talento literário. Quase choro diante do outro cadáver, daquele de Miguelinho também em seu romance, dependurado da corda. Vejo-o, porém, a escorrer água da chuva; já nem sei se nas páginas do livro ou na minha imaginação de leitor sem memória, vejo-o redimido da seca do coração de ignorante, vítima dessa maldita ignorância que divide os homens e atira uns contra os outros, inclusive em polêmicas estéreis, como no caso do mais infeliz que só vive de polêmicas. Sem querer repetir, o fariseu do templo, acrescento imediatamente: "Meu Deus, eu e o Dr. Eduardo Campos não pertencemos a essa grei amaldiçoada".

– II –

Eu ia dizendo que estou impelido pelo Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, de São Paulo, mas em tempo de inverno e portanto com os nervos nos lugares, sem arrepios de mínima impaciência. Estou mesmo sorridente ao abrir estas "Conversas Avulsas". Só poder dizer com satisfação que este ano não iremos pedir esmolas no Sul, é uma glória. Até está sucedendo o contrário. O Sul é que anda mendigando 20% das migalhas destinadas ao Nordeste. Não sei do juízo que faz a tal respeito o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira. Não, ele só se ocupa de polêmica. É o sinal de sua grande e pobre vida, desde que escreveu um livro em "Defesa da Ação Católica". E isto vai muito longe. Jango nem era conhecido. Desde aquele tempo que o ilustre paulista só sabe atacar só sabe destruir. Quer ser bom, mas, à semelhança de nossos míseros Miguelinhos, não passa de um cangaceiro das letras católicas. Que ele se fique pelo Sul onde o bem-estar, felizmente, não o faz notado. No meio das alegrias da vida abundante de lá, é até vantajoso um polemista incorrigível como o nosso beatíssimo Dr. Plinio Corrêa de Oliveira.

Imagine meu doutor romancista, que, durante o Concílio, alguém se empenhou para levar aquele paulista ilustre às Aulas Conciliares. Ainda bem que não chegou a ir. Teria feito asa com um polemista da sua corrente integrista, um padre francês que vivia ao lado de um dos seus protetores – padre conciliar – tendo caído no ridículo de denunciar os Bispos de uma certa nação latino-americana aos dirigentes das Aulas Conciliares provocando um triste incidente. Tudo passou, mas o aborrecimento foi grande. Estou referindo-me a isso, muito de passagem, pelo fato do Dr. Plinio saber poucas cousas de integrismo, máxime em se tratando da presença de bispos integristas no Vaticano II. E acrescento logo: os brasileiros da dita escola eram, no caso, caudatários, simples caudatários. Ainda bem que nós brasileiros ainda não criamos doutrinas esdrúxulas, como o maniqueísmo, e o integrismo.

– III –

Não por ele, mas pelos que aqui se encontram, sobretudo pelos que estão entregues aos meus cuidados espirituais e queiram ouvir a minha palavra, é que venho pedir-lhe acolhida em "Unitário", se possível também em edição dominical, para as "Conversas Avulsas" de hoje.

Nelas, em homenagem ao que de positivo encontrei no longo artigo polêmico do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, quero dizer que apenas tenho a destacar a informação oferecida pelo articulista sobre a atitude dos membros da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e da Propriedade, protestando contra a inclusão de seu nome entre assinantes do panfleto espalhado em Roma.

A isso, a esse agradecimento pela informação, peço licença imediatamente para confessar que não me convenci da inexistência de assinatura no panfleto de alguma alucinado membro do movimento ou do "Catolicismo" – digo para argumentar com a opinião do Dr. Plinio – de que é impossível o membro de um movimento afastar-se da linha do seu veículo de publicidade.

Eu, como pastor, diante mesmo de censuras de alguém sem autoridade para tanto, tenho o dever de esclarecer aos que vivem em torno de mim.

Achei notável o silêncio do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira para a parte final das "Conversas Avulsas" de 27 de novembro de 1966, que ele veio a criticar pelas páginas de Unitário, como se seus colegas de Fortaleza fossem analfabetos. Naquele final, eu declarava e o repito aqui: "não reconheço autoridade moral e religiosa aos membros da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade para se imiscuir em assuntos religiosos e pastorais na minha Diocese". Ali está toda a gravidade do meu pronunciamento delicado, mas incisivo e é muito original que a este respeito o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira não tenha dado a mínima atenção. Só ali há alguma cousa de pesado, de grave, de importante para mim e isto eu faço questão de tornar público.

É tempo de dizê-lo para que não aconteça o que aqui já aconteceu em duas oportunidades: primeiro, por ocasião de uma luta política em Minas Gerais entre membros da Sociedade do Dr. Plinio e membros da Ação Católica e, mais perto de nós, quando da Campanha antidivorcista. Nesta última, passar da santidade da causa, os processos da referida sociedade tomaram aspectos de demagógicos e eu jamais os aprovaria. Por delicadeza moral, por excesso de respeito a alguns que reconheço vítimas de alienação pliniana, nada reclamei.

Concluo estas ingratas declarações, meu caro Dr. Manoelito, pedindo-lhe para o número de domingo, a reprodução das "Conversas Avulsas" que deram ocasião ao artigo do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira. Só assim o leitor inteligente fará um juízo crítico dos despropósitos do meu crítico de São Paulo. Se ele quiser diálogo, dispa a túnica de polemista deselegante.