MUITA COISA MUDOU NA FRANÇA DESDE O TEMPO DO SIRE DE BOURLEMONT
Alberto Luiz Du Plessis
A França, ao longo de sua história tão cheia de lutas e vitorias, mesmo no meio das piores vicissitudes bélicas procurou sempre manter em seus soldados um sentimento de honra baseado na ideia do valor militar e da lealdade para com os companheiros de armas. À sombra deste sentimento, mesmo depois dos mais graves reveses a nação se apresentou sempre com toda a altivez que a conduta honrosa durante a guerra assegura ao vencido, e assim pôde retemperar-se para novos embates. Francisco I, derrotado e aprisionado por Carlos V em Pavia, sabia que nada seria melhor para consolar sua mãe do que escrever-lhe que tudo tinha sido perdido, salvo a honra. A velha guarda de Cambronne, morrendo sem se render, num último «beau geste» inútil e brilhante, amenizava o amargor de Waterloo; a lembrança da carga dos couraceiros em Reichshoffen tornava menos dolorosa a perda da Alsacia-Lorena. Quanto à solidariedade para com os camaradas, a tradição da Legião Estrangeira de nunca abandonar feridos, quaisquer que fossem as circunstancias, constituía uma entre muitas expressões desse motivo de justo orgulho para a nação francesa.
Travou a França, até alguns anos atrás, longa e penosa luta na Argélia, assinalada por inúmeras provas de valor militar, que terminou de maneira esdrúxula: declararam os dirigentes franceses que, no campo de batalha, nada mais havia a fazer, pois a rebelião estava praticamente sufocada, podendo-se então passar a negociações de paz das quais resultaria a independência argelina. Ficava lançado assim o curioso princípio de que se deve primeiro ganhar as guerras para, em seguida, atender todas as vontades do adversário vencido. O fato é que, quer a França estivesse ou não em condições de continuar a luta, foram assinados, na cidade de Evian, acordos visando o fim das hostilidades e estabelecendo, desde logo, garantias para os franceses residentes na Argélia e para os muçulmanos partidários da França. Estas garantias previam, entre outras coisas, que, após a independência, seriam integralmente respeitadas a vida, liberdade e bens daqueles cidadãos. Além disso, poderiam eles, mesmo permanecendo em território argelino, optar pela nacionalidade francesa. Para assegurar a execução desse tratado, consideráveis forças francesas permaneceriam na Argélia enquanto fosse necessário. Até a plena independência, era criado um Executivo provisório, cujo presidente, Farés, em 30 ele março de 1962 proferia a seguinte alocução tranquilizadora: «Com patriotas europeus, uma nova página da história de nosso belo país abre-se, de hoje em diante, de maneira irreversível. Neste primeiro dia onde se escreve esta nova página, a mão que comigo vos estendem todos os argelinos — e eu digo bem : todos os argelinos — é uma mão confiante e leal. Se não quereis insultar o futuro, é juntos, graças aos acordos realizados em Evian, e por sua total, sincera e efetiva aplicação, que construiremos, contra ventos e marés, as sólidas fundações do Estado argelino de amanhã».
Seria muito longo, e não é o intuito deste trabalho, mostrar toda a felonia que se deparava nesses acordos que seus signatários eram os primeiros a saber que não seriam cumpridos, e nessas declarações enfáticas destinadas a enganar uma população que já começava a perceber toda a extensão de seu triste destino. Os fatos falam, neste sentido, melhor do que qualquer argumentação. Assim é que pouco mais de um mês após a independência, praticamente todos os franceses-argelinos (que eram perto de um milhão e meio de pessoas, incluindo muitas familiar estabelecidas na Argélia há mais de um século) tinham procurado asilo na França, levando consigo pouco mais do que a roupa do corpo. Massacres, roubos, violações, torturas, humilhações, violências de toda ordem, causaram este êxodo. Além das mortes devidamente constatadas, verificaram-se, naquele período, mais de cinco mil casos de desaparecimento por rapto, dos quais somente algumas centenas foram solucionados, constando que a maioria dos demais desaparecidos, homens e mulheres, ainda vivem, servindo a seus raptores como escravos. A ação da Cruz Vermelha Internacional foi tolhida, resultando vãs suas tentativas de localizar esses infelizes. Bastava ser de origem europeia para estar sujeito a toda espécie de sevicias. No dia 22 de setembro de 1962, um médico iugoslavo, em missão na Argélia para ajudar a edificar o socialismo, embora tenha exibido a sua carteira do partido comunista e alegado a sua nacionalidade, é abatido a tiros de metralhadora por milicianos argelinos, e sua esposa e filha, que se encontravam em sua companhia, são conduzidas para uma casa de infâmia. Se a essa altura alguém tinha ainda alguma ilusão sobre a validade dos acordos de Evian, o governo da Argélia independente incumbiu-se de dissipá-la, socializando (leia-se confiscando) as propriedades dos cidadãos de origem europeia.
A tudo isto o exército francês acantonado na Argélia, instituído pelos pactos de Evian como fiador dos mesmos, era obrigado a assistir sem nada poder fazer, contido pelo governo de Paris, apesar dos seus protestos.
Havia, no entanto, um espetáculo talvez ainda mais doloroso para esse exército do que o da perseguição a seus compatriotas. Referimo-nos à sorte dos muçulmanos que tinham combatido ao lado da França. Durante a guerra da Argélia lutaram nestas condições aproximadamente 260 mil muçulmanos, cifra muito elevada e que mostra que a causa que defendiam não era tão impopular entre os argelinos. Esses homens receberam de seus comandantes as promessas mais solenes de que, acontecesse o que acontecesse, estariam sob a proteção da França. Os acordos de Evian lhes asseguraram, expressamente, completa anistia e integração no novo país. Mas, pouco depois da independência, os oficiais franceses que os comandavam foram retirados na sua quase totalidade, e substituídos por outros que, munidos de instruções estritas do governo de Paris — sob o pretexto especioso de que as promessas dos antigos comandantes haviam sido feitas em nome pessoal — abandonaram as tropas muçulmanas à sua sorte.
O que se seguiu foi horrível. É evidente que num assunto como este qualquer estatística apresenta margem de erro muito grande, mas acredita-se que perto de 150 mil destes homens foram mortos, muitos em circunstancias atrozes. Empalados, mutilados, queimados ou enterrados vivos, esfolados, submetidos a ultrajes perante a populaça antes de perecerem, — é uma lista dolorosa e terrível. Poucos desses infelizes lograram chegar a portos de onde pudessem fugir para a França.
Várias unidades francesas, como a brigada de fuzileiros navais, desafiando as ordens, conseguiram, Deus sabe como, levar para a metrópole os muçulmanos que com elas serviam. A isto se deve que o número de mortes entre estes não tenha sido maior ainda. O amargor e a frustração que as ordens emanadas de Paris causaram na tropa é facilmente avaliável.
Muita coisa mudou na França, desde que o sire de Bourlemont dizia a seu primo Joinville, de partida para a cruzada: «Ides além mar: tomai cuidado com a volta, porque nenhum cavaleiro, nem pobre, nem rico, poderá retornar sem estar aviltado, caso deixe nas mãos dos sarracenos o povinho miúdo de Deus em cuja companhia partiu». Hoje é o governo francês que abandona franceses à sanha de sarracenos.
Parece destino dos filhos pródigos só tomar consciência de sua situação quando se acham no extremo da miséria. Fazemos votos de que a filha primogênita da Igreja, a pátria de São Luís e de Santa Joana d'Arc, o povo eleito da Nova Aliança, volte às suas tradições católicas, causa de suas incomparáveis glorias passadas e cujo abandono gradual, provocando a cólera de Deus, dá como fruto as humilhações presentes.
Pedecismo com goulash
Fabio Vidigal Xavier da Silveira
Na primavera de 1964, o infeliz Kruchev afirmou na Hungria que a tarefa primordial do comunismo era a de "encher o estômago" do povo. A isto se deu o pitoresco nome de "comunismo com goulash".
A ideia de que todos os problemas sociais se solucionariam se o problema da fome fosse resolvido, vem de há muito sendo defendida no Brasil e fora dele. Uma multidão de "católico-liberais" pedecistiformes, desviados da verdadeira doutrina social da Igreja, juram de pés juntos, em nome de Deus e de Marx, que a única saída para a questão social está em dar feijão para o povo. Só depois disto — dizem eles — se poderia pensar em começar a envidar os primeiros esforços para dar os primeiros passos no sentido de uma moderada e discreta pregação evangélica.
Falar de Jesus Cristo a um povo faminto e sofredor seria fundamentalmente injusto. Um tal povo — pretendem eles — não tem condições mínimas de vida para poder receber a pregação da Igreja. Se um mendigo se aproximar de um confessionário, o Padre deve — antes de lhe falar em Religião, antes de lhe incutir paciência e conformidade com o que a Providência permitiu lhe acontecesse — encher-lhe o estômago. Então, e só então, poderá elevar-se a considerações espirituais.
Se um São Bento José Labre vivesse hoje, teria que renunciar às pontes do Tibre e sair à procura de outros locais para dormir. Isto porque dormir em baixo de uma ponte, sem condições mínimas de higiene, impede o homem de cogitar de Deus.
Mas, o comunismo evoluiu... Telegrama da UPI noticia que o "Pravda", em sua edição de 17 de maio último, atacou a teoria de Kruchev. Afirma o órgão oficial do PC soviético que é um grave erro pensar que "encher o estômago" é a tarefa primordial do comunismo... Reconhece que é necessário dedicar "mais atenção" às necessidades do povo. Acrescenta, porém, que existem outras tarefas políticas e ideológicas importantes. E o telegrama lembra que "Kruchev foi muito criticado em Pequim por dedicar demasiada ênfase ao nível de vida do povo, em detrimento do movimento revolucionário internacional".
Só por superficialidade ou distorção ideológica se pode acreditar na mentira de que matar a fome e melhorar as condições de existência do povo sejam os ideais máximos leninistas. O que o comunismo quer realmente é destruir o que ainda resta da Cristandade, e instaurar sobre a face da terra um estado de coisas radicalmente anticristão. Antes de tudo a revolução comunista é ideológica, doutrinaria. E apresenta-se humanitária apenas para engodo dos incautos e inocentes-úteis.
Mas, o "católico-liberal-pedecista" continua a acreditar naquela teoria do ex-chefe moscovita. E, sempre macaqueador dos métodos comunistas, continua a difundir como verdadeira para a Igreja a tese já hoje recusada pelos novos kruchevs que ocupam o poder em todas as Rússias.
Continua a pregar o que se poderia chamar de "pedecismo com goulash". Nega-se a aceitar que a luta principal dos católicos deve ser travada no campo doutrinário. Quer lutar apenas no campo dos fatos, berrando sempre que aqui ou acolá os trabalhadores passam fome ou são mal remunerados. E, neste berrar contínuo, consegue apenas insuflar a luta de classes tão desejada entre nós pelos comuno-janguistas.
Os seguidores de Kossigin declaram hoje que uma demasiada ênfase sobre o problema do nível de vida do povo prejudica o movimento revolucionário internacional. "A contrário sensu" deveriam os católicos também compreender que uma demasiada ênfase sobre esse problema prejudica a nossa defesa contra o avanço da revolução marxista. Assim como eles, comunistas, nós temos também nossas "tarefas políticas e ideológicas" mais importantes do que o problema da fome.
Mas o nosso pedecista cego não vê isto. Só crê mesmo é no "pedecismo com goulash", que prepara irremediavelmente o comuno-janguismo com "paredon".
VIRTUDES ESQUECIDAS
SER PACÍFICO SEM SER PACIFISTA
Da vida de São Bernardino de Siena (1380-1444):
A justiça exige, a seu ver, a punição dos culpados; ele quer que os maus, os ladrões, os traidores sejam expulsos da cidade (...). É um dever detê-los em sua obra do demônio, impedi-los de corromper a casa, a cidade, o país, Deus o quer assim.
(...) Ele que tinha trabalhado tanto pela paz, soube evitar o pacifismo a qualquer preço. Grande pacífico, mas de modo nenhum pacifista. Mostrou-o claramente em 1440, quando reanimou os florentinos ameaçados pelo «condottiere» Piccinino, e exortou-os à batalha que foi uma vitoria. — («Saint Bernardin de Sienne», por Henri Clouard — Editions Franciscaines, Paris — 1946 — pp. 66 e 78).
In anniversario coronationis SS. D. N. Pauli Papae VI
O mês de junho, trazendo a festa de São Pedro, e no dia seguinte o aniversário da coroação de Sua Santidade o Papa Paulo VI, é para esta folha ocasião de experimentar uma emoção particularmente profunda, da qual participa por certo toda a vasta e pujante família de almas de "CATOLICISMO".
A adesão sem reservas à Cátedra de Pedro, a veneração e o afeto entranhados ao Vigário de Jesus Cristo, constituem disposições de alma que esta folha se esforça com o maior empenho em manter e estimular.
É com estes sentimentos filiais que saudamos a Nosso Santíssimo Senhor o Papa Paulo VI, pedindo a Nossa Senhora, que Ele aclamou Mãe da Igreja, que favoreça "ad majorem Dei gloriam" sua atuação à testa do Corpo Místico de Cristo, e que O conforte e ampare para a perfeita realização de sua sublime missão, quer quando, refulgente de gloria, preside o Sagrado Concílio Ecumênico, quer quando seu augusto múnus O leva a sofrer o embate inclemente, ora blandicioso, ora brutal, do comunismo ateu.