Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 174 | página 04-05

Vários títulos têm esta cidade, para ocupar um lugar de destaque na história da pátria. O pontificado de D. Antonio de Castro Mayer lhe assegura uma situação de ainda maior relevo na história da Igreja no Brasil.

As manifestações de inteligência e cultura, os lances de destemor heroico que refulgem na vida de nosso egrégio Bispo, dele fazem uma figura central nos grandes lances da vida da Igreja em nosso século. Com efeito, a atuação de S. Excia., transbordando do amplo cenário nacional para o internacional, se vem projetando em toda a cristandade, quer por suas luminosas obras, algumas das quais traduzidas em vários países, quer pela atuação que vem desenvolvendo no Concílio ao lado dessa outra grande figura de Prelado brasileiro internacionalmente famosa, que é o preclaro Arcebispo de Diamantina, D. Geraldo de Proença Sigaud.

Assim, «Catolicismo» se honra em iniciar hoje, em primeira mão, a publicação de mais um notável documento de nosso amado Bispo Diocesano

A exímia segurança de doutrina, características de um mestre, esta Instrução Pastoral alia aquela firmeza no amor tradição e aquela plena atualização no conhecimento do mundo contemporâneo dos problemas da Igreja em nossos dias, que são o traço distintivo da mentalidade e da obra intelectual de S. Excia. Revma.

Nossos leitores terão grande proveito em estudar este documento palpitante de atualidade e em o difundir quanto possível em torno de si.

INSTRUÇÃO PASTORAL SOBRE A IGREJA

D. Antonio de Castro Mayer, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo diocesano de Campos: ao Revmo. Clero Secular e Regular, às Revdas. Religiosas, à Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo, às Associações Religiosas e de Apostolado, e aos demais fiéis da Diocese de Campos, Saudação, Paz e Bênçãos em Nosso Senhor Jesus Cristo

Caríssimos cooperadores e amados filhos.

Eis-nos novamente a Nos entreter convosco sobre decisões do Concílio Ecumênico Vaticano II, do qual, apesar da Nossa indignidade, tivemos, pela misericórdia de Deus, a honra de participar. Em 1963, comunicávamos aos Nossos amados filhos a Constituição sobre a Sagrada Liturgia e o Decreto sobre os Instrumentos de Comunicação Social, importantes resultados dos trabalhos conciliares nas duas primeiras fases do Sínodo Ecumênico (cf. «Os Documentos Conciliares sobre a Sagrada Liturgia e os Instrumentos de Comunicação Social» — Ed. Vera Cruz — 1963). Nesta terceira fase, o Santo Padre, gloriosamente reinante, Paulo VI, promulgou três novos atos da magna Assembleia: a Constituição dogmática sobre a Igreja, e os Decretos sobre as Igrejas Orientais e sobre o Ecumenismo.

A colaboração da Diocese para o Concílio. Cumpre-Nos, no entanto, antes de entrar no assunto desta Nossa Instrução Pastoral, exprimir Nosso reconhecimento pela valiosa cooperação que, com vossas orações e boas obras, prestastes aos trabalhos dos Padres Conciliares. Contribuíram elas, certamente, para obter as luzes do Divino Paráclito, indispensáveis ao êxito do grande Sínodo. Continuai, amados filhos, essa vossa eficiente colaboração. Ela é, sem a menor dúvida, a mais eficaz que podeis dar para que este Concílio marque na Historia um progresso doutrinário e espiritual, com maior esplendor para a Igreja, Corpo Místico de Cristo.

É-Nos, outrossim, agradável salientar o generoso e solícito auxílio que, habitualmente, Nos presta no governo da Diocese, Nosso muito prezado Vigário Geral, Padre Antonio Ribeiro do Rosario, e que foi particularmente útil durante o período das sessões conciliares, em que a direção da Diocese ficou aos seus cuidados.

Não podemos silenciar também um outro auxílio de que somos devedores aos Nossos caríssimos Padres, o auxilio pecuniário com que procurastes aliviar as despesas que normalmente ocorrem em ocasiões semelhantes.

Eventos lutuosos. Infelizmente, ainda desta vez, aprouve à Providencia enlutar Nosso regresso. Em 1963, tivemos que lamentar a perda de dois zelosos operários da vinha do Senhor plantada nestes rincões fluminenses: o Revmo. Pe. Antonio Gaspar Coutinho e o Revmo. D. Suitberto Stenhard, monge beneditino, foram receber o prêmio dos muitos anos de ministério nesta Nossa querida Diocese de Campos. Desta vez, pesar muito mais profundo Nos invade a alma.

Os Revmos. Padres Antonio Gaspar Coutinho e D. Suitberto Stenhard terminaram normalmente o currículo terreno, após o ciclo comum de existência regularmente concedido ao homem. Neste ano, no entanto, registramos a trágica morte do Sacerdote diocesano, Mons. Jorge von Letto, roubado por mãos criminosas ao nosso convívio, após quase seis lustros de trabalho indefesso na baixada fluminense. Ao sufragarmos a bela alma de Mons. Jorge von Letto, apraz-Nos pensar que lá no Céu continua ele com a mesma bondade que o distinguiu na terra, de maneira que estará a impetrar o perdão para seus assassinos, e as graças para as paróquias de São Gonçalo dos Goitacases e, São Sebastião de Campos, que ficaram privadas do seu zelo sacerdotal.

Assunto desta Instrução Pastoral. Prestadas as homenagens que Nosso cargo e os anseios de Nossa alma exigiam, venhamos, caríssimos Cooperadores e amados filhos, ao assunto desta Nossa Instrução Pastoral. Como dissemos, três foram os atos do Concílio Ecumênico há pouco sancionados e promulgados pelo Santo Padre, gloriosamente reinante, Paulo VI: a Constituição dogmática sobre a Igreja, o Decreto sobre as Igrejas Orientais e o Decreto sobre o Ecumenismo. Dos três documentos, o mais importante é o que trata da Igreja. Podemos dizer que, entre os esquemas apresentados à consideração dos Padres Conciliares, o esquema «De Ecclesia» ocupava o posto central, com ramificações sobre, praticamente, todos os demais.

A Igreja na economia da Redenção. Aliás, o Mistério da Igreja tem lugar saliente no plano misericordioso com que Deus Nosso Senhor, na sua inefável bondade, Se dignou restaurar o gênero humano, decaído com o pecado de nossos primeiros pais.

Como sabeis, amados filhos, apiedou-Se o Senhor de nossa miséria, e, nos desígnios insondáveis do seu amor, resolveu nossa redenção por meio da obediência, até a morte de Cruz, de seu Unigênito, feito homem nas puríssimas entranhas da Virgem Maria, da qual nasceu em Belém de Judá. A obediência da Cruz satisfez plena e superabundantemente à Justiça Divina, e mereceu para todos os homens a remissão dos pecados e a restauração da filiação adotiva em Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Padre Eterno. Ora, esta remissão dos pecados e adoção de filhos e irmãos de Jesus Cristo determinou Deus se fizesse através da Igreja. Por isso, toda a economia da salvação do gênero humano é, na Revelação, relacionada com o Mistério da Igreja.

Importância do conhecimento da doutrina sobre a Igreja. Importante em si mesmo, o conhecimento da Revelação sobre o Mistério da Igreja é, além disso, um antídoto contra a heresia. Como se lê no Catecismo Romano, Santo Agostinho observa que «os Profetas insistiam mais em falar da Igreja do que do próprio Jesus Cristo. Previam que muito maior seria o número de pessoas a errarem e iludirem-se neste ponto, do que a respeito do mistério da Encarnação» (In Ps. 30, 15). Ao texto do Doutor da Graça, tece o Catecismo Romano o seguinte comentário: «Realmente, à guisa do mono que se figura homem, não deixaria de haver ímpios com a pretensão de que só eles são católicos, e com maldosa e soberba afirmação de que só entre eles existe a verdadeira Igreja Católica». Por tal motivo, «escapa facilmente ao tremendo perigo da heresia quem assimila esta verdade com plena convicção. Com efeito, a pessoa não se torna herege só por pecar contra a Fé, mas antes por menosprezar a autoridade da Igreja, e defender obstinadamente suas ímpias afirmações» (Catecismo Rom., Parte I, cap. X).

Exponhamos, pois, a doutrina católica sobre a Igreja, objeto do ensino solene do Concílio Ecumênico Vaticano II, não só para avivar nossa fé e disciplinar nossa vontade, como para nos precaver contra as insídias do demônio, que difunde astuciosamente seus sofismas pelo mundo, no intuito de perder as almas.

CAPITULO 1

A palavra «Igreja». Comecemos com a significação da palavra «igreja». Os latinos a tomaram dos gregos, e de si o termo quer dizer «convocação». Daí passou a indicar a assembleia composta daqueles que eram convocados. Mais tarde, o uso comum das Sagradas Escrituras levou a reservar a palavra «igreja» para designar o conjunto de todos os fiéis, ou a comunidade dos cristãos católicos que constituem o povo fiel disseminado pelo mundo inteiro (cf. Santo Agostinho, in Ps. 149). É nesta acepção que a tomamos, quando no Credo professamos: «Creio na Santa Igreja Católica». Em sentidos derivados, o vocábulo é usado para significar o templo ou local onde se reúnem os fiéis, ou também as varias comunidades que integram a Igreja Universal: assim pode falar-se da Igreja da Índia, da Igreja do Brasil, etc.

A Constituição conciliar trata da Igreja no sentido principal. DEla importa-nos muito conhecer a natureza, estrutura e finalidade, porquanto é deste conhecimento que Santo Agostinho afirma que é um antídoto contra as heresias.

A natureza da Igreja de Cristo. A natureza íntima, misteriosa e rica da Igreja foi objeto da pregação contínua e explanação variada do Divino Mestre. Desde que Ele iniciou suas caminhadas apostólicas, através das cidades, aldeias e campos da Palestina, jamais deixou de inculcar no espírito do povo a razão de sua vinda: instalar na terra o «Reino de Deus», ou também o «Reino dos Céus», expressão que tem o mesmo significado. Aos que se admiravam das expulsões dos demônios e outros milagres operados por sua onipotência, mais de uma vez, aproveitando-Se da atenção maior despertada pelos prodígios, Ele sublinhou a razão por que operava esses portentos: os milagres tinham por fim confirmar no povo a convicção de que o «Reino de Deus» tinha chegado, estava no meio dele: «Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o reino de Deus» (Luc. 11, 20). Ora, este «Reino de Deus» estabelecido por Jesus Cristo no mundo, e que se dilata até os Céus, é a Igreja. De onde, as muitas e formosíssimas parábolas, que dão aos Evangelhos um vivo e amável colorido oriental, só têm uma finalidade: fazer conhecidos os diversos aspectos e fases da Igreja de Cristo.

O redil e o rebanho de Cristo. Assim, é a Igreja comparada a um redil (cf. Jo. 10, 1 ss.), cuja entrada é constituída pelo próprio Jesus Cristo. Em outras palavras, só pode entrar na Igreja quem se entrega a Jesus Cristo, pela adesão da inteligência às verdades reveladas, e da vontade aos preceitos do Senhor. É a Igreja também o rebanho (cf. Jo. 10, 11 ss.), cujo pastor é novamente o próprio Jesus Cristo. Como bom pastor, Jesus Cristo guia, orienta, governa e apascenta suas ovelhas, os fiéis de sua Igreja.

Por estas parábolas, e outras semelhantes, vemos que a Igreja é algo de visível, de distinto, de palpável, como são o redil e o rebanho. A Igreja, portanto, ostenta ao mundo seus contornos precisos, seus Pastores, ou chefes legítimos que a dirigem. E, de fato, se Jesus Cristo Se diz Pastor do rebanho, após sua ascensão é mediante seus Vigários que Ele guia e apascenta suas ovelhas na terra, primeiro São Pedro, constituído por Ele mesmo, depois de sua ressurreição, em seguida os Sucessores de São Pedro, os Papas de Roma.

Estas características da Igreja de Cristo resume o Catecismo na seguinte definição: é a Igreja «a sociedade de todos os cristãos que professam a mesma fé e recebem os mesmos Sacramentos, sob obediência dos legítimos Pastores e principalmente do Papa» (Segundo Catecismo da Doutrina Cristã das Províncias Meridionais do Brasil). A mesma fé, os mesmos Sacramentos, a obediência aos legítimos Pastores são os limites que demarcam o redil de Cristo e a união com o Papa, Vigário de Jesus Cristo na terra, indica os legítimos Pastores do rebanho de Cristo.

Aspecto espiritual e místico da Igreja. A Igreja, porém, não se limita a esses traços externos que a fazem conhecida e a tornam o sinal elevado no meio dos povos a convidar à fé os que não creem, e a assegurar seus filhos do fundamento firmíssimo da fé que professam (cf. Conc. Vat. I, Sessão III, cap. 3). A indefectibilidade, com que a Igreja, impávida, desafia os tempos e paira acima das ruínas acumuladas pela História, é fruto do princípio interno que Lhe dá unidade, vida e vigor, como a alma que vivifica o corpo e cada um de seus membros. É o lado interior e misterioso da Igreja, também ele objeto de revelação do Divino Mestre em varias parábolas. Entre elas, sobressai a da videira e dos ramos.

A parábola da videira e dos ramos. «Eu sou a videira — disse Jesus Cristo aos seus discípulos — e vós sois os ramos. O ramo não pode dar fruto de si mesmo se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis dar fruto se não permanecerdes em Mim» (Jo. 15, 5). A sociedade, pois, que Jesus fundou é como uma videira, em que Ele é o tronco e os fiéis os ramos. Videira e ramos, tronco e sarmentos constituem um só ser, e vivem da mesma seiva que circula do tronco para os sarmentos. De onde, para que os ramos tenham vida e frutifiquem devem permanecer unidos ao tronco, e receber dele a seiva vivificadora. Aplicando-se à Igreja: Jesus Cristo é a videira, é o tronco, é a fonte de vida para todos os ramos, os membros da Igreja.

Perguntar-Nos-eis: Como se dá essa união entre os fiéis e Jesus Cristo, de maneira a passarem aqueles a viver da vida própria deste?

Realmente nós não nascemos unidos a Jesus Cristo. Nós nascemos até nos antípodas de Nosso Senhor. Nascemos escravos de Satanás; em nós dominavam o espírito e as máximas do demônio, dominavam nossos pecados. No Batismo, porém, fomos purificados de todas essas manchas, nele morremos ao pecado, e dele ressurgimos com uma vida nova, a vida de Jesus Cristo. De maneira que, no Batismo — a expressão é de São Paulo — fomos enxertados em Jesus Cristo, e assim passamos a viver de sua vida, a participar de sua seiva, como o enxerto vive e se sustenta da raiz do tronco no qual está enxertado e que lhe transmite a seiva vivificante (cf. Rom. 11, 17). Mediante nossa inserção, nosso enxerto, foi-nos transmitido o Espírito Santo, que passou a habitar em nossas almas e a nelas manter a vida sobrenatural, pela fé e pela graça, que é a vida de Jesus Cristo.

Como vedes, amados filhos, a parábola da videira nos introduz no Mistério da Igreja, sociedade sobrenatural, composta de homens, mas vivificada pelo Espírito Santo, o Espírito de Jesus Cristo que, sendo um só, faz com que a Igreja seja una e única: isto é, tenha internamente uma união íntima e articulada de todos os membros, à semelhança dos corpos vivos como a videira, que, embora com muitos ramos, é uma só videira, uma só arvore; faz outrossim que na terra não possa haver mais do que uma só Igreja de Cristo.

A família de Deus. A parábola da videira dá-nos o sentido profundo de outra expressão com que designamos a Igreja de Cristo, isto é, a família de Deus, porque a Igreja é a família de Deus (cf. Catecismo Rom., Parte I, cap. X; 1 Tim. 3, 15).

Em toda família há muitos membros, distintos uns dos outros, cada um com sua personalidade própria, todos unidos, não obstante, de maneira a formar uma só família. A unidade familiar provém da identidade de origem, de onde jorra o sangue que circula em todos os membros do mesmo lar. Assim, na família de Deus que é a Igreja. Há nEla muitos fiéis, distintos uns dos outros, e por vezes até muito diferentes entre si; todos, porém, entrelaçados uns com os outros de maneira a formar uma só família de Deus. Essa unidade é proporcionada pela graça que de Jesus Cristo se difunde por todos os fiéis, e pelo Espírito Santo, presente na Igreja e em cada um de seus membros.

Em toda família há uma mesa comum, e é na mesa comum, com o alimento de que nela se nutrem, que os membros da família renovam suas energias, conservam e desenvolvem sua vitalidade. Na Igreja há também uma mesa comum, a mesa da Santíssima Eucaristia; e é na Santíssima Eucaristia que os fiéis vão haurir o vigor sobrenatural para conservar a vida da graça e fazê-la frutificar, mediante a assimilação da vida de Jesus Cristo, num esforço contínuo de renúncia, austeridade e mortificação que destrua o homem velho, o homem do pecado, e dê lugar ao homem novo, feito à imagem de Deus, na justiça e na verdadeira santidade (cf. Ef. 4, 24).

A mesa eucarística, além do mais, mantém a união de todos os fiéis entre si e com o Divino Salvador, pois, no Sacramento do Altar, o alimento que lhes é oferecido é o próprio Jesus Cristo, que, pela comunhão, reaviva sempre a união existente entre Ele e todos os fiéis, e, nEle e por Ele, a união dos fiéis entre si. São Paulo expressa claramente esta verdade, quando afirma que embora sejamos muitos, formamos um só corpo, nós que participamos do mesmo pão (cf. 1 Cor. 10, 17).

A geração espiritual. A família cresce pela geração de novos filhos. Na família de Deus, há também o crescimento pelo aumento de fiéis, e esse acréscimo se obtém igualmente por uma geração, a geração — ou regeneração — do Batismo, que, como dissemos, nos transmite a vida nova de Jesus Cristo, e nos introduz na família de Deus.

A geração espiritual, no entanto, é uma geração virginal. Os filhos de Deus não nascem da carne, nem do sangue, mas de Deus (cf. Jo. 1, 13), mediante a fé e a caridade infundidas por Deus na alma.

Maria, Mãe da Igreja. No entanto, não quis Deus Nosso Senhor que, na sua família, faltassem aos seus filhos os carinhos e a solicitude materna. Dispôs, por isso, que seu Unigênito, ao entrar no mundo, o fizesse através da maternidade virginal de Maria Santíssima. Semelhante providencia instituiu a maternidade de Nossa Senhora sobre toda a Igreja, e sobre cada um dos seus fiéis. São Pio X explana, admiravelmente, tão consoladora verdade: «Deve-se estabelecer o princípio — diz ele — de que Jesus, Verbo de Deus feito homem, é ao mesmo tempo Salvador do gênero humano. Em consequência, como Deus-Homem, Ele tem um corpo qual os outros homens; como Redentor de nosso gênero, um corpo espiritual, ou, como sói dizer-se, místico, que outra coisa não é que a comunidade dos cristãos unidos a Ele pela fé, «embora muitos, somos um só corpo em Cristo» (Rom. 12, 5)». Em outras palavras: não podemos separar em Jesus Cristo, o homem e o Redentor, de maneira que a Mãe de Jesus Cristo o fosse do homem, sem o ser do Redentor. Jesus Cristo Se fez homem como Redentor; Ele não Se fez primeiro homem, e depois Se tornou Redentor: e sim, Ele Se fez homem já como Redentor, e isso desde o primeiro instante de sua virginal concepção. «Por isso — continua o Papa — no seio virginal de Maria, onde Jesus assumiu a carne mortal, lá mesmo Ele Se agregou um corpo espiritual, formado de todos os que deviam crer nEle. E pode-se dizer que Maria, trazendo a Jesus em suas entranhas, aí trazia outrossim todos aqueles cuja vida o Salvador já encerrava. Todos, portanto, que unidos a Cristo somos, consoante as palavras do Apóstolo, «membros de seu corpo, de sua carne e de seus ossos. (Efes. 5, 30), devemos julgar-nos nascidos do seio da Virgem Maria, de onde um dia saímos, qual o corpo unido à cabeça» (São Pio X, Enc. «Ad Diem Illum», de 1° de fevereiro de 1904). No mesmo sentido, São Luís Maria Grignion de Montfort explica a maternidade mística, pela qual Maria Santíssima, como Mãe da Igreja, é Mãe de todos os fiéis. É inconcebível, salienta o Santo, uma geração que forme a cabeça e não forme os membros: seria um monstro, e, na ordem da graça, há coisas miraculosas, extraordinárias e sublimes, incompreensíveis mesmo — mas não há coisas monstruosas. De maneira que Maria Santíssima, gerando a Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, necessariamente deve ter gerado outrossim o corpo dessa cabeça, ou seja, os fiéis incorporados a Jesus pela fé, professada e praticada. De onde, pela maternidade divina, que a faz Mãe de Deus, Maria Santíssima se torna Mãe de toda a Igreja e de cada um dos fiéis, num sentido real, verdadeiro, sublime, bem que de ordem sobrenatural e, portanto, misteriosa (cf. Tratado da Verdadeira Devoção, cap. I, art. I, segundo princípio).

A função materna de Maria Santíssima na Igreja. A maternidade da Virgem Santíssima na Igreja é contínua, ou seja, pede de Maria uma solicitude de todos os instantes: primeiro para que aumente sempre o número dos filhos de Deus; depois, para que a incorporação a Jesus Cristo, uma vez realizada, não só se conserve, senão que se torne sempre mais perfeita. Eis que, na sua função mística de Mãe da Igreja e Mãe dos cristãos, a Virgem Maria está sempre vigilante.

É possível, neste ponto, uma aproximação entre a vida da Igreja e o mistério da vida em Deus Uno e Trino. Como sabemos, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho, é realmente distinta da Primeira, o Pai, como também o é da Terceira, o Espírito Santo. Não obstante, a Escritura nos diz que o Filho permanece no seio do Pai Eterno: «o Unigênito que esta no seio do Pai, Ele nos revelará — Unigenitus qui est In sinu Patris, Ipse enarrabit» (Jo. 1, 18). Continua, pois, o Filho no seio do Pai Eterno, apesar de ser Pessoa distinta. Esta permanência e esta distinção exprimem-nas as Sagradas Letras quando colocam nos lábios do Pai Eterno as palavras dirigidas ao Unigênito: «Filius meus es tu, ego hodie genui te — Tu és meu Filho, eu hoje Te gerei» (Heb. 1, 5). Os exegetas explicam que aquele «hodie — hoje» ai está para indicar que a geração do Filho é perene, é sempre atual, é eterna, de maneira que o Filho Se conserva sempre no seio do Pai Eterno. O passado «genui — gerei» dá a entender que a geração não é imperfeita, incompleta, e sim íntegra na sua finalidade, dela resultando como consequência natural, uma Pessoa perfeita, distinta daquela que a gerou. Aplicando-se a Maria Santíssima: também podemos dizer que Jesus Cristo, em certo sentido, permanece no seio virginal de sua Mãe Imaculada, embora sua geração temporal tenha sido perfeita e Lhe tenha dado a propriedade de homem perfeito, perfeitamente distinto de sua Mãe; porquanto a incorporação dos fiéis a Jesus Cristo é obra que durará até o fim dos tempos. De onde, podemos dizer que Maria Santíssima conserva em seu seio místico a Jesus Cristo para dar-Lhe a plenitude de seu Corpo Místico, só completo e perfeito quando consumado na gloria celeste.

A Igreja, nossa Mãe. Como à Virgem Santíssima, a justo título, como vimos, chamamos de Mãe, Mãe da Igreja e Mãe nossa, assim igualmente com justiça dizemos que a Igreja é nossa Mãe, nossa Santa Madre Igreja.

Pois, de fato, é na ordem sobrenatural quem nos gera pelo Batismo, quem nos nutre com a Santíssima Eucaristia, quem nos educa com o Evangelho, quem nos forma na caridade do convívio familiar dos filhos de Deus. Por isso dizemos que nos devemos manter no seio da Igreja, a fim de que Ela exerça sobre nós sua solicitude materna.

A ação materna da Igreja e a ação materna de Maria operam juntas. É na Igreja que encontramos a maternidade de Maria, é pela Igreja que Maria atua maternalmente sobre nossas almas, conformando-as à imagem de seu Divino Filho.

As relações entre Maria e a Igreja, nas funções maternas, estão consagradas pela Tradição. «Ambas, sem impureza, conceberam do mesmo Espírito Santo; ambas sem pecado geraram para Deus Pai. Uma, sem pecado, deu ao corpo sua Cabeça; a outra, na remissão dos pecados, deu à Cabeça seu corpo. Ambas são Mãe de Jesus Cristo, mas nenhuma O gera todo inteiro sem o concurso da outra. Assim é com toda razão que, nas Escrituras inspiradas, o que se diz, em geral, da Virgem Mãe que é a Igreja, se compreende também, em particular, da Virgem Maria, e o que é dito, em particular, da Virgem Mãe Maria, entende-se também de modo geral da Virgem Mãe que é a Igreja, de sorte que o que é afirmado de uma ou de outra pode-se de ordinário aplicar indiferentemente a uma e à outra» (Isaac de Stella, Abade de l'Etoile, Sermão 51, apud E. Mersch, «Le Corps Mystique du Christ», tomo I, p. 155 — ed. 1936).

Igreja, Corpo Místico de Cristo. A explanação da maternidade de graça, que relaciona Maria Santíssima com a Igreja e os fiéis, levou-Nos a antecipar algumas observações sobre o Corpo Místico de Cristo. Esta definição da Igreja, consagrada pela Encíclica de Pio XII, «Mystici Corporis», merece maior desenvolvimento, pois nos auxilia a completar a doutrina sobre as características da Santa Igreja.

Dizendo que a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, indica São Paulo que hemos de conceber a sociedade instituída por Jesus Cristo à maneira do corpo humano. «Como o corpo — escreve o Apostolo — é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também Jesus Cristo» (1 Cor. 12, 12). Com semelhante expressão, São Paulo afirma a unidade interna da Igreja, fruto do Espírito Santo, que vivifica a Igreja inteira e cada um de seus membros, como a alma dá vida ao corpo e aos membros: «Em um só Espírito fomos batizados — continua o Apóstolo — todos nós, para formar um só Corpo» (1 Cor. 12, 13). É unidade que não destrói a natureza pessoal de cada fiel, mas os congrega todos pelos laços invisíveis da fé e da graça, de maneira que torna verdadeira e própria a expressão de Jesus Cristo a Saulo, perseguidor da Igreja: «Eu sou Jesus a quem persegues» (At. 9, 5).

A expressão do Apóstolo mostra, outrossim, que na Igreja os membros não são iguais, mas que há entre eles diferenças e subordinações, da mesma maneira que no corpo humano todos os órgãos não são os mesmos, e embora todos gozem da mesma dignidade enquanto humanos, sem embargo nem todos têm as mesmas excelências, o que não quer dizer que uns possam menosprezar os outros, porquanto todos são necessários, como necessária é a subordinação entre eles para o bem-estar do todo, e isso segundo o determinou o Criador da mesma natureza.

É tão inata no coração do homem, após a queda, a rebeldia contra as legítimas superioridades, que São Paulo se demora em explicar aos coríntios esta verdade. As palavras do Apóstolo têm hoje igualmente grande oportunidade, pelo que vamos recordá-las: «O corpo — assim ele — não consiste em um só membro, mas em muitos. (...) Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Mas, Deus dispôs os membros do corpo, cada um como Lhe aprouve. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Há, pois, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: eu não preciso de ti; nem ainda a cabeça aos pés: vós não me sois necessários. Antes, pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos, são os mais necessários. E os membros do corpo que temos por mais vis, a esses cobrimos com mais decoro. Os que em nós são menos decentes, recatamo-los com mais decência, ao passo que os membros decentes não têm necessidade de decoro» (1 Cor. 12, 14 e 17-24).

Igualdade e desigualdade na Igreja. Assim, na Igreja somos «o corpo de Cristo, e cada um, de sua parte, é um de seus membros» (1 Cor. 12, 27). Inculca neste passo o Apóstolo — e Nós julgamos conveniente sublinhar — que todos os membros da Igreja têm uma dignidade fundamental, que é a mesma em todos, como filhos de Deus, membros de Jesus Cristo, chamados todos à perfeição. Sob este ponto de vista, não há na Igreja discriminação entre os fiéis, sejam eles «judeus ou gregos, servos ou livres» (cf. Gal. 3, 28), isto é, pertençam a esta ou àquela nação, tenham esta ou aquela condição social.

Ao lado dessa dignidade fundamental, comum a todos os membros da Igreja, que deve, por sua alta excelência, ser por todos reconhecida e respeitada, dispôs Deus uma desigualdade requerida pelas funções e ministérios, indispensáveis num corpo organizado. Semelhantes funções e ministérios importam novas dádivas que são outras tantas excelências, que devem, igualmente, ser reconhecidas e tomadas no devido respeito; como, numa família, sem inveja, antes com amor, todos acatam e veneram a autoridade dos pais, sem que nenhum filho pretenda tomar-lhes o lugar ou usurpar-lhes a dignidade.

Por seu turno, os que foram distinguidos pela Providencia com maiores dons, a fim de exercerem na Igreja funções ou ministérios especiais, não têm razão alguma de menosprezar os demais, consoante a palavra do Apóstolo: «que tens que não recebeste? e se recebeste, por que te vanglorias, como se o não tivesses recebido?» (1 Cor. 4, 7).

A economia da graça, caríssimos filhos, tem o sigilo da harmonia divina. Santo Agostinho afirma que onde há humildade, aí há majestade: «ubi humilitas ibi maiestas» (Serm. 24). Realmente, a majestade só se compreende à imitação de Jesus Cristo, que, apesar de suas prerrogativas divinas, veio ao mundo para servir os homens; assim todas as dignidades na Santa Igreja (o mesmo se diga da sociedade), que, objetivamente, envolvem excelências singulares — o que é preciso reconhecer — são de fato constituídas em benefício da comunidade, como todas as partes do corpo servem ao bem comum do organismo. Além do mais, a escala ascendente dos graus de excelência na Igreja — como em geral na ordem dos seres — induz a alma a um conhecimento menos imperfeito da inefável grandeza de Deus. Tem, pois, outrossim, uma missão pedagógica. São Pio X dava como característica do espírito modernista o desejo de despojar a autoridade religiosa de todo aparato exterior, dos ornamento pomposos pelos quais ela se apresenta num como espetáculo. Nisso, acrescenta o Papa, esquecem-se os modernistas de que a Religião, se pertence à alma, nela não se confina; e de que as honras tributadas à autoridade redundam em homenagem a Jesus Cristo, que a instituiu(1).

As riquezas da Igreja de Cristo. São Paulo, em vários lugares, enumera diversas espécies de dons carismáticos com que Deus Nosso Senhor enriqueceu a sua Igreja, o dom da ciência, o da profecia, o das línguas, o dos milagres, e outros mais (cf., por exemplo, 1 Cor. 12, 28). São chamados graças gratuitas, para indicar que são concedidos em benefício da Igreja, e não propriamente em benefício de quem os recebe. Assim, podem existir mesmo em pessoas reconhecidamente pecadoras. Semelhantes dons, o Espírito Santo os distribui segundo seu beneplácito, e temerariamente não os devemos pedir. Aliás, embora sejam concedidos livremente pelo Espírito de Deus, a fim de que na Igreja haja ordem e harmonia em toda a sua atividade ficam eles subordinados às Autoridades Eclesiásticas, que devem julgar de sua autenticidade e regular seu exercício; não podem, no entanto, menosprezá-los, mas devem examiná-los e aprovar aqueles que são legítimos.

A ação do Espírito Santo, alma da Igreja, não se limita à concessão dos dons carismáticos. Antes, não é principalmente por eles que se exercita na Igreja a ação do Divino Paráclito. Há graças ordinárias, dons comuns, os Sacramentos e os ministérios, que são os instrumentos de santificação com que o Espírito Santo santifica e governa a Igreja, fá-la florescer, renova-a continuamente e conduz à união consumada com o celeste Esposo, Jesus Cristo.

Igreja, povo de Deus. Há ainda uma figura da Igreja no Velho Testamento que convém seja exposta com algum desenvolvimento. É a do povo de Deus.

Como sabeis, amados filhos, Deus Nosso Senhor escolheu a Abrão como germe da nação eleita. Mudou-lhe mesmo o nome para Abraão, a fim de significar que ele seria pai de um grande povo (cf. Gen. 15, 5). E, de fato, estabeleceu o Senhor aliança com a descendência do magno Patriarca, e a ela gradualmente revelou os desígnios de sua misericórdia. Todas estas coisas, no entanto, como ensina São Paulo, eram uma figura da realidade messiânica. O povo eleito preparava a revelação da nova raça eleita, que formariam os fiéis da Igreja de Deus espalhados por todos os recantos da terra.

Semelhanças e diferenças entre o povo eleito e a Igreja. Entre o povo eleito da Antiga Aliança e a Igreja de Deus, há semelhanças e diferenças. Ambos são frutos do amor misericordioso de Deus; com ambos fez o Altíssimo um pacto selado com o sangue de vítimas imoladas em verdadeiro culto ao Senhor. No entanto, ao passo que o povo eleito da Antiga Lei se circunscrevia a uma família, a uma raça, mediante a comunhão do sangue; o novo povo eleito se estende a todas as nações, sem distinção de estirpe, língua ou país; o elo de união entre seus membros não é o vínculo carnal, mas a graça do Batismo. Também o sangue do sacrifício que o constituiu não foi o de bezerros e outros animais irracionais, mas o Sangue Divino do Cordeiro Imaculado, imolado na ara da Cruz (cf. Heb. 9, 15 ss.). Por fim, a existência do novo povo eleito não é efêmera, como foi a do antigo, que deveria ceder lugar à realidade dos tempos messiânicos. A Igreja, o novo povo eleito, pertence à plenitude dos tempos, atravessará os séculos e penetrará na Eternidade. Neste novo povo eleito, dá-se a verdadeira santificação prefigurada nas abluções legais do Velho Testamento.

Universalidade da Igreja. Pode a Igreja ser um «pusillus grex», de fato é o germe de salvação, de esperança e unidade para todo o gênero humano. Na comunhão de vida, caridade e verdade em que é constituída por Jesus Cristo, torna-se Ela instrumento da Redenção para todos os homens.

A Igreja, com efeito, se destina a todos os povos. NEla todos encontram os meios de salvação e mesmo fatores de prosperidade terrena; porquanto, animada pelo Espírito Santo, Espírito de verdade e Amor substancial de Deus, a Igreja transcende os tempos e os espaços, não está jungida a nenhuma raça ou nação, e por isso vivifica tudo quanto há de bom e belo nos mais variados povos, elevando-os à dignidade de povo cristão.

Prerrogativas do novo povo de Deus. Ao novo povo de Deus saúda São Pedro como «a geração escolhida, o sacerdócio real, a gente santa, o povo de conquista para que publique as perfeições de Quem o chamou das trevas à sua luz admirável» (1 Pedr. 2, 9).

O sacerdócio real, excelência comum a todos os membros da Igreja, é o decorrente do Batismo. Este Sacramento, realmente, torna a pessoa sagrada, ungindo-a com o Sangue do Cordeiro sem mancha, e ordenando-a ao culto divino. O sacerdócio real recebido no Batismo, exercem-no os fiéis no uso dos Sacramentos, nas orações, no exemplo de vida cristã, na mortificação, na prática das virtudes enfim, especialmente da caridade, pois todas estas atividades constituem as hóstias espirituais de que fala São Pedro (cf. 1 Pedr. 2, 5), que devem os fiéis apresentar a Deus Nosso Senhor. Todas estas hóstias, e a si mesmos, oferecem os fiéis em união com Jesus Cristo — hóstia do Novo Testamento — no Sacrifício da Missa, por meio do Sacerdote ministerial, criado pelo Sacramento da Ordem (cf. Enc. «Mediator Dei» de Pio XII, de 18 de dezembro de 1947 — AAS, vol. 39, p. 557).

Diferença entre o sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial. Quer o sacerdócio comum dos fiéis, quer o especifico dos Padres são participações do sacerdócio de Jesus Cristo, porém essencialmente diversas. Pio XII os distancia tanto quanto o Batismo separa os fiéis dos pagãos. De fato, o Sacramento da Ordem dá ao homem o poder de agir representando a pessoa de Jesus Cristo para renovar incessantemente o Sacrifício redentor da Cruz, que o Padre oferece em nome do povo fiel. Faculta-lhe ainda perdoar os pecados e formar a «gens sancta», o sacerdócio real dos fiéis. Este se apresenta, portanto, como fruto do sacerdócio ministerial.

Toda esta doutrina se contém na Encíclica «Mediator Dei» : «Assim como o Batismo — diz Pio XII — distingue os cristãos e os separa daqueles que não foram purificados na água regeneradora e não são, portanto, membros de Cristo, assim o Sacramento da Ordem distingue os Sacerdotes de todos os demais fiéis não ungidos com este carisma, porque só eles, por vocação sobrenatural, foram chamados a este sagrado ministério, que os destina ao serviço do altar e os constitui os instrumentos divinos, por meio dos quais a vida sobrenatural se comunica ao Corpo Místico de Cristo. Além disso, só eles é que são marcados com aquele caráter indelével que os conforma a Cristo Sacerdote, e só as mãos deles é que são consagradas, «para que tudo o que abençoarem seja abençoado, tudo o que consagrarem seja consagrado, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Pont. Rom.). Aos Sacerdotes, pois, hão de recorrer todos quantos desejem viver em Cristo, para deles receberem conforto e o alimento da vida espiritual, o remédio salutar que os cure e robusteça para se levantarem felizmente da perdição e ruína dos vícios, a benção que consagre a sua vida doméstica, a oração que lhes dirija o último alento desta vida mortal para a entrada na eterna bem-aventurança» (Enc. «Mediator Dei» — AAS, vol. 39, p. 539).

O «sensus fidei». Declara São Pedro que o novo povo de Deus deve publicar as perfeições de Quem o chamou das trevas para sua luz admirável. É a missão que tem a Igreja de, pela fé nas verdades reveladas, pela esperança dos bens futuros e pela caridade para com Deus e os homens, dar ao mundo testemunho vivo de Jesus Cristo. No desempenho de tal missão, goza o povo de Deus da prerrogativa da infalibilidade, quando, sob orientação dos legítimos Pastores, bem que espalhado pelo mundo todo, professa ele unanimemente como reveladas verdades de fé e costumes. Em semelhante caso não pode errar. Age nele o «sensus fidei», suscitado e mantido pelo Espírito Santo. Testifica ele então uma palavra não humana mas de Deus (cf. 1 Tes. 2, 13).

Variedade na unidade do povo de Deus. O povo de Deus, a Igreja de Cristo, casta Esposa do Cordeiro, ostenta variegado adorno, formado pelo colorido multiforme dos vários povos, das muitas Ordens e Congregações religiosas, das diversas Igrejas particulares, com suas tradições, usos e costumes que nelas florescem sem perturbar a unidade visível na mesma fé, nos mesmos Sacramentos, sob obediência do Papa, Bispo de Roma, conservando a mesma caridade no Espírito Santo que torna comuns as riquezas espirituais, os operários apostólicos e mesmo os auxílios materiais, de acordo com a advertência do Príncipe dos Apóstolos: «Cada qual, segundo o dom que recebeu, comunique-o aos outros, como bons dispensadores da multiforme graça de Deus» (1 Pedr. 4, 10).

1) «Em geral criticam (os modernistas) a Igreja por que, sendo o fim do poder eclesiástico espiritual, não lhe assentam bem essas exibições de aparato exterior, com que sói comparecer às vistas da multidão. E quando assim o dizem, procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que as honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que a instituiu» (Enc. «Pascendi», trad. de S. Em. o Sr. Card. Arcoverde).