Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 97 | página 08

Já se vai tornando tradição que, no primeiro número de cada ano, coincidindo com o aniversário do jornal, o Bispo Diocesano escreva uma carta de análise e orientação para "CATOLICISMO".

Também desta vez, graças a Deus, só tenho paternais aplausos a dar ao benemérito mensário. De todas as partes, só recebo a respeito dele ecos elogiosos. Digo-o com toda a objetividade, pois tenho como elogios não só as palavras de ardente admiração daqueles a quem a folha conforta e estimula no amor à doutrina, à Hierarquia, às leis e às instituições da Santa Igreja, mas ainda as críticas daqueles que se sentem estorvados pelo jornal, na ação tão deletéria que desenvolvem para desorientar as almas.

Um dos aspectos pelos quais essas críticas mais evidentemente contêm um alto elogio é o que elas têm de vago, de genérico, de impreciso. "CATOLICISMO" é intransigente em excesso, descaridoso, incompreensivo, diz-se uma ou outra vez. Mas em que número, em que artigo, em que palavras isto se mostra? "Interrogo o silêncio, e ninguém responde", diria o grande Veuillot. Silêncio confuso de quem nada tem de concreto a alegar. O jornal é incompatível com o espírito dos tempos, dizem outros. Mas seu âmbito de influência vai crescendo a olhos vistos, principalmente entre os moços, que por ele se entusiasmam em tão grande número.

Que os leitores, os assinantes, os amigos elogiem um jornal, é normal. Mas que seus adversários nada tenham a dizer contra ele, a não ser coisas vazias e imprecisas, eis o que é concludente.

Mais especialmente, no fim deste ano consagrado às comemorações centenárias das aparições de Lourdes, desejo fazer a "CATOLICISMO" uma recomendação. Tudo quanto nele se pode encontrar de bom, lhe vem da singular devoção que tem a Nossa Senhora, e do empenho com que a difunde entre seus leitores. Se o jornal quer desenvolver-se, cumpre que cresça sempre e sempre mais nesse espírito marial. E que tudo faça para que nele também progridam seus leitores. Quanto mais ardente e profundamente estiverem todos ligados ao canal das graças, tanto mais plenamente receberão os dons que brotam da fonte infinitamente fecunda, que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este crescer indefinido na devoção a Nossa Senhora não traz em si o risco de qualquer exagero. De uma causa tão integralmente boa, como o amor à Mãe de Deus, nada de mau pode provir. O mal só pode resultar de algum defeito cuja causa esteja no devoto e não na devoção. E como tudo quanto é mal se evita pela união com Maria, o melhor meio de um fiel evitar os exageros na devoção a Nossa Senhora consiste em crescer sempre e sempre na união com Ela.

Entre os muitos frutos que devemos tirar da piedade mariana, assinalo com particular comprazimento um em que o jornal louvavelmente insiste, isto é, uma filial e amorosa obediência ao Santo Padre e à Sagrada Hierarquia. O espírito de Maria é um espírito de obediência. E nenhuma forma de humildade agrada mais a Deus do que a submissão respeitosa e filial à Hierarquia Eclesiástica.

Neste espírito, não têm faltado e nunca faltarão a "CATOLICISMO" as mais copiosas bênçãos do Céu, das quais é penhor a bênção que de todo coração lhe dá o Bispo Diocesano.

† Antonio, Bispo de Campos


São Tomas de Aquino, o «Doctor Communis».

O METODO MERAMENTE HISTÓRICO DESVIA DE SEU FIM O ENSINO DA FILOSOFIA

Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades formulou recentemente importantes diretrizes acerca do ensino da Filosofia nos estabelecimentos secundários da Itália.

O documento, datado de 1º de julho de 1958, e assinado pelo Emmo. Cardeal Pizzardo, Prefeito daquele Dicastério, é dirigido, sob a forma de Circular, aos Bispos, aos Superiores Gerais dos Institutos Religiosos que se dedicam ao magistério, e às entidades educacionais católicas daquele país. Suas normas visam sanar os graves inconvenientes decorrentes do método histórico, empregado no curso de Filosofia por exigência dos programas oficiais italianos.

É evidente que as sabias orientações da Sagrada Congregação têm um alcance que ultrapassa as fronteiras da Itália, e são particularmente oportunas para o Brasil.

Também entre nós, com frequência, as aulas de Filosofia do curso secundário se reduzem, na melhor das hipóteses, a uma simples apresentação das escolas de pensamento que surgiram ao longo dos séculos. Esse método, desacompanhado da exposição dos valores absolutos da Filosofia Perene, tem levado a confusão ao espírito de muitos jovens, com serio prejuízo para a sua formação espiritual e até para a própria fé.

Propomos à meditação de nossos mestres e responsáveis pela organização do ensino os termos dessa luminosa Circular, que traduzimos do texto difundido pela edição semanal em língua francesa do "Osservatore Romano", de 12 de setembro de 1958.

Deixamos de publicar a parte final, mais relacionada com os problemas específicos suscitados pelo programa de ensino italiano.

Escreve a Sagrada Congregação:

"Segundo as melhores tradições de nossa Escola, o estudo da Filosofia tende a formar o espírito dos alunos no que toca aos problemas mais importantes relacionados com a vida individual e social, concebida no mais autêntico sentido humano e cristão. Mas decorre de inquéritos muito sérios que o ensino atual da Filosofia, ministrado de acordo com métodos quase exclusivamente históricos, não preenche seu nobre papel e, muito pelo contrário, expõe o aluno a numerosas dificuldades. Não possuindo, com efeito, uma formação mental suficiente e critérios sólidos que lhe permitam julgar a consistência dos diferentes sistemas, o jovem estudante vai deparar com três gêneros de males: ou não terá mais confiança alguma na possibilidade de nossa razão chegar a conhecer a verdade, cedendo assim a um relativismo e a um cepticismo igualmente desastrosos; ou aceitará sem mais as opiniões de seu professor, sem controle, sem convicção, e até mesmo numa adesão mais ou menos superficial e servil; ou — o que ocorre com maior frequência — acabará por desinteressar-se totalmente da Filosofia e de seu objeto, que é a pesquisa da verdade.

O "Doctor Communis", expondo no capitulo 1º da "Summa contra Gentiles" a função do Sábio, lembra que a própria Divina Sabedoria atesta ter vindo ao mundo para dar testemunho da verdade (Jo. 18, 37), e acrescenta, como já o declarava Aristóteles, que a Filosofia é a "ciência da verdade", não de uma verdade qualquer, mas da que "está na origem de toda verdade, isto é, que diz respeito ao primeiro princípio do ser para todos os homens". Esta definição, simples e profunda, que nos coloca em face de Deus, Primeiro Princípio de todas as coisas, nos faz compreender bem a extrema gravidade das consequências que a situação que acabamos de delinear pode ter - e frequentemente tem - quanto à Religião e ao ensino prático que esta dá em sua Escola.

Impelida pela solicitude que assunto tão grave exige, e que compartilham certamente os Diretores dos Institutos de ensino dependentes das Autoridades Eclesiásticas, esta Sagrada Congregação se dirige a estes últimos pedindo-lhes que se disponham a estudar, adotar e pôr em prática, quanto for possível, os remédios julgados melhores e mais oportunos.

1) Escolha dos professores, dos manuais e das leituras. — Os professores devem ser os mais capazes, tanto pela solidez quanto pela segurança da doutrina; devem, de preferência, ter recebido sua formação nas Universidades e Faculdades Católicas; devem possuir um espírito religioso notoriamente puro, uma consciência reta, um devotamente total à sua missão, e ser animados do amor e do respeito que a juventude requer.

Os manuais devem ser unicamente de autores católicos, escolhidos entre os melhores e os que a experiência consagrou. É impossível distanciar-se desta regra sem correr graves riscos e expor-se a serias responsabilidades.

E, uma vez que os programas o permitem, é possível fazer a seleção das leituras dos autores, tanto pagãos quanto cristãos; ela deve ser feita de modo a auxiliar, organicamente e em larga medida, a consecução de nossos fins no domínio da formação.

A melhor contribuição para o êxito de nossos projetos será, depois, um entendimento, tão completo e cordial quanto necessário, entre o professor de Filosofia e o professor de Religião. Esta é uma das prerrogativas máximas e a vantagem de nossas Instituições, razão por que as famílias cristãs lhes confiam de preferência seus filhos. Trair sua confiança e suas esperanças acarretaria uma grande responsabilidade".

Depois de tratar dos "métodos de ensino" e das "iniciativas" recomendáveis, o Sagrado Dicastério termina com votos de que, "cercada de tais atenções, a juventude educada nas escolas dependentes das Autoridades Eclesiásticas adquira aquela formação filosófica que é tão necessária para a orientação de nossa vida e para o melhor futuro da sociedade".


VERDADES ESQUECIDAS

UM TESOURO DA RELIGIÃO: A INQUISIÇÃO

O Dominicano espanhol Frei Luís de Granada (1504-1588), célebre pregador, e um dos escritores ascéticos de maior fama na Igreja pela segurança e profundeza de sua doutrina, tem uma referência à Inquisição de seu país no sermão "das quedas públicas", também chamado "dos escândalos". Reproduzimos aqui essa apreciação inteligente que, sem se ofuscar por exceções abusivas, considera o fim e a linha geral da ação do Santo Tribunal:

Muro da Igreja, coluna da verdade, guarda da fé, tesouro da Religião, arma contra os hereges, lume contra os enganos do inimigo, toque em que se prova a fineza da doutrina, se é verdadeira ou falsa. — (apud Marcelino Menendez y Pelayo, "Historia de los heterodoxos españoes", Emecé Editores S. A., vol. VII, p. 20).