Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 901 | página 13
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Abade santo, sucedendo a outro santo

A vida de Santo Odilon foi escrita por São Pedro Damião, cardeal e bispo de Óstia, a pedido de São Hugo, sucessor do santo no governo de Cluny. Os hagiógrafos posteriores baseiam-se nesta hagiografia e na de Lotsaldo, monge de Cluny que conviveu muito tempo com Santo Odilon, acompanhando-o em várias de suas inúmeras viagens.

Milagrosamente curado por Nossa Senhora

Odilon nasceu no ano de 962 no Auverne, França, o terceiro de 10 filhos do ilustre casal Beraldo, senhor de Mercoeur (cuja coragem nas armas, probidade e sinceridade fez a voz do povo acrescentar “o Grande”) e a mãe Gerberge.

Quando muito pequeno, Odilon ficou paralisado das pernas, depois de grave doença que pôs em risco sua vida. Um dia em que seu pai viajava com toda a família, parou para descanso numa pequena aldeia do caminho. A governanta de Odilon deixou-o então em sua pequena cama à entrada da igreja da vila, enquanto foi comprar algo. O menino — então com apenas três anos de idade — vendo-se só, arrastou-se para dentro da igreja. Chegando ao altar de Nossa Senhora, pendurou-se na toalha, tentando levantar-se. Nesse momento sentiu uma força misteriosa que penetrava em seus membros, e pôs-se de pé. Quando a aflita governanta encontrou-o na igreja, ele estava correndo em torno do altar da Virgem. Desde esse momento de recuperação, ele teve particular devoção à sua celeste benfeitora, que manteve até o fim de seus dias.

Mais tarde Odilon gostava de voltar em peregrinação a essa igreja. Em uma dessas ocasiões, fez a Nossa Senhora a seguinte oração: “Ó benigníssima Virgem Maria! Desde hoje e para sempre me consagro a vosso serviço. Socorrei-me em minhas necessidades, ó poderosíssima medianeira e advogada dos homens! Quanto tenho, dou a Vós, e com gosto me entrego a Vós por inteiro, para ser vosso servo e escravo”2.

Santo Odilon foi, desse modo, um dos primeiros a praticar a sagrada escravidão a Nossa Senhora, que depois São Luís Maria Grignion de Montfort tornaria tão conhecida.

Recebeu a tonsura clerical aos 26 anos, e pouco depois entrou para a Ordem de Cluny, governada então por São Maiolo.

Tal era o fervor de Odilon na vida monástica, que em 991, com apenas um ano de noviciado, foi admitido a professar na Ordem. No mesmo ano São Maiolo o escolheu para seu vigário. E três anos depois, ao adoecer gravemente, nomeou Odilon para seu sucessor, o que foi aprovado unanimemente por todos os monges. Ordenado então sacerdote, apesar de suas resistências, teve que sentar-se no trono abacial.

Os biógrafos do santo assim o descrevem: “Santo Odilon era magro e pálido, cabelos escuros; seus olhos tinham um brilho prodigioso, quase terrível. O som de sua voz vibrava como um sino longínquo chamando os fiéis à oração. Suas palavras eram ao mesmo tempo doces e fortes, e penetravam os corações”3. “Sua alma estava dotada de uma mobilidade extraordinária, na qual se refletia a vivacidade de suas expressões. Tinha uma voz sonora e viril; e quando falava, um relâmpago passava de sua inteligência a seus olhos. Os traços característicos de seu coração eram uma profunda humildade, que o levava a chamar-se o último e mais desprezível dos irmãos de Cluny; e uma doçura inefável, que lhe valeu o nome de ‘Pai muito clemente e misericordioso’”4. Esse santo tão doce e compassivo odiava a adulação e a mentira, e castigava severamente os falsos irmãos. “Tinha, como diz um poeta, o desprezo do desprezo, o ódio do ódio, e o amor do amor”5.

No governo da Ordem, fez muito pelo seu progresso. Desde o início pôs singular empenho na reforma da regra de São Bento, então seguida por Cluny, estabelecendo como caráter definitivo um código que se chamou “Costumes de Cluny”, e que deveria ser seguido pelos inúmeros mosteiros que estavam sob sua jurisdição. “O rápido desenvolvimento do mosteiro sob suas ordens foi devido principalmente à sua gentileza e caridade, sua atividade e talento para organizar. Ele era um homem de oração e penitência, zeloso pela observância do Ofício Divino e do espírito monástico”6.

Muito solicitado, empreendeu viagens frequentes na França, à Suíça, Alemanha e Itália. E enviou discípulos para as várias províncias da França e da Espanha, para reformarem a vida monástica então decadente.

“Fino diplomata, com uma diplomacia que brotava do espírito do Evangelho, Odilon colocou em seus empreendimentos toda a força do poder humano. Foi