Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 900 | página 49
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de Cristo, não a circuncisão, ele imprime o caráter que nos incorpora a Cristo, conferindo mais copiosa graça do que a circuncisão, pois a realidade presente é mais eficaz que a simplesmente esperada.” (S. Th., III, q.70, a.4).

Ou seja, a circuncisão era um “sacramento” em sentido apenas prefigurativo: significava purificação interior e pertença ao povo eleito. A prova é que as mulheres, embora não circuncidadas fisicamente, também participavam dos efeitos espirituais da Aliança pela fé e pela pertença ao povo de Deus.

Em resumo: na Antiga Lei, a graça dependia da fé no Redentor prometido, cujo sinal exterior era a circuncisão, que podia ser instrumento da graça de modo dispositivo. Como afirma São Justino: “A incapacidade do sexo feminino de receber a circuncisão carnal prova que essa circuncisão foi dada como um sinal, e não como uma obra de justiça”. (Diálogo com Trifão, c.23). Em contraste, o Batismo e os sacramentos da Nova Lei são causa verdadeira da graça santificante, e não apenas sinal ou figura.

Mas, voltando à questão do início, é preciso insistir no fato de que os sinais da Antiga Aliança também comunicavam a graça santificante e, por isso, incorporavam os justos ao Corpo de Cristo.Com efeito, ensina São Tomás na Suma Teológica o seguinte:

“Há uma diferença entre o corpo natural do homem e o Corpo Místico da Igreja: nos membros do corpo natural, todos existem ao mesmo tempo, enquanto no Corpo Místico da Igreja isso não acontece — nem

quanto ao seu ser natural, pois o corpo da Igreja é constituído pelos homens que viveram desde o começo do mundo até o seu fim; nem quanto ao seu ser de graça, porque, entre os membros da Igreja que vivem na mesma época, uns estão privados da graça e a receberão mais tarde, enquanto outros já a possuem.” Respondendo à objeção de que Patriarcas celebravam um culto que não era senão uma imagem e sombra das coisas celestes (Heb 8, 5), São Tomás acrescenta: “Os santos Padres não se detinham nos sacramentos da Antiga Lei como se fossem realidades, mas apenas como imagens e sombras das coisas futuras. Ora, é pelo mesmo sacramento que se pode tender tanto para a imagem enquanto tal, quanto para a realidade que ela representa, como mostra Aristóteles. Por isso, os antigos Padres, ao observarem os sacramentos da Antiga Lei, dirigiam-se para Cristo pela mesma fé e pelo mesmo amor que nos movem a nós mesmos em direção a Ele. Pertenciam, portanto, como nós, ao Corpo da Igreja.” Que na proximidade da festa litúrgica da Circuncisão do Senhor, logo após o Santo Natal, estas considerações nos conduzam, pela intercessão onipotente de Nossa Senhora, a um profundo reconhecimento e gratidão ao Menino Jesus, que se dignou descer até nós na humildade de uma manjedoura para redimir a humanidade pecadora pelos méritos infinitos de sua Paixão e Morte. E que, contemplando a sublimidade da graça santificante, sejamos movidos a recorrer frequentemente aos Sacramentos que Ele instituiu, pelos quais tornou de maneira incomparável mais fácil a nossa salvação — outrora alcançada com muito maior dificuldade sob o regime da Lei Antiga.

Sacramentos da Antiga Lei: imagens das coisas futuras

Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo por São João Batista.