Em outras palavras, o corpo que permite ler é essencial para a identidade pessoal, tanto quanto a alma racional que permite compreender. Um ser humano não é sua alma sozinha, nem seu corpo sozinho, mas ambos: corpo e alma. Tão unidos que se separam apenas pela morte — de modo transitório —, sendo destinados a reunir-se depois da ressurreição, no fim do mundo.
corpo, explica: “O homem que tem consciência do seu inteligir é o mesmo que tem consciência do seu sentir. Ora, sentir não vai sem o corpo. Portanto, necessário é que seja este uma parte do homem” (Summa I, q. 76, a. 1).
Por exemplo, ao ler estas linhas, o leitor vê com os olhos (“sente”) as palavras e, ao mesmo tempo, entende seu significado (salvo se eu não fui claro). Em linguagem filosófica, se diz que há um único sujeito de ação — o leitor — que tanto vê quanto pensa. Logo, seu corpo não está separado da alma como o carro do motorista; com suas características biológicas, o corpo “é” o próprio leitor.
O corpo masculino ou feminino, junto com a alma, nos faz quem somos como pessoas
São Tomás prossegue: o corpo é a matéria do homem e a alma sua forma. A alma é o princípio vital dos seres vivos — o que os torna vivos e distingue os seres animados dos inanimados — e o princípio das suas atividades vitais. Há diferentes tipos de almas conforme as atividades: as plantas nutrem-se, crescem e reproduzem-se (alma “vegetativa”); os animais, além disso, sentem e locomovem-se (alma “sensitiva”); os homens, no ápice dos organismos vivos, têm ainda faculdades racionais — intelecto e vontade — (alma “racional”).
Assim como a alma vegetativa está na origem das capacidades das plantas e a sensitiva das capacidades dos animais, a alma racional é o princípio de todas as capacidades humanas — vegetativas, sensitivas e racionais. Como as capacidades vegetativas e sensitivas
pertencem ao corpo humano, conclui São Tomás que a alma racional é o princípio dessas capacidades corporais e, portanto, a alma é a “forma” do corpo.
O que isso significa? Que a alma está tão unida ao corpo que ambos formam uma única substância: o ser humano. Contra o dualismo cartesiano, não somos “um fantasma dentro de uma máquina”. Tanto alma quanto corpo compõem quem somos.
O Catecismo da Igreja Católica resume: “A unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve
considerar a alma como a ‘forma’ do corpo (Cf. Concílio de Viena, 1312, ‘Fidei catholicae’: DS 902.); quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza” (n° 365). A consequência é clara: se corpo e alma juntos compõem a única substância que somos, então é necessariamente verdade que o corpo — masculino ou feminino —, junto com a alma, nos faz quem somos. O corpo não é um acidente da identidade pessoal, algo mutável como cor de cabelo. O corpo masculino ou feminino é essencial para quem somos enquanto pessoas. Toda a nossa vocação no mundo só se realiza harmoniosamente aceitando e valorizando esse modo determinado — masculino ou feminino — de ser. O sexo está inscrito no corpo e, com o corpo e no corpo, conforma a personalidade e sua psicologia, que permanece, porém, transcendente por causa da espiritualidade da alma.
Um ser humano não é sua alma sozinha, nem seu corpo sozinho, mas ambos: corpo e alma. Tão unidos que se separam apenas pela morte — de modo transitório —, sendo destinados a reunir-se depois da ressurreição, no fim do mundo.
O Papa Bento XVI sublinhou essa realidade sexuada no discurso à Cúria Romana de 21 de dezembro de 2012, no qual criticou o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher; torna-se mulher — ‘On ne naît pas femme, on le devient’”. Afirmou o pontífice: “Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo ‘gender’ (gênero), é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e