Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 880 | página 44-45
| REMINISCÊNCIA | (continuação)

Santíssima Mãe de Deus, que a acariciava e animava em sua via de sofrimento. E uma vez São Francisco de Sales lhe apareceu dizendo-lhe: “Soyez toujours mon enfant” [sede sempre minha filha].

Vítima expiatória

O pecado é uma ofensa tão grave e injuriosa a Deus, que Ele fez seu Filho descer à Terra e padecer, para a nossa redenção, a mais cruel e ignominiosa Paixão. Contudo, Deus escolhe de tempos em tempos almas seletas que se oferecem como vítimas expiatórias, como diz São Paulo, “para completar em sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo no seu corpo, que é a Igreja” (Cl, 1, 24). Uma dessas heroicas almas foi Teresinha Setúbal, cuja vida de sofrimento e provações em menina tão nova, só se compreende pelo seu papel de vítima expiatória.

Com ela Nosso Senhor não se fez de rogado: mostrou-Se-lhe várias vezes coroado de espinhos, inclusive na hóstia consagrada, perguntando a Teresinha se ela queria sofrer como vítima expiatória em reparação pelos pecados do mundo. A generosa menina sempre respondeu afirmativamente. Só assim compreendemos seu contínuo sofrimento.

Começou a ter dores de cabeça tão terríveis, que nenhum analgésico conseguia aliviar. Os médicos, para aplacá-las, tinham de aplicar-lhe inúmeras injeções sedativas, que lhe proporcionavam apenas um alívio momentâneo.

Contudo, Nosso Senhor queria ainda mais: “Ele me perguntou se eu queria sofrer ainda mais, e eu disse que sim. Mamãe, se a senhora soubesse como eu sou feliz! [...] por dentro é uma felicidade. Às vezes (é muito raro) eu fico um pouco cansada, parece que vou ficar [...] logo, imediatamente, Jesus me diz ‘Coragem, Confiança’”.

Além das cruéis dores de cabeça, Teresinha passou a ter violentas dores de estômago, que a impediam de reter qualquer alimento.

Mais para o fim de sua curta existência, diz sua mãe que “ela continuava sem nenhum alimento durante o mês de outubro. Só alguns goles de guaraná por dia. Os dentes doíam, mas era impossível tratá-los pois ela não suportava sequer um remédio para aliviá-los. A boca estava sequíssima, ela tinha muita sede e não podia beber. [...] Dores fortíssimas, e não podia se mexer na cama [...]. [Isto] apesar de inúmeras injeções sedativas”.

Essa vítima expiatória também tinha frequentemente hemorragias e náuseas, além de problemas de respiração.

Teresinha suportava heroicamente as dores. Contudo, um dia em que elas eram mais violentas, deixou correr algumas lágrimas. A mãe lhe pergunta: “O que é isso, filhinha? O Menino Jesus vai ficar triste”. Dona Francisca enxugou as lágrimas com um lenço e Teresinha lhe disse bem baixinho: “Guarde Mãezinha, esse lencinho. A senhora ainda um dia terá com ele grande consolação”.

No Calvário

À medida que o tempo passava, os sofrimentos de Teresinha aumentavam. Assim, em janeiro de 1937, Nosso Senhor lhe disse novamente: “Este ano será de grandes sofrimentos, espere e verá”.

Em janeiro de 1938, para atenuar suas contínuas dores de cabeça, os médicos resolveram fazer punções em sua cabeça e na espinha. Isso representava uma operação dolorosíssima, tanto mais quanto na segunda punção na espinha o médico errou, devendo retirar a agulha e voltar a enfiá-la. Teresinha ficou lívida de dor, mas sem um só gemido. Quando o médico terminou, ela agradeceu com serenidade; no entanto, ficou depois por diversos dias com fortíssimas dores na perna, não podendo se mexer.

A punção na cabeça foi feita num hospital. As dores foram tão terríveis, que ela confidenciou à mãe, que lhe perguntou como aguentou: “Ah, Mamãe, o Menino Jesus estava comigo, senão como eu aguentaria aquela dor... era impossível”.

Depois dessa punção, Teresinha teve uma divina consolação que qualificou de “sonho”: viu “Nossa Senhora com o Menino em pé no colo, [Ele] abriu os braços, abraçou-a, e Nossa Senhora colocou de manso a cabecinha dela [de Teresinha] nos ombros do Menino Jesus, e Este a beijou muito, muito contente”.

Durante o carnaval de 1938, Teresinha começou a sofrer com violentos soluços, que duraram 10 dias. À mãe, que penalizada procurava dar-lhe algum alívio, disse: “Não se incomode Mamãe, não é nada! Estes dias tantos ofendem o Menino Jesus. É preciso que eu ofereça para reparar. Tão poucos se lembram d’Ele nestes dias”. Os sofrimentos foram tão terríveis, que se tornou necessário aplicar-lhe injeções de éter.

Num dia de setembro de 1938, Teresinha disse à mãe: “O Menino Jesus me disse que eu podia prometer um mês de vida”.

Grande sofrimento, grandes graças

Noutro dia em que Teresinha estava sofrendo muito, a mãe lhe perguntou: “Como você está sofrendo hoje. O que será isso?”. Ela respondeu: “É impressão sua, Mamãezinha, porque olhe, nos dias de grande dor, eu recebo grandes graças para suportar; quando são pequenas as dores, as graças também”.

Um dos médicos julgava que quanto acontecia à adolescente era no fundo meio fabricado por ela ou indício de esquizofrenia; e chegou a aventar a hipótese de ela ser internada num manicômio para tratamento, ao que Dona Francisca se opôs peremptoriamente.

Teresinha disse-lhe então: “Oh, Mamãezinha veja, que importa que eles pensem que eu tenho alguma coisa (e mostrou com a mão a cabecinha e com suavidade na voz) Jesus, que é filho de Deus, não lhe vestiram a camisa branca dos loucos?”

No dia 29 de outubro de 1938 ela disse à mãe: “Mãezinha, agora eu já sofri tudo o que tinha que sofrer”.

No dia 31 de outubro, sem um gemido, Teresinha entregava sua cândida alma ao Menino Jesus.

Convidamos os leitores a rezarem para que se inicie o quanto antes o processo informativo sobre as virtudes de Teresinha, visando à sua beatificação e canonização.


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