Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 880 | página 22-23
| INTERNACIONAL | (continuação)

A diplomacia ucraniana acusou o Pontífice de “legalizar a lei do mais forte” e apoiar Putin a “seguir ignorando o direito internacional”. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, afirmou que “não é momento para falar em rendição”, pois “seria um perigo para todos”. E acrescentou que a única solução negociada duradoura e pacífica passa pelo respaldo militar à Ucrânia. O chanceler alemão, Olaf Scholz, discordou das declarações do Papa: “Kiev tem o direito de se defender e pode contar com nosso apoio”.

Os bispos alemães qualificaram de “infeliz” a fórmula do Papa, mas adotaram as contorções verbais vaticanas que tentam lhe dar um sentido “benigno”. De fato, as palavras criticadas deram continuidade à velha diplomacia vaticana conhecida como Ostpolitik, que tenta há décadas uma aproximação com o comunismo, hoje atualizado em Vladimir Putin.

Em entrevista à Rádio e Televisão Suíça (RTS), o Papa Francisco propôs que a Ucrânia tivesse a “coragem de alçar a bandeira branca e negociar”, gesto universalmente interpretado como capitular diante da Rússia.

Conflito doutrinário na Igreja

As palavras do Papa também atiçaram um violento conflito doutrinário dentro da Igreja, rotulado de “guerra civil” religiosa, em todos os campos da teologia e da disciplina eclesiástica. Ela se mostrou agravada pela evidência de uma infiltração de agentes russófilos provocadores no mundo católico, os quais não só militam na extrema esquerda, como também se fingem “conservadores”, posição a partir da qual aplaudem ou desculpam os crimes de Putin.

Às pesadas e ameaçadoras nuvens do perigo de uma Terceira Guerra Mundial se somaram os temores pelo estado de saúde do Papa, que poderia precipitar a eleição de um sucessor num Conclave decisivo para o futuro da Igreja.

Caso esse Conclave se realize, os misteriosos manipuladores da guerra psicológica revolucionária no Ocidente e nos ambientes católicos tentarão por certo condicioná-lo. Isso se daria num contexto de conflito bélico iminente ou em ato, de formas caóticas de guerra híbrida, de ataques cibernéticos e invasões de migrantes empurrados por Moscou sobre a Europa. Nesse horizonte tenebroso, Putin, “consagrado” em eleições fraudulentas, estaria interessado num Papa que olhasse para a Rússia como um baluarte contra o Ocidente corrupto, conforme ponderou o Prof. Roberto de Mattei.

Assim, de três eleições deste ano, aparentemente muito diversas — as presidenciais russa e americana, e a de um Papa num Conclave, que, presumimos, possa acontecer sem perturbações internas ou externas — , pode se decidir o rumo da Igreja e do mundo.


| MORAL CATÓLICA |

O livro do Cardeal Fernández e o seu antídoto

Roberto de Mattei* * Fonte: Artigo do site francês Correspondance Européenne (10-2-24), traduzido por Hélio Viana. O livro do Cardeal Víctor Manuel Fernández, Paixão Mística, Sensualidade e Espiritualidade, provavelmente teria sido colocado no Índice pela Congregação que hoje preside e sua leitura teria sido proibida aos católicos.

Nas últimas semanas, em blogs católicos de orientação tradicional, das duas Américas à Europa, tem-se falado muito de um livro escandaloso, publicado em 1998 pelo atual prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Víctor Manuel Fernández. Nesse livro, que se intitula Paixão Mística, Sensualidade e Espiritualidade, encontramos muitas páginas escabrosas que suscitam justificada indignação, mas que são divulgadas, a meu ver, de forma imprudente. O livro teve mais leitores do que quando foi publicado pela primeira vez, e a maioria desses leitores são tradicionalistas, por mais indignados que possam ficar ao lê-lo. Mas será apropriado deter-nos em páginas onde a sensualidade e a espiritualidade se fundem de forma tão mórbida?

Na epístola aos Efésios, São Paulo diz: “Quanto à fornicação e a toda espécie de impureza ou avareza, ninguém fale disso entre vós, como convém aos santos; vale o mesmo para a vulgaridade, os insultos, as trivialidades: todas essas coisas são inadequadas. Pelo contrário, ações de graça” (Efésios 5:3-4).

Por que não deveríamos falar sobre coisas impuras?

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