provar que uma construção dependia da outra, antes que a obra principal fosse concluída, enviou dois jovens monges a Siponto, na Itália, para pedirem ao bispo de lá uma parte das relíquias sagradas deixadas por São Miguel, a saber, uma pequena placa de mármore na qual o espírito celestial havia deixado suas pegadas, e um fragmento de um belo tecido roxo, muito semelhante ao manto de um oficial da cavalaria romana.
A fúria diabólica e a intervenção de São Miguel
Os monges iniciaram sua peregrinação, que levaria mais de dois anos para ser concluída. O bispo de Siponto demonstrou compreensão e honra, aquiescendo na entrega de algumas relíquias. Se os frades tinham dúvidas sobre a origem delas, os milagres realizados ao longo da rota de retorno os tranquilizaram. Doentes eram curados milagrosamente! Eles não viam a hora de chegar ao Monte Tombe para informar Saint Aubert de seu sucesso. Já estavam perto, mas pararam de repente, atônitos, petrificados: não reconheciam mais nada. Apesar da certeza de que voltaram para casa, não conseguiam encontrar a paisagem que lhes era familiar.
A imensa floresta de Scissy desaparecera; os pequenos vilarejos costeiros deram lugar a um penhasco íngreme e nu e a uma vasta extensão de areia branca, exposta pela maré baixa e atravessada por riachos que a faziam brilhar ao sol. Ao longe, no mar, numa pequena ilha exposta ao ataque das ondas, erguia-se o Monte Tombe, sobrevivente de um desastre que os dois monges peregrinos, atônitos, não ousavam imaginar.
Quando os religiosos se juntaram aos dois monges que retornavam de sua missão, lhes contaram sobre o cataclismo que havia ocorrido seis meses antes, responsável por essas mudanças extraordinárias. Era março de 709.3 Numa noite escura e tempestuosa, a chuva caía torrencialmente e nada podia ser visto a um passo de distância. De repente ouviu-se, emergido das profundezas da terra, o rugido de um terremoto, e o Monte Tombe balançou sobre os seus alicerces.
Parecia o fim do mundo. Os monges e o bispo agarraram-se ao altar, certos de que sua última hora havia chegado. E, horrorizados, contemplaram centenas de animais selvagens — lobos, cobras, gaviões-pardais — invadirem a montanha, buscando refúgio. A costa se afundara no mar, a linha costeira descera abaixo do nível do oceano, e a maré, a grande maré do equinócio da primavera, inundara o que havia sido o continente. A floresta de Scissy ficara submersa, e os monges viram árvores arrancadas sendo carregadas como galhos pela correnteza.
Toda essa demonstração de poder dos elementos parecia ter apenas um alvo: o Monte Tombe. Chuva, mar, raios e terremotos convergiram para a ilhota poupada, determinados a engoli-la. Saint Aubert entendeu. Ao dedicar o monte a São Miguel, ele desencadeara a ira implacável de Lúcifer. Invocou, então, a ajuda do Arcanjo. Ela veio imediatamente. A tempestade se acalmou, o mar recuou; a montanha flutuou como a Arca de Noé, em uma paisagem apocalíptica.
O Monte Tombe começou então a ser chamado de Mont-Saint-Michel — Monte São Miguel. Sua notoriedade foi imediata. Em 710, o rei Gildebert III, da dinastia merovíngia, consagrou seu reino a ele.
O Mont Saint-Michel resiste a diversos ataques
Quando Saint Aubert morreu, as relíquias de São Miguel permaneceram com os cônegos incumbidos pelo santo bispo de zelar pelo local, os quais tinham por missão rezar o Ofício Divino e receber os peregrinos. Mas, alheios à austeridade da época da fundação, eles foram motivo de escândalo. O duque da Normandia, Ricardo I, pôs fim a esses abusos trazendo para o santuário monges beneditinos da abadia de Saint-Bedrille. Sob o comando do abade Maynard, foi iniciada a construção da igreja românica de duas naves de Notre-Dame-sous-Terre. Parcialmente destruída por um incêndio em 992, sobre ela se ergueu a atual abadia românica, iniciada em 1017 sob a direção do arquiteto Ranulphe de Bayeux e concluída, exatamente há mil anos, em 1023.
Incêndios e reconstruções subsequentes deram à igreja da abadia um estilo original, que combina har-
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