Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 869 | página 10-11
| PALAVRA DO SACERDOTE | (continuação)

Essa posição severa do Vaticano em relação aos eventos esportivos públicos com participação de atletas do sexo feminino – acarretando, por exemplo, que a equipe italiana nas Olimpíadas de Los Angeles de 1932 não incluísse mulheres, por causa da oposição do Papa Pio XI – originou uma polêmica, em fins de 1933, entre L’Osservatore Romano, órgão oficioso da Santa Sé, e o já mencionado órgão fascista Il Littorale, que na época servia de porta-voz do Comitê Olímpico Nacional Italiano.

Meninas fazendo educação física no Colégio Santo André, de São João da Boa Vista (SP). O fundador desse prestigioso centro educativo, o venerável Mons. Antônio David, pároco da cidade e vigário-geral da diocese, condenou energicamente, em 1952, a realização de partidas de futebol femininas.

O jornal vaticano havia definido as exibições públicas de esporte feminino como “irracionais” e “moralmente danosas”, enquanto ensinam “à mulher, à moça, não só o lançamento do dardo, mas de si própria”, pelo que se veem “despojadas da sua graça e do seu pudor”. Num artigo posterior, o jornal reprova que se exija de mocinhas realizar “exercícios não condizentes com a compostura e a graça femininas”, sobretudo quando eles se “executam em público”.

Como um jornal esportivo havia perguntado anteriormente “se são mesmo imorais esses tantos centímetros de pele que as modas bizarras do mundo inteiro mostram, a cada esquina, em todas as ruas”, L’Osservatore Romano aproveitou a ocasião para replicar: “No caso, os “centímetros” correspondem à nudez da maior parte do corpo, nas ruas e nos estádios públicos.”

O Comitê Olímpico respondeu que, de um lado, o regime fascista permitia apenas “aqueles exercícios nos quais, nos Jogos Olímpicos modernos, as mulheres foram admitidas com honra”, ou seja, “florete na esgrima, patinação artística, ginástica coletiva, algumas provas de natação e tênis”, e reiterava que “proibiu peremptoriamente apresentações públicas de futebol feminino, como já havia feito com o boxe no passado”.

A respeito do escândalo moral, o Comitê punha sua esperança – inteiramente naturalista e desconhecedora do pecado original – na “maturidade” de um público “composto na sua maioria por esta nova juventude italiana”, a fascista, “cuja modéstia instintiva e natural é em grande parte o resultado de uma saúde não falaciosa, adquirida ou restaurada mediante a prática de educação física”.

As autoridades esportivas do regime reconheciam a possibilidade de que, nas arquibancadas das competições femininas, alguns homens “antiesportivos” – os “doentes” e os “viciosos” – estivessem à espreita para “surpreender algo visto e invisível (e muitas vezes apenas ‘imaginado’) que saciasse a sua miserável humanidade”; alegava, porém, que tais homens “infiltram-se por toda a parte”, não só no estádio, mas também “na Casa de Deus”.

Finalmente, para desacreditar o jornal do Vaticano, Il Littorale publicou uma carta enviada à direção, supostamente escrita por “algumas moças fascistas e ferventes católicas de uma cidade da Lombardia”, alegando que depois que começaram a praticar esportes, não iam mais aos bailes ou ao cinema, nem se interessavam por frivolidades, um resultado moral muito bom, “mesmo que para nos movimentarmos melhor ponhamos calções de ginástica; as anáguas, aliás, sempre faziam cair as varas de salto em altura”.

Adiantando-se um século aos jovens “unissex” de hoje, essas moças fascistas e pseudo-católicas dos anos 1930 argumentavam também o seguinte: “É estranho como os homens nos parecem diferentes quando se trata de esportes. Nunca os vemos como homens e eles nunca nos veem como mulheres: somos simplesmente camaradas tentando superar uns aos outros.”

Terminavam a falaciosa missiva dizendo que um sacerdote escrupuloso do vilarejo havia reprovado sua prática esportiva, a qual podia servir de ocasião de mal a outrem, mas que “as nossas mães nos aconselharam então a ir a outro padre, mais moderno, que compreendesse melhor as necessidades dos jovens, e ele não só nos deu permissão como nos elogiou” – e, provavelmente, foi quem redigiu a carta...

O Brasil não ficou imune a essa ofensiva a favor do esporte feminino. Nas festas juninas de 1921, houve uma partida entre senhoritas dos bairros Tremembé e Cantareira (na zona norte de São Paulo) noticiada pelos jornais da época como uma atração “curiosa”, quando não “cômica”. Porém, mesmo um grande promotor do futebol – o romancista maranhense Henrique Maximiliano Coelho Netto, pai do Preguinho, autor do primeiro gol brasileiro em copas do mundo em 1930 – rejeitava energicamente o futebol feminino: “Certamente ninguém exigirá da mulher que jogue o football ou o rugby, que esmurre antagonistas com o guante de boxe, que arremesse barras de ferro, que se engalfinhe em luta romana. Há exercícios que lhe não são próprios e que lhe seriam prejudiciais, não só à beleza como à saúde e até a sujeitariam ao ridículo.”

Entretanto, no Brasil também havia sacerdotes “mais modernos”, como o respeitado Monsenhor José Severino da Silva, fundador do Orfanato de São José, em Campos dos Goytacazes, que chegou a reunir moças para jogarem nos três maiores clubes de futebol do Norte Fluminense da época, num torneio para arrecadar fundos em benefício de sua obra!

Numa “Cruzada pela pureza”, as palavras do Papa Pio XII

Infelizmente, já naqueles anos, a falange dos padres “mais modernos” era tão numerosa, que as advertências do Vaticano não conseguiram impedir que se difundissem as competições esportivas femininas em público, tornadas populares pelo regime de Mussolini.

Alguns anos mais tarde, o Papa Pio XII teve de reagir contra a onda crescente de despudor promovendo, por meio do ramo feminino da Ação Católica, uma “grande Cruzada da pureza”, cuja guardiã é a modéstia, que ele definiu como “um respeito religioso pelo corpo que se expressa em um conjunto de disposições da pessoa, de maneiras, de porte, de palavras sabiamente reguladas e medidas”. O Papa apresentou para as moças católicas o exemplo da mártir Vibia Perpétua no anfiteatro de Cartago, onde ao cair de costas na arena após ser lançada ao ar por uma vaca muito

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