Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 869 | página 08-09
| PALAVRA DO SACERDOTE | (continuação)

ter as futuras mães de uma prole sã para a Itália mussoliniana”.

O Terceiro Reich alemão foi ainda mais radical: a propaganda hitlerista difundia imagens de ginastas masculinos de torso nu e ginastas femininas com shorts e camisetas apertadas que acentuavam a sua figura, abria piscinas comuns para ambos os sexos, ou, pior ainda, fomentava a perversa “cultura do nu” berlinense de Adolf Koch, assim como a emancipação das moças das Juventudes Nazistas, incluindo a anarquia sexual – desde que as relações sexuais fossem praticadas entre arianos puros a fim de oferecer filhos ao Führer.

No período entre-deux-guerres, pela convergência do movimento feminista de origem anglo-saxã e do movimento nazifascista, foram se impondo em todo o mundo modas cada vez mais imorais, tornando realidade a queixa, formulada poucos anos antes, por Santa Jacinta de Fátima: “Hão de vir umas modas que hão de ofender muito a Nosso Senhor.” De onde a sua advertência: “As pessoas que servem a Deus não devem andar com a moda. A Igreja não tem modas. Nosso Senhor é sempre o mesmo.”

Jovens desportistas alemãs desfilam de saia na inauguração dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Nas competições, o short e a camiseta apertada eram o uniforme de rigor.

Luta constante contra a permissividade dos costumes

Além do cinema e das revistas de moda feminina, os esportes serviram eficazmente para fazer com que as moças fossem aos poucos perdendo o pudor em mostrar as linhas de seu corpo, quando não o próprio corpo, ao usarem roupas que facilitavam a liberdade de movimentos requerida pelos exercícios.

No começo isso se dava em privado – seja nas escolas, que ainda eram separadas por sexos, seja na intimidade familiar, em jogos como o tênis. Mas aos poucos os concursos foram ficando cada vez mais públicos, chegando-se hoje ao cúmulo do exibicionismo, primeiro com a difusão de fotografias na seção de esportes dos jornais e, mais tarde, nas transmissões da televisão, com cenas em ângulo fechado que põem ainda mais em relevo partes do corpo que deveriam estar cobertas.

Ora, no Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, publicado no pontificado de João Paulo II, está escrito, a respeito do 9° Mandamento da Lei de Deus: “A pureza exige o pudor, que, preservando a intimidade da pessoa, exprime a delicadeza da castidade e orienta os olhares e os gestos em conformidade com a dignidade das pessoas e da sua comunhão. Ela liberta do erotismo difuso e afasta de tudo aquilo que favorece a curiosidade mórbida. Requer uma purificação do ambiente social, mediante uma luta constante contra a permissividade dos costumes, que assenta numa concepção errônea da liberdade humana” (questão 530).

Diante do perigoso avanço da impudicícia por ocasião das competições esportivas femininas, a Igreja e o Vaticano não tardaram outrora em reagir. Por ocasião de uma exibição pública de ginástica feminina em Neuburg, em julho de 1927, o Núncio Apostólico e os bispos da Alemanha denunciaram que os exercícios realizados pelas moças entravam em choque com a moral católica e com o pudor feminino, bem como com sua constituição física.

Decadência moral própria aos jogos públicos e competições

Em maio de 1928, o regime fascista organizou em Roma o Primeiro Concurso Ginástico Atlético Nacional Feminino “Jovens Italianas”. Em carta ao Vigário de sua diocese, o Papa Pio XI denunciou o evento: “O Bispo de Roma não pode deixar de deplorar que aqui na santa cidade do catolicismo, depois de vinte séculos de cristianismo, a sensibilidade e a atenção às delicadas considerações devidas às jovens se tenham mostrado mais fracas do que na Roma pagã, a qual, embora rebaixada a tal decadência moral, ao adotar da Grécia conquistada os jogos públicos e as competições ginásticas e atléticas, por razões de ordem física e moral de puro bom senso, excluiu delas as jovens, como haviam sido excluídas também em muitas cidades da mesma Grécia ainda mais corrupta.”

Nesse mesmo ano, o Cardeal Sbaretti Tazza, Prefeito da Congregação do Concílio, ordenou uma grande investigação nas escolas e associações católicas, para coibir a difusão do uso de maiô de banho nas atividades esportivas e atléticas femininas, tanto em locais públicos quanto nos privados. O cardeal instruiu os bispos da Europa e da América que as moças que faziam ginásticas sem usar saia jamais deveriam praticar seus exercícios ao ar livre, nas ruas ou em eventos desportivos públicos. Mais ainda, os eventos atléticos para moças deveriam ser evitados ou, pelo menos, sérias precauções deveriam ser tomadas para proteger a moralidade católica e a decência da juventude.

As advertências das autoridades religiosas tiveram certo impacto nas famílias católicas, obrigando as associações esportivas a colocar restrições. Por exemplo, a Sociedade de Ginástica de Turim, o primeiro clube italiano de ginástica a abrir suas portas para mulheres, só conseguiu “o favor das mães e da opinião pública” ao garantir a “confidencialidade feminina”, chegando a proibir a entrada nos treinos das moças, não apenas os homens, mas até os pais de família.

Denúncia contra as Competições Juvenis do Reich

Outra preocupação da Igreja era relativa aos esportes femininos violentos, que poderiam contrariar o natural desenvolvimento da feminilidade das moças. Nesses mesmos anos, o então Secretário de Estado, o Cardeal Eugenio Pacelli, ex-núncio em Berlim, denunciou a participação de mulheres em eventos esportivos públicos como as Reichsjugend Wettkämpfe (Competições Juvenis do Reich), alertando que a masculinização das mulheres punha em risco o papel futuro delas no matrimônio e na família.

Essa preocupação foi compartilhada até pelo promotor das Olimpíadas modernas, o francês Pierre de Coubertin, que em carta de fevereiro de 1930 ao Papa Pio XI pediu-lhe que reiterasse a posição do Vaticano em relação aos espetáculos esportivos femininos e, em particular, condenasse tanto os esportes violentos para moças como aqueles através dos quais elas se masculinizavam (“montar a cavalo como os homens”), ajudando-o a acabar com algumas competições esportivas juvenis (individuais e coletivas) que, a seu ver, apresentavam tendências perturbadoras.

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