Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 864 | página 30-31
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

Deus era para nossa sensibilidade de homens o que seria para um filho um pai imensamente bom, mas morando em terras distantes. De todos os lados nos vinham os testemunhos de sua bondade. Porém não tínhamos a ventura de haver experimentado pessoalmente seus afagos, de ter sentido pousar em nós seu olhar divinamente profundo, gravemente compreensivo, nobremente afetuoso. Não conhecíamos a inflexão de sua voz.

A Encarnação significa para nós o gáudio deste primeiro encontro, a alegria do primeiro olhar, o acolhimento carinhoso do primeiro sorriso, a surpresa e o alento dos primeiros instantes de intimidade. E por isto, no Natal, todos os afetos se tornam mais expansivos, todas as amizades mais generosas, toda a bondade mais presente no mundo.

A humanidade reabilitada, enobrecida e glorificada

Na alegria do Natal há, porém, uma grande nota de solenidade. Pode-se dizer que o Natal é de um lado a festa da humildade, mas de outro lado a festa da solenidade. Com efeito, o fato da Encarnação traz ao nosso espírito a noção de um Deus que assumiu a miséria da natureza humana na mais íntima e profunda das uniões que há na criação.

Se da parte de Deus há a manifestação de uma condescendência quase incalculável, reciprocamente, quanto aos homens há uma promoção quase inexprimível. Nossa natureza foi promovida a uma honra que jamais pudéramos imaginar. Nossa dignidade cresceu. Fomos reabilitados, enobrecidos, glorificados.

E por isto, há qualquer coisa de discreta e familiarmente solene nas festas de Natal. Os lares se enfeitam como para os dias mais importantes, cada qual usa seus melhores trajes, a polidez de todos se torna mais requintada. Compreendemos à luz do presépio, a glória e a bem-aventurança de ser pela natureza e pela graça irmãos de Jesus Cristo.

Jesus veio mostrar que a graça abre para nós as veredas da virtude

Na alegria do Natal há também um quê do júbilo do prisioneiro indultado, do doente curado. É um júbilo feito de surpresa, de bem-estar e de gratidão.

Com efeito, não há o que possa exprimir a tristeza desabusada do mundo antigo. O vício havia dominado a Terra, e as duas atitudes possíveis perante ele conduziam igualmente ao desespero. Uma consistia em buscar nele o prazer e a felicidade. Foi a solução de Petrônio, que morreu pelo

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