Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 862 | página 16-17
| BICENTENÁRIO | (continuação)

Todos os sentimentos, mesmo os mais nobres, são postos em xeque por doutrinas exóticas, sempre aceitas com fervor. E, enquanto subsistir esse caos no mundo do pensamento, será absolutamente impossível instituir uma ordem durável no domínio da política e da economia.

Entre os sentimentos mais visados ultimamente, figura sem dúvida o patriotismo, cuja falência os próceres do comunismo e do socialismo não se fartam de proclamar.

A doutrina católica se opõe nitidamente a qualquer tendência intelectual destruidora do ideal patriótico. Mas, para que este ideal não seja vulnerado pelos ataques de seus adversários, é imprescindível que uma reação se esboce contra o falso conceito de patriotismo que tem sido veiculado entre nós por um nacionalismo mal compreendido.

Por enquanto, nosso patriotismo se tem estribado principalmente nas belezas naturais com que a Providência ornou o Brasil. Nossos poetas têm celebrado à porfia as palmeiras de nossa terra, “onde canta o sabiá”, a espessura de nossas selvas, a beleza de nosso litoral, e a riqueza de nosso solo.

Pergunte-se a uma pessoa de cultura média qual a razão por que se ufana de ser brasileira, e imediatamente, num arroubo de entusiasmo, ouviremos a interminável lista de referências a nosso céu de anil, à nossa fauna, flora etc.

Raramente, rarissimamente virá à tona uma referência à inteligência de nosso povo, ao seu tino musical invulgar, às tradições históricas brilhantes que o honram, e ao magnífico futuro que a Providência lhe reserva. Ora, está aí, precisamente, o grande erro a que temos sido induzidos por um nacionalismo mal compreendido.

É certo que devemos nos ufanar da beleza natural de nossa Pátria. Muito mais do que isto, porém, nos honra o fato de descendermos da raça de gigantes que, desbravando selvas, dominando selvagens e domando feras, abriram em um continente por eles descoberto, uma civilização que o futuro tornará florescente.

A figura sublime de um Amador Bueno da Ribeira nos honra mais do que a Baía de Guanabara. Os sermões do Padre Anchieta nos dão mais lustre do que as cachoeiras de Paulo Afonso e das Sete Quedas, e nem toda a majestade do Amazonas tem a beleza austera e suave de nossa velha vida familiar, profundamente imbuída de espírito de Fé, e até hoje preservada — até certo ponto — do vírus fatal do modernismo.

A mentalidade brasileira, no que ela tem de tradicional e nacional (pois que, no Brasil tradicional, nacional e católico, são ideias concêntricas), contém em seus germens uma grande civilização.

Não nos contaminou ainda a insensibilidade sentimental, frívola, egoísta e sedenta de prazeres. Não nos gangrenou ainda a dureza, a ganância e o egoísmo implacável que avassalam o mundo.

E até nos nossos defeitos há elementos de bondade mal compreendida. Assim, a célebre “moleza” com que muitas vezes — é preciso confessá-lo — nos acumpliciamos com as ações as mais condenáveis, por meio de uma tolerância culposa, não é propriamente uma adesão ao mal, mas o receio (censurável, é certo) de causarmos desgosto a alguém.

Eduque-se nos princípios religiosos e católicos esta grande raça, e ver-se-á dentro em pouco um Brasil novo florescer, em que, eliminados os defeitos e reconduzidas as qualidades boas a seus verdadeiros limites, a História saudará o aparecimento de uma grande nação.

E quando a América do Sul empunhar o cetro da hegemonia mundial que, com razão, lhe profetizou o Conde de Keyserling, este cetro será colocado nas mãos do Brasil por suas coirmãs do continente, “par droit de conquête et par droit de naissance” (por direito de conquista e por direito de nascimento).


Patriotismo autêntico

Plinio Corrêa de Oliveira

(Legionário, Nº 333, 29 de janeiro de 1939)

Um dos erros mais nefastos de que foi impregnada a educação de minha geração foi o patriotismo entusiasmado e incondicional, que se impunha em todas as escolas, como um inelutável imperativo da moral.

Em via de regra, não havia, nem mesmo em certos cursos de Religião, uma explicação esclarecida e consciente do que seja a virtude do patriotismo, o seu exato sentido, os deveres que ela impõe e as deformações com que o espírito do mundo costuma desfigurá-la.

Em muito mais de 50% dos casos, ser patriota era achar que o Brasil é o mais rico país do mundo, que não há aqui um palmo de solo que não seja imensamente fértil, um palmo de subsolo que não seja imensamente rico, e um litro de água de rio ou de mar que não seja imensamente piscoso.

A esta torrente de riqueza, acrescente-se uma beleza incomparável: em nenhum lugar do mundo é permitido haver um sol tão claro, estrelas tão numerosas, mar tão azul, cumes dos montes que oferecem panoramas mais belos, vales que proporcionem remansos mais tranquilos e mais atraentes do que no Brasil.

Achar o contrário é ser um indivíduo sem inteligência e sem patriotismo. Sem inteligência, porque até as aves do poeta perceberam essas belezas e riquezas, a tal ponto que gorjeiam aqui de um modo diverso do que acontece no mundo inteiro, e muito deplorável seria que um homem não percebesse o que até as aves percebem.

Sem patriotismo, porque é achincalhar sua própria pátria avançar timidamente a opinião de que talvez haja lugares mais férteis alhures, por esse mundo afora, do que as zonas velhas de São Paulo ou certas caatingas do Norte do Brasil. Como? Então pode-se admitir que um brasileiro reconheça que talvez as florestas da Índia ou as pastagens da Suíça sejam mais aproveitáveis do que o mais surrado e mais estéril dos palmos de nosso território? Não é isto um crime de alta-traição?

Como todos os erros que se apresentam dissimulados no meio de uma forte dose de verdade, também esse erro não tardou em se propagar e adquirir ares de verdade dogmática e intangível. Todas as aparências conspiravam para isto. Porque, se é estúpido imaginar que no Brasil tudo deva ser necessariamente superior ao que existe em outros países, é certo, por outro lado, que a Providência nos galardoou com escolhidíssimos dons naturais.

Destes dons, o Brasil tem alguns que nenhum outro país do mundo pode se jactar de possuir. Outros, nós os temos em grau apreciável, embora menor do que certas regiões da Europa, da Ásia e da África. Raros,

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