Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 856 | página 38-39
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derrotar o Ocidente. O Ocidente é o filho primogênito da Igreja, cada vez mais desfigurado hoje pela Revolução, mas ainda o primogênito. Um europeu que o negue sob o pretexto de lutar contra a Nova Ordem Mundial é como um filho que se divorcia da mãe.7

Afinal, a Nova Ordem Mundial é uma velha utopia que foi substituída pela da Nova Desordem Mundial.8 Vladimir Putin é, como George Soros, um agente da desordem mundial. Putin — como observa o analista internacional Bruno Maçães — está convencido de que o caos é a energia fundamental do poder e, “com razão, ele pode ser considerado o Yaldabaoth, o demiurgo gnóstico, Filho do Caos e líder dos espíritos do submundo”.9

A Igreja e a queda do Império Romano do Ocidente

A Nova Desordem Mundial nos lembra aquela vivida pelo Império Romano do Ocidente sob o impacto das invasões bárbaras. Entre as datas que entraram para a história está 31 de dezembro de 406, quando uma massa de povos germânicos atravessou o rio Reno congelado e invadiu as fronteiras do Império.

Um desses povos, os vândalos, varreu a Gália, atravessou os Pirineus pelo estreito de Gibraltar e devastou as províncias da África romana.

O Império Romano estava imerso no relativismo e no hedonismo, como está hoje o Ocidente. Um dos centros de maior corrupção era Cartago, capital da África romana, que gozava da fama de ser o “paraíso” dos homossexuais. Um autor cristão contemporâneo, Salvian de Marselha (400-451), escreve que “enquanto as armas dos bárbaros chacoalhavam pelas muralhas de Cartago, a comunidade cristã de Cartago se entregava à louca alegria nos circos e girava nos teatros! Fora dos muros ficavam os que foram massacrados, dentro os que fornicavam”.10 Os vândalos, por outro lado, como os povos germânicos descritos por Tácito, viviam “em modéstia reservada, não corrompidos pela sedução dos espetáculos ou excitações de convívio (…). Porque lá os vícios não fazem sorrir, e subornar e ser corrupto não se chama moda”.11

O que os cristãos deveriam ter feito? Abrir as portas aos vândalos?

A poucos quilômetros de Cartago estava a cidade de Hipona, cujo bispo era Santo Agostinho, que meditando sobre a invasão dos bárbaros compôs sua obra-prima A Cidade de Deus. O governador da África romana era o conde Bonifácio, amigo fiel de Santo Agostinho, definido por Procópio de Cesareia, juntamente com Ezio, como “o último verdadeiro romano”.12 O bispo de Hipona não pediu rendição, mas resistência contra os bárbaros, escrevendo a Bonifácio: “A paz não se busca para provocar a guerra, mas a guerra é travada para obter a paz. Inspira-te, pois, na paz, para que vencendo possas levar aqueles que tu derrotas ao bem da paz”.13

Bonifácio refugiou-se na cidadela de Hipona, sitiada pelos vândalos. Durante o cerco, que durou 14 meses, Santo Agostinho morreu, em agosto de 430, aos 76 anos. Foi somente quando sua voz se calou que os vândalos conquistaram a cidade. A resistência de Bonifácio permitiu que as tropas orientais desembarcassem na África e reunissem suas forças com as dele.

Nos mesmos anos, outros bispos incitaram a resistência contra os bárbaros. São Nicásio foi morto na catedral de Reims; Santo Exupério, bispo de Toulouse, resistiu aos vândalos até a sua deportação; São Wolf defendeu Trier, da qual era bispo; Santo Anian, bispo de Orleans, organizou a defesa de sua cidade contra os hunos, permitindo que as legiões romanas de Ézio chegassem até Átila e o derrotassem.

Os bispos católicos não disseram “Melhor bárbaros que mortos”.

A causa da guerra segundo a Mensagem de Fátima

Se queremos remover a guerra, devemos remover suas causas. E a verdadeira e profunda causa da guerra, da pandemia e da crise econômica que está surgindo no horizonte são os pecados da humanidade que deu as costas a Deus e à sua Lei.

Nas aparições de Fátima em 1917, Nossa Senhora disse que o distanciamento dos povos europeus de Deus conduzia ao castigo divino da guerra.

“Deus está prestes a punir o mundo por seus crimes, através da guerra, da fome e da perseguição à Igreja e ao Santo Padre. Para evitar isso, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se aceitarem os meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”.14

A Mensagem de Fátima não é um convite genérico à oração e à penitência; é sobretudo o anúncio de um castigo e do triunfo final na história da misericórdia divina.

João Paulo II consagrou a Rússia?

Há quem pense que a consagração da Rússia já foi feita por João Paulo II quando, em 25 de março de 1984, na Praça de São Pedro, consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria, com uma referência “aos povos dos quais esperas a nossa consagração e a nossa guarda”.

A Irmã Lúcia disse inicialmente estar insatisfeita com essa consagração na qual a Rússia não foi explicitamente mencionada, mas depois mudou de opinião, considerando válido o ato de João Paulo II.

A opinião da Irmã Lúcia é certamente autorizada, mas contrasta com as palavras ainda mais autorizadas de Nossa Senhora que ela mesma nos relata.

Com efeito, em 29 de Agosto de 1931, a Irmã Lúcia transmitiu uma terrível profecia de Nosso Senhor ao bispo de Leiria. Ela recebera uma comunicação íntima segundo a qual: “Não quiseram aceitar o meu pedido. Como o rei da França, eles se arrependerão e a farão, mas será tarde demais. A Rússia terá espalhado seus erros pelo mundo causando guerras e perseguições à Igreja. O Santo Padre terá que sofrer muito”.15

Trinta e oito anos se passaram desde 25 de março de 1984. A espetacular autodissolução do regime soviético em 1991, sem insurreições ou revoltas, parecia ser, e talvez fosse, um resultado parcial dessa consagração. Mas a Rússia não se converteu e o comunismo não morreu. Vladimir Putin é um bolchevique nacional

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