Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 856 | página 36-37
| DESTAQUE | (continuação)

Parece um discurso razoável, mas se quisermos ser completamente razoáveis devemos lembrar que a OTAN nasceu como um sistema defensivo contra as tropas de Varsóvia; que a Rússia não ganhou, mas perdeu a guerra fria, e que esta guerra entre as duas superpotências surgiu da infeliz paz de Yalta, em fevereiro de 1945, quando, com o consentimento dos governos ocidentais, foi sancionada a divisão da Europa em duas zonas de influência e o comunismo soviético se tornou senhor absoluto da Europa Oriental.

O historiador de hoje, como o político de ontem, não concorda com Neville Chamberlain, que em 30 de setembro de 1938 retornou triunfante de Munique com uma paz frágil nas mãos, o que levou Winston Churchill a dizer: “Podias escolher entre a desonra e a guerra. Escolheste a desonra e terás a guerra”.

A paz de Yalta, que redefiniu as fronteiras da Europa após a Segunda Guerra Mundial, foi por sua vez o resultado do Tratado de Versalhes, que colocou a responsabilidade da Primeira Guerra Mundial na Alemanha, impôs-lhe pesadas sanções econômicas e entregou o corredor de Gdansk. Devemos dizer que Hitler teve suas razões para invadir a Polônia porque a cidade de Danzig não era menos alemã do que Donbass é russo?

Quaisquer que fossem suas razões, Hitler tinha um projeto expansionista tanto quanto o de Putin, e o historiador de hoje, como o político de ontem, não concorda com Neville Chamberlain, que em 30 de setembro de 1938 retornou triunfante de Munique com uma paz frágil nas mãos, o que levou Winston Churchill a dizer: “Podias escolher entre a desonra e a guerra. Escolheste a desonra e terás a guerra”.

Putin está travando uma guerra justa?

A “missão imperial” da Rússia não corresponde apenas às ambições geopolíticas de Putin, mas também ao pedido do patriarca Kirill, que confiou a Putin a missão de criar a “Terceira Roma” eurasiana nas ruínas da segunda Roma católica.

Talvez seja para evitar essa objeção fácil que o colaboracionismo cai em uma terceira formulação, mais coerente, mas ao mesmo tempo mais aberrante que as duas primeiras. Muito simplesmente: a guerra de Putin é uma guerra justa. E se for uma guerra justa, tanto a resistência do povo ucraniano quanto as sanções ocidentais contra a Rússia são injustas, porque as sanções se aplicam a quem está errado, não a quem está certo.

Por que Putin estaria certo? Por que a sua guerra seria justa? Não só porque defende o interesse nacional do seu país, mortificado pelo Ocidente, mas também porque sua guerra teria uma dimensão ética, como nos assegura a igreja ortodoxa russa através das palavras de Kirill, patriarca de Moscou, para quem Putin luta contra um Ocidente depravado que autoriza o Orgulho Homossexual. Além disso, o próprio Putin muitas vezes se apresentou como defensor da família e dos valores tradicionais abandonados pelo Ocidente. No entanto, em discurso no Valdai Club, em 22 de outubro de 2021, no qual atacou a teoria do gênero e a cultura do cancelamento, Putin admitiu que a Rússia experimentou, bem antes do Ocidente, a degradação moral que ele agora denuncia. O divórcio foi introduzido na Rússia em 7 de dezembro de 1917, poucas semanas após os bolcheviques tomarem o poder; o aborto foi legalizado em 1920 — a primeira vez no mundo em que isso acontecia sem quaisquer restrições. E foi na Rússia que se deu a transição da revolução política para a revolução sexual,5 com o jardim de infância experimental de Vera Schmidt (1889-1937), criado em 1921 no centro de Moscou, onde as crianças eram iniciadas precocemente na sexualidade.6

Não foi Putin, mas Stalin, quem refreou o divórcio, o aborto, a revolução sexual — em 1936, quando percebeu que sua política de poder seria minada pelo colapso da moralidade na Rússia. Putin está nesta linha. Hoje a Rússia é um país de aborto e divórcio, com a maior taxa de divórcio do mundo, embora proíba as marchas Orgulho homossexual. E quais são os valores tradicionais nos quais Putin se inspira? São aqueles do Patriarcado de Moscou, que se apoia hoje em Putin como se apoiava ontem em Stalin. Putin, como Stalin, por sua vez, depende do Patriarcado de Moscou. O Patriarcado de Moscou usa o poder político para defender o primado da Ortodoxia; o Estado usa a Igreja para consolidar o senso de identidade e patriotismo do povo russo.

A “missão imperial” da Rússia não corresponde apenas às ambições geopolíticas de Putin, mas também ao pedido do patriarca Kirill, que confiou a Putin a missão de criar a “Terceira Roma” eurasiana nas ruínas da segunda Roma católica, destinada a desaparecer, como todo o Ocidente. — Pode um católico aceitar esta perspectiva?

É profundamente lamentável que um eminente arcebispo católico como Mons. Carlo Maria Viganò apresente a guerra de Putin como uma guerra justa para

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