A retirada foi também e sobretudo simbólica, pois aconteceu menos de um mês antes do 20º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro, quando movidos por uma providencial graça de belicosidade e unidade que os terroristas islâmicos não esperavam, os EUA reagiram com determinação para punir os terroristas responsáveis pela morte de quase três mil pessoas em solo americano.
Desta vez, entretanto, o governo americano e, em certa medida, a opinião pública, demonstraram indiferença e até apatia para com a própria autodestruição. Embora as pesquisas mostrem que a maioria dos americanos vê como acertada a decisão de se retirar do Afeganistão, essa grande maioria igualmente se opôs à forma como o governo Biden a levou a cabo.1
No entanto, a queda do Afeganistão foi um evento que, em muitos aspectos, simboliza o estado da civilização ocidental. As instituições do que resta do Ocidente cristão não estão morrendo, mas se autodestruindo. Como um vírus que destrói a célula que infecta, a esquerda radical sequestrou essas instituições e as transformou em armas da guerra cultural, destruindo-as no processo. Os revolucionários se infiltraram, polarizaram e fragmentaram todas as instituições em todos os campos, da política e da economia à cultura, e até mesmo a própria Igreja Católica.
Essa autodestruição universal não é um acidente, mas a consequência inevitável de um processo revolucionário analisado por Plinio Corrêa de Oliveira em sua magistral obra Revolução e Contra-Revolução. Desde os anseios anárquicos de Rousseau, os revolucionários sonharam com uma utopia em que a civilização, a ordem, a lei, a moralidade e a propriedade desapareceriam, para serem substituídas por uma sociedade tribal, primitiva, naturalista e igualitária em que a religião, a família e o país desaparecessem. É o destino do liberalismo, do progressismo, do socialismo e do comunismo.
Ao mesmo tempo, a reação contra esse processo revolucionário de autodestruição nunca foi tão intensa. Um bom número de pessoas em todo o Ocidente vai se opondo cada vez mais aos avanços radicais da Revolução gnóstica e igualitária, rejeitando os tótens do liberalismo e procurando respostas na tradição, de maneira especial no catolicismo tradicional. É inegável que a direita cresce em todos os lugares, enquanto a esquerda perde apoio popular. Surpreende que essa tendência seja mais acentuada nas gerações mais jovens.
“Sinodalidade” e autodemolição da Igreja Católica
O exemplo mais claro dessa tendência autodestrutiva no mundo de hoje é a Igreja Católica. O Papa Francisco não está apenas semeando confusão, mas fomentando divisões e até cismas com suas palavras e ações.
Desde 2019, a chamada Via Sinodal — um novo tipo de estrutura de governo da Igreja na Alemanha — está procurando tornar a Igreja Católica mais igualitária e “democrática”. O Sínodo é uma assembleia parlamentar de clérigos e leigos que, na Alemanha, está tentando mudar os ensinamentos da Igreja sobre a moralidade sexual, o sacerdócio, o papel da mulher e a natureza hierárquica da Igreja.
Em maio, a Igreja Católica na Alemanha e a Igreja Luterana Alemã participaram de uma cerimônia ecumênica de “intercomunhão” em Frankfurt, na qual os católicos foram convidados a participar de uma “ceia evangélica” com protestantes, os quais, do mesmo modo, foram convidados a receber a Sagrada Comunhão em uma Missa católica. O bispo Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã, declarou no mês anterior que “qualquer um que seja protestante e participe da eucaristia pode receber a comunhão” no evento ecumênico. “Queremos dar passos em direção à unidade” — acrescentou — , pois “quem acredita na consciência do que é celebrado na outra denominação também poderá se aproximar [do altar] e não será rejeitado”. Ele disse que a prática já é “mantida em todo o país” e, na verdade, “não constitui novidade”.2
Dom Bätzing também falou da possibilidade de ordenar mulheres ao sacerdócio, dizendo que os argumentos teológicos contra isso “não são mais aceitos”.3
A heresia declarada e o sacrilégio na Igreja alemã estão conduzindo, graças ao Caminho Sinodal, ao que muitos temiam: um cisma na Igreja Católica. Em março, quando os objetivos radicais do Sínodo se tornaram mais evidentes, Dom Philip Egan, bispo de Portsmouth, na Inglaterra, disse que o Caminho Sinodal levará a um “cisma de fato”. E acrescentou: “Minha preocupação é que estamos muito perto de um ponto sem volta com este Caminho Sinodal, quando bispos e pessoas passarem a promover posições contrárias ao magistério universal e à disciplina da Igreja, como a ordenação de mulheres, a intercomunhão etc.”4
No entanto, diante dessa promoção aberta da heresia na Igreja, o Papa Francisco permaneceu em silêncio. E deixou claro que deseja impulsionar a “sinodalidade” mais plenamente na Igreja. No dia 7 de setembro, o Vaticano divulgou um documento preparatório de 22 páginas para o Sínodo sobre a Sinodalidade — que começou em outubro e culminará com um Sínodo dos Bispos em 2023 — , intitulado “Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão”.5
Mesmo os progressistas radicais veem o Caminho Sinodal fluir para um cisma. Em 23 de setembro, o cardeal Walter Kasper, ex-presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, disse que o Caminho Sinodal proposto pelos bispos alemães é um esforço para “reinventar a Igreja”, que algumas das declarações do Sínodo contradizem “a compreensão sacramental da Igreja e do episcopado”, e que “muitos se perguntam se tudo isso ainda é inteiramente católico”.6
Após adotar várias declarações que desafiam a doutrina da Igreja, no dia 2 de outubro o bispo Dom Georg Bätzing encerrou abruptamente o Sínodo alemão, alegando que a reunião não estava apresentando quórum. Algumas semanas depois, o cardeal Kasper voltou a criticar o Caminho Sinodal Alemão. Afirmou que o Sínodo “se tornou uma farsa”, por colocar de lado as opiniões de uma minoria de bispos que se opôs às propostas de mudanças dramáticas no ensino e na disciplina da Igreja. O fato de um importante clérigo progressista como o cardeal Kasper se opor ao Sínodo aponta profundas divisões e obstáculos na Igreja alemã sobre os documentos propostos, que contradizem os ensinamentos tradicionais da Igreja.
Agenda LGBT e Revolução na Igreja
O Papa Francisco passou todo o seu pontificado minando os ensinamentos tradicionais da Igreja sobre a