Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 853 | página 18-19
| ENTREVISTA |(continuação)

e a promulgação pela Regente, da Lei do Ventre Livre, primeiro grande passo para a abolição da escravidão no Brasil.

A Segunda foi marcada pelas consequências da Questão Religiosa, que opôs o Governo Imperial aos Bispos que reivindicavam os direitos da Igreja face ao regalismo vigente. A Princesa Isabel obteve do Imperador a comutação da pena de quatro anos de trabalhos forçados que fora imposta aos Bispos D. Vital de Oliveira e D. Macedo Costa.

Na Terceira Regência a causa da abolição da escravatura ganhava cada vez mais espaços na opinião pública, mas ao mesmo tempo se encrespava a oposição dos escravocratas, que tinham no Presidente do Conselho, o Barão de Cotegipe, que julgava inoportuna a medida, um aliado de ocasião. A Princesa Isabel, movida por profunda convicção religiosa, mas também discernindo as circunstâncias, julgou que deveria intervir. Manobrou para que Cotegipe renunciasse e chamou para a chefia do governo um sincero abolicionista, com vasta folha de serviços ao Império, o pernambucano João Alfredo Corrêa de Oliveira. Em apenas dois meses logrou ele que o Parlamento votasse a lei da abolição, promulgada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1988 em meio a grandes festejos populares ― a Lei Áurea.

Cotegipe havia vaticinado à Regente que a abolição da escravidão acarretaria a perda do Trono. “Mil outros tronos houvera, mil outros tronos sacrificaria” foi sua animosa réplica da Princesa.

Ela ficou conhecida como “A Redentora”. Esse título esgota o papel histórico da Princesa?

A libertação dos escravos, tendo em vista suas vastas implicações, era por si só de molde a imortalizar sua autora. Mas isso não esgotava as cogitações da Princesa Isabel. Pensando na qualificação dos negros que seriam libertos, excogitou ela, em 1886, pedir a São João Bosco a fundação no Brasil de escolas profissionalizantes, resultando daí uma troca de correspondência entre os dois, de grande elevação e beleza, e a criação de duas Casas Salesianas, uma em Niterói, outra em São Paulo.

Quando chamada a exercer a Regência, a Princesa Isabel cumpriu seu dever com discernimento e determinação, chegando mesmo a operar uma troca na Chefia do Gabinete, mas não buscou criar um espaço permanente para si. Retornava sempre à vida social que lhe tocava, exercendo aí um grande papel pela irradiação pessoal e pela influência. Em sua residência levava uma vida social intensa, dando um exemplo de família autenticamente católica. Fomentava a cultura, a música, tocava admiravelmente piano e violino. Uma vez por semana recebia para jantar o Imperador e a Imperatriz. Dava o exemplo de uma grande dama de seu tempo: nobre, maternal e bondosa.

“A Redentora”. Assim cognominou a posteridade aquela que integrou o elemento negro de nossa nacionalidade. Desde logo aflorou esse pensamento, e propuseram então lhe erigir um monumento com tal título. “Não à Redentora, mas ao Redentor”, declinou a Princesa, indicando que o monumento deveria ser levantado em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo e no topo do Corcovado. O advento da República obliterou momentaneamente esse anseio, que voltaria com força mais tarde, congregando múltiplas contribuições e resultando afinal na inauguração da portentosa imagem no dia 12 de outubro de 1931. Isso há 90 anos. No lançamento da pedra fundamental em 1922 havia estado presente minha avó, nora da Princesa Isabel, a Princesa Dona Maria Pia.

Assim, o monumento que se tornaria símbolo universal do Brasil cristão teve sua origem num desapegado e reconhecido movimento de alma da grande Princesa.

O gesto da Regente do Império do Brasil não passou despercebido ao Papa Leão XIII, ele mesmo um fervente abolicionista, que no mesmo ano conferiu a Rosa de Ouro ― honraria concedida pelos Papas a personalidades católicas de grande destaque e benemerência ― à Princesa Isabel, como reconhecimento por sua generosidade e determinação.

E como foi a vida da Princesa Isabel no Exílio?

Mais da metade dos anos de sua vida adulta passou-os a Princesa Isabel no exílio na França. Entretanto, lá não cessou seu devotamento ao Brasil. Pelo contrário, aproveitava todas as ocasiões para fazer bem à Pátria e aos brasileiros distantes.

Amargou primeiramente a morte de Dona Teresa Cristina, em Portugal, na cidade do Porto, ainda em 1889 e a de Dom Pedro II, em Paris, em 1891. Com o Conde d’Eu e os três filhos estabeleceu-se em Boulogne e mais tarde no castelo d’Eu, na Normandia. Cuidou então da formação dos filhos, em boas escolas francesas e posteriormente em academias militares da Áustria. Cônscia da importância da preservação da Dinastia brasileira, que apenas havia deixado o poder, buscou para eles casamentos à altura, matéria aliás já suficientemente versada.

Ademais da condição de Imperatriz de jure do Brasil, ostentava a de Princesa de França, títulos que lhe conferiam uma alta posição na sociedade parisiense, na qual era mesmo uma das figuras mais destacadas.

Em lugares públicos, numa igreja, num teatro, num parque, em cerimônias, quando discernia brasileiros fazia questão de convidá-los para ir à sua casa, onde buscava que se sentissem “em casa”.

Poderia nos dar exemplos desse tipo de relacionamento privilegiado que, durante o exílio, a Princesa dispensava aos brasileiros?

Uma dessas visitas foi a da família do Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira, sobrinho de seu antigo Ministro. O filho deste, o então menino Plinio Corrêa de Oliveira, viria a ser grande amigo e apoio de meu Pai, Dom Pedro Henrique e, a seu pedido, orientador dos filhos dinastas, um dos quais é o entrevistado de hoje.

Foram inúmeros os casos de sua atenção a brasileiros. Sabedora dos experimentos de Santos Dumont ― o Pai da Aviação ―, mandava levar-lhe lanches no Bois de Boulogne para que não interrompesse sua atividade com deslocamentos. E numa ocasião acrescentou um bilhete: “Sr. Santos Dumont, envio-lhe uma medalha de São Bento, que protege contra acidentes. Aceite-a e use-a na corrente de seu relógio, na sua carteira ou no seu pescoço. Ofereço-a pensando em sua boa mãe, e pedindo a Deus que o socorra sempre e ajude a trabalhar para a glória de nossa Pátria”.

Atenta, acompanhava também o que acontecia na Pátria. O Banco do Brasil, sólido no Império, havia chegado em duas décadas de República a uma situação falimentar. O Presidente Hermes da Fonseca viu no íntegro Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira o homem para assumir a presi-

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