Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 845 | página 28-29
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação) Guerra Mundial, cujo término Ela previra — houve uma virulenta pandemia: a ‘gripe espanhola’. Esta devastou várias nações, provocando mais mortes do que a própria guerra. Nos anos 1918 e 1919, dizimou aproximadamente 50 milhões de pessoas e infectou mais de um terço da população mundial. Incluem-se entre suas vítimas Francisco e Jacinta, dois dos videntes de Fátima, hoje canonizados, que faleceram em 4 de abril de 1919 e 20 de fevereiro de 1920, respectivamente.

Fátima, magnífica e milagrosa fonte de salvação

Este mês, em que celebramos a primeira aparição da "Senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol", ocorrida em 13 de maio de 1917, é uma ocasião especial para nos voltarmos a Ela, suplicando seu socorro em meio aos incontáveis sofrimentos dos presentes dias pandêmicos. Assim, trataremos de um aspecto de Fátima propício para o atual momento, mas pouquíssimo conhecido até mesmo por estudiosos do tema, pois tem sido muito silenciado e boicotado. Por várias razões, pode-se afirmar que Fátima é a Lourdes de Portugal. Uma delas é que, assim como na Gruta de Massabielle surgiu milagrosamente uma fonte, na Cova da Iria o mesmo ocorreu; e as fontes foram várias. Quase não se fala delas, por isso apresentaremos a seguir um pequeno histórico. Com a expansão da devoção a Nossa Senhora de Fátima, nos anos que se seguiram às aparições, aumentou muito o afluxo de peregrinos à Cova da Iria. Sobretudo no dia 13 dos meses de maio a outubro, romarias provinham de muito longe para suplicar graças, recordar e agradecer as aparições da Santíssima Virgem, em número até maior que o dos peregrinos de Lourdes. Temos notícia de que, num só dia de 1926, o local foi visitado por aproximadamente 400 mil fiéis, como está registrado na "Documentação crítica de Fátima – Seleção de documentos (1917-1930)": "As peregrinações de Fátima são mais imponentes e significativas que as de Lourdes. Em Fátima juntam-se num só dia muito mais pessoas do que habitualmente se juntam em Lourdes, apesar de todo o conforto e comodidades que a pequena cidade dos Pirineus oferece aos peregrinos. Nunca em Lourdes se viu tanta gente reunida, como se vê em Fátima, principalmente no dia 13 de maio. Dizem que no ano passado [1926] deviam estar lá cerca de 400.000 pessoas" (p. 331).2 A mesma documentação registra: "Se o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes é, por antonomásia, o santuário dos milagres físicos, das curas das doenças de toda a espécie, de que se enferma a pobre humanidade, pode dizer-se com verdade que o Santuário de Nossa Senhora de Fátima é, por excelência, o Santuário das conversões e das graças espirituais. Apesar do segredo que envolve estas ressurreições mais belas e mais admiráveis do que a de Lázaro, quando saiu do sepulcro à voz portentosa do Senhor, que o chamava de novo à vida, não há quem não conheça o movimento consolador de confissões, incessante e intenso, que se realiza em Fátima, principalmente no dia 13 de cada mês" (pp. 471 e 472).3

Brotaram águas a poucos passos da azinheira

Devido a esse exponencial afluxo de peregrinos, tornou-se urgente e absolutamente indispensável dispor de água em abundância para atender à sede de tanta gente. Mas Fátima está localizada num terreno desértico, calcário, nada propício às fontes de água, e o local era distante de residências, tornando muito difícil essa tarefa. Como dessedentar, portanto, centenas de milhares de peregrinos? Precisava-se de água também para outras atividades correlatas: para necessidades higiênicas dos peregrinos; para construção e ampliação de hospedarias a fim de recebê-los dignamente; para construir albergues para os enfermos; para os animais que conduziam os peregrinos etc. Os próprios habitantes daquela região agreste — Cova da Iria, Aljustrel e proximidades — se debatiam havia muito tempo com a dificuldade de obter água. Tão crônica era a carência do precioso líquido, que se viam obrigados a recolhê-lo dos telhados e guardá-lo em cisternas, quando chovia. Mas a Virgem de Fátima já havia pensado nessa dificuldade, a julgar pelo que registra Thomas Walsh em seu extraordinário livro sobre Fátima: "Em novembro do mesmo ano [1921], mandou ele [o bispo] abrir um poço nas proximidades da Capela [das aparições] a fim de recolher as águas da chuva para o serviço dos peregrinos. Ficou profundamente impressionado quando jorrou do solo pedregoso uma água cristalina, tão abundante que chegou a encher trinta e seis barris. Continua até hoje a abastecer os camponeses das redondezas, e é fonte de saúde para inúmeros doentes".4 Tal prodígio aconteceu no dia 9 de novembro de 1921, após uma missa celebrada na "Capelinha das Aparições" por D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria. Por uma inspiração providencial, ele mandou explorar o solo do local das aparições e abrir um poço. Os técnicos e operários eram céticos, pois conheciam bem o terreno. Mas, por obediência ao Senhor Bispo, começaram a cavar o solo. E a surpresa não demorou: as águas brotaram abundantemente a poucos passos da azinheira sobre a qual a Santíssima Virgem aparecera a Lúcia, Jacinta e Francisco. Alguns, chorando de alegria, exclamaram: "É um milagre! Isso não tem explicação natural!". Os que ainda duvidavam das aparições na Cova da Iria, depois disso ficaram convencidos da sua veracidade. Acreditaram por causa da fonte de água, mas Aquela que fizera surgir essa água já havia operado um milagre ainda maior, naquele mesmo lugar, no dia 13 de outubro de 1917: "O sol ziguezagueou pelo céu", diante de aproximadamente 60 mil fiéis. "O sol bailou em Fátima", diziam os camponeses. E o "Milagre do Sol" foi noticiado pelo jornalista Avelino de Almeida no jornal "O Século" (15 de outubro de 1917) com o título "Coisas espantosas! Como o sol bailou ao meio dia em Fátima".5

O ‘antídoto celestial’ do ‘cantinho do Céu’

Em 1922, com o incremento das multidões de peregrinos, D. José Alves ordenou cavar mais dois poços, Página seguinte