Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 844 | página 20-21
| ESPLENDORES DA CRISTANDADE | (continuação)

Estilo egípcio, estilos pagãos

Egito: as pirâmides de Quéops, Quefrem e Miquerinos. Já bem antes de Roma, era possível seguir a evolução das construções do primitivo Egito até as pirâmides de Quéops, Quefrem e Miquerinos. Durante milênios os egípcios construíram. Chegaram a um estilo único, a partir do qual repetiram a forma de sua arquitetura, e a ela agregaram colunas e esfinges. Mas pararam nisso, e hoje não se entende por que não desenvolveram as mil possibilidades que tinham para aprimorar sua arquitetura. Por que faltou fertilidade aos egípcios? Os exemplos de arquitetura pagã dão-nos a impressão de povos semelhantes a árvores nascidas para produzir muitas safras, entretanto geraram uma só, e nela se fixaram. Esses povos perderam a propulsão inicial. Passando-se os milênios, seus frutos magníficos secaram no tronco que os gerou, antes mesmo de amadurecerem. Criaram belezas que atingiram um grau de perfeição, mas a partir de determinado momento não mais se moveram. Fixaram-se à espera de suas próprias ruínas. Ao denotar o movimento das almas ao longo da História, a arte arquitetural revela o caminhar de toda a cultura de um povo. Seu pensamento e suas orações incutem formas a seus monumentos. O historiador norte-americano Henry Osborn Taylor bem assinala o progresso do pensamento religioso na Cristandade. O acréscimo de fervor dos santos ao longo dos séculos foi compartilhado pelo desenvolvimento dos estilos românico e gótico cuja finalidade era a mesma da oração; ou seja, elevar a alma a Deus. O gótico é oração expressa, não por meio da escrita, mas pela pedra. "É verdade que Santo Agostinho tinha um grande amor de Deus. Com grande fervor ele degustava esse amor; analisava-o racionalmente e nessa análise seu pensamento se abrasava. Entretanto, sua oração ainda não transmitia aquela ternura pelo Cristo divinamente humano que vibrava nas palavras de São Bernardo e fazia da vida de São Francisco um poema lírico".* Assim, o santo, o poeta e o mestre de obras se uniam no mesmo progresso. No mundo cristão, sob as bênçãos da Igreja, a estagnação pagã não se deu. Os estilos e seu aperfeiçoamento ao longo dos séculos e das épocas são notáveis. Estilos se sucederam a estilos nos povos cristãos, e nossas igrejas ostentam imagens de santos dos mais variados séculos, irmanados dentro da eternidade e falando às multidões de modo comovedor. Na face de um mártir da época das perseguições de Diocleciano espelha-se a mesma luz sobrenatural que, muitos séculos depois, circunda a fisionomia severa e doce de São Pio X. Ambas resultam da mobilidade católica, inspirando a cultura e civilização cristãs. A Igreja tem vida sobrenatural, e essa vida propulsiona seu progresso. O estímulo católico vem da presença em seu seio do próprio Deus, vivo e verdadeiro. Enquanto houver fidelidade a essa Presença divina, a Igreja realizará maravilhas em todos os domínios da atividade humana: Omnia possum in eo qui me confortat ("Tudo posso n’Aquele que me conforta" (Phil. 4, 13). À cultura pagã, pelo contrário, falta energia vital. Alcançado um grau de esplendor, à míngua de propulsão para o alto ela não continua sua marcha ascensional, não acompanha os passos da História.

Estilo românico

Igreja de São Clemente de Tahúll, de estilo românico, na Catalunha. O estilo diretamente inspirado pela Igreja em seus primeiros tempos é o românico. É a continuação do estilo romano, acrescido de algo novo. Dele jorra um novo esplendor repleto de sugestões, que mais tarde se realizariam numa nova forma de beleza que foi o estilo gótico. O vigor de alma palpitante no estilo românico pressagiava um esplendor ainda mais fulgurante, e o gótico realizou essa promessa. Na medida em que o românico vai se desenvolvendo, suas paredes vão se tornando mais grossas, sua silhueta se torna mais séria. Dir-se-ia que, com seu afirmamento, as pedras as tornam mais duras e ele vai adquirindo outra fisionomia. Visto de fora o prédio mostra uma fisionomia um tanto sombria, pensativa, nobremente ameaçadora; mas internamente ele se torna acolhedor e suave. O aspecto de fortaleza que se observa na fachada reflete o tempo das invasões bárbaras e sarracenas, além do combate às heresias. Em seu interior, no entanto, ele se enche de doçura, protege e abriga o povo fiel. Condensando assim no seu conjunto a expressão de sua vida, a fachada chama à árdua luta apostólica, e no interior a doçura materna aponta para o Céu. Duas características aparentemente conflitantes — a luta e a proteção afetuosa — entretanto tornadas harmônicas no regaço materno da Santa Igreja.

Estilo gótico

Santo Antonio de Pádua (detalhe) – Giotto, Aparição de São Francisco em Arles (1297-1300). Basílica de São Francisco, em Assis. Como evoluiu o estilo românico? Em determinado momento seus arcos se ergueram, afilaram-se, suavizaram-se e terminaram em ponta encimada por uma cruz, transformando-se no arco ogival gótico. Este arco tornou-se moldura para um novo elemento, ainda mais suave e maravilhoso: os primeiros vitrais. Os Evangelhos, os dogmas, a história sagrada e eclesiástica — tudo isso narrado em vidro multicolorido — passaram a guarnecer aberturas na pedra, e através delas jorravam luz, cores e milagres sobre fiéis deslumbrados. As torres externas das catedrais começaram a se rendilhar em esculturas e nos mil ornatos próprios ao gótico. Começaram a aparecer anjos, profetas, reis, cortejos de santos, Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora, imagens que até então eram mostradas apenas no interior do templo feito para abrigá-las. Fachada da catedral gótica de Orvieto, Itália. A partir de um momento impreciso os mestres construtores medievais decidiram expor tais imagens fora da igreja. E numa pedra opaca enquanto pedra, mas transparente de espiritualidade, elas passaram a agir como oradores mudos, atraindo pela expressão de bondade, Página seguinte