| ESPLENDORES DA CRISTANDADE | (continuação)desafiando incrédulos por seu vulto hierático e severo, atraindo pela confissão apostólica. Afirmava-se então que "estilos são expressões da Fé"; e outra observação igualmente fina e verdadeira apontava o gótico como "a escolástica de pedra".
Influência das ordens religiosas
Os estilos acompanharam a santidade das Ordens Religiosas. As duas grandes Ordens de então eram os franciscanos e os dominicanos, que tinham florescido em grande amplitude. Com elas os estilos arquitetônicos foram se enriquecendo.Muitas imagens tendenciosamente adocicadas de Santo Antônio de Pádua o mostram com brilho "envernizado", tonsura própria de um boneco, brincando com o Menino Jesus como se fossem dois coleguinhas de escola. Mas um célebre afresco atribuído a Giotto (que viveu pouco depois dele, no início do séc. XIV) mostra-o inteiramente diferente disso: enorme, corpulento, calmo, pletórico e pregando — o grande Doutor da Igreja e martelo dos hereges. Na sua fisionomia se percebe a espiritualidade que fez dele uma coluna da Igreja, sobre a qual se pode erguer o firmamento. Essa mesma força, retratada por Giotto, resplandece no estilo gótico, tendo sido esboçada a partir das igrejas românicas. A arquitetura gótica nasceu e se desenvolveu durante a vida de Santo Antonio.
Renascença e Contra-Reforma
No início do século XVI, a grande obra dos franciscanos e dominicanos era horrivelmente contestada por Lutero e outros próceres do "Renascimento". Lendo a história daqueles dois santos medievais, e de muitos outros seus contemporâneos, pode-se perguntar se algum deles pressagiava o surgimento de Santo Inácio de Loyola no Século XVI. No entanto, ele foi um perfeito restaurador e continuador da grande obra de franciscanos e dominicanos.Contra a obra nefasta do protestantismo, de repente surge no tesouro de maravilhas da Igreja um Santo Inácio do Loyola, garantindo que a obra de seus predecessores pudesse prosseguir. Ele enfrenta o inimigo novo, para assegurar que o caudal franciscano e dominicano continuasse a fluir. Com esse combate, assegura a continuidade apostólica da Igreja, sustenta a sua obra passada e aponta para rumos novos e mais altos. Ao inovar, no entanto, mantém-se inteiramente solidário com a obra dos dois grandes fundadores medievais, embora sendo um homem muitíssimo diferente de ambos.Diferente? Sim, pois ele se santificou alternando sua visão do universo: ora olhava para o Céu, ora para o inferno. Astuto, desconfiado, rutilante de agilidade e destreza, conhecendo palmo a palmo todas as dificuldades do caminho, pronto para todas as formas de luta, desde as mais épicas e monumentais até as mais rasteiras. Sua fisionomia é impassível na aparência, mas nela borbulha o zelo pelo bem da Igreja e das almas.
Inovação contra a mumificação
Nesses três Santos — São Francisco, São Domingos, Santo Inácio — vê-se a vitalidade da Igreja. Eles são o efeito de uma Causa motora inicial, que se prolonga indefinidamente. Não é isso que se dá nos povos pagãos. Atingindo um alto modelo de perfeição, estes não mais se movem. Mumificam-se e se enrijecem como cadáveres.Parece mumificada, por exemplo, a "igreja ortodoxa", rompida com a Santa Igreja e prevalente em países orientais. Seus estilos dão a impressão de estarem ainda no primeiro dia do cisma grego, parados no tempo do heresiarca Miguel Cerulário, com ares de quem acaba de negar a verdade. Os ícones de Nosso Senhor, Nossa Senhora, Apóstolos e alguns santos, representados em seus templos, assumem ares de distância em relação ao povo, como se pensassem em temas longínquos que não interessam aos fiéis. Não se vê ali a presença do acontecer humano, ao contrário do que se observa na Igreja Católica. Ali não estão representados mártires nem doutores, nem o quotidiano nem a reminiscência da História. Seus vitrais são meros jogos de cor, não têm desenho, não está narrado um fato. Onde está o acontecer histórico, pelo qual os efeitos geravam novas causas? O que fizeram eles depois do cisma? Mumificaram-se, num imobilismo indiferente à marcha da História.
O que é o belo?
Imponente é o Paestum, sem dúvida. Ao contemplá-lo, sente-se uma transfusão de grandezas vindas dele, penetrando a alma pelo olhar. Mas sua expressão pagã está distante da doçura da igreja românica. Seu imenso corpo pesado parece subjugar, ao passo que a igreja românica protege, e assim aproxima a alma da intimidade de Alguém que ninguém vê nem apalpa, mas que todos sentem, e diante do qual todos se ajoelham. Ajoelhando-se, cada cristão se sente na palma da mão de Deus... Sente "aquela ternura pelo Cristo divinamente humano que vibrava nas palavras de São Bernardo".Percebendo aquela mão possante que a todos une, o povo católico sente-se participante de um todo, protegido por Aquele que se imolou no Calvário por todos nós. As paredes espessas resguardam e protegem, enquanto a luz tamisada dos vitrais ilumina o espírito. A todos uma Providência divina circunscreve, ampara, une e afaga.Esta é a fonte do impulso perenemente inovador da Santa Igreja, a Causa que modelou a Cristandade. De uma encantadora aldeia do Tirol até a taba indígena catequizada pelo grande apóstolo São José de Anchieta, ou a colônia de pescadores bretões aos pés da Abadia do Monte Saint Michel, basta um pouco de atenção para constatar essa inovadora assistência divina.Isso é o belo? Onde está a beleza? Ela está no ato de oferecer a Deus as conquistas humanas, por meio dos elementos criados neste mundo. Pois só Deus é a própria Beleza. Nota:* "A mentalidade medieval: história do desenvolvimento do pensamento e da emoção na Idade Média" (1919), apud "Return to Order", John Horvat II, York Press (2013).Página seguinte