Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 831 | página 42-43

| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

sacerdotes para aumentar o brilho das cerimônias de Santa Úrsula, e assim o templo tornou-se pequeno para multidão cada vez maior. Havia muitos anos que não se viam cerimônias como aquelas.

Para São Clemente, a devoção a Nossa Senhora unia-se à do Santíssimo Sacramento. Em uma época em que até teólogos pré-progressistas julgavam válido impugnar o culto “excessivo” a Maria Santíssima, ele se destacou como o “padre que benze terços”. Considerava o Rosário a sua “biblioteca” através da qual conseguia tudo que pedia a Deus. Impôs aos Oblatos o dever de defender sempre o Rosário, sobretudo quando esse fosse escarnecido pelos hereges ou assemelhados.

Sem importar-se com as proibições do josefismo — mesmo porque o próprio irmão do Imperador frequentava a igreja e participava das cerimônias — o exemplo de Santa Úrsula contagiou outras igrejas da cidade, que passaram a emular-se no esplendor do culto divino. O apostolado do belo se fazia de modo exímio. Atraídos pela beleza da música na liturgia, os protestantes também passaram a frequentá-la, e não poucos se converteram ouvindo aqueles sermões cheios de unção e erudição. Numerosos judeus também se apresentaram, pedindo o batismo. Até mesmo libertinos, que para lá se dirigiam com o intuito de zombar, termina­vam sendo conquistados. Pediam-lhe que os confessasse, e não raro o próprio ingresso na Congregação.

Influenciando o Congresso de Viena

Os sermões de São Clemente eram simples. Lia o Evangelho, e entre uma sentença e outra ia explicando um dogma da fé ou um mandamento. Confrontava então os costumes em voga e as ideias do tempo com os princípios do Evangelho. Exortava todos, sempre com palavras eloquentes e convincentes, a se converterem e praticarem a virtude. Embora não fosse orador, empolgava como nenhum outro pregador em Viena, pois a verdadeira santidade atrai.

Realizava-se nessa ocasião o Congresso de Viena, convocado para reparar as calamidades provocadas pelas guerras napoleônicas e traçar o futuro da Europa.São Clemente esperava muito desse congresso, porque de seu resultado dependia a prosperidade da Religião no Velho Mundo. Exercia muita influência sobre alguns de seus participantes, com os quais confabulava e discutia diariamente as propostas que iriam apresentar. Até o Príncipe da Baviera pedia seus conselhos, tendo em certa ocasião conferenciado com ele das oito da noite às duas da madrugada. Enquanto isso, outros discípulos de São Clemente preparavam a opinião pública por meio de artigos nos principais jornais de Viena, expondo com clareza o que ouviam dele.

Ao mesmo tempo, alguns dos sacerdotes que o seguiam foram incumbidos de no decurso do Congresso pregar nas igrejas de Viena sobre os pontos religiosos em discussão, orientando o povo e preparando os ânimos. Seu hagiógrafo afirma: “Se São Clemente não conseguiu tudo o que desejava do Congresso, teve a glória de salvar a Áustria do cisma que a ameaçava, e de destruir por completo os planos de separação excogitados e defendidos pelo poderoso Wessenberg. Essa vitória foi uma das mais gloriosas que São Clemente alcançou em vida”.*

São Clemente faleceu no dia 15 de março de 1820, há exatos 200 anos, no momento em que os sinos tocavam o Angelus. Nesse mesmo dia o Imperador Francisco I assinou o decreto permitindo e aprovando a Congregação dos Redentoristas para a Áustria. Realizava-se assim a profecia do santo: “É preciso primeiro que eu morra, só depois a Congregação se expandirá”. Ao receber a notícia do passamento de São Clemente, o Imperador exclamou: “Isto é duplamente doloroso para mim e meu povo, bem como para toda a Cristandade, porque ele era a coluna da Igreja”.

Foi beatificado por Leão XIII e canonizado por São Pio X em 20 de maio de 1909. 

* Utilizamos como fonte bibliográfica para este artigo principalmente o excelente livro do Pe. Oscar Chagas Azeredo, São Clemente Maria Hofbauer. Edição da Livraria Nossa Senhora Aparecida, Oficinas Gráficas Santuário de Aparecida, 1928, do qual extraímos as citações transcritas entre aspas.


| DESTAQUE |

“QUERIDA AMAZONIA”

José Antonio Ureta

O Papa Francisco homologa Leonardo Boff e joga Fritz Löbinger no Tibre

A Exortação Apostólica “Querida Amazonia”, que acaba de ser publicada, confirma que no pontificado do Papa Francisco a política tem prioridade sobre a religião. Ele manteve o pé no acelerador da “ecologia integral”, mas deu uma freada brusca na agenda religiosa do Sínodo.

Os cardeais Burke, Müller e Sarah (este último, coautor de livro com o “papa emérito” Bento XVI), assim como os poucos prelados que defenderam com ardor o celibato sacerdotal, têm motivos para estar satisfeitos. E podem agora olhar com sobranceria os promotores do sacerdócio low cost, principalmente os bispos Fritz Löbinger (foto), Erwin Kräutler e seus parceiros do “caminho sinodal” alemão. Schluss!: pois não houve abertura sobre os viri probati nem sobre as “diaconisas”.

O Papa Francisco reconhece que é preciso fazer esforços para as comunidades mais isoladas da Amazônia não serem privadas do alimento da Eucaristia e dos sacramentos da Reconciliação e da Unção dos Enfermos (n° 86 e 89). Também admite que a vida e o ministério sacerdotais não são monolíticos (n° 87). Afirma, porém, que a solução repousa no sacramento da Ordem Sagrada, o qual configura o sacerdote a Cristo (n° 87), que é Esposo da comunidade que se reúne em torno da Eucaristia e é representado por um varão, o celebrante (n° 101). Com isso ele assume os dois principais argumentos dos que se opõem ao sacerdócio uxorado (no qual o sacerdote pode ser casado). Como solução, propõe orações pelas vocações sacerdotais e o direcionamento das vocações missionárias para a Amazônia (n° 90). Queixa-se de passagem por ser absurdo um número maior de sacerdotes dos países amazônicos se dirigir aos Estados Unidos e à Europa, em vez de atuar nas missões nos próprios países (nota 132).

Como havia sido anunciado nos últimos dias, não há uma única menção indireta à eventualidade de ordenar homens casados líderes da comunidade. Pelo contrário, a Exortação Apostólica insiste em que não se trata simplesmente de facilitar uma maior presença de ministros ordenados que possam celebrar a santa missa, mas de promover o encontro com a Palavra de Deus e o crescimento na santidade, através de vários tipos de serviços pastorais passíveis de serem desenvolvidos por leigos (n° 93), como pleiteou judiciosamente Dom Athanasius Schneider com base na sua própria experiência de privação de sacerdotes na Rússia soviética.

Pelo mesmo motivo da configuração do sacerdote em Cristo, Esposo da comunidade, e do amplo e generoso trabalho missionário já realizado por mulheres nas áreas de batismo, catequese, oração (n° 99), o Papa Francisco fecha a discussão sobre a ordenação de mulheres, asseverando que seria uma forma de reducionismo “clericarizar” as mulheres e achar que elas unicamente obteriam um status superior na Igreja se fossem admitidas à Ordem sacra (n° 100). Pelo contrário, as mulheres dão sua contribuição à Igreja da forma que lhes é própria, prolongando a força e a ternura de Maria, a Mãe (n° 101).

Outro que pode estar satisfeito, pelo menos em

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