Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 82 | página 02-03

MODERNISMO

"TUDO RUIRÁ SE A AUTORIDADE ECLESIÁSTICA NÃO SE DEMOCRATIZAR INTEIRAMENTE"

(continuação)

modificar aos poucos, dentro da mesma Igreja, a consciência comum. E por aí confessam, sem o perceber, que a consciência comum não está com eles, e que nenhum direito lhes assiste de se apresentarem como seus intérpretes".

Espírito fundamentalmente revolucionário

Daí vem que os modernistas representem o sumo da obstinação, e com eles são inúteis as medidas brandas: "Esperávamos que os modernistas algum dia se emendassem. Por isto usamos de início, em relação a eles, medidas suaves, como se faz com filhos, e depois medidas severas; por fim, e muito a contragosto, empregamos repreensões públicas. Não ignorais, Veneráveis Irmãos, a esterilidade de Nossos esforços: eles curvam por momentos a cabeça, para a levantar novamente com orgulho ainda maior".

Uma das raízes mais importantes deste lamentável estado de espírito, com efeito, é o orgulho:

"O orgulho! ele está, na doutrina dos modernistas, como em sua própria casa; aí encontra ele por toda parte algum alimento, e se expande então em todos os seus aspectos. Orgulho, por certo, esta confiança em si mesmos que os leva a se erigirem em regra universal. Orgulho, essa vanglória que os apresenta a seus próprios olhos como os únicos detentores da sabedoria; que os leva a dizer, arrogantes e repletos de si mesmos: não somos como os outros homens; e que, para realmente não serem como os outros, os impele às mais absurdas novidades. Orgulho, o que os faz repelir toda sujeição e os leva a uma conciliação da autoridade com a liberdade. Orgulho, essa pretensão de reformar o próximo, esquecendo-se de si mesmos; essa absoluta falta de consideração para com a autoridade, inclusive a autoridade suprema. Não, realmente, nenhum caminho há que conduza mais rápida e diretamente ao modernismo do que o orgulho. Que nos dêem um leigo, ou um Sacerdote, que tenha perdido de vista o princípio fundamental da vida cristã, - a saber, que devemos renunciar a nós mesmos, se queremos seguir Jesus Cristo, - e que não tenha extirpado de seu coração o orgulho: esse leigo, esse Sacerdote estará maduro para todos os erros do modernismo. Eis porque, Veneráveis Irmãos, vosso primeiro dever é resistir a esses homens soberbos, e empregá-los em funções ínfimas e obscuras: que sejam postos tanto mais baixo quanto mais alto pretendam subir, e que seu próprio rebaixamento lhes tire a ocasião de fazer mal".

Fanático espírito de novidade

O orgulho não é a causa única do modernismo. "A causa imediata deste consiste em uma perversão do espírito, não há dúvida. Mas as causas remotas são a curiosidade e o orgulho. A curiosidade, quando não é sabiamente reprimida, basta por si mesma para explicar todos os erros. É a opinião de Nosso Predecessor Gregório XVI, que escrevia: Constitui espetáculo lamentável ver até onde vão as divagações da razão, desde que se cede ao espírito de novidade; quando, contrariamente ao que adverte o Apóstolo, se pretende saber mais do que é necessário, e, com excessiva confiança em si, se imagina que a verdade pode ser procurada fora da Igreja, na qual ela se encontra sem a mais ligeira sombra de erro".

Nascida dessa curiosidade malsã, a mania das novidades, o horror à tradição é uma das notas características do modernismo.

Por isto é que, pensando nos modernistas, que qualifica - com palavras da Escritura - de "homens de linguagem perversa, dizedores de novidades e sedutores, vítimas do erro que arrastam os outros ao erro", o Santo Papa Pio X se lamenta de que "cresceu estranhamente nestes últimos tempos o número dos inimigos da Cruz de Jesus Cristo, que, com uma arte absolutamente nova e soberanamente pérfida, se esforçam por anular as energias vitais da Igreja, e até mesmo, se pudessem, por subverter inteiramente o reino de Jesus Cristo".

"Cegos e condutores de cegos, que, inchados por uma ciência orgulhosa, chegaram a tal grou de loucura que desejam perverter a eterna noção da verdade, ao mesmo tempo que a verdadeira natureza do sentimento religioso, inventores de um sistema no qual, sob o império de um cego e desenfreado amor de novidades, não se preocupam de nenhum modo em encontrar um apoio sólido para a verdade, mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, abraçam outras doutrinas, vãs, fúteis, incertas, condenadas pela Igreja, sobre as quais, homens muito vãos eles próprios, pretendem apoiar e assentar a verdade".

Por isto merecem os modernistas "que se lhes aplique o que Gregório IX, outro de Nossos Predecessores, escrevia de certos teólogos de seu tempo: Há entre vós pessoas inchadas pelo espírito de vaidade como odres, que se esforçam em deslocar, por novidades profanas, os limites fixados pelos Padres; que dobram as Páginas Sagradas às doutrinas da filosofia racional, por mera ostentação de ciência, sem visar qualquer proveito para seus ouvintes...; que, seduzidos por insólitas e extravagantes doutrinas, trocam a cabeça pela cauda, e escravizam a rainha à serva".

Democratismo radical

Com esta mentalidade, não espanta que o modernista veja a Igreja no século XX como uma entidade em que a ordem natural das coisas é e só pode ser a democracia. "A consciência religiosa, eis o princípio do qual procede e, pois, depende a autoridade, como também a Igreja. Se a autoridade chega a esquecer ou negar tal dependência, transforma-se em tirania. Estamos num tempo em que o sentimento de liberdade se encontra em plena expansão: na ordem civil, a consciência pública criou o regime popular. Ora, não há no homem duas consciências, como não há duas vidas. Se a autoridade eclesiástica não quer provocar um conflito no mais íntimo das consciências, cabe-lhe dobrar-se ante as formas democráticas. Ademais, se não o fizer, tudo ruirá. Pois haveria loucura em imaginar que o sentimento de liberdade, no ponto que atingiu, possa recuar. Encadeado à força e constrangido, terrível seria sua explosão: esta arrastaria tudo consigo, Igreja e Religião. Tais são, nesta matéria, as idéias dos modernistas, cujo grande empenho consiste, pois, em procurar uma via de conciliação entre a autoridade da Igreja e a liberdade dos fiéis".

Separação da Igreja e do Estado

Nada mais lógico do que o ódio votado pelos modernistas à união da Igreja e do Estado. Contra tal regime, sua objeção é a seguinte: "Outrora, foi possível subordinar o temporal ao espiritual; foi possível falar de questões mistas, em que a Igreja aparecia como rainha e senhora. A razão do fato está em que se tinha a Igreja, então, como instituída diretamente por Deus, autor da ordem sobrenatural. Mas tal doutrina, hoje em dia, a filosofia e a história concordam em repudiá-la. Portanto, separação da Igreja e do Estado, do católico e do cidadão. Todo católico, porque é ao mesmo tempo cidadão, tem o direito e o dever, sem se preocupar com a autoridade da Igreja..., de agir como entenda no sentido do bem comum".

E pouco adiante o Santo Pontífice mostra como, no fundo, o modernismo vai mais longe e tende a escravizar a Igreja ao Estado.

Revolta contra as penalidades eclesiásticas

Em todos os tempos, a autoridade eclesiástica teve o salutar costume de punir com penas severas os Autores de erros e heresias. Como não poderia deixar de ser, os modernistas se insurgem contra tal tradição.

O motivo disto é óbvio. "Como o magistério da Igreja tem sua primeira origem nas consciências individuais, e para a maior utilidade destas se incumbe de um serviço público, é inteiramente evidente que ele se deve subordinar às mesmas consciências e se curvar às formas populares. Interdizer às consciências individuais que proclamem alto e bom som suas necessidades, fechar a boca à crítica, impedi-la de conduzir às evoluções necessárias, não é mais função de um poder existente para fins úteis, mas abuso de autoridade".

Gosto pela falsa simplicidade

Os modernistas, como tantos protestantes, odeiam a pompa esplêndida do culto católico. Eis sua razão: "Do momento em que seu fim é todo espiritual, a autoridade religiosa se deve despojar de todo aquele aparato externo, de todos aqueles ornamentos pomposos, pelos quais ela como que se dá em espetáculo".

Perpétuo estado de mudança na Igreja

A solene e majestosa fixidez da Igreja irrita profundamente os modernistas. Anelam eles por uma Igreja em estado de constante transformação, satisfazendo, pois, a todo momento seu prurido de novidades: "Assim, Veneráveis Irmãos, a doutrina dos modernistas, como o objeto de todos os seus esforços, consiste em que nada haja de estável na Igreja, nada de imutável. Eles tiveram precursores, dos quais escreveu Pio IX, Nosso Predecessor: Esses inimigos da Revelação divina exaltam o progresso humano, e pretendem, com temeridade e audácia verdadeiramente sacrílegas, introduzi-lo na Religião Católica, como se essa Religião não fosse obra de Deus, mas dos homens, uma invenção filosófica qualquer, susceptível de aperfeiçoamentos humanos".

"Por tudo quanto até aqui expusemos, pode-se ter idéia da mania de reformas que domina os modernistas; nada, absolutamente nada há no Catolicismo, que ela não ataque.

- Reforma da filosofia, sobretudo nos Seminários: seja relegada a filosofia escolástica, no estudo da história da filosofia, entre os sistemas mortos e ensine-se aos jovens a filosofia moderna, a única verdadeira, a única que convém a nossos tempos.

- Reforma da teologia: que a teologia dita racional tenha por base a filosofia moderna; a teologia positiva tenha por fundamento a história dos dogmas.

- Quanto à história, querem que não seja mais escrita nem ensinada senão segundo os métodos e princípios modernos que adotam.

- Que os dogmas e a noção de sua evolução sejam harmonizados com a ciência e a história.

- Que nos catecismos não se insira mais, em matéria de dogmas, senão os que tenham sido reformados e estejam ao alcance do vulgo.

- No que diz respeito ao culto, diminua-se o número das devoções exteriores, ou pelo menos se limite sua proliferação. É verdade, aliás, que por amor ao simbolismo certos modernistas se mostram bastante conciliadores a este respeito.

- Que o governo eclesiástico seja reformado em todos os seus ramos, sobretudo disciplinares e dogmáticos. Seu espírito, sua atitude externa sejam postos em harmonia com a consciência democrática; portanto, seja dada uma parte no Governo da Igreja ao Clero inferior e até aos leigos; a autoridade seja descentralizada.

- Reforma das Congregações Romanas, principalmente do Santo Ofício e do Index.

– Mude, o poder eclesiástico, de linha de conduta no terreno político e social, mantendo-se fora das organizações políticas e sociais, adapte-se contudo a elas, para as penetrar com seu espírito".

Americanismo, abolição do celibato eclesiástico

Os modernistas, "em matéria de moral, fazem seu o princípio dos americanistas, de que as virtudes ativas devem preceder as passivas, tanto no apreço em que são tidas, como na prática. - Que o Clero volte à humildade e à pobreza antigos, e que paute suas idéias e sua atuação segundo os princípios modernistas.

"Enfim, fazendo eco a seus mestres protestantes, desejam a abolição do celibato eclesiástico".

Continuaremos em próximo artigo as citações em que São Pio X nos descreve o perfil moral do modernista.

( 1 ) “O cinqüentenário da Pascendi”, n.o 81, de setembro da 1957.

( 2 ) Todas as citações do presente trabalho são extraídas do texto da Encíclica “Pascendi Dominici Gregis”, de 8 de setembro de 1907, publicado em francês no vol. III dos “Actos de Pio X” edição da Bonne Presse, Paris.


PORTAL do Palácio do Arcebispado, em Salvador, edificado no primeiro quartel do século XVIII por D. Sebastião Monteiro da Vide. A esse Prelado, quinto ocupante da mais velha Sé brasileira, também se devem as monumentais, "Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia".

A IGREJA NA ERA FARISAICAMENTE CRISTÃ...

Cunha Alvarenga

Há 250 anos, a 21 de julho de 1707, eram publicadas as "Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia", "feitas e ordenadas" por D. Sebastião Monteiro da Vide, o quinto Prelado a ocupar a mais velha Sé brasileira. Assinalando a passagem da efeméride, vamos, à luz desse importante e monumental documento, apresentar aos nossos leitores alguns aspectos da vida de um país católico antes do advento da Revolução Francesa e das consequentes idéias e práticas que passaram a solapar as bases da sociedade no Ocidente cristão.

Preliminarmente devemos ter presente que essas "Constituições" vieram a lume no inicio do século XVIII. O Renascimento produzia seus amargos frutos, sobressaindo entre eles a pseudo-reforma protestante e o absolutismo do Estado. O mundo cristão presenciava os entrechoques que se davam entre os batedores do espírito revolucionário e o aguerrido exército da contra-reforma, sobretudo a partir do grande divisor de águas que [foi] o Concilio de Trento. No que diz respeito a Portugal, e portanto também ao Brasil, temos como fundo de quadro, na última metade do século XVII, a ação nefasta do regalismo a coarctar a liberdade da Igreja. "É célebre esta época pela abundancia e abuso das tropelias chamadas temporalidades, diz Candido Mendes, ou torturas impostas ao Clero a fim de coagi-lo a obedecer às leis e às decisões dos magistrados temporais, contrarias ao Direito Canônico e às reformas do recentíssimo Concilio. O que até então se praticava como uma irregularidade, e que o próprio Poder que as utilizava não ousava confessar, foi regularizado por uma lei, com vigor e audácia executado.

"As temporalidades abundaram nesta época, como depois no domínio de Pombal, mui inclinado a medidas de crueza" (introdução à edição de 1870 do "Código Filipino", p. xxx).

Já se presenciava, portanto, a decadência do Ocidente cristão, e a famigerada "diferenciação da esfera própria" do poder temporal ensaiava suas primeiras ofensas ao poder espiritual. Achamo-nos, assim, em época histórica que podemos chamar de pré-revolucionária. Ao inaugurar-se o Sínodo Diocesano da Bahia, a 12 de junho de 1707, para examinar essas primeiras Constituições, sofria São Luís Maria Grignion de Montfort, em terras da Filha Primogênita da Igreja, o mais encarniçado combate por parte do galicanismo e do jansenismo. E todo o século XVIII foi invadido pelo iluminismo, pelo racionalismo, nele vemos o renascimento da magia e a tomada de posição das sociedades secretas, como asquerosa serpente que se prepara para lançar o bote sobre sua cobiçada presa.

UMA RESTEA DE LUZ

Entretanto, e queremos para isso de modo especial chamar a atenção de nossos leitores, a Cristandade, sobretudo nos países latinos, ainda guardava muito do espírito medieval e dos usos e costumes que lhe vinham da quadra histórica a que os católicos ingleses dão o nome de "Ages of Faith". E as "Constituições Primeiras" do Arcebispado da Bahia contêm dispositivos ou determinações da autoridade eclesiástica que mostram um ambiente de receptividade entre os fiéis para com as consequências lógicas de princípios ainda hoje válidos, mas que o espírito liberal, igualitário, opinionista e relativista da sociedade hodierna, torna praticamente inoperantes, ou cujas últimas consequências ele repudia.

Assim é que o livro primeiro dessas Constituições "trata de nossa Santa Fé Católica", dando-nos um resumo das principais Verdades que devemos crer, e insistindo na obrigação que incumbe, não só aos Sacerdotes, mas também aos pais, mestres, senhores e amos, de ensinar a sã doutrina aos seus subordinados. Em seguida à forma de juramento e profissão de Fé, vêm as disposições relativas à defesa dessa mesma Fé contra os erros que a ela se opõem. Os portadores e semeadores de má doutrina devem ser denunciados, sob pena de excomunhão para quem os acobertar. Mais ainda. Em todos os tempos, as drogas entorpecentes foram objeto de rigorosa fiscalização por parte dos funcionários aduaneiros, para evitar o seu contrabando, devendo estes contar para isso com o concurso dos comandantes dos navios. Eis como essas autoridades temporais colaboravam com as eclesiásticas na extirpação de um contrabando bem mais grave, qual seja o do erro doutrinário: "E mandamos que, chamados os Mestres, ou Capitães dos navios pelo nosso Vigário Geral, se inquira deles a notícia, que possam dar dos livros, que na viagem se leram, ou venham embarcados, e remetidos a alguém; e que na Alfândega aonde forem, e se virem quaisquer livros, se não entreguem a seus donos, sem primeiro se remeterem ao nosso Vigário Geral, que, depois de examinar as suas matérias, lhos poderá dar. E para que não deixem de ir os ditos livros à Alfândega, se intimará aos ditos Mestres, ou Capitães dos navios a obrigação de os fazerem lá ir. Também se inquirirá deles, se nos seus navios vem alguma pessoa suspeita de Fé" (livro 1°, titulo VI, n.° 17).

Suavizou, por acaso, a Santa Igreja a vigilância que exerce sobre os livros contrários à sã doutrina? Não. Se hoje em países católicos passam pelas alfândegas terrestres, marítimas e aéreas volumosas caudais de veneno para as almas, sob forma impressa, isto se deve ao laicismo que empesta a sociedade contemporânea, tornando-a surda à voz da Igreja, que continua a desejar essa colaboração inestimável na defesa da ortodoxia.

SAÚDE DE ALMA E CORPO

Outro significativo sinal dos tempos. No ambiente de neopaganismo e de naturalismo de nossos dias, constitui verdadeiro problema a administração do Sacramento da Penitência aos doentes e agonizantes. A própria família costuma estabelecer uma barreira em torno daquele que está para se despedir deste mundo. A impressão prevalecente é a de que a visita do Sacerdote assustará o enfermo, agravando-lhe os males. E se com os familiares assim acontece, que diremos do papel desempenhado pelos médicos em tais circunstâncias? Não seria, entretanto, para estranhar, em uma sociedade verdadeiramente cristã, que ainda perdurasse o seguinte costume salutar, em benefício de nossos doentes e agonizantes: "Como muitas vezes a enfermidade do corpo procede de estar a alma enferma com o pecado, (como se prova das palavras que Cristo Nosso Senhor disse ao paralítico) conformando-Nos com a disposição do direito, e Constituição do Papa o Santo Pio V mandamos a todos os Médicos, e Cirurgiões, e ainda Barbeiros, que curam os enfermos nas Freguesias, onde não há Médicos, sob pena de cinco cruzados para as obras pias, e Meirinho geral, e das mais penas de direito, que indo visitar algum enfermo, (não sendo doença leve) antes que lhe apliquem medicinas para o corpo, tratem primeiro da medicina da alma, admoestando a todos a que logo se confessem, declarando-lhes, que se assim o não fizerem, os não podem visitar, e curar, por lhes estar proibido por direito, e por esta Constituição: de tal sorte que entendam, que esta admoestação se lhes faz por bem da saúde da alma e do corpo..." (livro 1°, titulo XL, n.° 160).

A solicitude pastoral se estende, no que diz respeito ao cumprimento do preceito pascal, "aos tratantes, peregrinos, caminhantes e vagabundos" (ibid., titulo XXXVIII). Dir-se-á que tal atenção só se explica por se tratar de um pequeno rebanho e de um Clero numeroso. Mas se o fervor religioso do país se tivesse conservado ao crescer sua população, não é verdade que o Brasil de hoje não teria problema de vocações sacerdotais?

LAICISMO INVASOR

O que diz respeito ao Sacramento do Matrimonio, cuidam as Constituições do assunto nas linhas tradicionais anteriores ao assim chamado "casamento civil", que após a Revolução Francesa passou a ser uma das mais importantes frentes de combate do laicismo invasor. No casamento religioso, conforme a doutrina da Igreja, o contrato é inseparável do Sacramento, de modo que entre cristãos não tem sentido dizer-se "casamento civil" e muito menos "contrato civil". Os efeitos do casamento no campo civil decorrem desse mesmo contrato inseparável do Sacramento. Não cuidam as Constituições tampouco do registro civil, pois para todos os efeitos legais era suficiente o registro eclesiástico.

Baste-nos dizer, a título de curiosidade, que ao enumerar os casos em que se justifica a separação dos cônjuges, cita o nosso código, além do adultério carnal, outra classe dessa mesma falta, que vem a ser o "adultério espiritual", o qual "se contrai quando algum dos casados cai em crime de heresia, e apostasia de nossa Santa Fé Católica, e nele persiste contumaz" (livro 1.°, título LXXXII, n.° 315).

Ao tratar, o livro segundo, do Santo Sacrifício da Missa e do preceito de guardar os domingos e dias santificados, vemos que esses dias dedicados a honrar a Deus e a seus Santos de modo mais particular eram, em média, 88 por ano. Só em dezembro havia oito festas de guarda fixas, sem falar nos domingos. E também aqui vemos uma curiosa inversão de posições, em relação ao passado. Basta que citemos o seguinte artigo das Constituições: "E ainda que aos Príncipes seculares não pertence mandar, que alguns dias se guardem, por ser coisa pertencente privativamente à jurisdição espiritual, contudo, conforme a direito, podem punir os súditos, que não guardarem os dias santos dados pela Igreja de preceito, e assim lhes está encomendado, e encarregado pela Extravagante do Santo Papa Pio V, com que fica sendo este crime mixti fori, e há

(continua)