(continuação)
Das três às cinco da manhã, foi Jesus encerrado pelos guardas num lúgubre recinto, que servia de prisão aos condenados. Com ele entrou um bando de soldados e criados. Durante essas duas longas horas, julgaram aqueles bandidos que tudo lhes era permitido contra aquele a quem Caifás tratara de blasfemo em plena sessão do Sinédrio, e a quem um servo impunemente esbofeteara diante dos juízes. Prodigalizaram insultos e desprezos, nomes odiosíssimos, e não se envergonharam de lhe cuspir no rosto. Exasperados pela invencível paciência de Jesus, e impelidos pelo demônio, deram-lhe pontapés e murros, atirando-o de um lado para outro, como uma bola entre as mãos dos jogadores. Para variar o divertimento e pôr em ridículo os títulos de Messias e Filho de Deus, que Jesus se atribuía, vendaram-lhe os olhos e o esbofetearam; e depois, tirando-lhe a venda, gritavam com escárnio: Adivinha, Cristo, quem te bateu! E lançavam-lhe ainda as piores blasfêmias.
Aceitando esses ultrajes, cumpria Jesus a profecia de Isaías: Não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e me cuspiam (Is 50, 6). Os seus olhos ensanguentados pousavam naqueles esbirros, sem exprimir nenhum sentimento de indignação, e dos seus lábios torturados não saíam queixas nem murmúrios. Com a sua calma soberana, estava à espera da hora em que se abrisse aquela caverna de feras.
Vós dizeis bem, Eu sou o Filho de Deus
Pelas cinco horas, os guardas foram avisados de que os juízes estavam de novo à espera da sua vítima. Com os cabelos desalinhados, o rosto coberto de sangue e saliva, as mãos bem atadas, Jesus foi reconduzido ao tribunal. Salvo Nicodemos e José de Arimateia, que recusaram ter voz naquele processo, os outros membros do Sinédrio encontravam-se todos reunidos. Aquele aparato solene tinha o objetivo de encobrir as ilegalidades do julgamento noturno, fazer esquecer os falsos testemunhos e os furores do juiz. Cegos pela ânsia de acabar com este caso, passavam mais uma vez por cima da lei, que proibia aos juízes dar audiência em dia de festa, na véspera de sábado e antes do sacrifício da manhã.
Naquela audiência já não se tratava de acusações mal definidas, de palavras equívocas, de testemunhas mais ou menos seguras. O Supremo Conselho queria condenar Jesus unicamente porque Ele se dizia o Messias prometido a Israel. Segundo alegavam, Jesus não aceitava as tradições que os fariseus acrescentaram à Lei de Moisés, não tinha estudado nas escolas dos doutores, não tinha envergadura para fundar um reino judaico sobre as ruínas do império romano. Portanto, era um falso Messias, um impostor que merecia a morte. Por isso, quando Jesus compareceu perante a assembleia, o presidente só lhe pediu uma simples declaração: Declara-nos se Tu és o Messias! Jesus respondeu-lhe: Por que me perguntais? Se disser que sou o Messias, vós não me crereis. E se Eu vos dirigir perguntas, com o fim de vos fazer ver a verdade, vós não me respondereis nem me soltareis.
Isto equivalia a dizer claramente aos membros do Conselho: Não vejo em vós juízes que buscam a verdade, mas esbirros decididos a proferir uma sentença de morte. Jesus desvendou assim diante deles a criminosa deslealdade, fitou-os de frente e acrescentou, em tom pleno de majestade: Depois que tiverdes dado a morte ao Filho do Homem, ficai sabendo que Ele se sentará à direita de Deus onipotente (Lc 22, 67-69).
Ao ouvir esta palavra, ergueram todos a cabeça, pois uma simples criatura não se senta à direita de Deus onipotente.
— Tu és então o Filho de Deus? – bradaram-lhe de todos os lados.
— Vós dizeis bem. Eu sou o Filho de Deus.
Esperavam apenas esta afirmação solene, para desatar os seus furores. Mal o ouviram, bradaram todos em coro: Ele mesmo acaba de se acusar. Não precisamos de mais testemunhos! Merece a morte! (Lc 22, 70-71). E condenaram-no ao último suplício, como culpado de lesa-nação, por ter usurpado o título de Messias; e de lesa-majestade divina, por ter ousado chamar-se Filho de Deus. Consideraram-se então obrigados a levar o condenado ao pretório do governador romano, a fim de que a sentença fosse ratificada e executada naquele mesmo dia.
O maldito traidor, Judas Iscariotis
Durante aquela noite tenebrosa, andava um homem sombrio e silencioso em torno do palácio do pontífice, procurando saber as peripécias do espantoso drama que se desenrolava no pretório de Caifás. Era Judas, o traidor que vendera e entregara o seu divino Mestre por trinta moedas de prata. Depois da prisão de Jesus no Jardim das Oliveiras, a vergonha e o remorso invadiram-lhe a consciência, não cessando de o atormentar. O demônio dissimulara a enormidade do seu crime; mas, uma vez cometida a traição, pôs-lhe diante dos olhos toda a monstruosidade do que fizera.
Caim, por ter matado seu irmão, foi amaldiçoado por Deus, e o sangue de Abel clama e clamará eternamente vingança contra o assassino. Mas o inocente Abel era apenas um homem, ao passo que Jesus era o Filho de Deus. ‘Judas, o sangue do Filho de Deus será derramado, e eternamente clamará vingança contra ti!’ — assim lhe falava o demônio. E a alma de Judas fechava-se como a de Caim, insensível ao amor e ao arrependimento, para dar entrada ao desespero e ao ódio a Deus!
Imerso na turba, o traidor encontrava-se à porta do palácio quando ela foi aberta para dar passagem aos soldados que conduziam Jesus ao pretório do governador romano. Soube ele, por este indício, que a vítima da sua traição
Legendas:
- Aceitando esses ultrajes, cumpria Jesus a profecia de Isaías: Não desviei o meu rosto dos que me ultrajavam e me cuspiam (Is 50, 6).(La Maestà, detalhe) – Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. Museo dell’Opera del Duomo, Siena.
- Judas recebe as 30 moedas (La Maestà, detalhe) – Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. Museo dell’Opera del Duomo, Siena.