Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 807 | página 38-39

(continuação)

Pedro renega o Divino Mestre

Com esta negação formal, a porteira se calou. Ainda assim, vendo Pedro que era suspeito, esquivou-se o melhor que pôde e dirigiu-se precipitadamente para a porta do palácio. Eram quase duas horas, e cantou o galo a primeira vez; mas Pedro, fora de si naquele momento, não se lembrou do vaticínio de Jesus. Quando se preparava para sair, no vestíbulo outra escrava disse para os que ali estavam reunidos: Este estava também com Jesus de Nazaré. Pedro negou mais uma vez. Porém, a fim de não dar a entender que fugia, voltou atrás e colocou-se entre os soldados e a criadagem. Foi logo rodeado de curiosos, que de todos os lados o interrogavam com grande vivacidade: Com certeza tu és um deles, pois a tua maneira de falar denuncia-te (Mt 26, 69-73). Atemorizado, desta vez Pedro não se contentou em negar, mas protestou com todas as forças que não conhecia Jesus, e que não tinha nada a ver com os seus discípulos.

Deixaram-no tranquilo durante uma hora, pois toda a atenção estava concentrada no julgamento do preso. De quando em quando saíam alguns emissários do tribunal e contavam as cenas sinistras às quais acabavam de assistir. Pedro ouvia e fazia perguntas para se informar. Um dos que estavam próximo notou a sua pronúncia regional de galileu, que era muito característica, e lhe disse: Bem podes negar ser galileu e discípulo deste homem; a tua maneira de falar atraiçoa-te. Com esta observação, mais uma vez se voltaram todos os olhos para o discípulo, e um dos servos do sumo pontífice, parente daquele Malco a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe do seu lado: Sim, é verdade; eu bem te vi no horto de Getsêmani (Jo 18, 26).

Ouvindo isso, e lembrando-se da cutilada que dera, Pedro julgou estar já nas mãos dos esbirros. Perdeu a cabeça, e começou a jurar e a dizer imprecações, negando conhecer o Homem de quem falavam e repetindo que nada tinha a ver com Ele.

Eram três horas. Mal Pedro tinha acabado de falar, ouviu-se o segundo canto do galo, e logo ele se recordou da palavra do Mestre: Antes de o galo cantar duas vezes, ter-me-ás negado três vezes (Mc 14,72). Transtornado até o mais fundo da alma, compreendeu toda a gravidade do seu pecado. Ele, o pobre pescador do lago de Genesaré, elevado à augusta dignidade de discípulo e amigo de Jesus; ele, a pedra fundamental sobre a qual o Mestre pensava edificar a sua Igreja; ele, a testemunha e o objeto de tantos milagres, que há pouco proclamara bem alto a divindade de Jesus, acabava de O renegar covardemente, e de jurar que não O conhecia. Ele havia jurado, algumas horas antes, que O acompanharia à prisão e à morte, antes de o abandonar. E o seu querido Mestre conhecia decerto o seu crime, pois nada escapava aos seus divinos olhos.

Vigiai e orai, para não cairdes em tentação

Este pensamento de Pedro acabou de o prostrar. Concentrado em si mesmo, não viu nem ouviu mais nada do que se dizia e passava em torno de si. Do íntimo do seu coração despedaçado pelo remorso elevava-se este brado angustioso: Senhor, tende piedade de mim, que sou um pobre pecador! Como outrora nas ondas, sentia-se Pedro sorvido pelo abismo, e pedia socorro.

De repente, as vociferações na sala onde estava sendo julgado o Mestre vieram tirá-lo dos seus pensamentos sombrios. Ouviam-se clamores — A morte! A morte! Merece a morte! Todos os olhos se voltaram para a porta do pretório, que se abriu com estrondo, e um grupo de soldados desceu para o pátio. No meio deles, sempre encadeado, apareceu Jesus com os olhos cheios de tristeza, mas com o rosto tão sereno como no momento em que se entregara aos seus inimigos. A sentença fora dada, e levavam-no agora para a prisão, onde devia passar o resto da noite.

Diante daquela cena, Pedro sentiu-se cambalear. Seus olhos acompanhavam o Mestre, seguindo atentamente todos os seus movimentos. O sinistro cortejo se dirigiu para onde ele estava, Jesus aproximou-se dele, ia passar junto dele. Pedro tinha os olhos arrasados de lágrimas, e a sua alma contrita pedia perdão. Jesus teve compaixão dele, e pôs os seus olhos no discípulo infiel. Mas o fez com tanta bondade, tanto amor temperado com tão suaves repreensões, que Pedro sentiu o coração desfalecer-lhe no peito. Desatou a soluçar e saiu às pressas, pois precisava chorar amargamente.

A algumas centenas de passos, no sombrio vale da Geena, uma gruta solitária4 acolheu a desolação de Pedro. Ele precisava chorar o seu pecado e meditar na advertência de Jesus, que a presunção o tinha impedido de compreender, mas cuja divina sabedoria essa dolorosa experiência lhe mostrava agora: Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26, 41).

Adivinha, Cristo, quem te bateu!

Depois de terem condenado Jesus à morte, separaram-se os membros do Supremo Conselho. Mas, como aquele julgamento noturno constituía uma gravíssima ilegalidade, convieram todos em reunir-se às cinco horas, para ditar a sentença com todas as formalidades. Não porque a consciência deles protestasse contra o seu monstruoso modo de proceder, mas urgia dissimular as iniquidades demasiado revoltantes a fim de melhor enganar o povo, e sobretudo para não dar ao governador romano pretexto para lhes anular a

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Legendas:
- O galo canta pela primeira vez (La Maestà, detalhe) – Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. Museo dell’Opera del Duomo, Siena.
- Adivinha, Cristo, quem te bateu! (La Maestà, detalhe) – Duccio di Buoninsegna, séc. XIV. Museo dell’Opera del Duomo, Siena.