Fátima é o esplêndido apelo a que o mundo de língua portuguesa instaure o Reino de Maria.
(continuação)
a questão dos séculos de decadência. Em que medida essa decadência reflete um declínio na têmpera dos homens, de sua piedade, de seus costumes? Em que medida exprime, de outro lado, a extenuação de povos que se tinham excedido a si próprios na realização de obras que assombraram o universo, e depois recompunham suas forças num suave letargo, à espera de outras oportunidades para outros feitos? Em que medida, por fim, essa decadência foi das equipes dirigentes, e em que medida foi dos povos? Seria preciso todo um artigo para expor nossas impressões sobre o assunto. E, para começar, haveria a distinguir entre decadência e decadência, pois poucos vocábulos são mais traiçoeiros e cheios de conformes do que este. Muito resumidamente, podemos dizer que a passagem da monarquia orgânica medieval para o absolutismo foi, a nosso ver, um fenômeno de decadência do suco vital de todos os povos europeus, fenômeno este provocado em última análise por causas religiosas e morais profundíssimas. A França e a Inglaterra tiveram nesse período, como também a Prússia, equipes dirigentes de grande valor. De onde os Estados continuaram a se desenvolver. Espanha e Portugal, como também de algum modo a Áustria, não tiveram essas equipes, e o Estado nesses países começou a fenecer. Assim, em fins do século XVIII a desproporção entre as duas monarquias ibéricas e a Inglaterra e a Prússia já é flagrante. Entretanto, tratava-se de uma decadência de povos? Se decadência havia, era menor do que a de quase todo o resto da Europa. Pois não se pode dizer que está em decadência quem recebe Napoleão como ele foi recebido na Península apesar da pavorosa defecção de tantos elementos dirigentes.
Assim, no complexo de fatos espirituais, morais, sociais, políticos e econômicos que caracterizam os séculos ditos de decadência, se discerne um real declínio. Este declínio se exprime por sintomas excessivos em sua aparência, que facilmente nos levariam a subestimar as forças latentes, admiravelmente vivas, que ficaram dormindo nos corações ibéricos, despertadas apenas de quando em quando por algum sobressalto magnífico, e reservadas pela Providência para alguma nova missão histórica a cumprir.
Em linhas muito rápidas, chegamos quase até nossos dias. Esse traço de elevação de espírito, de justa estima do que é realmente superior, e de rejeição de toda concepção exclusiva ou prevalentemente utilitária da vida, Portugal e Espanha o transmitiram às nações que plasmaram na América. Também nós progredimos, também nós organizamos decorosamente nossa existência. Mas como não pusemos nas riquezas todo o nosso coração, nosso progresso foi menos rápido do que o de outros povos e nada teve de inebriante, sensacional, vertiginoso. Somos decadentes? Ninguém o afirma. Somos atrasados? Todos o dizem. Mas este atraso - daqui a pouco o mostraremos - é para nós uma bênção, e nos abre de par em par as portas do futuro.
* * *
Essa justa hierarquia de valores, pela qual o espiritual se antepõe ao material, o eterno ao passageiro, o absoluto ao relativo, o celeste ao terrestre, conduz antes de tudo ao heroísmo. Em seguida, a um feitio de espírito em que a teologia é mais do que a filosofia, e esta por sua vez dirige todas as ciências. Este feitio mental gera um feitio de vida em que se procura mais a nobreza do que o luxo, os prazeres sóbrios do comércio dos espíritos e da vida de família, do que os regalos de um conforto escancaradamente físico. No modo de ver as vicissitudes da vida, há uma atração para considerar de frente a dor, a luta, a própria morte, como valores dos mais grandiosos que Deus nos tenha dado para fazer frutificar neste vale de lágrimas para a eternidade. Daí uma naturalidade ante o perigo, uma força na adversidade, uma serenidade no sofrimento, que desnorteia outros povos. Há por exemplo certo otimismo nórdico falso, que procura fechar os olhos à dor e à morte, fazendo silêncio sobre elas, e chega a pintar os cadáveres como se estivessem vivos, para dar até a sepultura a idéia de que a morte não veio... De uma tal trivialidade está longe, bem longe, qualquer coração ibérico ou ibero-americano.
Aí está a razão secreta da fundamental nobreza de alma e do heroísmo profundo da gente ibérica de aquém e além Oceano. Mas que tonalidades especiais tomam esses predicados, em solo português?
* * *
A história espanhola se afigura um desses rios que correm cristalinos e borbulhantes, num leito acidentado, onde as águas se jogam por despenhadeiros e abismos trágicos, brilhando à luz do sol com toda a alvura das grandes cataratas. Pelo contrário, a história lusa parece um curso de águas profundo, impetuoso, mas sempre sereno, que vai em linha reta diante de si mesmo, destruindo os obstáculos, com uma força invencível, mas conservando uma placidez, uma doçura, uma nobre simplicidade, até mesmo quando em sua superfície se espelham os mais belos aspectos do céu e da terra. O espanhol está sempre heroicamente mobilizado para a luta. O português não dá esta impressão. Ele é risonho, singelo, meigo. O espanhol está sempre pronto para enfrentar a tragédia. Dir-se-ia que os lados sublimes da existência não impressionam o português, todo afeito à consideração das doçuras de sua vida de família, na suavidade de seus campos, no encanto de suas vilas, na formosura de suas cidades. Mas se um grande ideal solicita a dedicação da alma portuguesa, se uma grave ofensa lhe faz ferver o senso da dignidade, o luso se levanta como um herói. E luta com toda a rijeza indomável da fibra ibérica, enfrenta o perigo, calca aos pés o risco, e aceita a morte com uma sobranceria que a ninguém foi dado exceder.
Este habitual estado de alma do português, afetivo, sereno, despretensioso, se colore de uma ligeira tinta de melancolia. Uma melancolia muito suave, que tem todas as luzes da resignação cristã, mas uma melancolia que é a nosso ver, o cunho próprio de Portugal. É a melancolia que lhe vem de saber que na terra a alegria perfeita é impossível e estamos nas agruras do exílio. A melancolia de que lhe nasce a poesia, a compaixão e a bondade. A melancolia que dele faz algo de incomensuravelmente superior ao “play-boy” contemporâneo.
Melancolia lusa, doçura lusa, encanto luso... tanto faria dizer-se melancolia brasileira, doçura brasileira, encanto brasileiro. Pois são precisamente estes traços, herdados de nossos maiores portugueses, que constituem, com variantes importantes em nosso solo pátrio, os elementos típicos da alma brasileira.
* * *
Não é este o momento de falarmos do brasileiro, nem de o descrevermos com pormenores. Neste país, sobre o qual se despejaram, muitas vezes sem discernimento nem critério, as riquezas étnicas e culturais de correntes imigratórias provenientes do mundo inteiro, é entretanto preciso lembrar alto e bom som que a nota dominante, largamente dominante, foi, é e terá de ser sempre a tradição lusa.
Mais do que ninguém “Catolicismo” tem acentuado o papel da França na vida de alma das nações cristãs. Mais do que ninguém, temos elogiado nestas colunas as grandezas de outros povos. Não somos exclusivistas, e compreendemos bem que temos de conservar o espírito aberto para todas as boas influências culturais. Por isto mesmo, achamos que a contribuição do italiano, do espanhol, do alemão, do africano ou do asiático é susceptível de ser assimilada com vantagem na vida cultural brasileira. Mas essa assimilação tem de ser feita em base de lusitanidade. Pois um Brasil que renunciasse ao que tem de herança lusa deixaria de ser Brasil.
* * *
Depois deste longo itinerário de pensamentos e de evocações históricas, chegamos aos tempos atuais. Abram-se as páginas dos jornais. Pouco se fala nelas do mundo ibero-americano. O centro da cena é ocupado por outros povos. Mas o que fazem? Preparam-se para a maior chacina da história. Passam pelas contorções das crises mais horripilantes. E para evitar a chacina e a crise, em cada um deles importantes partidos políticos nos acenam com uma socialização total da vida, que seria pior do que os estragos da bomba de hidrogênio.
Todo edifício que se construir com base na cobiça dos prazeres e dos bens da terra tem de arruinar-se por esta forma. O senso do ideal, do espiritual, do celeste, apagou-se em tantos e tantos povos quase completamente! Sua torre de Babel, que se erguera orgulhosamente ao lado da velha mansão paterna do mundo ibérico, deita chamas por todas as janelas, estremece em todos os alicerces, e de dentro dela partem vozes de discórdia e gritos de dor. Não temos esta riqueza, mas também não temos esta maldição. Construímos menos, e por isto acumulamos menos erros nas áreas de cultura e de terra que nos pertencem. E, em toda esta tragédia universal, o mundo ibérico, no qual Portugal e Brasil ocupam um lugar de importância inexcedida, conserva para o dia de amanhã riquezas imensas, de alma, de cultura, de bens materiais, que ainda estão intocados. Em uma palavra, nosso é o futuro.
* * *
Depois do ouro e do incenso, a mirra.
Quer tudo isto dizer que não cometemos, também nós, graves pecados? Infelizmente, não podemos pretender que tenhamos conservado intacto nosso patrimônio espiritual, e que seja perfeito tudo quanto fizemos no campo material.
Muitas vezes, deslumbrados pelo crescimento da Babel moderna, abrimos nossas janelas para o seu lado, deixando que nossas almas se envenenassem pelas harmonias e pelos perfumes que de lá nos vinham. Adaptamos nossa velha mansão, em muitos e muitos pontos, segundo as modas de Babel. Vestimos os trajes de seus habitantes, e nos nutrimos de suas iguarias. Os que entre nós eram os admiradores desta Babel, com demasiada freqüência empunharam o leme, e indolentemente os deixamos fazer. Há em nós mesmos todo um trabalho de restauração a cumprir.
Mas este trabalho, a Providência o deseja e o abençoará. Não tem outro sentido o fato de que a Mãe de Deus tenha querido falar de Fátima ao mundo inteiro. Sua mensagem se dirige a todos os homens. Mas é bem de ver que seu objeto imediato é o povo português, e os que a Portugal são mais próximos pelo sangue e pela história.
Nós, povos ibéricos e ibero-americanos, sofremos, em medida não pequena, do mal de toda a humanidade hodierna. É esta uma verdade que precisa ser proclamada inteiramente, e com toda a coragem. Não nos libertaremos deste mal, nem recuperaremos as virtudes ancestrais, sem um profundo revigoramento religioso. Com efeito, assim como nenhum homem se pode dizer virtuoso no sentido real da palavra sem a graça de Deus, nenhum povo se pode dizer verdadeiramente virtuoso nem verdadeiramente grande sem a graça. Não é nossa natureza a fonte de nossa grandeza moral, senão na medida em que a graça eleva e santifica nossa alma.
Em conseqüência, para que a missão histórica que nos aguarda seja realmente cumprida, é mister uma urgente e completa reação religiosa. A grandeza de Portugal, do Brasil, da Espanha e da América espanhola é uma grandeza cristã. E para que a alcancemos, é necessário que atendamos plenamente à mensagem de Fátima.
* * *
Encerrando este artigo, temos um pensamento afetuoso que de Portugal se estende para todas as suas províncias da Ásia e da África, que vivem da mesma tradição, para a mesma missão. Possuem todas elas, em grau maior ou menor, condicionadas por influências locais diversas, as características do mundo luso. Essas características vivem nada menos que em sessenta milhões de brasileiros e em vinte milhões de portugueses da metrópole, da África e da Ásia. Imponente total em que o contributo dos mais variados povos e das mais diversas culturas não rompe uma homogeneidade que o tempo parece acentuar e consolidar a cada instante.
Como se vê, formamos um vasto potencial de fé, cultura e riqueza, que tem por missão fazer sobreviver na terra o ideal de uma civilização voltada para o Céu.
A consciência deste fato, a esperança de que neste mundo em transformação esta comunidade brilhe em formas novas, eis o que a visita dos dois Presidentes veio revigorar, em meio às manifestações de júbilo dos povos irmãos.
NOSSA 1ª PÁGINA:
• Painel do políptico de São Vicente, pintado por Nuno Gonçalves, sec. XV: o Santo está cercado pelo Rei Afonso V, a Rainha Isabel, o Príncipe Real e o Infante D. Henrique, o Navegador.
• Esfera armilar de pedra no Convento de Tomar, da Ordem de Cristo.
AINDA O NATURALISMO INTEGRAL DO SR. MARITAIN
Cunha Alvarenga
“Catolicismo”, em seus números 75, 76 e 77, de março, abril e maio do corrente ano, transcreveu da "Civilità Cattolica" artigo em que o Revmo. Pe. A. Messineo, S. J., demonstra ser o "Humanismo Integral" do Sr. Jacques Maritain, na sua substancia, um naturalismo integral.
Esse estudo do ilustre filho de Santo Inácio teve repercussão internacional. As vozes que se ergueram em defesa de Maritain foram poucas, e se limitaram a focalizar um aspecto ou outro do tema em debate. A revista "A Ordem", do Rio de Janeiro, entretanto, fez traduzir e publicou, em seu número de abril do corrente ano, uma tentativa de refutação mais sistemática do artigo do P. Messineo. Essa defesa, feita pelo Sr. Charles Journet, embora pareça enfrentar a argumentação do douto Jesuíta, na realidade procura ladear a questão. A exposição do P. Messineo é suficientemente clara, e não é nossa intenção repisar seus sólidos argumentos. Nestas notas queremos apenas aproveitar o ensejo para tratar, com mais vagar, de um aspecto curioso do fenômeno Maritain, que não faltou à tentativa de defesa feita pelo Sr. Charles Journet: a tendência a explorar a nota sentimental, apresentando o autor do "Humanismo Integral" como vítima indefesa de ferozes inimigos, que não lhe poupam na reputação nem sequer aquilo que lhe é mais caro — a fé. Com efeito, mostra-se o articulista de "A Ordem" chocado com a aproximação que o P. Messineo faz entre as idéias de Maritain e as de Benedetto Croce. "Isto agora entristece — diz o Sr. Charles Journet — pois o engano torna-se ofensa: atinge um irmão no que ele tem de mais caro — a fé — pela qual, há quase cinqüenta anos, tem lutado e sofrido" (art. cit., p. 208).
O P. Messineo, como jesuíta, tinha o direito de mostrar-se contundente ao indicar os desvios doutrinários do Sr. Maritain, à vista da audácia com que este último se permite injuriar a Companhia de Jesus. No entanto, sua linguagem, embora franca, se manteve sempre serena e nobre. E o Sr. Charles Journet, que se mostra tão sensível aos ataques desferidos contra seu mestre, mantém, como os demais defensores do Sr. Maritain, um silêncio significativo diante da impugnação clara e explícita do filósofo francês a uma espiritualidade admirável, aprovada pela Santa Igreja, e confirmada por quatro séculos de benefícios para todo o mundo cristão.
O problema da graça e da liberdade
Com efeito, a questão suscitada pelo Sr. Maritain em seu livro "Humanismo Integral" tem raízes muito mais profundas do que geralmente se supõe. Não se trata unicamente dos seus erros no campo político-social e econômico. Não se trata apenas da sub-reptícia perfilhação do socialismo que o leva a pregar uma reforma de estrutura de sabor coletivista e totalitário. Nem estão em causa, em primeiro plano, o interconfessionalismo de seu "Estado leigo vitalmente cristão" e a transformação da hipótese em tese no problema das relações entre Igreja e Estado. Pode-se dizer que tudo isso é conseqüência das idéias do autor no campo especificamente religioso.
Ao tratar, no capítulo I, da "Tragédia do Humanismo", começa o Sr. Maritain por distinguir entre o "humanismo teocêntrico" e o "humanismo antropocêntrico". O humanismo teocêntrico ou verdadeiramente cristão "reconhece que Deus é o centro do homem, implica a concepção cristã do homem pecador e resgatado, e a concepção cristã da graça e da liberdade" (p. 35 do "Humanisme Intégral", ed. Aubier, Paris, 1936).
O humanismo antropocêntrico "crê que o próprio homem é o centro do homem, e, portanto, de todas as coisas. Implica ele uma concepção naturalista do homem e da liberdade" (obra cit., p. 35). Após a Idade Media, houve progressos "sobretudo no mundo da reflexividade e da tomada de consciência de si mesmo", bem como no campo das ciências e das artes. "O mundo profano se diferencia segundo sua lei própria, a criatura se conhece. E tal processo, tomado em si mesmo, era normal" (p. 34).
Entretanto, "o mal da história moderna está em que esse processo foi comandado por um espírito antropocêntrico, por uma concepção naturalista do homem e uma concepção seja calvinista, seja molinista da graça e da liberdade" (p. 34). Eis porque "o humanismo antropocêntrico merece o nome de humanismo inumano, e sua dialética deve ser considerada como a tragédia do humanismo" (p. 35).
Entrando mais nas origens desses antropocentrismo, o Sr. Maritain já se havia referido à "descoberta" protestante. Os homens da pseudo-reforma entenderam Santo Agostinho de modo material. "O homem pelo pecado original se acha essencialmente corrompido - é a doutrina de Lutero, de Calvino, de Jansenio. Não é isso um pessimismo puro? A natureza, ela mesma, está essencialmente viciada pelo pecado original. E permanece viciada sob a graça, que não é mais uma vida, mas um manto" (p. 24).
Calvinismo e Molinismo
Pela doutrina de Calvino, o homem predestinado "está pronto a tudo afrontar aqui embaixo e a se comportar como eleito de Deus sobre a terra. Suas exigências imperialistas (para ele, homem substancialmente manchado mas salvo; sempre enegrecido pelo pecado de Adão, mas eleito de Deus) serão sem limites, e a prosperidade material lhe aparecerá como um dever de seu estado" (p. 25).
Em seguida, tratando da "descoberta" humanista e do problema da liberdade, melhor explicita Maritain seu pensamento. No que concerne às relações da liberdade e da graça, distingue "uma teologia humanista mitigada e uma teologia humanista absoluta".
E esclarece: "O que chamamos de teologia humanista mitigada é o molinismo" (p. 26). Mais adiante acrescenta: "Digamos que o molinismo é a teologia do gentilhomem cristão da idade clássica, como o jansenismo é a teologia do magistrado cristão dessa mesma idade. Mas o título de sinal representativo, tem o molinismo um valor completamente diferente. Não sei se Molina foi um grande teólogo, mas penso que, do ponto de vista cultural, ele é altamente representativo para a civilização moderna e para a dissolução moderna da Cristandade" (p. 27).
O racionalismo, esse erro nefasto que a Igreja vem anatematizando há séculos, seria o herdeiro necessário do molinismo: "Considerada doutrinariamente, essa teologia humanista mitigada era qualquer coisa de instável. Devia, logicamente, deixar o lugar para uma forma pura. Chegamos, assim, ao que se pode chamar teologia humanista absoluta. É a teologia do racionalismo" (p. 27).
O molinismo, ou teologia oficial da Companhia de Jesus, seria, assim, o antecedente lógico, o precursor forçoso da teologia ou metafísica humanista pura (a expressão é do próprio Maritain), que deu ao homem moderno a liberdade sem a graça: "Como a teologia protestante pura da graça é uma teologia da graça sem a liberdade, a teologia ou metafísica humanista pura da liberdade é uma teologia ou uma metafísica da liberdade sem a graça" (p. 28).
E o molinismo, a exemplo do calvinismo, consideraria a graça não como uma vida, mas
(continua)
LEGENDA:
-
A espiritualidade inaciana, os Santos produzidos pela Companhia de Jesus, e os grandes feitos que estes realizaram em prol da causa católica constituem objeto de incompreensões e antipatias. No selo do Geral dos Jesuítas está expresso o ideal sublime que Santo Inácio legou a seus filhos: o nome de Jesus, a ser ostentado corajosamente à face do mundo. Ver antropocentrismo numa espiritualidade tão radicalmente cristocêntrica é negar uma realidade doutrinaria e histórica mais clara do que o sol.