Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 785 | página 52
| AMBIENTES–COSTUMES–CIVILIZAÇÕES |

A Tulipa

Entre as flores, ela simboliza uma obra-prima de coerência

Plinio Corrêa de Oliveira

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 6 de março de 1971. Sem revisão do autor.

A tulipa é tão bonita que me pergunto se há alguma flor mais bela.

Ela floresce em várias cores, inclusive existe a tulipa negra. Na cor bordeaux ela não aparenta nada de indefinido, como, por exemplo, na orquídea, cujas cores variam muito.

Enquanto a orquídea é parasita, a tulipa evoca ideias de autossuficiência. É altaneira, sua ponta parece um cálice e sua haste, uma lança. Além da beleza da cor, ela tem a beleza da harmonia. Há uma proporção entre altura e diâmetro que faz dela uma obra-prima de coerência.

Em relação à rosa, a tulipa seria flor de segunda classe? — Bela como a rosa ela não é, mas não é de segunda classe. É uma linda flor, que constituiria por si uma maravilha da ordem floral do universo das coisas criadas por Deus. Ela está junto à rosa, mas nem se deve comparar, porque tem uma forma de beleza na qual é suprema. É menos bela que a rosa, mas devemos considerar a graduação das coisas e amar o belo específico nos seus devidos graus.

A orquídea evoca um ensinamento de modéstia, encontra-se em alta posição na hierarquia dos valores, mas não é a primeira. Prova de que a hierarquia tem razão de ser: não é um achatamento do outro, mas um respeito recíproco. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que a orquídea é uma flor representativa do anti-igualitarismo.

Se a rosa é uma flor que reflete o anti-igualitarismo para mostrar a beleza do grau supremo, a orquídea é uma flor simbólica do anti-igualitarismo para mostrar o belo dos graus intermediários, em relação aos quais o espírito moderno tem dificuldade em compreender bem.

* * *

Quando soube que havia tulipas negras, perguntei-me pela razão de sua existência. Seria para cruzes em velórios? Em certa ocasião, passando de automóvel por uma rua de Paris, vi, colocado numa vitrine, um jarro com tulipas de várias cores e, entre elas, uma tulipa negra. Compreendi então por que Deus criou tulipas pretas. Foi para realçar a beleza de todas as outras.

Daquela “noite escura” saía tal contraste das cores com o preto, que compunha uma das notas mais bonitas do jarro. Compunha uma forma de fantasia racional — no estilo das coisas francesas — como se fosse um teorema a respeito de cores. Mas o automóvel passou rápido, com a rapidez dos táxis velhos da França, quer dizer, numa rapidez lenta. Eu arregalei os olhos com o que via na vitrine e compreendi a razão de ser de mais uma maravilha da criação divina.