seu governo que, com o patrocínio do mais famoso dos dois Medicis, o humanista Cosme (1389-1464) — renomado banqueiro e político chamado o “Pai da Pátria”, homem “sinceramente religioso no fim da vida, associado a S. Antonino e aos frades dominicanos” 8 — , Santo Antonino reformou a igreja de São Marcos, que se tornou a favorita do mecenas e a cuja consagração esteve presente o próprio Papa Eugênio IV.
O dever de aceitar o Episcopado
Quando o arcebispo de Florença, Dom Bartolomeu Zabarela, faleceu em 1446, o Papa Eugênio IV, que tinha por Santo Antonino a mais alta das considerações, nomeou-o sucessor do prelado falecido. Embora o santo quisesse de todos os modos evitar tal nomeação, o Papa ordenou-lhe que, em virtude da santa obediência, recebesse o quanto antes a sagração episcopal.
No dia 13 de março de 1446, no momento em que Santo Antonino se dirigia à catedral para tomar posse, ocorreu uma cena bem característica da Idade Média e digna de constar em uma iluminura: “Naquele dia saiu toda a cidade para recebê-lo, homens, mulheres, nobres e plebeus, pobres e ricos, os quais, vendo seu arcebispo tão humilde e devoto, enterneciam-se e se compungiam, prostravam-se no solo e lhe pediam a bênção com as mãos juntas e em grande reverência e respeito, como se ele fosse o próprio Sumo Pontífice”9, pois já o consideravam santo.
Os males do Renascimento
“No século XV, no qual a santidade era rara sobre a Terra, Antonino fez reviver em sua pessoa todas as virtudes que haviam brilhado nos maiores bispos da Antiguidade. Seu zelo apostólico, as obras de sua caridade, a austeridade de sua vida são a glória da igreja de Florença, que foi confiada a seus cuidados”.10
Com efeito, Santo Antonino viveu no século XV, quando desapareciam os últimos vestígios da Idade Média, “a doce primavera da fé”, nas palavras de Leão XIII, e começava a grassar a mentalidade materialista do chamado “Humanismo”, ou “Renascença”. Esta foi descrita por um autor como “a implantação do espírito moderno em oposição ao espírito que prevaleceu na Idade Média”11, espírito genuinamente católico.
“Um extraordinário entusiasmo pela Antiguidade clássica [pré-medieval] se estabeleceu, combinando uma ilimitada liberdade de opinião com uma laxidão da moral, que em todo tempo dava escândalo tanto a crentes quanto a não crentes, e com uma magnificência festiva que lembrava os dias e noites da ‘casa dourada’ de Nero [nababesco palácio construído por esse Imperador para suas orgias]”.12
Vários foram os fatores que levaram a esse estado de espírito, contrário ao do verdadeiro cristianismo. O líder católico, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, assim os descreve em sua magistral obra Revolução e Contra-Revolução: “No século XV começa a observar-se, na Europa cristã, uma transformação de mentalidade que, ao longo do século, cresce cada vez mais em nitidez. O apetite dos prazeres terrenos se vai transformando em ânsia. As diversões se vão tornando cada vez mais frequentes e mais suntuosas. Os homens se preocupam sempre mais com elas. Nos trajes, nas maneiras, na linguagem, na literatura e na arte o anelo crescente por uma vida cheia de deleites da fantasia e dos sentidos vai produzindo progressivas manifestações de sensualidade e moleza. Há um paulatino deperecimento da seriedade e da austeridade dos antigos tempos. Tudo tende ao risonho, ao gracioso, ao festivo. Os corações se desprendem gradualmente do amor ao sacrifício, da verdadeira devoção à Cruz, e das aspirações de santidade e vida eterna. A Cavalaria, outrora uma das mais altas expressões da austeridade cristã, se torna amorosa e sentimental, a literatura de amor invade todos os países, os excessos do luxo e a consequente avidez de lucros se estendem por todas as camadas sociais”.13
Foi esse pernicioso estado de espírito e de coisas que o grande arcebispo teve que enfrentar nos 13 anos de seu episcopado, combatendo-o a tempo e a contratempo.
“Se naqueles primórdios do movimento renascentista tivesse surgido uma verdadeira coorte de santos que o combatesse como o fez Santo Antonino, por certo a Renascença, com seu espírito naturalista e neopagão, não teria dominado os espíritos e penetrado nos ambientes católicos como ocorreu nos séculos XV e XVI”.14
“Antonino dos Conselhos”
Eram, pois, tempos muito difíceis para um governante, por causa da mentalidade então em voga. Era preciso praticamente recristianizar o povo, ao que o santo arcebispo se empenhou com denodo. “A partir desse momento, ele não teve senão um pensamento: dedicar-se sem reserva à sua Igreja e a seu povo. Ele se tornou o homem de todos e o modelo dos pastores, num tempo em que o exemplo não descia sempre suficientemente do alto. [...] Assistência aos pobres até o despojamento de si mesmo, conselhos a todos nos negócios difíceis, visitas às igrejas e aos mosteiros, reforma do clero, pregação e defesa da fé, direção de almas piedosas, composição de obras destinadas à instrução religiosa de seus padres e de seus fiéis, tais foram os deveres múltiplos que o absorveram nos 13 anos de episcopado, pelo que seus contemporâneos o chamaram, por causa de sua prudência, ‘Antonino dos conselhos’”.15
E, sobretudo, “em nenhuma coisa se desvelava mais do que em desenraizar os pecados e as ofensas a Deus. [...] Afastava das igrejas, com grande severidade, as mulheres que vinham a elas para enlaçar as almas, e os moços lascivos que as iam ver. Não consentia em casas de jogo nem em coisas escandalosas [...] e não poucas vezes tirou os dados, os naipes e o dinheiro aos que jogavam”.16
Indulgência para quem oscular seus pés
Tal era sua fama de santidade que, quando ele faleceu no dia 2 de maio de 1449, o Papa Pio II concedeu sete anos de indulgência a todos aqueles que fossem visitar seus restos mortais e lhe osculassem os pés. Por isso seu corpo precisou ser exposto durante oito dias, exalando durante todo esse tempo agradável odor.
Santo Antonino foi canonizado por Adriano VI no dia 31 de maio de 1523 e sua festividade é celebrada pela Igreja em 10 de maio.