Rússia e China: crise e expansionismo
A Rússia iniciou o ano numa degringolada. No interior, a falta de alimentos, a desvalorização do petróleo e do gás — fonte quase exclusiva de recursos — e a queda do rublo semearam profundo mal-estar. O achatamento dos salários, o fechamento de bancos e empresas privadas, a decadência do sistema hospitalar, a queda de aviões civis por falta de manutenção, além de um PIB negativo de 4,6% levaram Putin a mudar de estratégia.
Na Europa Central, enquanto assessores de 18 países modernizavam o exército ucraniano, a Polônia se rearmava e treinava milícias civis com centenas de milhares de cidadãos. Nos países bálticos foram acolhidas unidades ocidentais, tendo a Lituânia proporcionado cursos de resistência à população e a Estônia erguido cercas defensivas contra a infiltração de agentes russos. A Ucrânia encetou a “desso-vietização” do país: demoliu estátuas, trocou nomes de logradouros públicos, proscreveu hinos e símbolos do comunismo. Isso irritou a Rússia, que multiplicou estátuas de Lenine, Stalin e Putin, enquanto o cismático Patriarcado de Moscou clamava pela restauração dos “valores morais” (sic) da era soviética! A guerra na Ucrânia tornara-se impopular. Em fevereiro foi assassinado Boris Nemtsov, que preparava rela-tório sobre a morte de soldados russos na Ucrânia. Seus colegas divulgaram o impressionante relatório e milhares de pessoas protestaram nas imediações do Kremlin. Putin ficou obcecado contra o “inimigo interno” e recrudesceu a repressão dos “agentes do exterior”.
Nesse contexto, o Kremlin mudou a mira de sua política exterior para o Oriente Médio e a América Latina. Sofrendo de um lado a pressão dos países ocidentais devido à invasão da Crimeia, e de outro, o descalabro econômico do país, o governo russo acabou desistindo da compra de dois porta-helicópteros franceses Mistral de última geração, que serão adquiridos pelo Egito91. Contudo, a Rússia participou pela primeira vez de exercícios navais com a Venezuela, levou navios de guerra à Nicarágua e ancorou em Havana barcos especiais para espionagem e sabotagem de cabos submarinos.
O outro “gigante” asiático, a China, passou por turbulências dignas de nota. Sua economia emitiu estalidos que abalaram o mundo. As bolsas despencaram, as exportações caíram, mais de cem mil motins populares pontuais eclodiram, fábricas migraram para outros países. Os dados econômicos oficiais não são mais dignos de crédito: “Ninguém tem a menor ideia do que está acontecendo”, observou um especialista92.
O “combate à corrupção” no Partido e no Exército revelou sintomas de decomposição. Um auge dela se patenteou nas explosões de Tianjin, que vitimaram pelo menos 114 pessoas e feriram mais de 700. Quinze mil internautas que denunciaram a incúria socialista foram encarcerados. No primeiro semestre de 2015, morreram na China 26 mil operários em acidentes industriais, mais de 140 por dia! A fraqueza econômica do país evidenciou-se numa visita comercial ao Brasil. A legação chinesa acenou com investimentos de US$ 53 bilhões, mas não concretizou nada93. Na ocasião, a “Folha de S. Paulo” fez um levantamento das promessas feitas ao Brasil e não cumpridas pela China: elas totalizam ao menos US$ 24 bilhões94.
Como é cada vez maior o número de chineses que desertam do Partido Comunista, o presidente Xi Jinping se viu obrigado a lançar campanhas para ensinar o marxismo. O cristianismo superou o partido comunista em membros. O governo montou grandes campanhas antirreligiosas. Em maio, o arcebispo emérito de Hong-Kong, Cardeal Joseph Zen Ze-kiun, denunciou que “os comunistas removeram a cruz de numerosas igrejas e demoliram outros templos. Dois bispos continuam na prisão. A Santa Sé faz demasiadas concessões e às vezes aprova candidatos [a bispos] que não são bons’”95. O mesmo cardeal havia deplorado em março a “rendição incondicional” promovida pela Secretaria de Estado vaticana face aos déspotas comunistas, e deixou claro que não se calaria, ainda que o Papa Francisco lhe impusesse silêncio96.
Pequim projetou sua presença militar no exterior e criou ilhas artificiais no Mar da China para o es-tabelecimento de bases aeronavais, desafiando o Japão, as Filipinas e os EUA. Por sua vez, o Japão refor-mou sua Constituição visando a intervir militarmente no exterior, passou a se rearmar de modo acelerado e a exaltar a memória dos heróis de guerras passadas.
Página seguinte