Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 781 | página 22-23
| ENTREVISTA | (continuação)

bro, sob a presidência do deputado Alceu Moreira (PMDB-RS), uma CPI para investigar a atuação da FUNAI e do INCRA em demarcações de terra.

A ele a deputada Mara Caseiro — que preside a CPI sul mato-grossense — entregou recentemente graves e importantes documentos comprovando as denúncias de que o CIMI teria financiado e incitado invasões de propriedades particulares por indígenas no estado de Mato Grosso do Sul. O deputado Alceu Moreira avaliou que há várias formas de influência na demarcação de terras indígenas: do CIMI, de parte da igreja, e da FUNAI. E completou: “Esse crime é de laboratório e feito a muitas mãos.”

Por seu turno, a sub-relatora sobre o INCRA na CPI da Câmara, deputada Tereza Cristina (PSB-MS), aponta a existência de provas de que integrantes do CIMI ligados à Fundação Nacional do Índio (FUNAI) teriam instigado conflitos com produtores rurais em todo País.

(http://m.correiodoestado.com.br/cidades/documentos-da-cpi-que-investiga-o-cimi-em-ms-chega-a-camara-federal/264670/)

Nossos correspondentes Paulo Henrique Chaves e Nelson Ramos Barretto — que estiveram na reserva indígena Raposa/Serra do Sol em 2008 — voltaram recentemente a Roraima para entrevistar in loco os habitantes injustamente expulsos de suas terras para dar lugar a mais uma “favela indígena”. (Vide à p. 51 propaganda do livro Roraima: cobiça internacional com novas perseguições aos produtores rurais).

Empenhado em continuar esclarecendo seus leitores sobre a grave “questão indígena” que assola o País, Catolicismo traz em primeira mão o depoimento que nossos correspondentes colheram de Silvestre Leocádio da Silva, 66, antigo tuxaua (cacique, na língua macuxi).

* * *

Catolicismo — O senhor é índio macuxi?

Silvestre — Sim, tenho duas etnias no meu sangue: meu pai é macuxi e minha mãe é ingaricó.

Catolicismo — Qual é a situação hoje da Raposa/Serra do Sol, depois da saída dos arrozeiros e dos senhores de lá?

Silvestre — Uma tragédia. Se não fosse essa tragédia, hoje os índios estariam muito bem, ganhando dinheiro, recebendo projetos do governo federal, do governo do estado, na Raposa/Serra do Sol, com 1.750.000 hectares. Mas o governo federal simplesmente abandonou a população indígena. E não foi só a da Raposa/Serra do Sol não, foi em todo o estado de Roraima.

Catolicismo — E os ianomâmis, o senhor tem notícias deles?

Silvestre — Os ianomâmis estão aí ao léu, andando pelas ruas de Boa Vista com vassouras no ombro para trocar por um calção, por uma camisa, por vestidos para suas mulheres. Eles andam em grupos o dia todo aí pelas ruas da cidade. Então, cadê o dinheiro do governo federal? Demarcaram aquelas terras para os índios, ou para o governo federal ou para as ONGs?

Como índio, eu queria ter o prazer de hoje dar uma entrevista e dizer que o índio está muito bem com as terras demarcadas, que o índio está ganhando dinheiro, que o índio está na tecnologia, que o índio está participando do progresso brasileiro, do progresso de Roraima. O que se passa é o contrário. Os índios estão abandonados, e não são só os da Raposa/Serra do Sol. É triste quando você vê os ianomâmis aí passando fome, passando necessidade, sem remédio e sem educação.

Catolicismo — E as ONGs, não têm feito nada por eles? Pois, além do governo federal, através da FUNAI havia ONGs fazendo muito barulho...

Silvestre — Eu não conheço vocês e vocês não me conhecem... A gente está aqui conversando, mas se vocês pegarem um avião e forem a Santa Rosa ou ao Maracá, lá em cima, de onde eles tiraram os garimpeiros por duas ou três vezes, lá está um grupo de americanos, instalado lá com casa, rádio, televisão, tem de tudo. Eles estão lá, mas os brasileiros não podem se instalar lá. Há um grupo lá que se diz missionário...

Os índios da Raposa/Serra do Sol estão todos aí pedindo educação, pedindo saúde, pedindo estrada, porque eles não têm estrada, não têm pontes; eu os vi fazendo essa reivindicação para a governadora daqui do estado. Com um monte de papel na mão, fazendo pedido: querem estrada, querem ponte, não têm dinheiro.

E quem criou o problema com a demarcação foi o governo federal. Agora, por que o governo federal não aperta as ONGs, os padres, os missionários? Cadê o dinheiro que eles trouxeram para demarcar e por que não continuam aplicando esse dinheiro lá dentro? Porque lá dá de tudo! Se plantar, dá! Mas como é que o índio vai plantar se não tem apoio? Se não tem maquinário? Se não tem técnica? O índio está lá abandonado!

O governo federal simplesmente demarcou e abandonou! Aqui no município de Alta Alegre, próximo de Boa Vista, nós temos 11 comunidades com terras demarcadas em ilhas, não tem nada dado pelo governo federal para que esse povo tenha dias melhores, para que esse povo tenha um bom relacionamento, que não tem.

Catolicismo — Tivemos informações de que na Raposa/Serra do Sol — talvez o senhor conheça mais especialmente o assunto — o Conselho Indigenista de Roraima, ligado à CNBB, estaria ajudando os índios. O senhor sabe como vão funcionando as coisas por lá?

Silvestre — Na verdade é assim: quem tem, tem, quem não tem, não vai ter. Há um gado que foi doado pela Igreja Católica, que na época ficou para poucas comunidades, para algumas comunidades. E a maioria ficou sem nada. O governo do estado, na ocasião também doou um pouco para cada um, mas hoje eles estão vendendo tudo para se manter, para comprar arroz, açúcar, feijão, comprar de tudo. Eu vejo eles vindo aqui na cidade; vão aí nesses mercados, e têm que comprar de tudo, até a banana eles levam. É triste!

Catolicismo — Extrativismo eles não fazem mais? Extrativismo, caça, pesca...

Silvestre — Olha, não tem mais nada lá. Tem para aqueles que moram perto do rio, aqui próximo de Boa Vista. Porque esses rios lá em cima são rios de cachoeira, não têm peixe. E a caça não existe mais, acabou. Existe muito pouquinho. Eles têm de comprar aqui. No Uiramutã, por exemplo, os marreteiros levam de tudo daqui para vender para eles lá. Levam peixe, levam galeto e eles são obrigados a pagar um preço absurdo. Aqui na capital já está tudo caro. O marreteiro que sai daqui pra vender lá, só pode vender caro. Então, agora está difícil a vida para os índios de lá.

Catolicismo — Como vem sendo a atuação do Conselho Indígena de Roraima (CIR) lá na Raposa/Serra do Sol?

Silvestre — O CIR sempre atuou, mas para desmoronar. Os cabeças da entidade estão todos empregados na Secretaria do Índio, do INCRA, com bons salários, eles sempre viveram assim, sempre viveram por trás da população indígena que está lá sofrendo.

Catolicismo — Essa Secretaria do Índio é do governo do estado ou do governo federal?

Silvestre — É do governo do estado, embora não seja da competência dele. O estado vem se obrigando a fazer coisas que seriam da competência do governo federal. A Secretaria do Índio ajuda um aqui, outro ali, porque não dá pra ajudar todo mundo.

No caso da energia elétrica, numa recente entrevista eu até citei o senador Romero Jucá. Ele vai à televisão e fala assim: “A luz para todos em Roraima está consumada, a luz para todos atingiu todo mundo

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