Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 781 | página 04-05
| EDITORIAL |

Carta do Diretor

Caro leitor,

Conforme tradição estabelecida em nossa revista, a matéria de capa de janeiro oferece ao leitor um balanço geral do ano findo.

Não foi fácil apresentar uma síntese dos principais acontecimentos, indicando pontos salientes, em meio ao agravamento do caos que vem sendo produzido em escala universal pelo processo revolucionário multissecular.

Entretanto, nesse ambiente crepuscular sobressaiu a ameaça islâmica que se intensificou mediante sangrentos atentados ocorridos especialmente na Europa e nos Estados Unidos.

Nesse crepúsculo de civilização podem ainda ser mencionadas as guerras civis que abalam países no Oriente Médio, como o Iraque e a Síria.

A matéria de capa aponta também outro perigo crescente para a civilização ex-cristã do Ocidente: as imigrações maciças e indiscriminadas de refugiados de países orientais e africanos, especialmente para a Europa. De repente, sem que estejam suficientemente esclarecidas as causas, surgem essas verdadeiras invasões.

Essa multitudinária invasão lembra um transcendental fato histórico ocorrido no século VI: a debacle do Império Romano do Ocidente diante da invasão dos povos bárbaros que transpuseram as barreiras naturais daquele império, marcadamente oferecidas pelos rios Danúbio e Reno.

As massas de imigrantes atuais percorrem a pé estradas da Macedônia, da Sérvia e da Eslovênia ou lotam trens para atingir a Áustria e se estabelecer particularmente na Alemanha, França e Inglaterra.

Os novos invasores procuram também chegar à Itália e à Espanha atravessando o Mediterrâneo — o Mare Nostrum dos romanos — amontoados em precárias embarcações.

Em consequência dessa catástrofe, vários países da União Europeia estão erguendo barreiras, frequentemente violadas.

Outro fator de conflito e confusão que recrudesceu durante o ano foi denominado por órgãos de imprensa europeus a algo semelhante a uma “guerra civil” na Igreja Católica.

O Relatório Final do Sínodo Ordinário de outubro último, encaminhado ao Papa, não tem valor magisterial nem disciplinar, e foi qualificado pelo historiador italiano, Roberto de Mattei, como um “documento ambíguo e contraditório”.

No plano temporal, merece menção o minguamento de regimes esquerdistas da América Latina.

Esperamos que essa visão retrospectiva de 2015 seja de real utilidade para nossos diletos leitores em meio à confusão que caracteriza a nossa época.

Em Jesus e Maria, Paulo Corrêa de Brito Filho Diretor
| VARIEDADES |

Uma corrupção lembrada e outra omitida

Gregorio Vivanco Lopes

Hoje em dia, quando se fala em corrupção, logo se entende por maracutaias financeiras de todo tipo — desvio de dinheiro público, enriquecimento ilícito, falcatruas, fraudes, negócios escusos... E a lista é longa, sempre em torno da administração de finanças públicas ou privadas. Em suma, é tudo aquilo que se encontra sob a influência e proteção do reverenciado Mamon — “deus” do dinheiro. Em termos católicos, é a transgressão do 7º Mandamento da Lei de Deus: Não roubarás.

É compreensível que o termo corrupção seja assim entendido, pois são tais e tantas as manobras escusas atualmente no palco da política, que só são inferiores, provavelmente, àquelas que ainda estão nos bastidores, ocultas pela pesada cortina do silêncio medroso ou despudorado.

* * *

Mas o uso e abuso da palavra corrupção com esse significado, tem deixado na sombra outro sentido dessa expressão, tão ou mais importante. E isso não é bom. Refiro-me à corrupção moral, a que transgride outro Mandamento, o 6º: Não pecarás contra a castidade.

A imoralidade mais desbragada enche nossas ruas e praças, os lugares públicos e privados, os shows, a televisão, o cinema, as revistas e o que mais se queira. Palavras como recato, decência, pudor, pureza, virgindade parecem ter sido abolidas do vocabulário cotidiano.

Nesse sentido, a sociedade moderna encontra-se num processo adiantado de decomposição moral. Caminha-se a largos passos para o nudismo e o amor livre. E contra isso, com raras exceções, ninguém fala, ninguém se levanta, ninguém ousa enfrentar. Tem-se horror a Mamon, mas cultua-se Asmodeu — “deus” da luxúria. No máximo critica-se (por enquanto) a pedofilia, mas apenas porque constitui um abuso de menores.

Não cabe aqui fazer um levantamento dos males de corpo e de alma produzidos por esse ambiente carregado de sensualidade e pornografia. Lembramos apenas um deles, relacionado com a corrupção financeira de que falamos acima.

Ensina Santo Tomás de Aquino que “pela luxúria, sobretudo as potências superiores, ou seja, a razão e a vontade, ficam desordenadas” (Suma Teol. II-II, q. 153, art. 5). Ora, esse desregramento da razão e da vontade leva a todo tipo de desvios morais e psicológicos, inclusive no campo financeiro. O impuro facilmente desliza para ser um ladrão, um drogado, um apóstata, e mesmo um suicida ou um assassino.

Não estou afirmando que toda corrupção financeira ou de outro gênero provém necessariamente de um desregramento luxurioso. Pode haver outras causas. Mas, sem querer indicar ninguém em particular, é certo que a impureza frequentemente conduz a diversas formas de perversão, inclusive financeira. Trata-se de um gravíssimo problema social.

Outra característica do vício da luxúria, é que ele é insaciável. A cada novo prazer segue-se uma frustração e, a partir dela, um desejo de requintar ainda mais. De requinte em frustração e de frustração em requinte chega-se ao inferno.

* * *

Poder-se-iam dar aqui muitos exemplos concretos, mas parece supérfluo fazê-lo. A pornografia e a imoralidade estão por toda parte e dispensam apresentação especial.

Baste-nos recordar a sublime exortação do Apóstolo São Paulo: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo” (I Cor. 6, 19-20).

Que a Mater Puríssima nos ajude a todos.


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