Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 780 | página 40-41
| VIDAS DE SANTOS |

São João da Cruz

Doutor da Igreja, grande místico e apaixonado pela Cruz de Nosso Senhor, fundou com Santa Teresa de Ávila o ramo dos Frades Carmelitas Descalços.

Plinio Maria Solimeo

Já apresentamos nesta coluna a vida de São João da Cruz (Catolicismo, dezembro/1999). Agora vamos nos deter um pouco mais em alguns aspectos de sua vida de constante imolação e sofrimento.

Com efeito, “se as pessoas de qualidade tomam, com razão, o nome dos domínios e das propriedades que lhes pertencem, não se podia dar a esse excelente religioso da Ordem do Monte Carmelo um nome que lhe fosse mais conveniente que o da Cruz, pois que ele não quis jamais ter, durante sua vida, outra herança que a cruz, os opróbrios e as humilhações de Jesus Cristo. Era na cruz que ele punha todas as suas esperanças; era da cruz que tirava toda a sua glória, era à cruz que ele dava todas as suas afeições, e jamais um voluptuoso teve tanto ardor para as delícias e satisfações do corpo, quanto esse grande servidor de Deus teve para ser desprezado, humilhado e afligido com seu Salvador”.1

Confirmado em graça como os Apóstolos

João de Yepes nasceu no dia 24 de junho de 1542 em Fontiveros, Espanha, filho de Gonzalo de Yepes e de Catarina Álvarez. Seu pai era de antiga e nobre linhagem, mas fora deserdado pelos tios quando se casou com uma donzela cuja única fortuna era a piedade.

Gonzalo faleceu quando o menino tinha quatro anos de idade, deixando a família (mãe e três filhos) na mais extrema penúria. Catarina era tecelã, mas o que ganhava mal dava para sustentar a família. João, por causa de sua pobreza, foi admitido no Colégio dos Meninos da Doutrina, servindo as freiras como coroinha e fazendo pequenos trabalhos. Depois foi admitido como aluno externo no Colégio dos Jesuítas, devendo ao mesmo tempo ajudar no hospital do lugar, atendendo os pobres e pedindo esmolas para a instituição. Aos 21 anos de idade pediu para ser admitido no convento dos carmelitas de Medina del Campo, onde recebeu o hábito em fevereiro de 1563 com o nome de João de São Matias.

No dia de sua primeira Missa ele pediu e recebeu de Deus a graça de conservar até o fim da vida a inocência batismal. Isso foi revelado a uma virtuosa freira que, esperando que Frei Matias terminasse de atender outra pessoa para tratar com ele assuntos de sua alma, recolhendo-se em oração, “manifestou-lhe o Senhor a grande santidade do santo padre Frei João; e revelou-lhe que, quando [o mesmo] disse a primeira Missa, lhe havia restituído a inocência e posto no estado de um menino de dois anos, sem duplicidade nem malícia, confirmando-o em graça como os Apóstolos para que não pecasse e jamais O ofendesse gravemente”.2

Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz

Desejando levar uma vida mais recolhida, João de São Matias pensou em fazer-se monge cartuxo. Mas desistiu da ideia quando, encontrando Santa Teresa de Ávila, esta o convenceu a fundar um convento dos Descalços, para seguir a primitiva Ordem Carmelitana. Tomou então o nome de João da Cruz, com o qual seria elevado à honra dos altares.

São João da Cruz secundou Santa Teresa na fundação de vários conventos, tanto de frades quanto de monjas, sendo um esteio da reforma que restaurou a regra primitiva da Ordem Carmelitana.

Santa Teresa dizia que era difícil falar de religião com Frei João, porque logo seu interlocutor, ou ambos, entravam em êxtase. Bastava-lhe ver um crucifixo que tinha um arroubamento. Sua meditação ordinária era sobre a Paixão do Salvador, que ele muito recomenda em seus escritos. Diz que a confiança amorosa em Deus é o patrimônio dos pobres, e sobretudo dos religiosos. Seu coração era como uma imensa fornalha de amor que ele não podia conter, e que brilhava por sinais visíveis em seu exterior. Seu profundo sentimento pela religião inspirava-lhe um respeito extremo por tudo quanto pertencesse ao culto divino. Por isso procurava santificar todas suas ações para tocar com mais pureza nas coisas de Deus.

Às vezes Frei João e Madre Teresa entravam em êxtase perante toda a comunidade carmelita. Por exemplo, Frei João, “falando um dia com Santa Teresa do mistério da Santíssima Trindade, ambos foram arroubados em êxtase. O santo quis impedir o arroubamento segurando nos braços da cadeira, mas não pôde resistir ao impulso da graça; e assim, vencendo a força da alma, (esta) levantou o santo e a cadeira até dar com eles no teto”.3 Ao mesmo tempo Santa Teresa elevou-se como estava, de joelhos.

Consolações entre sofrimentos atrozes

Quando os frades carmelitas “calçados” – que não aderiram à reforma de Santa Teresa – começaram a contenda contra os “descalços”, ou reformados, São João da Cruz foi um dos perseguidos. Os primeiros combateram por todos os meios ao que chamavam de novidade, de aventura prejudicial à Ordem.

Eles conseguiram prender São João duas vezes, como um dos pivôs da reforma. Na primeira vez tiveram que soltá-lo por ordem do Núncio Apostólico. Na segunda, levaram-no para o principal convento dos calçados, em Toledo, onde ele deveria se apresentar diante dos frades para retratar-se, por ter começa-

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